Caixa de sabão do Sr Atoz

Pequenos pontos prateados

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Nos últimos meses, sempre que estou ao computador em casa, ligo no FlightRadar24. Centralizo na minha posição geográfica e fico acompanhando os voos que passam pela área, decolando ou pousando no Galeão, no Santos-Dumont, em Guarulhos. Na tela, cada avião é indicado por um símbolo, que vem acompanhado de estatísticas: que modelo de avião é esse (com a exata variante conforme a companhia aérea: não basta que seja um 737 nem basta que seja um 737-800; vemos que é um 737-8EH), que companhia aérea, indo de onde para onde, quais os horários programado e real de decolagem, programado e estimado de pouso, com quanto de viagem já percorrido, a que altitude atual, rumo atual, velocidade e razão de subida. Vemos o percurso feito até aqui, a rota programada, o número do voo, o registro da aeronave, e até qual é o radar que a está rastreando.

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

É muito comum, especialmente no fim de semana, ver algum voo que esteja vindo sem escalas de Istambul, ou de Joanesburgo, ou de algum lugar igualmente distante, sempre entre 35 e 40 mil pés, rumo a Guarulhos. Aí vou à janela e vejo a aeronave, parecendo estar tão mais baixo, ou vejo seu rastro discreto de condensação. Também é muito comum ver um Airbus vindo da Europa a caminho de Ezeiza ou de Guarulhos, sobrevoando o mar a várias milhas da costa, e parece tão pertinho, parece que sobrevoa o Leblon. Quando o dia está muito claro, vejo que há um voo da TAM no rumo Vitória a 40.000 pés, passando pertinho de mim; procuro-o no céu mas nada vejo: tão alto, é ofuscado pelo sol do fim de tarde.

Várias são as decolagens que vejo da TAM, da Gol, da Avianca, partindo do Santos-Dumont, quebrando a bombordo e então bruscamente se voltando para o Sudoeste enquanto ràpidamente ganham altura: curtos saltos até Congonhas, fàcilmente visíveis de minha janela nas tardes claras. Várias são as decolagens do Galeão, virando logo após para sobrevoarem a Mantiqueira, e então o Sudeste de Minas, e Bahia, e Europa.

Certa vez vi um Hawker 800 fazendo órbitas loucas a várias altitudes, desenhando sucessivos oitos no céu afastado do Galeão, sem ir a lugar nenhum: era um EU-93 do Grupo Especial de Inspeção em Voo, calibrando o radar do aeroporto. De outras vezes, vi modelos da Embraer, seus transponders emitindo o número de série da aeronave, decolando de São José dos Campos, dando várias voltas sobre Campos do Jordão à mais alta altitude e voltando para São José: voos de teste da fábrica, os aviões prontos para entrega, seus pilotos fazendo o último check para satisfação do cliente.

Nas noites de fim de semana, quase de madrugada, o 747 do voo Lufthansa 501 decola do Galeão no sentido Caxias, faz a volta para bombordo, passa sobre São Cristóvão e Centro do Rio, e então escuto seus inconfundíveis quatro motores, estridentes na saída de gases mas também rugindo como um trovão, acelerando, acelerando suas centenas de toneladas enquanto sobe, rápido e certo. Olho pela janela e consigo ver suas luzes a 11.000 pés, parecendo tão baixo e tão lento, já desaparecendo por trás do prédio vizinho. Em minutos a tela o mostra sobre Macaé, ganhando o rumo de Frankfurt.

Nessas mesmas noites, quando tudo está silencioso e o céu está claro de nuvens, escuto um trovejar distante, contínuo, e olho no FlightRadar: um Airbus da TAM decola agora para Nova Iorque, a saída de gases de seus motores voltada para cá. Embora eu esteja a 12 km da pista e haja tantos prédios no caminho, consigo nìtidamente escutar esses motores, que alçam trezentos passageiros e sua bagagem para um destino a 10.000 quilômetros daqui, a potência máxima sendo exigida para levantar tanto peso do chão, a decolagem lenta, a subida esforçada, o som vindo em linha reta até mim quando a aceleração joga a todos contra suas poltronas.

Vejo voos partindo da Europa continental, rumando para o Norte para chegarem a Los Angeles ou Vancouver. Vejo voos vindo da China ou do Japão, atravessando a Sibéria para chegarem a Londres. Vejo um corredor congestionado da Europa Oriental, passando pelo Mar Negro, Turquia e Golfo Pérsico, até Dubai. Vejo doze Airbus A380 no ar simultaneamente, o maior avião do mundo, agora já quase banalizado pelas rápidas entregas a Air France, British, Singapore, Emirates e Lufthansa. Vejo 25 aviões decolando na mesma noite do Brasil aos Estados Unidos, 7500 brasileiros e americanos indo passar férias, fazer cursos, voltar para casa, assumir novos empregos. Vejo dezenas de aviões entre Argentina e Centro-Oeste do Brasil, indo ou voltando da Europa e dos Estados Unidos, trazendo presentes e compras pela UPS ou pela FedEx ao grande terminal de Campinas. Vejo voos panorâmicos no Sul da Flórida, pilotos treinando sua proficiência enquanto apreciam a paisagem.

Todos os pontos prateados que vejo em meu céu e todos os pequenos símbolos que vejo em minha tela, nenhum deles é para mim uma abstração. Quando vejo uma decolagem, ainda que para a curta viagem SDU-CGH, vejo ali centenas de pessoas com seus sonhos, centenas de pessoas acomodando-se para dormir pela longa e cansativa viagem até a Europa, centenas de homens e mulheres de negócios planejando o que farão ao chegarem a Buenos Aires. Vejo as comissárias começando a servir o jantar, vejo os pilotos recebendo e cumprindo instruções da torre. Vejo casais a caminho da lua-de-mel, jovens a caminho do intercâmbio, executivos preocupados com planilhas, turistas de grana apertada ansiosos pelas férias sonhadas por anos. Cada ponto, alto no céu, quase invisível, para mim são duzentos, trezentos viajantes cansados já em procedimento de descida, viajantes dispostos indo não sei para onde, seus futuros sendo escritos neste momento, novos destinos surgindo em suas vidas, circunstancialmente sobrevoando a minha enquanto simpatizo e compreendo suas experiências, e só me resta lhes desejar:

Boa Viagem.

Written by sratoz

12/10/2014 at 17:18

Esquadrão 360 desativado

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“À meia-noite de 31 de outubro, o esquadrão mais jovem da Real Força Aérea, o Esquadrão 360, da base RAF Wyton, Cambridgeshire, foi oficialmente desativado. Ironicamente, apesar de ser o esquadrão mais jovem, a unidade operava um dos tipos mais antigos que servem na RAF, o English Electric Canberra, e incluía a aeronave operacional mais velha das forças armadas do Reino Unido, o Canberra T.17 WD955, que está em serviço há 43 anos. Uma unidade conjunta da Real Força Aérea e da Real Marinha, o 360 exercia a função de treinamento em contramedidas eletrônicas, que será assumida pela Flight Refuelling Ltd em junho de 1995 com equipamento de ECM em casulos nos pontos rígidos sob as asas de seus Falcon 20. Seis dos oito Canberras T.17/T.17A remanescentes da unidade serão sucateados, dois foram oferecidos a leilões e os poucos PR.7 e T.4 não especializados serão transferidos ao Esquadrão 39 (1 PRU), em Marham.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Written by sratoz

29/07/2014 at 12:24

Urupema

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“Urupema” é o nome de um planador da EMBRAER, distribuído pela Força Aérea para uso dos aeroclubes do Brasil.

O nome é tìpicamente indígena e eu sempre acreditei que viesse de alguma ave. Sabe como é: por todo o mundo, os aviões frequentemente ganham nomes de pássaro, como no caso das diversas variações sobre os nomes “Hawk” e “Eagle” nos Estados Unidos e na Inglaterra, “Halcón” no Chile e na Espanha, “Gavião” e “Tucano” no Brasil, essas coisas.

Até que abri o Aurélio para procurar outra palavra e meu olho bateu em “urupema”: “espécie de peneira de fibra vegetal…”

Entendi na hora o porquê de se usar esse nome para um planador e pensei, “sacanagem!”

Tradicionalmente, o treinamento de pilotos militares tem três fases: primário, básico e avançado. O primário começa em planadores, que têm a aerodinâmica mais simples, sem as complicações trazidas por um motor. Só depois de dominar a essência dos comandos é que o aluno progride para um avião.

Em inglês, o treinamento primário, primary training, também é chamado sabe como? Screening: “peneiramento”!

… Porque é uma peneira mesmo: você joga um montão de candidatos, mas a maioria não passa dos primeiros voos. Só uma minoria chega ao treinamento básico (onde, aliás, a filtragem continua). Em inglês, o candidato rejeitado é chamado de wash-out ou washout: quando você joga na peneira, ficam retidos e você os joga fora na lavagem.

Então, o Urupema foi destinado, desde a origem, a filtrar os candidatos a pilotos… e isso está no próprio nome. Realmente, está bem escolhido. Veja que não devo ter sido o único a pensar que fosse o nome de um pássaro, com todas as seriemas, anunguaçus, araras, urutaus e outros nomes em tupi-guarani que ainda adejam por aí (quando não estão extintos). Para o entusiasmado e iludido mequetrefe que se mete a pilotar, é melhor que se convença disso, melhor do que vir a saber que está voando em um EMB-400 Peneira…

EMB-400 em voo

Peneira

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Written by sratoz

20/04/2014 at 23:06

Na categoria Aviação

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Recriando o passado

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Nos últimos tempos andei postando narrativas e reflexões deprimentes. Então vamos variar um pouco hoje e falar de uma eterna fonte de alegria: SORVETE!

Lá nos sempre mui pranteados anos 80, havia no Rio de Janeiro uma rede de sorveterias chamada Sem Nome. Aliás o nome da sorveteria tinha sua própria história, que não consigo confirmar por absoluta falta de rastreabilidade de todas as coisas que antecedem a Web; mas a história era a seguinte: a marca havia sido criada como “Ébom”. Supostamente a Kibon teria percebido, aí, uma espécie de golpe de marketing, que a imitava. Então teria entrado com uma ação judicial e conseguido que o fabricante do Ébom abandonasse a marca. Nas sorveterias, os alvarás de funcionamento ainda mostravam a razão social como “Italiano Ébom” (disso me lembro bem), mas a marca já não era essa. Em um segundo e mais esperto golpe de marketing, tendo ficado sem um nome com que se apresentar ao público, o fabricante passou a se chamar Sem Nome. Quem se dispuser a investigar a versão, por favor, venha aqui depois me confirmar se é verdade.

As sorveterias Sem Nome estavam espalhadas pela cidade. Ainda que sob o risco de me lembrar de tudo errado, recordo-me de uma na Gávea, em uma bifurcação da qual se subia para o Parque da Cidade, presumìvelmente onde acaba a rua Marquês de São Vicente, começa a rua Mary Pessoa e hoje há um posto BR. Mas, principalmente, recordo-me de uma na rua Conde de Bonfim, 816, onde hoje funciona uma dessas padarias de luxo.

Até a arquitetura interna da sorveteria era atraente. A entrada ocupava toda a largura da loja. O piso eram lajotas da cor do sorvete de creme. O ambiente era todo muito limpo, a sorveteria estava sempre vazia (mau sinal?), o balcão era enorme, esticando-se ao longo da parede esquerda (para quem entra), e havia um sem-número de mesas com bancos de madeira e um poço de iluminação natural lá no fundo, com pedras redondas formando um fundo e, dispostas em volta, algumas plantas em grandes vasos de cerâmica.

Um dos principais argumentos publicitários da Sem Nome era que tinha mais de quarenta sabores. Só que, toda vez que eu ia lá, constatava duas coisas: (1) não chegava a haver quarenta sabores listados na parede e (2) NUNCA havia todos os sabores que estavam listados na parede. Na verdade, com o tempo, havia cada vez menos; e, à medida que a sorveteria foi declinando, os nomes deixaram de ser impressos e passaram a vir escritos a mão, em papeis, em menor quantidade. Minha teoria, formada na época mas que ainda sustento, é que jamais o fabricante teve a intenção de sequer criar receitas para alguns daqueles sabores, que só estavam listados para fazer número. Lamentei o dia em que a Sem Nome, de sorveteria, transformou-se em lanchonete, servindo até hambúrguer. Não estava longe o fim, que, àquela distorcida altura, nem cheguei mais a lamentar, como se fosse mera eutanásia comercial a poupar os olhos de sofrerem pela decadência da outrora digna e inovadora sorveteria carioca (aliás nem sei se era mesmo carioca).

Mesmo assim, os sabores eram realmente muitos e excelentes e, no auge da Sem Nome, eu a frequentava com entusiasmo. Em uma época em que a Kibon só fabricava a ubíqua rotina creme-chocolate-morango-flocos-napolitano, a saudosa concorrente oferecia o diferencial de certas novidades como laranja, manga, melão, ameixa, passas ao rum, doce de leite, coco queimado, doce de leite com coco, abóbora com coco, e um de meus favoritos: milho verde.

Também havia receitas próprias de sundaes. Além dos convencionais Colegial* e Banana Split**, praticados em outras sorveterias e restaurantes, a Sem Nome oferecia combinações batizadas com os nomes de cidades italianas. Assim, lembro-me de um sundae (infelizmente não lembro qual era a cidade) que tinha seis bolas de sorvete empilhadas! Seria um desafio que nunca encarei.

Em especial, até hoje continuo me lembrando muito bem do Copa Veneza: duas metades de um pêssego em calda, duas metades de uma banana, duas bolas de sorvete de sabores diferentes à escolha do freguês, duas coberturas diferentes (posso estar enganado quanto à quantidade de coberturas, mas é isso que lembro), castanha de caju, marshmallow (ou será que era chantilly?), uma cereja, e um tubete (que, na época, não se chamava “tubete”; e talvez não houvesse e eu o esteja trazendo da lembrança de outro sundae), tudo isso em uma taça alta e larga de vidro grosso. Invariàvelmente, meus dois sabores de sorvete eram coco e amendoim, inclusive porque a Kibon não os tinha; e as coberturas eram de caramelo e morango. Muitas foram as vezes em que tomei Copas Venezas e às vezes fico pensando como eu conseguia! Meu metabolismo atual jamais permitiria que eu deglutisse impune todas essas calorias, e mesmo essa deliciosa deglutição só será possível se eu estiver com a barriga totalmente vazia…

Nos tempos atuais, os sabores da sorveteria Itália ocupam dignamente o vácuo deixado pelos da Sem Nome. Infelizmente, as Itálias são minúsculas, mal tendo alguns banquinhos (nas ruas Santo Afonso, Visconde de Pirajá e Figueiredo de Magalhães e no Downtown), reduzindo-se a quiosques (no Shopping Tijuca) ou até mesmo consistindo apenas em geladeiras (nas franquias do Rei do Mate). Por isso, apesar de todos os deliciosos sabores, não creio que a Itália vá um dia ocupar o nicho deixado pela Sem Nome em matéria de espaço e experiência.

(Considerando que um dia a Itália possa tomar o mesmo caminho da Sem Nome — embora eu torça para que não –, fica aqui registrado que ela oferece ou já ofereceu, entre diversos outros, os sabores de limão, limão siciliano, manga, manga com gengibre, tangerina, abóbora com coco, amarena (creme de cereja), banana caramelada, biscoito (chocolate com pedaços de biscoito), brownie (chocolate com pedaços de bolo de chocolate), café puro, “café chips” (café com bolinhas de chocolate duro), canela com mel, “chocolate africano” (com amendoins), chocolate branco com maracujá, chocolate com amêndoas, chocolate com avelã, chocolate “de origem”, chocolate meio amargo, coco, cookie (creme com pedaços de biscoito de chocolate), doce de leite, doce de leite com chocolate, doce de leite com doce de leite, flocos, iogurte, iogurte com calda de goiaba, iogurte com limão siciliano, iogurte com pêssego, menta com flocos de chocolate, milho verde, morango com pedaços, nata, nozes, paçoca, passas ao rum, pistache com pedaços, queijo, romeu e julieta, “sonho de valsa”, tapioca, “torrone”, torta alemã (camadas de creme, chocolate e biscoito), torta de limão (com camadas de biscoito)… A Itália também tem diversos picolés, que têm bastante saída, com sabores que incluem alguns desses e também açaí e groselha.)

Pois bem. Esta postagem nasceu porque, por muitos anos, eu quis reconstruir o Copa Veneza, até que, em dezembro de 2013, comprei duas taças de vidro as que encontrei mais parecidas com as da Sem Nome (um requisito essencial), mais todos os ingrediente, e pus mãos à obra.

Infelizmente, a Itália não faz sorvete de amendoim, de modo que tive que recorrer à coisa mais próxima, que é o sorvete Sonho de Valsa, fabricado pela Kibon sobre a marca da Lacta. Não é idêntico ao de minha lembrança porque tem pedaços de chocolate na massa, mas haveria de servir. Também não se encontra mais sorvete de coco, que a Kibon fabricava até há pouco tempo e que eliminou na recente reformulação de sua complexa linha. Mas, nessa mesma reformulação, existem três potes que são compostos por trios de sabores, e um deles é dito de “frutas tropicais”: manga, abacaxi e coco. Então, tal como Homer Simpson, que só compra napolitano por causa do chocolate, comprei o trio por causa do coco (não que tenha jogado o resto fora depois, se é que me entende).

Além disso, percebi que, se eu usasse dois sabores de cobertura como no Copa Veneza original, eles formariam uma barafunda indistinta de gostos e eu não sentiria nenhum. Então, para maior curtição dos sentidos, um sabor estaria de bom tamanho. Escolhi caramelo, que é mais neutro do que morango e, assim, não interferiria no pêssego e na banana. Quanto à dúvida entre chantili e marshmallow, o primeiro foi escolhido sem discussão pelo simples fato de que não se encontra marshmallow nestas paragens subequatoriais. Pelo menos o resultado também fica mais leve.

A montagem de um sundae não é caótica. Tal como se constrói um edifício, existe uma ordem, um propósito na sucessão dos ingredientes. Então, de baixo para cima, fui adicionando as metades do pêssego e da banana, as bolas de sorvete, a cobertura de caramelo, as castanhas de caju picadas (não moídas, marque bem), o chantili e as cerejas. Sim, aS cerejaS, que já são idos os tempos em que garçons e sorveterias ficavam regulando cereja prà gente. Ora, se agora faço o sundae na minha casa e compro cereja a granel, com muito mais razão vou compensar o recalque e lançar logo uma porção delas, não é mesmo? Então são três cerejas para cada taça, e perdoe-me a falecida Sem Nome por adulterar a clássica receita.

Finalmente, lembrar que nunca fui entusiasmado por tubetes (será que não era biscoito Champagne? Tomara que não, porque esses são mais caros; e acho que não, porque são grandes também). Então, minha variação do Copa Veneza vai sem biscoito.

O resultado está aqui. Posso lhe assegurar que estava tão gostoso quanto aparentava!

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

* Colegial: uma bola de sorvete (geralmente de creme), cobertura de chocolate, castanha de caju e uma cereja, servido em uma taça baixa, de vidro. Sim, é simples mesmo.

** Banana split: uma banana grande, partida ao meio, com três bolas de sorvete dispostas horizontalmente entre as metades (geralmente de creme, morango e chocolate), cobertura, às vezes marshmallow ou chantilly, castanha de caju e uma cereja, servido em uma pequena travessa.

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Written by sratoz

24/03/2014 at 07:00

Atribulados créditos junto à Oi

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ESTA POSTAGEM FOI ATUALIZADA EM 04/05/2014.

Na verdade, o nome da operadora é Telemar. É que, por muitos anos, a Telemar foi campeã em reclamações de consumidores no Brasil. Então, um dia, decidiu apresentar-se ao mercado de telefonia fixa sob a marca que já usava para seu serviço de telefonia celular, na provável ilusão de que, com isso, afastaria a má fama.

É claro que essa tática infantil não haveria de prosperar: se o serviço não melhora, é o nome Oi que passa a ser tão mal visto quanto já era o nome Telemar, que foi o que aconteceu.

Eu poderia vir aqui narrar todo o mau serviço, ou ausência de serviço, que a Telemar já me prestou desde que me tornei vítima dela, em 2008. Seria fácil demais e, além disso, a história não deve ser diferente da que acontece há mais tempo e com mais gente neste Brasil. E ninguém quer ler mais do mesmo, das tristezas que já conhece e vivencia tão bem — ou pior — do que qualquer descrição que eu fizesse.

Então, em vez disso, decidi limitar meu relato a uma documentação, aliás para minha própria utilidade histórica, do dinheiro que a Oi me deve desde que passei a tomar nota dos centavos, que foi, mais ou menos, em agosto de 2013. Repare que o principal usuário desta narrativa sou eu mesmo, que admito o quanto ela é maçante com seus números. Vejamos.

De 8 a 12 de julho de 2013, a Oi cortou o serviço do Velox durante quatro dias e meio. O pagamento mensal era de R$ 67,62. Como fiquei quatro dias e meio sem serviço, pela regra da ANATEL seria justo não cobrarem (5/30) × 67,62 = R$ 11,27 [conforme apontado nos comentários pelo distinto @souculpado]. Então, a conta seguinte tem que valer R$ 11,27 menos do que o habitual.

Só que a Telemar me cobrou em agosto o valor cheio, que paguei. Então a Telemar passou a me dever em dobro (Código de Defesa do Consumidor, art 42, parágrafo): R$ 22,54. Interessante que, durante o mês de julho, eu pedira que não me cobrassem o valor cheio, e me disseram que, se reconhecessem a falta do serviço, cobrariam sòmente pelo serviço efetivamente prestado. OBÓVIO que isso não aconteceu.

Telefonei para reclamar, de modo que, na conta com vencimento em setembro, a Telemar reconheceu a falta do serviço e creditou R$ 13,98 (porque, na verdade, eles mesmos erraram a conta). Então, a Telemar ficou devendo 22,54 – 13,98 = R$ 8,56.

Na verdade isto sempre aconteceu com alguma frequência: toda vez que chove (veja bem: eu não disse “toda vez que chove FORTE”. Basta chover), toda vez que chove a Telemar corta a minha Internet. Como se, de algum modo, eu devesse ser punido pela tristeza que a chuva traz. Infelizmente foi só em julho de 2013 que comecei a correlacionar o corte do serviço a dinheiro; antes eu não fazia isso. Então, na verdade, sou credor de mais do que esses R$ 8,56, mas o valor não é líquido.

Agora vem a parte realmente divertida.

Certa vez, em 2008, contratei o Oi Fixo. Todos os meses, minha conta de Oi Fixo apresentava duas discriminações: “Fale 230 Residencial” e “Pacote Fale Digital”. A soma dos dois valores dava o valor contratado. Assim foi por cinco anos sem problemas.

Até março de 2013, minha conta de Oi Fixo era de R$ 61,29 todo mês. Aí, em 20/02/2013, recebi um telefonema da Telemar, que dizia que, durante os próximos seis meses, o valor da conta seria de R$ 34,90 e que, daí por diante, seria de R$ 54,90. Além disso, o número de minutos da franquia passaria de 230 para 350. A primeira cobrança, a vencer em março, seria pro rata dos dias de fevereiro sob os pacotes de 230 e de 350 minutos.

Essas condições nunca foram cumpridas. A cobrança de março (relativa a fevereiro) foi feita ainda no valor cheio de R$ 61,29. Na de abril, de fato veio um estorno, mas façamos uma breve conta. Quanto eu deveria pagar por fevereiro? Deveria pagar (19/28) × R$ 61,29 + (9/28) × 34,90 = 52,81. Mas paguei 61,29. Então, a Telemar ficou me devendo a diferença: R$ 8,48. Dobrado: R$ 16,96. Como eles tinham um débito (lembra?) de R$ 8,56, a Telemar ficou me devendo, líquidos, R$ 25,52. Isso era no momento em que paguei por fevereiro.

Como disse, em abril veio um estorno. Na verdade a conta de abril (relativa a março) veio toda confusa. Quanto deviam cobrar em abril? Deveriam cobrar simplesmente R$ 34,90 pelo mês de março. Mas cobraram R$ 29,94 por causa dos estornos. Então, estavam deixando de cobrar R$ 4,96. Diminuindo esse valor do débito mais antigo de R$ 25,52, no total ficaram me devendo R$ 20,56.

Esse parecia o fim da história. Mas vejamos: durante quanto tempo disseram que cobrariam R$ 34,90? Seis meses. Façamos a conta: tomando 20/02 como o primeiro dia, o último dia seria 19/08/2013. Só que, durante todo esse período, não cobraram R$ 34,90; cobraram R$ 36,94 nas contas que venciam em maio, junho, julho e agosto (por enquanto não comentarei a de setembro, relativa a agosto). Então, acumularam a diferença como uma dívida contra eles: 4 × (36,94 – 34,90) = 8,16. Dobrado, lembra? R$ 16,32. Mas já me deviam R$ 20,56, de modo que ficaram me devendo R$ 36,88 líquidos.

De todo modo, todos os meses passaram a trazer uma conta que discriminava duas linhas: “Fale 350 Residencial” e “Pacote Fale Digital”. Reparem que, ressalvada a diferença do número de minutos (que agora eram 350), a cobrança vinha da mesma forma de antes. O valor mensal de R$ 36,94, aliás acima do contratado, era a soma desses dois aí. E nem pense em alegar que era a porção “Fale Digital” que explicaria a diferença. A diferença mensal era de R$ 2,04, mas o “Fale Digital”, sòzinho, eram mais de R$ 10. Portanto, o “Fale Digital” era um componente do preço básico, não sendo a causa da diferença.

Até que veio a conta com vencimento em setembro. Qual deveria ser seu valor? Bem, seguindo o raciocínio da própria Telemar (de calcular pro rata), o valor deveria ser (19/31) × 34,90 + (12/31) × 54,90 = 42,64. Mas quanto foi que veio? Vieram R$ 42,79. Então, a diferença foi pequena, podemos atribuí-la a erros de arredondamento ou da maneira de se fazer a conta, e me cobraram 15 centavos a mais (dobrando: R$ 0,30), que eu perdoaria se não fosse o fato de que isso aumentava a dívida da Telemar para R$ 37,18.

Mas vejamos outubro. A conta com vencimento em outubro deveria vir no valor prometido, certo? De R$ 54,90. Mas quanto foi o valor cobrado? Tcharããã! Foram R$ 80,86! Claro que eu reclamei. Bem, primeiro tive que pagar, porque a Telemar é igual a cartão de crédito: uma fatura emitida deve ser paga, ainda que mais tarde se estorne. Então a dívida da Telemar comigo passou a ser de 37,18 + 2 × (80,86 – 54,90) = R$ 89,10.

Como eu dizia, reclamei em 02/10, de madrugada (olha só que divertido!). Três dias depois, a Telemar me vem numa cara-de-pau inacreditável, a dizer que, como eu não sabia que haveria aumento (não mesmo!), estornaria os excessos das contas de agosto e setembro. Bem, a esta altura estamos vendo que meu crédito era de R$ 89,10. E também a Telemar me informa que o plano Fale 350 já não está disponível e me oferece o Fale 300, por R$ 17,90 por um ano. Aceitei.

Atente para isto: todos os planos (o de 230 e o de 350 minutos) negociados até hoje continham duas metades: o “Fale X Residencial” e o “Pacote Fale Digital”. Sem mais informação, e sempre supondo que o serviço é sempre o mesmo embora variando o número de minutos da franquia, eu SÓ poderia entender que passariam a me cobrar R$ 17,90 por mês.

Então, a cobrança com vencimento em novembro deveria considerar um pro rata: pelo período de 01 a 04/10, o valor a pagar deveria ser (4/31) × 54,90, e o restante do tempo deveria gerar (27/31) × 17,90. Portanto, a conta com vencimento em novembro deveria ser de R$ 22,67. E isso manteria a Telemar como devedora de “apenas” R$ 89,10.

… Só que, aaaaah, tem uma coisa: durante o mês de outubro, a Telemar novamente cortou meu Velox, deixando-me sem Internet de 13/10, à noite, até 17/10, de manhã. Ou seja, três dias e meio. Òbviamente a conta com vencimento em novembro considerou o valor cheio do Velox, já então de R$ 69,90.

Então, vejamos essa conta. De um lado, em relação ao telefone, veio com valor NEGATIVO de R$ 14,07, ou seja, R$ 36,74 abaixo do que poderia ser. Já de outro lado, em relação ao Velox, veio com uma cobrança excessiva, cobrando por 31 dias de outubro quando deveria descontar os quatro dias de serviço não prestado. Ou seja, R$ 9,32 acima do que deveria ser; dobrando, isso dá R$ 18,64 acima do devido. Como me deviam R$ 89,10 antes disso, na hora em que paguei essa conta fiquei como credor de R$ 71,00 (está acompanhando?).

A propósito, em 10/11/2013 reclamei do valor excessivo da cobrança do Velox, mas em 18/11/2013 me retornaram que a contestação era “improcedente”. Como se fossem juízes.

Vamos à conta com vencimento em dezembro. O valor do telefone deveria ser de R$ 17,90, mas foi de R$ 28,76. Uma ligeira investigação descobriu o quê? Descobriu que, quando migrei para o plano de 300 minutos, a porção Fale Digital não veio junto para dentro do preço: passou a ser cobrada à parte. E ninguém me avisou de que isso ia acontecer! Não é uma gracinha? Boa sorte tentando explicar isso e reaver o valor devido. Mas veja que, com isso, na medida em que eu pago o valor cheio em dezembro (com excesso de R$ 10,86, que, em dobro, são R$ 21,72), passo a ser credor de R$ 92,72 acumulados até agora.

Na verdade, tentei contestar essa cobrança indevida em 27/11, de madrugada (sempre de madrugada, que é quando tenho tempo de examinar as contas), mas a Telemar teve a desfaçatez de me dizer que não poderia estornar os valores já pagos porque, como eu estava pagando, eu estava ciente. Por certo estava ciente! Não quer dizer que concordasse.

Bem. Cancelei o Fale Digital em 27/11, de madrugada. Não que isso devesse ser necessário. Repare que, a partir desse momento, fiquei com um serviço menor do que o anterior, pelo preço contratado. Com isso, a Oi estava dando o jeito dela de me prejudicar mais um pouquinho.

Veio a conta com vencimento em janeiro de 2014. O valor pelo telefone era de R$ 16,46, ou seja, estava abaixo do contratado por uma diferença de R$ 1,44. Então a dívida deles diminuiu um tantinho, e passei a ser credor de R$ 91,28.

Aliás o Velox subiu de preço nessa conta, passando de R$ 69,90 para R$ 73,96.

A conta paga em fevereiro foi normal. Se pudermos chamar essa barafunda de normal.

Então veio o mês de fevereiro. Meu telefone ficou mudo de 16 a 20/02/2014, ambos os dias à noite. Ou seja, quatro dias. Então a conta com vencimento em março deveria deixar de cobrar (4/28) × 17,90, ou seja, R$ 2,56. Isso aconteceu? Evidente que não! Portanto, quando paguei, a dívida da Telemar comigo acumulou para R$ 91,28 + (2 × 2,56) = R$ 96,40.

Desde então, já pedi estorno do período sem telefone em fevereiro de 2014 (protocolo 0015158-13032014). Também desde então, a Telemar me cortou o Velox de novo, no período de 07/03 à noite até 09/03 à tarde (o que dá dois dias) e depois no período de 23/03 de manhã até 24/03 à tarde (o que também dá dois dias) e, portanto, esses cortes valem R$ 9,86 somados. Mas a conta relativa a março, com vencimento em abril, cobrou o valor cheio do Velox; portanto, paguei esses R$ 9,86 e tenho direito a devolução em dobro, ou seja, R$ 19,72. A dívida acumulada da Telemar comigo chegou a R$ 116,12.

Além disso, permita-me documentar alguns detalhes que não sei se geram crédito ou não, mas precisarei da informação no futuro. Desde a conta com vencimento em janeiro/2014, o Oi Velox custa-me R$ 73,96 (tendo havido “reajuste” de 5,8% antes de completado um ano desde o “reajuste” anterior). Desde a conta com vencimento em abril/2014, o Oi Fixo custa-me R$ 18,13. Na conta com vencimento em maio/2014, o Oi Internet Banda Larga (provedor) passou dos vitalícios R$ 3,99 para R$ 4,22. Em 04/05/2014, de manhã, telefonei à Oi Serviços Digitais (dona do Oi Internet BL), que me disse que não tem nenhuma informação de que os R$ 3,99 fossem vitalícios. Lógico que não tem: pois interessa a ela suprimir essa informação. Provàvelmente, na estimativa dos analistas da Telemar, seis anos de vitaliciedade terá sido tempo suficiente para eu esquecer que o valor fosse vitalício. Exceto que não cumpri os planos deles nem me esqueci.

Bom. No mínimo a Oi passa a acumular mais R$ 0,46 por mês de dívida para comigo em razão do Oi Internet BL e não tenho nenhuma fé em conseguir vencer Golias neste ponto. Não abro mão desse direito, que ainda tenho, mas vou deixar a atualização desse cálculo por fora da dívida já constituída, porque, senão, nem o valor maior terei esperança de recuperar um dia.

Para atenuar a dívida da Oi, a conta com vencimento em maio/2014 fez uma devolução parcial de R$ 38,96, oriunda de créditos diversos das reclamações aí de cima (mas evidentemente ainda insuficiente). Com isso, a dívida da Telemar comigo está em R$ 77,16 (no mínimo — pendente eu descobrir se os aumentos de mensalidades foram lícitos).

Em tempo: não me venham sugerir que procure a ANATEL. O protocolo acima foi feito por intermédio dela. Ela tem se mostrado eficaz para religarem meu telefone quando suspendem o serviço, mas, quanto a valores de contas, tudo que consegui até agora foi essa devolução parcial aí no fim, que foi de apenas aproximadamente um terço do valor devido. Prossigo nas tentativas.

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Desta vez, acho que o papo é sério

with one comment

Durante os anos 80, vivíamos em um período de recrudescimento da Guerra Fria. Reagan de um lado, Brejnev e depois Andropov do outro, e nunca se acumularam tantas armas nucleares e convencionais como naquele tempo (pode pesquisar). Exercícios eram conduzidos por uns na porteira do quintal dos outros, as Alemanhas eram um palco permanente de vigilância e intriga (pois eram a fronteira entre os dois blocos), os mares estavam coalhados de navios de superfície, submarinos, sonares e aviões de patrulha, e todos vivíamos em tensão. Filmes de espionagem eram mais abundantes que os de ação, e os soviéticos eram vilões temíveis, sempre tramando, sempre sorrindo sobre facas afiadas. Foi a época de grandes suspenses de sucesso no cinema como Jogos de Guerra e A Raposa de Fogo.

Naquele tempo, abundava a literatura sobre veículos de combate. Os interessados hão de se lembrar com saudade das inúmeras publicações que saíram traduzidas no Brasil, como Aviões de guerra, Guerra nos céus, Guerra moderna, Corpos de elite, Máquinas de guerra, os Guias de Armas de Guerra, as séries Aviões de Combate e Aero Militar, e assim por diante. Era um material ótimo, como nunca mais se viu. Endereçado mormente a um público curioso mas não realmente especializado no assunto, tinha uma certa redundância de texto e imagens, e foi ali que os atuais quarentões tiveram contato com um conhecimento de (por exemplo) aviões militares que já está bastante desatualizado, embora frequentemente achem que aquilo tudo ainda é verdade (dica: não é. A RAF planeja a aposentadoria do Tornado GR4 já faz um tempo, você que só conheceu Tornado GR1; e os Tornados F3, Harriers, F-4, seu querido F-14 de Top Gun e versões iniciais do F-16 já sumiram do mapa faz tempo).

Mas havia também uma literatura mais séria. Os dois lados da Cortina de Ferro passavam o tempo a traçar cenários, prever ações e planejar reações. Do lado de cá, vimos parte do resultado em livros de ficção como os de Tom Clancy (sendo o mais famoso o primeiro, A caçada ao Outubro Vermelho), mas havia também uns trabalhos de não-ficção, um dos quais saiu pelo Círculo do Livro: Terceira Guerra Mundial: agosto de 1985, organizado pelo General Sir John Hackett e lançado em inglês em 1979. O livro refletia a visão da OTAN sobre como se iniciaria a dita guerra, com uma invasão em massa de blindados soviéticos através dos campos alemães, seguida de todo o desdobramento do que as melhores previsões diziam que aconteceria. Não se tratava de mero romance; era realmente uma peça de doutrina militar, explicitando o pensamento mais atual e planejado da OTAN para sua política de defesa. O assustador O Dia Seguinte, de 1983, partia de uma premissa semelhante e bastante repetida na época: após muita tensão e diplomacia, forças soviéticas invadiam um país do Oriente Médio (agora não lembro se era o Irã; podia ser; não esqueça que o Afeganistão esteve ocupado pela URSS de 1979 a 1989, com resultados desastrosos para o país do Urso) invadiam a Alemanha (será que eu lembrei errado mesmo? Mas ainda me lembro nìtidamente de ser Oriente Médio). O resultado da invasão era uma escalada muito rápida de reações mútuas até o ponto em que os soviéticos, derrotados, retiravam sua tropa da área e, em um gesto de despeito supremo, soltavam ali um artefato nuclear tático. A consequência disso era o imediato disparo de mísseis intercontinentais de um lado a outro do Pólo Norte, uns caindo no Meio-Oeste dos Estados Unidos, outros em alvos siberianos ou similares.

As lições, bastante óbvias, alertavam para os riscos da permanente tensão entre as superpotências, com as sobrevivências dos dois lados tornadas dependentes de gatilhos muito sensíveis. Além dessa quase-platitude, há uma noção que o grande público às vezes não pega (mas tampouco os analistas esquecem): a Guerra Mundial tende a começar em um ponto próximo, mas não dentro de uma das superpotências. É sempre um Estado menor, um satélite de um lado, que é sùbitamente ameaçado ou invadido pelo outro lado. O primeiro, perdendo o território de amortecimento em seu entorno e naturalmente se percebendo acuado, ataca preventivamente com uma ogiva nuclear tática, localizada; e o precedente leva a uma imediata multiplicação de ataques nucleares de gravidade crescente, até a aniquilação. O mundo torna-se mais radioativo e a guerra é realmente bem curta, mesmo que ainda haja remanescentes dos países que a iniciam.

Então, quem passou a vida lendo sobre esses cenários chega a 2014 e se depara com quê? Com a Rússia atrás de qualquer pretexto para incorporar a Crimeia a seu território enquanto soldados russos ocupam postos estratégicos (militares ou não) na península e, do outro lado, os Estados Unidos enviam 6 F-15C de Lakenheath para defender o céu lituano (no que, aliás, não há qualquer novidade, pois faz anos que os países da OTAN se revezam para compor a força de caças no patrulhamento daquele pequeno espaço aéreo) e 12 F-16C de Aviano para desembainhar suas espadas na Polônia (onde, aí sim, há novidade). Cabe lembrar que, vinte anos após o fim da Guerra Fria, a OTAN cresceu e alguns países que compunham o Pacto de Varsóvia — notàvelmente a Polônia — agora fazem parte da OTAN. A Alemanha Oriental, fronteira do Pacto, foi absorvida para dentro da OTAN; a Lituânia também, ela que era parte da URSS. Então, vejam que o território sob domínio soviético encolheu, e a Crimeia pode ser interpretada como uma área em disputa… como era a Alemanha em 1983.

Esses caras estão brincando com fogo. A Rússia não é a Coreia do Norte, onde cão que ladra não morde. Não é a Venezuela, onde a venda de petróleo aos EUA prossegue tranquila longe dos olhos do público iletrado. A Rússia é comandada por um ex-agente da KGB que não tem medo de apertar o botão.

O que eu sei é que hoje meu sono não será tranquilo.

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Observações em A Identidade Bourne

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Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

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