As Aventuras de Tintim, uma preciosidade para connoîsseurs e para novatos
Depois de tanto tempo em silêncio neste belogue, depois de ter pensado e iniciado inúmeros textos candidatos a serem o próximo, eu não imaginava que esta postagem fosse tratar justamente do filme do Tintim.
Eu vinha acompanhando as notícias sobre o filme com uma certa apreensão, que aumentou quando vi o trailer. Depois do fracasso do Expresso Polar e de sua perturbadora imitação da vida real, minha expectativa era que Spielberg e Peter Jackson desperdiçassem o potencial aventuresco do personagem. Mas os nerds andaram confiantes e a propaganda foi favorável antes da estreia, então decidi arriscar meus R$ 17 — embora tenha preferido ver a versão 2D depois da má experiência e do desperdício de dinheiro no filme escuro e sem graça do Capitão América 3D.
Senhoras e Senhores, não me arrependi. O filme é divertido! Especialmente para os fãs de Tintim, que vão se deliciar com a adesão ao espírito do personagem e de suas histórias. Já na abertura, somos brindados com créditos escritos com a mesma fonte das capas dos livros. Ao fundo, quadrinhos sortidos e referências diversas sucedem-se para deleite dos fãs: a Ilha Negra, o foguete de Rumo à Lua, a estátua de astronauta de Vôo 714 para Sidnei…
Ainda que não houvesse as referências, a própria abertura já teria seu valor. É uma animação de cores fortes, acompanhada de jazz, remetendo às aberturas de filmes dos anos 60 como os de Blake Edwards. Ela mesma já conta uma história e apresenta o teor elaborado das aventuras de Tintim.
Na primeira cena, Tintim está em uma feira de antiguidades enquanto seu retrato é pintado por ninguém menos do que o próprio Hergé, desenhista e Autor de todos os seus livros. Atrás dele há vários outros retratos, saídos diretamente da contracapa das edições clássicas. Nessa mesma linha, para nós que lemos esses livros na desde a infância, o filme traz uma sucessão de referências deliciosas:
- durante os créditos de abertura, vemos um letreiro de aeroporto com localidades como Ilha Negra e Sildávia;
- os recortes de jornal nas paredes do apartamento de Tintim são manchetes correspondentes a aventuras anteriores (especìficamente Os charutos do faraó, O loto azul, O ídolo roubado e O cetro de Otokar);
- o jornal Le Petit Vingtième faz uma breve aparição: esse é o suplemento do jornal Le XXe Siècle onde eram publicadas as aventuras de Tintim até 1940;
- o uísque do Capitão Haddock é Loch Lomond (de Tintim e os Tímpanos);
- as bolas de uísque em queda livre são reminiscentes de Explorando a Lua;
- entre as estátuas do palácio de Omar Ben Salaad, encontra-se a de Shiva, de Os charutos do faraó.
A história avança rapidamente, sem alguma longa exposição do personagem, o que é muito bom, não apenas porque não perde tempo mas também porque os próprios livros não se detêm nisso. O roteiro é uma fusão de O caranguejo das tenazes de ouro com O segredo do Licorne, embora eliminando partes de um e de outro. O resultado ficou bem mais simples do que a soma das duas histórias, mas bem mais complicado do que cada uma individualmente. Então, não há nem menções aos traficantes do primeiro livro, nem aos irmãos Pardal, do segundo. E há algumas outras diferenças, criadas para unir as duas histórias.
CUIDADO: SPOILERS APÓS OS ASTERISCOS. PARA CONTINUAR SEM SPOILERS, PULE PARA OS OUTROS ASTERISCOS.
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Embora a história principal de O caranguejo não tenha sido usada, algumas referências permaneceram, como o gigantesco ornamento em forma de caranguejo dourado no palácio marroquino e a derrubada de uma grande caixa com latas de caranguejo no duelo final entre Sacarina e Haddock.
São de O caranguejo o sumiço da lupa, a promoção de bengalas, o Karaboudjan, a fuga do porão com garrafas de champanha, a bebedeira de Haddock e seu primeiro encontro com Tintim, o imediato Allan, a fuga e o fogo no escaler, o hidroavião metralhador, sua tomada e sua queda, a caminhada no deserto, o resgate pela Legião Estrangeira e o poderoso Omar Ben Salaad. Tudo mais é de O segredo, exceto que o Capitão Haddock não ouviu nem esqueceu segredo nenhum de seu avô: ele leu as memórias de Francisco, Cavaleiro de Hadoque, e ficou empolgado em reconstituí-las, não no deserto, mas dentro de sua própria casa. Já o personagem Barnaby Dawes é a fusão de um personagem chamado Barnabé, de O segredo, com o marinheiro Dawes, de O caranguejo.
Houve um acréscimo divertido porém desnecessário, que foi toda a sequência rocambolesca ambientada na cidade marroquina de Bagar. Já o parentesco entre o Professor Sacarina e Rackham, o Terrível, não existe nos livros e, portanto, enriqueceu a história. No fim do filme, a busca de Sacarina por vingança proporcionou um duelo que espelha a luta entre o Cavaleiro de Hadoque e o pirata. (Se bem que um detalhe talvez tenha escapado aos roteiristas: se o Cavaleiro de Hadoque foi o único sobrevivente do Licorne e do navio pirata, então ninguém mais soube dos detalhes de seu encontro com Rackham. Como se explica que Sacarina tivesse obsessão por vingança ou conhecimento da maldição?)
De um certo modo, eu tinha a expectativa de encontrar o Professor Girassol. Entretanto, chegando ao meio do filme, o segredo do Licorne não havia sequer sido desvendado, de modo que percebi que o filme não mostraria a continuação que é O tesouro de Rackham, o Terrível. De fato, desse livro só o final foi usado, coincidindo com os últimos cinco ou dez minutos de filme.
(Outro detalhe que escapou, este jurídico: se Sacarina se havia tornado legítimo proprietário de Moulinsart, então lhe pertencia o tesouro encontrado na cripta, que veio junto com o imóvel. Não é para Haddock ficar todo animadinho achando que é dono.)
A última tomada de As Aventuras de Tintim convenceu-me de que Peter Jackson e Spielberg estão pensando em fazer o segundo filme; possìvelmente estão só esperando os resultados de bilheteria do primeiro. Se for isso mesmo, certamente será uma adaptação de O tesouro, exibindo o conteúdo principal do livro depois de já ter mostrado o final. A seguir o raciocínio do filme atual, terão de complicar o próximo com a adição de vilões. Nesse caso, aposto que O tesouro será fundido à aventura A estrela misteriosa, onde Tintim e Haddock, a bordo do Aurora, concorrem com a expedição do navio rival Peary para alcançar uma riqueza sem dono em alto mar.
Se Girassol não apareceu, por outro lado tivemos a participação especial da famosa cantora Bianca Castafiore, representada com aparência idêntica à dos quadrinhos e com o sotaque italiano que deveríamos esperar. Inevitàvelmente, ela também tinha que trocar alguns nomes, chamando Sacarina de Aspartame e Salaad de Salada. Todavia, apesar do uso engenhoso que foi dado à personagem, considero que não tenha contribuído para a história senão com algumas gracinhas, confirmando a desnecessidade da sequência em Bagar.
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Dois excelentes toques do filme (e que os livros difìcilmente teriam) foram o sotaque escocês do Capitão Haddock e o sotaque inglês de Nestor, absolutamente compatíveis com seus personagens. Outra preciosidade* foram as magníficas tomadas do choque dos navios em alto mar, que não estavam detalhadas em O segredo do Licorne. Aqui e aqui, você encontra, respectivamente, uma prévia e uma entrevista sobre a criação de As Aventuras de Tintim.
Uma diferença especial entre o filme e os livros é a menção ao Rouxinol de Milão, que normalmente estaria um pouco fora de contexto. É claro que, no momento em que esse nome é usado, os fãs logo sabem quem aparecerá. E, sabendo quem é, também é claro que, no momento em que vemos que há uma proteção em volta da terceira miniatura, já percebemos como ela será vencida!…
Já em matéria de tradução, há um detalhe muito bem-vindo aos fãs de longa data. No som original em inglês, o filme dá aos personagens os nomes que ganharam nas traduções dos livros para o inglês (Milu é Snowy; Dupond e Dupont são Thomson e Thompson; Moulinsart é Marlinspike Hall). Mas as legendas respeitam os originais em francês, mais conhecidos no Brasil. Não sei como ficou a dublagem; quem souber, é fineza comentar abaixo. Grato.
Ainda quanto a traduções, o Capitão Haddock tem uma característica onde as versões brasileiras dos livros aperfeiçoaram os originais. Em francês, ele sempre se enraivece invocando “millions de sabords” (milhões de escotilhas), mas a versão brasileira traz o célebre MIL RAIOS E TROVÕES e sua versão mais contundente, COM MIL MILHÕES DE RAIOS E TROVÕES. Aparentemente, a versão inglesa aproxima-se disso, porque, ao longo do filme, Haddock frequentemente esbraveja “milhares de borrascas”. Já os célebres insultos do Capitão, esses aparecem uma ou duas vezes, como não poderia deixar de ser.
Em síntese: As Aventuras de Tintim é diversão garantida para quem conhece e para quem não conhece o personagem — tanto que estou até cogitando ir ver de novo, desta vez em 3D…
* Preciosidade: minha pequena homenagem a Andy Sirkis, que muito bem interpretou o Capitão Haddock em As Aventuras de Tintim e que, há alguns anos, emprestou sua reconhecível voz a outro personagem, quase tão célebre quanto, obcecado com determinado Anel…
2011 in review
The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2011 annual report for this blog.
Here’s an excerpt:
A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 4,500 times in 2011. If it were a NYC subway train, it would take about 4 trips to carry that many people.
De ilusões de óptica
Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.
Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.
Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.
Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.
Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.
Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.
EOF
“Eu tô aí com um projeto…”
Aí, né, tem este seriado novo da Mulher-Maravilha. Amigo meu, fã da personagem, resumiu sua crítica:
PROXIMO SERIADO A SER CANCELADO RAPIDAMENTE
A NOVA MULHER MARAVILHA É HORROROSA
O UNIFORME ( NINGUEM MAIS RESPEITA PORRA NENHUMA) É RIDICULO…LEMBRA UM DESTAQUE
DA UNIDOS DA TIJUCA…
TOMARA QUE AFUNDE…PARA ESSES BABACAS APRENDEREM…
http://www.youtube.com/watch?v=r9swHb3v0XU&feature=relmfu
Eu não podia ser mais ponderado, simplesmente porque concordava com ele. Mas acrescentei o seguinte:
Eu concordo…
A atriz não tem presença, não tem porte, não tem garbo, não tem tamanho, NÃO PARECE UMA AMAZONA, o uniforme está errado (CALÇAS? AHSIFUDÊ), …
A Lucy Lawless teria sido uma Mulher-Maravilha muito melhor.
Pelo visto, eles acham que qualquer baixinha de peito grande servia. Então que se afundem.
Mas demos também o benefício da dúvida. Smallville consta que era uma m*rda no início, mas que depois ficou boa… Não sei, não vi. Vai que a moça é boa atriz?…
De todo modo, ouvi no YouTube: “… at least it’s not Beyoncé… Enough of that Halle Berry Catwoman fiasco…”
Realmente, né. Eu não sei o que há que a DC, pra cada um que acerta, tem errado outros tantos. O filme do Superômi ficou parecendo um emo com a cueca pra fora da calça, que até Kevin-Coisa fez um Lex Luthor mais interessante do que o herói. Depois é esse tal filme do Lanterna Verde onde o intrépido piloto se comporta feito um geração-Y deslumbrado, com uma roupa brilhante que mais parece anúncio de sabão em pó para sapos. Por enquanto, só se salvou o Why-So-Serious das Trevas, e mesmo assim não foi incólume.
Enfim. Não quero ser um hater reclamão, não. Se o filme do Lanterna passar no Brasil, eu vou (parece que não vai mais passar, que a DC entendeu que não tem público Update: Esse “parece que” foi relato trazido por um colega meu que não tem Jesus no coração. Resulta que ele confessou ter mentido para mim. Ora, gato escaldado não dá crédito a versão ouvida na feira: eu só escrevi “parece que”, disclaimers apply, o Leitor tem que pesquisar sempre).
Mas é que o próprio estúdio não ajuda no discurso de fanboylagem. Por exemplo: outro dia, saiu matéria no Los Angeles Times sobre a suposta intenção da Warner de fazer um filme da Liga da Justiça.
O Globo On traduziu a matéria e a ela acrescentou alguns comentários bem típicos de fanboy:
DC Comics desafia Marvel
a Marvel corre na frente
E outra que vi por aí na Web, “DC bate de frente com a Marvel…”
Mas que infantilidade. Não há desafio nenhum, nem corrida, nem disputa. Imagina só: o bilheteiro põe o dedo na sua cara, “Escutaqui! Você só pode gostar de um! Ou Marvel ou DC! Se for pego entrando no filme da outra, vai ficar de castigo!”
Ou, então, você imagina dois trens, um da Marvel, outro da DC, numa colisão em alta velocidade, BUM, e só sai uma da poeira, e a outra fica proibida PARA SEMPRE de fazer seus filmes… Porque perdeu a disputa…
Não faz sentido! É uma disputa que não existe! Fã de um não deixa de ser fã do outro, é igual àquelas disputas idiotas de “quem é o melhor capitão de Star Trek, Kirk ou Picard” (Kirk é melhor, óbvio), ou “qual é melhor, Star Trek ou Star Wars“… É a velha visão com antolhos daqueles haters que o @Cardoso tanto comenta, que só conhecem o mundo em preto-e-branco e não admitem que se possa gostar de duas coisas diferentes; você só pode gostar de uma, uma só, e tem que ODIAR tudo mais. Fãs da Marvel e fãs da DC não poderiam encontrar-se na porta do cinema, que seria igual àquelas brigas de gangue de rua de filme americano — com as óbvias diferenças de que só poderiam brigar até a hora em que a mamãe os quisesse em casa, e que as armas seriam anéis de Lanterna Verde da caixa de sucrilhos.
Mas olha só. A reportagem é só hype mesmo, é só para agitar as águas turvas, para que gente como eu fique dando visibilidade. Porque ela mesma deixa pistas de que não há nenhum projeto de filme da Liga da Justiça. Parece ser só uma tentativa do entrevistado de roubar atenção da Marvel, que está com filme do Capetão América, do Thor e dos Vingadores saindo do forno, enquanto a DC tem só esse Lanterna verde-novato e o terceiro Voz Rouca da Escuridão bem mais para a frente.
(Em um aparte, isso me lembra muito uma sequência que o Pânico na TV! fazia: chegava para um ex-BBB numa festa, “e aí? O que você está fazendo depois que saiu do BBB?” “Ah, eu tô aí com um projeto…” “Ah, mais um que tá com um projeto… Quer dizer, não tá fazendo p*rra nenhuma, nem tem projeto nenhum… Tá legal.”)
Se duvida, preste atenção em algumas frases:
“But Robinov said a new Justice League script is in the works.” (Desnecessário enfatizar para assegurar de uma verdade se ela fosse mesmo verdade: transpareceria por si só e inevitàvelmente com o correr do tempo.)
“Also being written for Warner are scripts featuring the Flash and Wonder Woman, who could be spun off into their own movies after Justice League.” “Roteiros sendo escritos” é o mesmo que dizer “não existe nem o cheiro de um projeto ainda”. Além do mais, “could” é expressão muito vaga, e a frase mostra bem que não sabem mesmo se querem fazer algo com os personagens… Como se fizesse sentido haver um Flash ou uma Mulher-Maravilha quase como elenco de apoio em um filme cheio de astros, sem investimento próprio — logo eles, que nunca foram meros figurantes.
“Though Wonder Woman is also in the works as a television pilot for NBC produced by Warner, Robinov dismissed that as a sticking point.” Certo. Como se o estúdio estivesse mesmo disposto a ver fãs comparando, medindo e, afinal de contas, não entendendo nada se o filme não bater com a série.
“We have the third Batman, but then we’ll have to reinvent Batman…” Quer dizer: ele nem lançou o filme de 2012 (que faz parte da atual reinvenção do Batman) e já está dizendo que vai ter que reinventar o personagem de novo. Sei. Excelente maneira de dizer que o investimento atual não vai ter continuidade. Realmente é isso que gostam de ler as pessoas que vinham gostando do resultado (que, aliás, hoje são maioria).
Afinal de tudo isso, fã de DC que sou, não me preocupo não. Essa palhaçada está sendo cogitada para 2014. Até lá, muitos fracassos de bilheteria ainda podem acontecer.
EOF
Reencarnação
Você já reparou que quem acredita em reencarnação sempre diz que foi príncipe, princesa, nobre, artista, …? Ninguém nunca diz que foi escravo, operário ou camponês.
Pois eu era escravo. Quando fui reencarnar, aproveitei um descuido de quem controlava a pranchetinha e vim parar aqui. Através de uma psicografia, fiquei sabendo que haviam descoberto o engano e que eu estava sendo chamado de volta. Claro que me neguei, né: comparado com a vida que eu tinha, aqui está muito bom! Aqui tenho água encanada, luz elétrica, só tenho que trabalhar dezesseis horas por dia…
Só que, enquanto eu estiver nesta vida, serei considerado foragido, e mais: para cada minuto adicional, não só a Claro me cobra R$ 0,53 como está aumentando o número de chibatadas que terei de receber como punição pelo golpe que apliquei.
Por isso um de meus objetivos é não morrer nunca. Porque, se eu morrer, sei bem o que está me esperando. E depois terei que reencarnar como um ornitorrinco manco!
EOF
Cronologia do Lanterna Verde até maio de 1994
A história do Lanterna Verde dos Lanternas Verdes é extensa e complexa. Recentemente, um colega fez-me diversas perguntas, que resolvi responder pesquisando e enviando-lhe um email. Mas por que ele tem que ser o único beneficiário? O trabalho já está pronto, então posso dividir com você, com quem googlar e comigo mesmo — já que é referência à qual eu mesmo posso querer voltar.
A cronologia abaixo é intencionalmente supersimplificada. Há farto material na Web, em saites como glcorps.dcuguide.com e todos os de quadrinhos indicados aí ao lado. A Wikipedia é suficientemente boa, e o Google vai te trazer ainda um montão de informação sobre inúmeros personagens, planetas, histórias, poderes, características… Não pretendo suplantar nada disso. Esta cronologia é só para ajudar o nobre Leitor a contextualizar as histórias que ler e que sejam ambientadas no período coberto.
De 2006 até agora, aconteceu MUITA coisa em torno do Lanterna Verde. O título ganhou enorme destaque nos EUA sob a batuta de grandes artistas (inclusive Ivan Reis, premiado por isso) e atualmente, no Brasil, com retardo de um ano, está passando de um abrangente arco (Blackest Night, A noite mais densa) para outro (Brightest Day, O dia mais claro). Não estou cobrindo nada disso, porque não li nada disso. Nem o período 1994-2005, onde também aconteceu muita coisa na vida de Hal Jordan. Neste momento estou em junho de 1994 e é só até aí que vou. Intencionalmente, estou omitindo referências a Alan Scott, zamorianas, e vilões além de Sinestro. Para manter simples.
CRONOLOGIA DO LANTERNA VERDE DA TERRA-1 (DEPOIS TERRA ÚNICA) ATÉ JUNHO DE 1994
Showcase #22 (Oct 1959) – Primeira aparição do Lanterna Verde Hal Jordan.
Green Lantern #1 (Aug 1960) – Primeira aparição dos Guardiões.
GL #6 (Jun 1961) – Primeira aparição de outro LV (Tomar-Re, do planeta Xudar).
GL #7 (Aug 1961) – Primeira aparição e origem de Sinestro: LV que usava o anel para dominar, humilhar e explorar os habitantes de seu planeta, Korugar. Julgado, perdeu o anel, foi banido para Qward e tornou-se renegado.
GL #9 (Dec 1961) – Primeira aparição do anel amarelo de Sinestro, que extrai energia dos anéis verdes.
GL #40 (Oct 1965) – A história de Krona, que investigou a origem de tudo, espalhou o Mal no universo e foi banido. Os oanos, tentando compensar o dano causado ao universo, tornaram-se os Guardiões e criaram a Tropa dos Lanternas Verdes.
GL #59 (Mar 1968) – Primeira aparição de Guy Gardner, destinado a ser substituto eventual de Hal Jordan.
GL #76 (Apr 1970) – Primeira história de Dennis O’Neil: Hal Jordan questiona a ordem sem justiça dos Guardiões.
Nas histórias de Dennis O’Neil, a parceria de LV e Arqueiro Verde inicia a Era de Bronze dos quadrinhos, questionando a ética dos super-heróis.
GL #81 (Dec 1970) – Dennis O’Neil conta como os Guardiões saíram de Maltus para Oa.
GL #87 (Jan 1972) – Guy Gardner incapacitado por acidente com ônibus. Primeira aparição de John Stewart como LV substituto eventual.
1972-1976 – Com baixas vendas, a revista GL é suspensa em 1972 mas retomada em 1976, seguindo normalmente a numeração.
GL #123 (Dec 1979) – Culminando uma linha de histórias, Guy Gardner entra em coma.
GL #151 (Apr 1982) – Hal Jordan exilado no espaço por dar atenção demais à Terra. Continua LV, cumprindo missões por um ano. John Stewart fica como LV da Terra?
GL #181 (Oct 1984) – “Take This Job — and Shove It”: Hal Jordan pede as contas. Guardiões nomeiam John Stewart o LV permanente da Terra.
John Stewart casa-se com Katma Tui (sucessora de Sinestro em Korugar e sua treinadora). Durante a Crise nas Infinitas Terras, John Stewart é o LV da Terra.
Crisis on Infinite Earths revela que, quando investigou a origem de Tudo, Krona criou o multiverso. Que os oanos ficaram divididos sobre a forma de mitigar o mal. Os mais passivos tornaram-se os Guardiões; os mais intervencionistas foram embora de Oa e tornaram-se os Controladores.
Crisis on Infinite Earths #9 (Sep 1985) + GL #195 (Dec 1985) – Guy Gardner curado e convocado pela facção brigona dos Guardiões.
GL #198 (Mar 1986) – Tomar-Re morre em combate; Hal Jordan fica com seu anel e volta a ser LV.
Millennium (Jan-Fev 1988) – Guardiões vão embora do Universo, e a Tropa fica abandonada à própria sorte. Só fica para trás um Guardião, Appa Ali Apsa, que havia perdido a imortalidade como punição por seu comportamento nas histórias de Dennis O’Neil. Em Maltus, A.A. Apsa começa a treinar Guy Gardner, que se rebela. Apsa tenta retomar o anel de Gardner, mas Jordan livra a cara dele.
Secret Origins #22 (1988) – Revelado que, antes do GLC, os Guardiões haviam criado os robôs Manhunters. Quando os MH se rebelaram, os Guardiões fundaram o GLC.
O título GL torna-se Green Lantern Corps. Arisia, Ch’p, Kilowog, Katma Tui e Salakk vêm morar na Terra.
GLC #222-223 (Mar-Apr 1988) – A Tropa decide matar Sinestro. Em reação à morte de Sinestro, a Bateria Central é destruída. A maioria dos anéis perde o poder. (Na verdade, Sinestro não morreu; sua essência foi parar dentro da Bateria.)
GLC #224 (May 1988) – Último número da série. Lanternas Verdes passam a aparecer em Action Comics Weekly.
Action Comics Weekly #601 (Jul 1988) – Safira Estrela mata Katma Tui.
ACW #635 (Jan 1989) – Última aparição do GLC em ACW.
GL: Emerald Dawn #1-6 (Dec 1989 – May 1990). Reconta a origem do LV. Reboot do personagem.
GL: Emerald Dawn II #1-6 (Apr-Sep 1991) é continuação imediata de Emerald Dawn conforme a cronologia dos personagens, contando do treinamento do novato Hal Jordan pelo experiente Sinestro. Também reconta o banimento de Sinestro, que, nesta versão, é um tirano em Korugar, mas por ser obcecado com ordem e achar que está fazendo a coisa certa.
GL #1 (Jun 1990) – Imediatamente após o reboot de GL:ED, a DC inicia novo título do LV. A história continua do ponto onde havia parado ACW.
Os oito primeiros números de GL compõem a história GL: the Road Back, onde Hal Jordan, não mais LV, está em busca de uma finalidade na vida. Enquanto isso, A.A. Apsa enlouquece e começa a sequestrar para Oa as cidades que visitou em vários planetas. Jordan, Gardner, Stewart e outros vão combatê-lo. Entre os voluntários que auxiliam os LV está Tomar-Tu de Xudar. Quando os LV estão a ponto de ser derrotados por A.A. Apsa, os Guardiões retornam (GL #8, Jan 1991).
Em GL #8, a Bateria Central é restaurada e os Guardiões distribuem tarefas:
- Guy Gardner passa a ser o LV da Terra;
- Hal Jordan vai recrutar novos membros para recompor a Tropa;
- John Stewart fica incumbido de cuidar das cidades trazidas a Oa.
Após GL #15, inicia-se a série GL: Mosaic, onde Stewart é o protagonista e que dura 18 edições. Ao fim da série, Stewart torna-se o primeiro Guardião mortal.
GL #25 (Jun 1992) – Hal Jordan retorna à Terra para reassumir a antiga função. Guy Gardner desafia-o e perde o anel na porrada.
Guy Gardner Reborn #1-3 (1992) – Gardner recruta o auxílio de Lobo e recupera o anel amarelo de Sinestro em Oa.
Guy Gardner #1 (Oct 1992) – Início da série, que foi até o #44 (Jul 1996).
Superman #80 (Aug 1993) – Coast City destruída.
GL #48-50 compõem o arco Emerald Twilight.
GL #48 (Jan 1994) – Hal tenta recriar Coast City para trabalhar seu luto, mas é convocado a Oa para ser julgado por abuso do anel.
GL #49 (Feb 1994) – Jordan matando LV diversos, tomando seus anéis.
GL #50 (Mar 1994) – Hal mata Kilowog e Sinestro, destrói Bateria Central, mata os Guardiões. O último Guardião deixa anel para Kyle Rayner.
GL #51 (May 1994) – Primeira história onde Rayner é o novo LV.
Darkstars #21 (Jun 1994) – Com o fim do GLC, Stewart torna-se um Darkstar. Os Darkstars foram criados pelos Controladores.
A SEGUIR: ZERO HORA!
Minha resenha sobre os primeiros números de GL desde 1959 estava publicada no falecido Geocities e não fiz nenhum esforço para preservá-la. Algumas almas caridosas, porém, fizeram. Várias páginas estão recuperadas nos domínios www.reocities.com e www.geocities.ws, inclusive esta, que é minha: http://www.geocities.ws/jpcursino/ScPGLv1.htm
EOF
Plantões histéricos, quase nunca históricos
Às vezes você está lá, tranquilo, sem p*rra nenhuma pra fazer assistindo à Sessão da Tarde, quando o filme é interrompido por aquela música escandalosa do Plantão da Globo. “Pã pãpã pãpã pãpãpãpããã… Pã pãpã pãpã pãpãpãpã pãpããããã… tem tem temtemtem…” Por todos esses anos, sempre que eu era interrompido por essa música, só pensava em uma coisa: “f*deu, Angra explodiu”. Sério. Juro.
Aí, depois, não era nada disso, era para dizer que o Mubarak tinha renunciado, ou que o Zé Alencar tinha finalmente parado de fazer c* doce e abraçado a noite gentil… Minha reação sempre foi a mesma: p*rra, vocês me estressam, me apavoram, me acordam daquela morgada básica de depois do almoço interrompem meu filme, e tudo isso pra quê? Pra me contar de uma notícia que acabou de acontecer do outro lado do mundo e que podia muito bem esperar até o jornal da noite!
Não, sério: meu raciocínio é sempre o seguinte. Para alguma coisa interromper o meu filme, para ser tão urgente a ponto de não dar para esperar até o Jornal Nacional, só pode ser que a urgência exige que eu corra para salvar minha vida. Tipo, tem que ser uma m*rda estratosférica mesmo, de nível nuclear, algo cuja única resposta adequada seja “salve-se quem puder”, “corram para as colinas”… Tem que ser alguma coisa tão séria, mas tão séria, que a Globo entenda, olha só, vou ter que interromper o seu filme, mas é que isto NÃO PODE ESPERAR, é sério demais, é para salvar a sua vida, serviço de utilidade pública, sabe?
Mas não, é para dizer que determinado ditador caiu lá naquele lugar do outro lado do meridiano de Greenwich. Como se eu fosse sair correndo em seguida, “ó meu Deus! Preciso ir já para o aeroporto, pegar o primeiro voo para o Egito, achar que sou o Chuck Norris e restaurar o pobre ditador no poder single-handedly”… Ou então, “caramba! O papa acabou de morrer! Preciso ligar para meu corretor AGORA para vender minhas ações da Santa Sé antes que despenquem mais!” Não, né. Então, você que está estudando produção de TV e que sonha um dia interromper o Vale a Pena Ver de Novo dos outros com o Plantão da Globo: não é pra fazer isso. Combinado? Pode ser?
E mais: quando for acidente mesmo em Angra (pédepatomangalôtresvezes, bate na madeira), DUVIDO que a reação seja assim instantânea. Dá uma olhada nisto aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki#Japanese_realization_of_the_bombing. P*rra, cai uma BOMBA NUCLEAR na cabeça dos infelizes, a nuvem é visível a centenas de quilômetros, e ninguém se toca durante vários minutos! (Claro que, para mim, é fácil falar. Eu já ficaria APAVORADO só de perceber que a linha telefônica ficou muda, que o quartel-sempre-em-contato não responde e que, estranhamente, não tem nenhum avião americano na área. Quebra-cabeça não difícil de montar, esse.)
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“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”
Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.
Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).
Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.
Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.
Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)
Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.
Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.
O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.
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Servidores públicos, escândalos e falácias
Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…
Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.
Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.
Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.
Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.
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Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.
Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.
Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.
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Por que não vou renovar minha assinatura de Scientific American Brasil
Em abril de 2010, encerrava-se minha assinatura da revista Scientific American Brasil, editada pela Duetto. A editora enviou-me a proposta de renovação, eu podendo parcelar em quatro ou seis vezes, sem desconto para pagamento à vista.
Já que não tinha desconto, escolhi manter meu dinheiro rendendo juros no banco por mais tempo até o fim do pagamento, em vez de entregá-lo todo à editora e deixá-lo rendendo juros COM ELA. Afinal, a prestação do serviço da Duetto (entregar doze edições da revista) seria parcelada — faria todo o sentido que a minha contraprestação (pagar pelas doze edições) também fosse.
Só que eu pedi para parcelar em seis vezes de R$ 19,83 no cartão de crédito. Seis vezes, marque bem. Foi aí que meus problemas começaram.
Comprei a nova assinatura em 20 de abril, e a operadora do cartão tomou ciência em 22 de abril. A fatura para vencimento em maio já estava fechada, de modo que a primeira cobrança, lançada em 22/04, venceu em junho.
Então faça aí a conta: seis prestações, a primeira vencendo em junho; então, as demais venceriam em julho, agosto, setembro, outubro e novembro. Certo?
A prestação seguinte foi lançada em 24/05 (ou seja, um mês depois da anterior) e venceu normalmente em julho. Em agosto não veio cobrança. Aí, em setembro, apareceu uma parcela com lançamento em 21/07 e descrita como “01/05”. A de outubro, também lançada em 21/07, veio como “02/05”.
Mas peraí. A parcela de setembro não era a primeira, era a terceira. A de outubro era a quarta. A continuar assim, eu acabaria pagando a quinta (“03/05”), a sexta (“04/05”) e uma sétima (“05/05”).
O que que eu podia ter feito em outubro? Podia ter ligado para a operadora do cartão e dito que a descrição das parcelas estava errada. E eu, que vivo defendendo a pró-atividade proatividade, não fiz isso. Verdade que não tinha o dever de fazê-lo. Verdade que, até dezembro, eu ainda estava pagando o que devia; e que não necessàriamente deveria presumir que estivesse por vir uma sétima e indevida parcela. Vamos tomar o cuidado de não culpar a vítima. Eu vivo dizendo que você tem que tomar sua vida nas suas mãos em vez de contar com, ou esperar, que os outros façam certo, mas isso não dá à Duetto ou à operadora do cartão o direito de me cobrar a mais.
Bom. Até que veio a cobrança de janeiro (a sétima). Não adianta eu simplesmente não pagar. Se eu não pagar integralmente uma fatura, estou criando um problema ainda maior, porque a operadora vai começar a cobrar juros, vai bloquear meu cartão, e eu vou acabar tendo que me aborrecer por muito mais do que uma simples parcela de R$ 19,83. Eles têm, sim, o poder de ferrar com a minha vida sem nem saberem que eu sequer existo (e sem se importarem com isso, o que é bem mais divertido de se fazer com seres desprezíveis do que dar a eles tanta importância a ponto de fazer questão de prejudicá-los). Se eu tenho um problema de cobrança a mais, tenho que resolvê-lo independentemente do pagamento: a operadora não tem como diminuir o valor da fatura já emitida. Se concordar com minha eventual alegação de que a cobrança não seja devida, o que ela vai fazer vai ser estornar o valor em outra fatura, independentemente do pagamento desta que está comigo.
Você, especialista em Direito do consumidor, a esta altura deve estar pensando em mil direitos que eu tenho, pensando que o consumidor é forte, que hoje em dia a lei nos protege, que é só eu não pagar, que posso mover ação por dano moral, que seria bom me negativarem no SPC para eu ganhar uma indenização polpuda… Mas tudo isso dá muito trabalho. Antes de se discutir o Direito, há uma questão prática, meramente econômica, que é: será que eu quero me aborrecer com a discussão? Observe que, antes de tudo isso ser uma relação jurídica, é uma relação de poder. O poder é desigual, e eles já começam ganhando. Mesmo que eu vença no final, o custo da vitória é muito alto. Uma das coisas fundamentais que a gente aprende sobre Direito é que ele existe justamente para que o Estado compense a desigualdade de forças e obrigue a parte forte a devolver o que tomou da parte fraca, que não conseguiria recuperar o que foi tomado. Então, antes de existir a relação de direito, existe a relação de poder; e aliás é por causa desta que existe aquela.
Mesmo assim, antes do vencimento da fatura de janeiro, telefonei para a editora Duetto, que não tem um zero-oitocentos e que só atende em horário comercial. Expliquei o caso, mas a editora me relatou que havia recebido um só pagamento, no valor cheio correto, lá em abril; que, daí por diante, o parcelamento havia sido repassado à operadora do cartão de crédito; e que, conforme seus registros, desde abril eu não devia mais nada à editora.
Faz sentido (afinal, é assim mesmo que funciona o financiamento por cartão de crédito), mas você pode observar que aí começa o pingue-pongue, muito comum em relações envolvendo mais de uma pessoa, onde cada uma diz que o problema foi com a outra e que você tem que procurar essa outra. “Se vira aí com ele, eu não tenho nada com isso.” Tenho certeza de que você já passou por uma dessas na vida. De certo modo, a Duetto até tinha razão. Se ela não me entregasse algum exemplar da SciAm BR, minha reclamação seria com ela. Só que, se alguma cobrança vem errada, eu tenho que reclamar com quem me cobra mesmo, que é a operadora; e elas que se entendessem depois (não dá razão à operadora o fato de ela, cobrando-me errado, dizer que eu tenho que me entender com a editora). Talvez nesse ponto eu tenha mesmo errado, não sei. Mas continuo sendo a vítima; o fato de eu não ter reclamado cedo NÃO DÁ à operadora o direito de me cobrar a mais.
Hoje, telefonei à operadora do cartão. No primeiro telefonema, a atendente disse, na minha cara remotamente, que não tinha acesso a nenhuma fatura mais antiga do que seis meses atrás; que, portanto, não podia averiguar nada do que eu dizia; que eu tinha que ter reclamado quando veio a primeira cobrança (!); e que agora não estornariam mais nada. Olhe como terminou o diálogo:
– Quer dizer, o que você está me dizendo, bàsicamente, é que eu perdi? ‘Cê tá me dando um perdeu, é isso?
– … Sim, é isso.
– Caraca. Que belo atendimento esse, hein!
(tu tu tu…)
Claro que fiquei uma fera com a atitude sonsa e mais a desligada na cara. A pressão subiu, meus olhos ficaram verdes, depois minha pele ficou verde, comecei a ficar musculoso, minha camisa rasgou, e meu calção roxo foi dilatando junto comigo.
Fiquei perdido, irracional, ia dar-me por vencido. Senti-me sòzinho diante de uma força invencível. Mas não é essa minha ética. Aprendi com o Capetão Kirk a nunca desistir, nem em face da própria morte: enquanto eu estiver vivo, há esperança de solução. Ou, como disse outro Capitão, Quincy Taggart, “never give up – never surrender”.
No segundo telefonema, comecei a explicar o problema e o atendente desligou na minha cara antes que eu terminasse. Nem fiquei com tanta raiva, porque, com o tempo, essas centrais de atendimento têm o dom de ir sugando sua energia vital. Você vai ficando fraco e cansado, e cai na poeira no meio da maratona. Os abutres vêm jantar em seu cadáver, os corvos comem seus olhos e a equipe do Grissom te encontra dias depois.
No terceiro telefonema, a moça teve mais paciência e disposição. Ouviu tudo, digitou, esperou enquanto eu ia buscar documentos para lhe dizer datas. Mas, afinal, também “não pôde fazer nada”, por supostamente não ter o poder de corrigir falhas cometidas mais de noventa dias antes. Meu “prazo” começara a contar em 21/07, quando fôra feito o primeiro lançamento errado, de modo que, faça a conta, eu devia ter telefonado até 18/10.
Na Faculdade de Direito, a gente aprende que “o direito não socorre os que dormem”, ou seja, você tem que se manter ligado e atuante para não perder o que é seu. Sempre achei esse princípio uma bruta duma sacanagem, porque equivale a dizer que tudo que é meu está à disposição dos outros para virem pegar, em um total desequilíbrio onde não me dão nada em troca, e, se eu quiser que ainda seja meu, tenho que lutar! Quer dizer, eu trabalho de escravo para dar aos outros o que tenho, ou, no mínimo, saio no prejuízo.
Entendo a necessidade de uma tal regra, que é o fundamento da prescrição e serve para dar segurança às situações consolidadas no tempo. O lance é que o prazo que a operadora admitiu para meu direito foi exíguo! E mais: ela não foi clara nem unívoca quando manteve a data de 21/07 nos lançamentos das prestações seguintes; ou seja, eu não tinha razão para afirmar, com certeza, que meu direito estivesse sendo violado.
De acordo com a operadora do cartão, eu ainda tinha uma solução: reclamar junto à editora, que havia recebido a mais. Pingue-pongue, alguém? Aliás, não é pingue-pongue não: lembra uma brincadeira, sem graça pra caramba, que os garotos mais velhos faziam com você na escola, chamada “bobinho”? Pois é. Bobinho. É disso que Duetto e operadora estão brincando comigo.
Olha só. Não sei quem foi que errou. Tanto pode ter sido a editora, informando erradamente que ainda faltavam cinco parcelas, como pode ter sido a operadora do cartão. Mas não me interessa; não quero identificar culpados, que isso não é incumbência nem problema meu; quero é meu dinheiro. De todo modo, o primeiro telefonema à editora, que não tem zero-oitocentos, custou-me cerca de nove reais. A operadora do cartão também não tem zero-oitocentos, de modo que esses três telefonemas também não foram de graça. Se eu telefonar de novo à Duetto, vou acabar tendo gasto no mínimo R$ 18 (e provàvelmente mais) para reaver R$ 19,83. Òbviamente, isso não é sensato do ponto de vista econômico.
Por isso não vou ligar à Duetto não. Tentei dar uma de esperto aceitando o parcelamento, sem perceber que estava caindo numa armadilha, e já perdi R$ 19,83 mais os telefonemas (que, juntos, devem ter superado R$ 9) e muito tempo e aborrecimento. Qualquer coisa que eu faça vai aumentar meu prejuízo. O que tenho que fazer agora é limitar minhas perdas, igual aos apostadores da bolsa de valores que sofrem prejuízo e têm que se livrar das ações podres antes que o preço caia mais ainda.
“Por que você não entra na Justiça?” Por causa de trinta reais? Fala sério. Eu já soube de juiz que se recusou a deferir o pedido porque o valor era irrisório, confirmando que as empresas podem tomar quanto quiserem dos clientes contanto que seja “irrisório” (irrisório pro tal juiz, que certamente ganhava vinte vezes o salário líquido do infeliz que confiou no sistema). Mesmo que meu pedido fosse deferido, olha quanto tempo e dinheiro eu ainda gastaria em transporte até o fórum, xerox dos documentos, impressão da petição inicial… Tudo isso parece pouco, mas já supera o valor a pedir. Um táxi até o fórum pode custar R$ 15. E isso se fosse pleitear sem advogado, o que me faria consumir ainda MAIS tempo. Com advogado, ainda teria que pagar os honorários, sem ser ressarcido pela parte contrária.
Então, como sempre, o sistema venceu. Especìficamente, as empresas venceram. Elas fazem muito isso, né: boa parte do lucro vem desses “errinhos”, onde vão comendo alguns reais de cada vez, às vezes centavos, às vezes dezenas de reais… No somatório, é um bocado de dinheiro. Elas sabem que a gente não vai reagir, sabem que nós fazemos a conta e percebemos que a tentativa de ressarcimento dá mais prejuízo. Para elas é um excelente negócio. Sabem que já começam ganhando e contam com isso.
Quanto a mim, já tive outras dificuldades com a Duetto. Primeiro, comuniquei mudança de endereço por correio eletrônico. Aí, pararam de entregar a revista. Depois de três meses sem receber, fui averiguar por quê. É que tinham o endereço errado. PQP! Eu ESCREVI o endereço; em princípio, estava certo, não? Presume-se que eu saiba meu endereço! Então, era só copiar-colar! Mas não. Quando não é pra copiar-colar, esse povo copia-e-cola, sem olhar o que está fazendo; mas, quando É pra copiar-colar, não fazem isso — e erram.
Depois, comprei deles um DVD, que só chegou depois que telefonei, quase um mês depois de pagar, dizendo que não queria só pagar por ele; queria recebê-lo também. Foi só aí que enviaram.
Agora me acontece essa que narrei: pague catorze edições e leve doze. Então agora chega: não hei de renovar a assinatura. Depois que esta expirar em abril, cada vez que sair SciAm BR, vou ficar sabendo pela banca. Se não me interessar, não compro — diferente do que acontece na assinatura, quando a editora já recebe o pagamento antes, mesmo que a edição do mês não venha a me interessar. Não dá, é muito desgastante isso. A revista pode ser boa, mas o preço que pago pela assinatura está muito alto.
Agora levanta a mão quem acha que é bem-feito. o/
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Vivendo de imagens
Aí você recebe uma daquelas propagandas de lançamento imobiliário. Como o prédio ainda não existe, eles publicam fotos virtuais, quer dizer, uma espécie de previsão de como vai ser.
Só que, é claro, as “fotos” são computação gráfica. Então, atrás do prédio, onde tem um morro, aparece a mata, ou o céu. Na rua, aparecem árvores onde não tem árvore nenhuma. No condomínio, há sempre palmeiras, nenhuma peça de roupa pendurada, nenhum brinquedo de criança esquecido na varanda…
O prospecto também mostra os ambientes interiores. Aparece a piscina: com iluminação noturna indireta, águas translúcidas de um azul safíreo (essa palavra existe?), cadeiras perfeitamente alinhadas e ninguém por perto. Na vida real, não vai ser nada disso, né. A água vai ser turva, talvez mal dê para ver o fundo, e vai ter um bocado de sujeira em volta, trazida pelo vento e pelos usuários. Vamos ver um bocado de limo e encardido entre os azulejos, a madeira vai ficar toda manchada. Então, você imagina aquela área de recreação toda arrumadinha, com todas aquelas luzes; a “cave” (que nome mais fresco para “sala de jantar”) com uma grande TV de LCD, garrafas de vinho — completamente irreal. Sempre haverá desgaste, sujeira, muita poeira depositada, desarrumação… Você imagina o cenário tal como no prospecto, com as luzes permanentemente acesas e uma certa tranquilidade no ar… Tudo falso, né. Porque, vem cá, a construtora vai pôr a TV de LCD lá? Não vai, né. Nem o vinho. Alguém vai ter que comprar. E, quando a LCD der defeito, quem é que vai consertar? Vai ficar lá, quebrado. Até porque, sabemos, aquilo que é de todos acaba sendo tratado como se não fosse de ninguém; sempre vai quebrar relativamente cedo, porque esses condôminos (ou, mais ainda, seus convidados) às vezes se comportam feito animais. Feito quem realmente são.
Aí o vídeo mostra uma “brinquedoteca”, uma lanhouse comunitária, salões de festas, “espaço teen“… Tudo muito bonito. Aí você compra, achando que vai morar num resort que já vem com tudo, praticamente uma gigantesca área de lazer, um transatlântico estacionário… Vem cá, quem é que vai ter que pagar para isso tudo ficar funcionando? Hm? E quer apostar quanto como o “espaço teen” logo vai estar com tudo quebrado, que só vai ter uma raquete (a outra vai sumir misteriosamente)… E é você quem vai ter que comprar a mesa de pingue-pongue, véi.
Aliás, uma coisa me chamou atenção. As construtoras podem dizer que estão promovendo a convivência, as pessoas se encontrando fora de suas casas, no espaço comunitário, espaço de festa de adulto, espaço de jogar poker buraco, espaço zen… É, porque dentro de casa não tem espaço, né. Nem vi o vídeo todo: ele mostra a planta dos apartamentos? Você vive fora de casa, faz festa fora de casa, criança brinca fora de casa, tudo isso porque não tem espaço DENTRO de casa. Então, você vive do lado de fora do seu apartamento, você vai usar o computador da lanhouse (valendo quanto como vai estar cheio de vírus, sem espaço em disco, cheio de pornografia, isso se tiver computador, se não for só um monte de gabinetes quebrados, de monitores quebrados, ou, então, nem isso; e ninguém vai configurar nada na instalação, vem cheio de aplicativos inúteis que o filho do vizinho é que instalou, todos aqueles aplicativos de monitoramento que ninguém nem sabe para que é que servem), você vai assistir a televisão na lanhouse (aliás, a TV só vai ficar mostrando Globo ou então Record — sim, porque quem é que vai pagar TV a cabo do condomínio? Aliás, mesmo com TV a cabo, o povo quer ver mesmo é Globo, é Record, é Band. E imagina a disputa pela escolha do que assistir, e imagina o barulho que vai ser dentro dessa lanhouse, do jeito que os jovens são, cheios de hormônios violentos)… Aliás você reparou quantas LCD esse decorador imaginou no condomínio? Quero só ver quem é que vai pagar isso. E, na “brinquedoteca”, não dou uma semana para aparecerem diversos brinquedos de plástico quebrados, boneca sem cabeça, Playmobil sem braço, carrinho sem roda, peças de quebra-cabeça de plástico espalhadas e extraviadas, bola murcha no canto. Parece que ninguém esteve na vida real, ninguém nunca viu uma sala que criança usa de verdade.
Em outra nota não relacionada, a Piraquê acaba de lançar mais um biscoito. Como sempre que a Piraquê lança um biscoito, este veio ao mundo sem alarde, sem propaganda. Com seu público cativo do Estado do Rio (existe Piraquê no resto do Brasil? Ao que eu saiba, não, né), a Piraquê nunca precisou de propaganda. Feito Monteiro Lobato com a campanha para vender seus livros (punha livro à venda na quitanda, na padaria, na farmácia), a Piraquê não põe seus biscoitos só em supermercado: você encontra biscoito Piraquê em qualquer boteco buteco, lanchonete, loja de conveniência.
Pois agora a Piraquê acabou de lançar um cream cracker amanteigado. Sabe o cream cracker da Piraquê? Aquele da embalagem vermelha-e-branca? Então. Tem os outros, né: o integral (embalagem branca), o de gergelim (embalagem verde), pois agora tem um amanteigado.
Eu detesto biscoito amanteigado. Só como casadinho por causa da goiabada; a manteiga é o preço que eu pago para comer aquela goiabada. Detesto gosto de manteiga. Não ponho manteiga na pipoca, òbviamente não ponho manteiga no pão, tenho nojo de manteiga em biscoito, no macarrão, onde quer que seja. Estranhamente, eu admito manteiga na torrada, vê se pode. Pois agora a Piraquê me lança um biscoito ostensivamente amanteigado.
Pode não ser. A embalagem bem que mostra uma colher pegando manteiga, mas pode ser só encenação. Pode ter só o gosto artificial da manteiga, e o biscoito ser até light. Mas, se for amanteigado mesmo, tenho tremores só de pensar: aquela gordura que vai ficar na mão, aquele cheiro de manteiga.
Mas eu gosto da Piraquê. Pode parecer que estou fazendo propaganda para a Piraquê, mas não estou não: para quem não é do Rio, não adianta nada ler isto aqui; para quem é, não faz diferença, porque já come biscoito Piraquê. No dia em que a fábrica da Piraquê pegar fogo, igual à da Mabel, não pense a Bauducco ou a Tostines que vai conseguir penetrar no mercado, não. Não pense a Triunfo ou a Nestlé São Luiz que vai conseguir tomar a fatia de mercado. No Rio de Janeiro, biscoito maizena, cream cracker ou goiabinha é sempre da Piraquê. Vai ser um chororô que vocês vão ver só, vai haver uma fileira de viúvas da Piraquê para chorar o morto. Queira o Grande Monstro de Espaguete Voador que isso nunca aconteça.
Vocês sabem onde é a fábrica da Piraquê? Pois fica em Turiaçu, perto de Madureira, no Rio de Janeiro. Vai lá no Google Earth e procura: 22°51’51”S 43°20’30”W.
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Um falso sinal de socorro, como tantos vemos nos episódios
É tanto spam maldito vendendo remédio, vendendo alongamento de membro, prometendo dinheiro nigeriano, prometendo dinheiro fácil para trabalho em casa, anunciando promoção, vendendo diploma… Apago todos sem olhar.
Só que os argutos olhos atozianos sempre perpassam o conteúdo de qualquer texto antes de lhe dar destino. [Pausa: essa última frase tem métrica?] Além disso, os argutos olhos atozianos alimentam um aplicativo de reconhecimento de expressões que passa correndo pelo texto sem realmente decifrá-lo, uma espécie de radar de busca que, ao detectar expressão familiar, aciona uma segunda leitura, mais precisa. Daquele tipo: “peraí, eu li isso mesmo?”
Assim foi que um dos spams malditos que recebi identificava seu emissor como Jonathan Archer.
Uquê. O capitão da NX-01! Jonathan Archer escreveu para mim! Precisa da minha ajuda em algum planeta? Precisa que eu conserte o inovador motor de dobra 5?
“Oquei,” pensei eu, dando override após a segunda leitura, “boa tentativa”. Durou menos de um segundo. E apaguei o spam maldito.
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A quem tem pouco conteúdo só resta comentar no saite alheio
Agora há pouco, visitei o saite de Jana Lauxen (pseudônimo?) e me interessei pelo livro anunciado ali. Então, escrevi-lhe este email. Como tem um poquito de conteúdo original, resolvi dividi-lo com você.
(…) Li parte do seu belogue. Há anos eu defendo seus argumentos contra o voto nulo, inclusive seu raciocínio é o mesmo meu. Sobre ser a única escolha que ainda há, sobre escolher o menos ruim, sobre escolha ruim ser melhor do que nenhuma. Em síntese eu digo aos outros: é minha vida, não vou deixar que os eleitores de cabresto, os analfabetos, os iludidos, os deslumbrados e os de má fé a decidam por mim. Cada voto contrário ao meu é um voto contrário a minha vontade, a minha vida. Então tenho que lutar contra e votar sim.
Idem seu texto sobre você colher o que plantou [embora eu discorde fundamentalmente do mau uso da Terceira Lei de Newton para exemplo, porque ela não tem nada a ver com isso]. Bàsicamente é algo em que não paro de pensar desde 1989, quando li Ilusões, de Richard Bach, que me mostrou que TUDO que acontece na minha vida é decorrência de minhas decisões, e minhas apenas. Inúmeros desdobramentos dessa ideia, inclusive o seu — afinal, são 21 anos pensando nisso, não é tudo repetição do mesmo não. Adendo: Ilusões também me trouxe as ideias de que é fìsicamente impossível forçar uma pessoa a fazer alguma coisa e de que é impossível eu fazer algo que não queira.
Idem seu texto sobre censura. Penso muito em censura. Penso muito em como a imprensa manipula a ideia de censura em interesse próprio, em como diz que tem quando não tem e em como diz que não tem quando tem.
Juízo e bom trabalho!
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Uma coisa que me irrita
… no ambiente de trabalho: de vez em quando, alguém é cobrado. “Já fez tal coisa?” E responde que não: “estou esperando que Fulano faça tal outra coisa”.
Muito cômodo, não é mesmo? O carinha não faz o que lhe cabe, nem o serviço anda, porque ele está dependendo da atuação de outra pessoa, sobre a qual não tem nenhum poder de exigir resultado.
Fico p$%o da vida com isso. É uma intencional falta de iniciativa, pràticamente uma sabotagem. O sujeito simplesmente senta em cima da tarefa, quase que esquece o assunto até ser novamente provocado, ou melhor, tangido sob vara. Pombas, sempre tem outro jeito! Sempre dá pra telefonar perguntando se o tal Fulano precisa de ajuda, ir fazendo outra coisa paralela enquanto aquela etapa não sai… (caminho crítico, alguém?). Aliás, em geral, quando a resposta de Fulano está demorando muito, pode ir atrás que você vai descobrir que Fulano nem estava sabendo que a bola estava na quadra dele. Às vezes, a mensagem nem chegou a ele; outras vezes, ele não entendeu a mensagem… Cabe a você, interessado (quer dizer: supostamente interessado, porque, quando o que se tem é preguiça, é óbvio que não há ninguém interessado), mas eu dizia, cabe ao interessado procurar Fulano, ir dando andamento ao processo, e tudo mais.
Meu pai costuma dizer, com razão, que quem “faz a sua parte” na verdade não faz. Porque só acaba quando termina: enquanto ainda houver alguma coisa para fazer, qualquer coisa, sua atuação ainda é necessária. Mesmo que a próxima etapa não seja sua, mesmo que ela dependa de outra pessoa em quem você não manda, mesmo que supostamente a “sua parte” já tenha acabado — mesmo em todas essas circunstâncias, se o serviço ainda não estiver concluído, então você ainda tem que atuar. Se o final é algo que você tem que atingir, então, enquanto você não chegou a ele, é você quem tem que atuar. Se é você quem vai ter que apresentar resultado no final, não vai adiantar dizer que “fez a sua parte” ou que “foi Fulano quem atrasou”: foi você quem não entregou resultado, e Fulano não vai ser cobrado nem tem interesse nele. A “sua parte” não é aquele pedacinho onde você consegue atuar sòzinho ou fàcilmente; ela é TUDO.
Em suma: tem que haver menos princípio da inércia e mais Geraldo Vandré.
P.S. É claro que, na época da avaliação de equipe e da concessão de aumentos remuneratórios, os preguiçosos vão reclamar que não foram contemplados, que “trabalharam muito” e não estão sendo reconhecidos… Só que “trabalhar muito”, para mim, não é ficar sentado à mesa oito horas por dia, jogando Paciência no computador refazendo tarefas porque ficaram mal feitas na primeira vez. Para mim, “trabalhar muito” é entregar os resultados esperados ou mais.
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Quem cair nesta aqui é porque MERECE
Sabe o Nigerian scam? Pois então. Muita gente já caiu, né. Muita gente. Nesta era de absoluto analfabetismo digital, muita gente continua grosseiramente pedestre em sutileza e malícia, e ainda achando que é malandro. Então, o povo continua caindo no Nigerian scam.
O golpe é simplíssimo e meu sobrinho de quatro anos já não cai nele. Funciona assim: você recebe um email em um inglês tosco, supermal escrito, de uma pessoa que começa já sabendo que o email é inesperado para você. Prossegue explicando que encontrou você após uma desesperada busca por alguém honesto e confiável e que você tem o perfil desejado. Pede completo sigilo e conta que, em seu país da África ocidental (é sempre por lá: às vezes Nigéria, às vezes Burkina Faso, às vezes Gana… o país varia), determinada pessoa caiu vítima da guerra civil (ou de bandidos, ou de acidente de avião – a circunstância é sempre trágica). Que essa vítima tinha acumulado uma fortuna gigantesca, sempre algo acima de alguns milhões de dólares. Que ninguém apareceu para reclamar o dinheiro, que o dinheiro está seguro mas sem dono em algum banco. Que essa pessoa é gerente do banco (ou de outro modo tem acesso ao dinheiro), mas não consegue sacar o dinheiro sem algumas mirabolâncias e precisa da ajuda de alguém de fora.
É aí que você entra. O estranho oferece a você um percentual vultoso (algo entre 10 e 20%) para usar a SUA conta bancária para transitar o dinheiro para fora de seu país. Às vezes, vem a garantia de que a operação toda é perfeitamente legal, mas que a ditadura, se souber, vai matar ou confiscar ou algo otherwise bem ruim. Em geral, essa garantia não vem. Frequentemente, o que vem é uma história triste, onde o estranho alega ser filho do dono da grana, às vezes até príncipe real, e que é vítima da guerra civil, já tendo perdido a família.
Enfim, a história é ótima para convencer quem já quer ser convencido mesmo, quem já tem a moral fraca e está só atrás de uma desculpa para, sendo pego com a mão no pote, poder dizer que também foi enganado. É óbvio que seria só uma desculpa, porque, conforme também já está óbvio para o gentil Leitor, o golpe está apelando para o senso de malandragem de quem só quer sidarbem. O receptor do email sabe muito bem, e percebe muito bem, que, se o dinheiro existir mesmo, só pode ter origem ilegal, e que está sendo transferido a suas mãos de maneira mais ilegal ainda.
Mas é óbvio que não existe dinheiro. O email termina pedindo seus detalhes (endereço, telefone, conta de banco) e dizendo que revelará mais após sua resposta. Insiste no pedido de sigilo.
O que ele não diz é que, quando você manifestar interesse, ele vai pedir uma grana adiantada para molhar a mão das autoridades, depois mais grana para pagar uns tributos de última hora, depois mais grana para facilitar o escoamento através do banco, depois mais grana… Captou? Como você vai receber mais de um milhão de dólares, não se importa em adiantar alguns milhares para as despesas, não é verdade? E assim a sua conta bancária vai sendo depletada, para usar uma expressão bem apropriada aqui.
Pois é. Já recebi diversas variações do Nigerian scam, cada qual mais óbvia do que a outra. Então, foi dando muita risada que acabei de receber este email:
UNITED NATIONS COMPENSATION COMMISSION, IN AFFILIATION WITH THE KOELNER
BANK DEOur Ref: WB/NF/UNCC/KB027
ATTN:Sir/Madam,
How are you today? Hope all is well with you and family?, You may not
understand why this mail came to you.We have been having a meeting for the passed 7 months which ended 2 days
ago with the secretary to the UNITED NATIONS. This email is to all the
people that have been scammed in any part of the world.The UNITED NATIONS have agreed to compensate them with the sum of
US$500,000.00.
.
This includes every foreign contractors that may have not received their
contract sum, and people that have had an unfinished transaction or
international businesses that failed due to Government problems etc.We found your name in our list and that is why we are contacting you, This
have been agreed upon and have been signed Therefore, we are happy to
inform you that an arrangement has perfectly been concluded to effect your
payment as soon as possible in our bid to be transparent.However, it is our pleasure to inform you that your ATM Card Number; 5490
9957 6302 4525 has been approved and upgraded in your favor. Meanwhile,
your Secret Pin Number will be available as soon as you confirm to us the
receipt of your ATM CARD.The ATM Card Value is $500,000.00 USD Only. You are advised that a maximum
withdrawal value of US$10,000.00 is permitted daily.And we are duly inter-switched and you can make withdrawal in any location
of the ATM Center of your choice/nearest to you any where in the world.We have also concluded delivery arrangement with our accredited courier
service Company to oversee the delivery of the ATM Card to you without any
further delay.So you are hereby advice to forward to this office Director ATM SWIFT CARD
Department. Therefore, you should send him your full Name and Telephone
number/your correct mailing address where you want him to send the ATM to
you.Contact Dr.Henry Cole, immediately for your ATM SWIFT CARD:
Person to Contact Dr.Henry Cole.
Email : dr.henrycole@mail.mn
Thanks and God bless you and your family.
Hoping to hear from you as soon as you receive your ATM Card.
Making the world a better place
Regards,
Mr. Ban Ki-moon.
Secretary General (UNITED NATIONS)
Viu só essa? É o metagolpe! É o golpe que consiste em dizer que vai indenizá-lo pelo golpe! “Ah, finalmente alguém se sensibilizou com minha perda! Alguém vai me indenizar! O maná vai cair do céu para mim!” Para esse imbecil incorrigível, que vai cair no golpe DE NOVO, não adianta nem dizer “não existe almoço de graça, ANIMAL!”
A perguntinha que fica é: se, lá no começo, ele dizia que tinha negociado com o secretário-geral da UN, como é que, no final, assina como o próprio?
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Presidente Dilma ou Presidenta Dilma? A falsa dúvida
Joguei isto agora há pouco como comentário ao belogue http://www.tradutorprofissional.com e repito aqui.
Ó Danilo, eu sempre achei que "presidente" fosse particípio presente de "presidir". “Estrela cadente", porque cai; "tenente", porque tem (tem um lugar, detém um lugar, lieu-tenant) etc. Daí que "presidente" se torna comum de dois gêneros e admite artigo masculino ou feminino, sem se queixar. "A PresidentE Fulana".
Engraçado que, quando foi a Violeta Chamorro na Nicarágua ou aquelas outras moças no Chile e na Colômbia (era Colômbia ou Venezuela?), ninguém questionou; a imprensa só dizia "presidentE Fulana". Agora que é Dilma, surgiu uma enorme novidade! Óóóóóh!
Hipócritas todos.
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Os rótulos supersimplificadores
Hoje cedo, tou eu lá no elevador, aquele papo de vizinho só esperando a hora de chegar no térreo para não ter que ouvir mais besteira, e a vizinha me conta que, de acordo com o médico de seu genro, torcer o pé é pior do que quebrar. “É mesmo?”, pergunto, “por quê?” Ela me responde que não sabe, porque não perguntou. Aí eu digo, “por que não? Eu pergunto sempre, sabe por quê? Porque, em geral, depois vou acabar tendo que responder pela coisa, então é bom conhecer bem a ideia, antes de comprá-la”.
Aí ela me pergunta se eu sou advogado.
Ora, pombas, eu não sou minha profissão! Por incrível que pareça e a despeito do que falam de mim, eu sou (infelizmente) um ser humano, com toda uma formação, experiências, gostos diversos, já li sobre todo tipo de assunto, já viajei a alguns lugares, já vi vários filmes, li vários livros, e só trabalho durante dez das 24 horas do dia. O resto do tempo eu passo fazendo outras coisas. Sei fazer ovo frito, sei instalar um drive de CD com conector SATA, sei comandar rolamento num Cessna 172, e fico um tanto ofendido com essa abordagem minimalista e, principalmente, rotuladora: “você pensa assim, logo você é advogado”. “Você sabe que máquina de calcular também erra, logo você é engenheiro”. Essa última veio do professor de Contabilidade, que, aliás, não é contador e, portanto, devia saber como dói o rótulo.
Pois saiba a Dona Vizinha que eu comecei a pensar assim mais ou menos no tempo do pré-vestibular e que o que sedimentou esse pensamento foi o serviço militar, onde regularmente te chamam à responsabilidade, de modo que você logo aprende que devia ter feito várias perguntas antes de abraçar a missão porque, depois, quem vai ter que respondê-las é você. Não é à toa que, ao fim de uma instrução, o instrutor sempre pergunta, bem alto e demarcado, “Dúvi-DÁS?” e não há vergonha nenhuma em responder “Sim, SeNHOR!” Não é burrice, é prevenção e, acredite, isso não é mal visto. Porque, depois, já não é dúvida, é dívida. E pode ter certeza de que alguns superiores têm um desejo secreto de que nenhum subordinado queira ser aquela única voz a dizer “sim, senhor”, porque aí vão poder cair em cima depois, sabendo, de antemão, que a missão é muito mais difícil do que parece. Alguns, não todos.
Aliás, esta tem sido uma política de grande sucesso na minha vida e contribui, em muito, para reduzir minha responsabilidade sob a aparência de aumentá-la: sempre pergunto tudo que não entendi. Prefiro, sim, passar por burrão uma vez, ser aquele único cara que não entendeu. Porque a verdade é que tem muito mais gente que também não entendeu e que está morrendo de vergonha de perguntar; aliás, não sabe nem que pergunta fazer, porque entendeu ainda menos do que eu. Como diz meu pai: o sinal de inteligência não está tanto em responder certo quanto em perguntar certo. Só tem dúvida quem entendeu alguma coisa; quem não entendeu nada não tem nada a perguntar. Então, não vou ficar inerte feito os demais idiotas; como dizia Titio Roquete, “cobra que não se mexe não engole sapo”. Se eu pergunto, pelo menos eu saio dali sabendo alguma coisa; dos outros não sei.
Então, vou eventualmente passar por burrão uma vez (ou nem isso), mas vai ser a última vez, porque, daquele ponto em diante, serei aquele cara que sabe e nunca mais perguntarei aquilo. Essencialmente, mudarei de lado. Desse jeito é que pergunto tudo: pergunto ao médico, porque preciso saber o que fiz que me causou o problema; pergunto à chefe, porque depois vou ter que trazer resultados, então preciso entender bem o que ela espera de mim; pergunto ao professor, porque vou fazer prova e preciso saber como ele pensa; pergunto ao vendedor, porque quem vai ficar com um produto que afinal não me atende sou eu.
É claro que, às vezes, minha pergunta, feita com toda a boa fé (juro!), pode acabar, sem querer, desmascarando a ignorância de quem estava lá bostejando na esperança de ninguém perceber. Aí eu pergunto e o cara se irrita. Felizmente, com o correr dos anos fui aprendendo a detectar, bem cedo, quando é que o falsário não sabe do que está falando, e aí nem perguntar nada, ou só perguntar uma vez para já entender o que está acontecendo.
E isso mostra que sou advogado? Se mostra, então quem não entendeu nada fui eu. Há quem me diga que advogado é assim mesmo, questionador, sempre se insurgindo contra as regras, sempre combativo. Ora, mas eu só pergunto! Raramente começo ou sequer termino dizendo que “está errado”, raramente digo que não vou cumprir a regra. Ao contrário: no meu tempo de vida já encontrei vários advogados idiotas, muitos dos quais se limitam ao positivismo míope de que “está escrito, então tem que cumprir”, como se a regra fosse uma espécie de inevitabilidade sagrada, escrita na pedra, a ser fiscalizada por um ser onisciente que vai derramar enxofre e cinzas sobre quem for pego mijando fora do penico. Aliás, mais comuns são aqueles que pensam que as leis se cumprem sòzinhas, como se não fosse necessária uma vontade e uma atuação humanas para as regras se materializarem. O cara acha que, só porque alguém, sei lá, cometeu alguma improbidade funcional, automàticamente vai estar demitido do serviço público no dia seguinte, por milagre, ignorando o fato de que ainda é necessário (1) ser pego, (2) haver provas, (3) seguir-se um processo administrativo etc. etc. Ou, então, assim: “põe aí uma cláusula de que eles prometem que, se houver desconto, vão ter que devolver o dinheiro”. “Tá. Mas, e se não devolverem? As pessoas fazem o que querem mesmo, você sabe. E aí como faremos para cobrarmos? Aliás, como faremos para sequer descobrirmos que descumpriram?”.” “Ah, não, mas aí vão estar descumprindo, e aí não pode! Então, põe aí a cláusula, que vai dar tudo certo”, como se a outra parte morresse de medo de descumprir o contrato por, com isso, incorrer na ira do Olimpo. Como se, a partir daí, o cara, que não ia pagar, passasse a ter a iniciativa de pagar, só porque eu disse que é feio se omitir, mesmo sabendo que eu não tenho como fiscalizá-lo.
Fico revoltado com isso. Eu construo minha personalidade a duras penas, sendo elogiado e censurado, pagando em dinheiro ou em credibilidade, tomando decisões difíceis, observando os resultados, tentando fazer melhor na vez seguinte, incorporando a experiência – e Dona Vizinha simplifica tudo sob o abrangente rótulo de que é porque sou advogado. Eu não sou o que eu faço! Eu sou eu, eu sou muito mais do que minha carteira da Ordem!
Quinem a velha a quem ofereci lugar no ônibus. Na época, eu estava no Exército, mas, naquele dia, estava sem farda. “Você é militar, né?” “Sim, senhora, como percebeu?” “É que foi tão educado…” Ah, p#$%a, TNC a velha! Meus pais não me deram educação, não? Teve que ser o Exército? If anything, o Exército me ensinou que as praças deveriam ser tratadas como uma espécie de sub-estrato que não merece respeito, contrariando tudo que aprendi em casa sobre profissionalismo e urbanidade. Mais de um soldado me disse ter ficado espantado que eu os tratasse feito gente. Voticontar, não é fácil nem intuitivo ter que tratar por “você” um sargento com o dobro da minha idade.
Mas, enfim, tudo isso são apenas rabugices, não é verdade? Eu devo ser é um covarde, que vim resmungar aqui em vez de espinafrar Dona Vizinha.
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DC annotations, January 1994
Superman: the Man of Steel #29 (Jan 1994), page 15 (as translated in Brazil in Super-Homem no. 128), panel 1, shows a lighted panel with the name “Mignola” on it. This is certainly a reference to penciller Mike Mignola, who had worked on Superman before.
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Quem copia-e-cola tem consciência cívica?
Vários dias atrás, saiu no El País que houvera um incêndio em um depósito na Nova Zelândia. Em decorrência do sinistro, havia sido perdido o equipamento destinado à filmagem de O Hobbit — que é aquela prequel do Senhor dos Anéis, tão aguardada pelos fãs dos livros. Uma pena.
Poucos dias depois disso, saiu nO Globo On que a Warner havia autorizado a execução do filme. Só. Meu primeiro pensamento foi que a Warner estava atrasada, “será que não sabem do incêndio?” Meu segundo pensamento foi que, se o jornalista dO Globo On tivesse tido alguma proatividade (é junto ou separado?) e querido agregar valorTM à reportagem, teria ressalvado o incêndio e comentado que a filmagem não fosse (“fosse” do verbo “ir”, acerte aí a gramática) … que não fosse acontecer tão cedo. Mas assim não fez. Não fez porque, tal como tenho constatado, cada vez mais este é um País de repassadores, de gente que, quando pergunto detalhes do que me entregam, responde com a clássica frase “aaah, não sei, estou só repassando”. São situações onde o intermediário não contribui; ao contrário, só retarda o processo. É só mais um consumindo recursos, então a vontade que me dá é de suprimi-lo, de tirar uma etapa que não acrescenta nada, de enxugar o procedimento, de ir direto na fonte onde se originou a informação que está sendo repassada.
E meu ódio cresce, sabe? Porque eu não simplesmente-repasso nada. Se me vejo intermediário em algum processo, logo crio meu próprio filtro, tento eu mesmo entender antes de mandar adiante, torno-me substituto da etapa anterior, não passo adiante enquanto não vier certo a mim. Assim no ambiente de trabalho, assim em tudo.
Eu não ia escrever sobre nada disso, mas, no domingo, 10/10/2010, deparei-me com notícia, aliás no mesmo Globo On, sobre evento de aviação em Santa Maria (cidade que abriga uma base da FAB de onde decolam AMX). Um dos parágrafos terminava assim:
Trata-se do maior evento aeronáutico da Região Sul do Brasil, que tem por objetivo incentivar a mentalidade aeronáutica e despertar a consciência cívica para o papel da Força Aérea Brasileira.
Mais adiante,
Durante o show aéreo, o público tem a oportunidade de conhecer as aeronaves militares e os demais equipamentos aéreos disponíveis, além do adestramento operacional do efetivo.
Na verdade, o que primeiro me chamou atenção foi esse “adestramento operacional do efetivo”. Esse linguajar lhe parece estranho? No mínimo incomum, não? Pois é. A mim não, porque o conheço bem. Essa forma de expressão é típica de nossos militares. Não gosto dela: é artificial, veiculando uma erudição que em geral não está presente. Mas isso não importa agora. O que importa é que jornalista não escreve assim; militar é que escreve. Outros exemplos são as expressões “tem por objetivo” (que militar sempre usa na abertura de qualquer texto sobre algum evento, como se fosse uma locução verbal), “mentalidade aeronáutica” e “consciência cívica”. Tenha certeza de que, toda vez que militar faz uma ACISO (ação cívico-social), vão aparecer essas palavras. A exposição é gratuita, mas tem sempre o propósito de aproximar o público civil (e não vejo problema nenhum nisso). Então, no contexto, “mentalidade aeronáutica” será aquele ânimo, incutido no jovem, de ele se manter pensando nas coisas da aviação militar, para mais tarde ingressar nos quadros da Força. Já “consciência cívica” é outra expressão-chave, de significado meio difuso, mas sempre ligado àquele positivismo nacionalista com o qual o indivíduo se sente, de algum modo, ligado a uma Pátria, cheio de deveres. Militares usam muito a palavra “cívica” para cerimônias que eles executam mas às quais o público civil também comparece. Tudo muito bonito, mas eu como meu chapéu se o jornalista tiver concebido esses termos ele mesmo. E olha que nem tenho um chapéu.
Você já entendeu o que houve, né? Essa é mais uma ocorrência do clássico copia-e-cola. Quando copiei o texto para vir comentá-lo aqui, a página dO Globo On mandou o popup de sempre: “é proibido copiar este texto para fins comerciais, senão você vai ser processado, preso e chicoteado” etc. e tal. Só que isso foi exatamente o que fizeram com o press release da Força Aérea! ObÒviamente, o estagiário (sempre ele, não é verdade?) …o estagiário deu um básico copia-e-cola no texto da FAB. Provàvelmente nem sabe o que é adestramento nem o que é efetivo.
Em tempo: no contexto, “efetivo” é o pessoal da Força Aérea. O evento serviria para demonstrar o quanto estivessem bem treinados.
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De leis e salsichas
O Código de Processo Civil, artigos 267 e 269, diferencia as sentenças judiciais em dois tipos: terminativas (art 267) e definitivas (art 269). Mediante uma sentença terminativa, o juiz decide que o caso não pode ser julgado por alguma de diversas razões: ou porque o processo é repetição de outro igual, que já está tramitando ou até já foi decidido (é o que se chama, respectivamente, litispendência e coisa julgada), ou porque é juridicamente impossível atender ao pedido (p.ex. se o pedido é de que o juiz condene o réu a entregar uma parte de seu corpo), ou porque o autor (a pessoa que iniciou o processo) desistiu do pedido, ou por qualquer uma de diversas outras razões mencionadas pelo mesmo artigo.
Já em uma sentença definitiva, diz-se que o juiz resolve o mérito da ação, ou seja, resolve-se a questão. Em geral, o juiz decide (“julga”) o mérito, mas há casos onde o mérito se resolve sem que o juiz decida. Por exemplo: autor e réu entram em um acordo, que é homologado (ou seja, o juiz verifica que o acordo não contraria a lei, mas não se ocupa mais de ver quem tinha razão antes dele). Ocorre outro exemplo de resolução sem julgamento do mérito quando o juiz declara que o direito do autor, se existia, está prescrito (ou seja, tanto tempo já se passou que, por lei, não pode mais ser cobrado). Também neste caso, o juiz não precisa verificar se o direito existia ou não.
A diferença não é meramente acadêmica. No caso das sentenças definitivas, se não houver recurso, o que vai ficar estabelecido será o que constar da sentença, que o réu vai ter que cumprir. No caso das terminativas, não há nada a ser cumprido e, em alguns casos, o autor pode propor novamente a mesma ação, já que a questão ainda não ficou resolvida. Também são diferentes os rumos que o processo pode tomar dependendo de a sentença ter sido de um tipo ou do outro.
Até 2005, os artigos 267 e 269 tinham a seguinte redação:
Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito:
(seguem-se as hipóteses)
Art. 269. Extingue-se o processo com julgamento de mérito:
(idem)
Conforme se vê do que eu disse acima, a palavra “julgamento” não era apropriada, porque havia casos onde havia resolução do mérito sem que houvesse seu julgamento.
Então, em 22/12/2005, foi sancionada a lei 11.232, que, alterando diversas passagens do Código, deu a esses dois artigos suas formas atuais:
Art. 267. Extingue-se o processo, sem resolução de mérito: (…)
Art. 269. Haverá resolução de mérito: (…)
A redação atual parece-me adequada. Mesmo assim, desde que tive meu primeiro contato com ela, fiquei curioso: após 32 anos de vigência do CPC, quais teriam sido as razões do legislador para adequar o texto? Será que algum deputado se deu conta da impropriedade da redação original e propôs a alteração? Será que algum professor de Direito processual integrou a comissão que redigiu o anteprojeto da lei 11.232?
Então, na noite de 3 de outubro, enquanto o Brasil inteiro acompanhava ansioso a consumação da catástrofe apuração dos votos da eleição, eu gastava meu tempo de modo igualmente inútil porém mais divertido, investigando, nos saites do Congresso Nacional, a tramitação do projeto que se tornaria a lei 11.232. Lá, normalmente, você encontra muito do que aconteceu na evolução dos projetos de lei: por onde passaram, quais comissões examinaram, justificativas e conteúdo das emendas, conteúdo dos pareceres e outras perdas de tempo.
Tudo começou com um anteprojeto de lei apresentado ao ministro da justiça. Esse anteprojeto foi acompanhado pela exposição de motivos EM no. 00034–MJ, que apresentava as razões que o justificavam. O texto desse anteprojeto não alterava os artigos 267 e 269 do Código, nem a Exposição de Motivos tocava no assunto deles.
Então, o anteprojeto chegou ao presidente da república. Com a palavra, a Constituição da República:
Art. 64. A discussão e votação dos projetos de lei de iniciativa do Presidente da República, (…) terão início na Câmara dos Deputados.
Portanto, na sequência, o presidente encaminhou o anteprojeto à Câmara dos Deputados, que o numerou como o projeto de lei 3253/2004. Até ser aprovado pela Câmara, esse PL sofreu emendas. Certamente eu encontraria a emenda que lhe inseriu o artigo mediante o qual se alterava a redação dos artigos 267 e 269 do CPC.
Não achei tal emenda. Aliás, a redação final do PL 3253, conforme a Câmara a aprovou, não menciona alguma alteração dos artigos 267 e 269. E, com essa aprovação pela Câmara, passa-se à etapa seguinte, determinada pela Constituição:
Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, (…)
A tramitação do PL na Câmara pràticamente termina em sua remessa ao Senado em 05/08/2004. Depois disso, o único lançamento é de 22/12/2005, comunicando sua transformação na lei 11.232, o que implica que, nesse 1 ano, 4 meses e 17 dias de diferença, havia sido aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente da república. Porque, continuando a ler a Constituição,
Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, (…)
Aí, pensei, peraí! Se o texto do PL aprovado pela Câmara não alterava os artigos 267 e 269, e a lei altera, é que, no meio do caminho, houve alteração ao texto por parte do Senado.
Então, toca a procurar os andamentos no saite do Senado, onde você descobre que o PL 3253 foi denominado Projeto de Lei da Câmara 52/2004. Verificando a tramitação, encontrei o parecer do relator, comentando catorze emendas ao PLC 52 oferecidas por senadores (embora o saite não identifique quem ofereceu o quê). Entre elas, as emendas 3–CCJ e 4–CCJ propunham alteração dos artigos 267 e 269, e o parecer concordava com elas nos seguintes termos:
(…) a alteração do art. 269 é bastante pertinente, pois revela a possibilidade de julgamento do mérito sem que o processo se tenha encerrado, como pode ocorrer em decisão interlocutória (…) ou em decisão monocrática de relator (…). Todavia, cabem duas ressalvas:
1ª) já que se pretende alterar a redação, seria de boa técnica seguir a orientação de ADROALDO FURTADO FABRÍCIO e empregar a terminologia “resolução de mérito”: “… a expressão ‘resolução de mérito’ traduziria melhor a idéia que aí se contém do que a locução utilizada. Com efeito, aí [art. 269 do CPC] se agrupam duas classes bem distintas de sentenças: as que efetivamente contêm julgamento, verdadeira heterocomposição jurisdicional do litígio, e as limitadas à constatação e certificação de seu desaparecimento por ato de parte ou das partes” (Extinção do processo e mérito da causa, in Saneamento do processo, p. 20);
2ª) para manter a coerência e a harmonia da reforma, seria também de boa técnica alterar a redação do art. 267 do CPC, pois não há sentido alterar um e manter o outro, visto que são simétricos.
Pronto! Está aí o motivo que eu buscava: o Senado seguiu a opinião do famoso processualista Adroaldo F. Fabrício (à qual aderem outros ilustres Autores, como o Prof Alexandre F. Câmara — q.v. Lições de Direito processual civil, 7. ed., v. I, p. 374-375) no sentido de adequar o texto do Código ao que realmente acontece no processo.
Em 07/12/2005, foram aprovados o PLC 52, aquelas catorze emendas do Senado e, no dia seguinte, a redação final que decorria de tudo isso.
Recapitulemos: o anteprojeto do ministro da justiça se transformou no PL 3253 do presidente da república, que foi emendado e aprovado pela Câmara, e no PLC 52, que foi assim emendado novamente e aprovado pelo Senado. Vejamos o que diz a Constituição a respeito dessa situação.
Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, ou arquivado, se o rejeitar.
Parágrafo único. Sendo o projeto emendado, voltará à Casa iniciadora.
Art. 64. (…) § 3o. A apreciação das emendas do Senado Federal pela Câmara dos Deputados far-se-á no prazo de dez dias (…).
Mas… mas… do Senado, o texto final foi encaminhado a sanção presidencial em 14/12/2005. Houve até ofício do Senado à Câmara no mesmo dia, “comunicando a aprovação, em revisão, do presente Projeto e o seu encaminhamento à sanção presidencial”.
Não era para ter voltado?! Você leu: a Constituição é taxativa quanto a isso, não prevendo exceções. Mesmo assim, fui aos Regimentos Internos do Congresso Nacional e da Câmara dos Deputados, na esperança de que o texto constitucional tivesse alguma brecha à interpretação e de que esses regimentos se aproveitassem dela. Mas não tem, nem se aproveitam. (O regimento do Senado nem olhei, porque ou aprova ou não aprova o procedimento adotado. Se aprova, não importa, porque quem se prejudica é a Câmara, não ele; e um velho brocardo jurídico é o de que a ninguém aproveita sua própria torpeza).
Espremendo o céLebro, encontrei uma possibilidade mediante a qual o procedimento do Senado tenha sido aceitável: neste caso, quem iniciou o processo legislativo foi o presidente da república. Com isso, não houve “Casa iniciadora”, como há nas vezes em que o processo começa com projeto de lei de autoria de algum parlamentar. Mas não sei se é isso.
O PLC 52 foi sancionado pelo presidente da república em 22/12/2005, convertendo-se na lei 11.232. Por mais que Fabrício, Câmara e eu concordemos com as emendas 3–CCJ e 4–CCJ, nenhuma medida corretiva foi tomada quanto às aprovações daquelas catorze emendas, que nunca foram submetidas à Câmara dos Deputados.
Depois, o próprio saite do Senado revela que houve a ação direta de inconstitucionalidade no. 3740, proposta perante o Supremo Tribunal Federal para que se declarassem nulos alguns artigos trazidos ao CPC pela lei 11.232. Pensei, finalmente alguém se insurgiu! Alguém percebeu que a Câmara não fôra ouvida e que, portanto, são inválidos os artigos da lei 11.232 que decorrem de emendas senatoriais…
Mas não. No saite do STF, encontrei a petição inicial da ADIn 3740, apresentada pelo Conselho Federal da OAB. O documento ataca algumas alterações trazidas pela lei 11.232 que, no entendimento da OAB, violam certas garantias relativas a decisões judiciais. Entretanto, nenhuma menção é feita ao descumprimento do trâmite previsto pela Constituição.
Pelo que li até agora e ressalvado o parágrafo acima onde dou interpretação restritiva à expressão “Casa iniciadora”, estou entendendo que o Senado Federal tenha violado o processo legislativo, deixando de submeter à Câmara o projeto de lei que aprovara com emendas. Também estou entendendo que a Câmara tenha comido mosca e que, de dezembro de 2005 até agora, tenham vigorado certos artigos do Código de Processo Civil que não seguiram o processo que lhes daria legitimidade. Em outras palavras: a lei 11.232 é inconstitucional em tudo aquilo que a Câmara não teve oportunidade de apreciar e, portanto, são inconstitucionais alguns artigos atuais do CPC (e não apenas as redações atuais dos artigos 267 e 269) quanto à forma seguida para sua promulgação.
Posso perguntar-me o porquê de tudo isso. Terá sido negligência? Terá sido intencional? Haverá alguma alteração do Senado que não se quisesse potencialmente rejeitada pela Câmara? Não sei. Tudo que sei é que permanece válida a velha máxima sobre as leis e as salsichas, erroneamente atribuída a Bismarck.
Ou não. Quem encontrar falha nas minhas premissas ou no meu raciocínio, por favor, avise-me, que vai me deixar mais tranquilo.
[Apideite do apedeuta em 04/10/2010: aparentemente, isso vem acontecendo direto. Fui fazer uma pesquisa rasteira, andando para trás no tempo, e encontrei a tramitação da lei 12.304/2010, que autoriza o Poder Executivo a criar a Pré-Sal Petróleo S.A. Foi a mesma coisa: depois que saiu da Câmara dos Deputados, o projeto de lei sofreu uma emenda no Senado, ganhou nova redação e foi a sanção sem voltar à Casa de onde saíra. Eu poderia pensar que fosse um grande complô conspiratório para minar a autoridade da Câmara, mas estou mais inclinado a acreditar que seja mera desídia neste país de repassadores, de gente desatenta que não está nem aí pra nada.
Além disso, em debate com uma colega, percebi que não tem jeito, é inconstitucional mesmo. Veja a redação da Constituição, artigo 64, que reproduzi aqui em cima: a iniciativa pode ser do presidente da república, mas o início é mesmo na Câmara dos Deputados.]
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Comentários recentes
Só para minha própria referência de minha participação na Web, porque deixo comentários por aí e depois não lembro.
http://www.amazon.com/review/R1QC9PWSHV709H/ref=cm_cr_pr_cmt?ie=UTF8&ASIN=0671536095&nodeID=#wasThisHelpful (onde respondi a uma resenha)
http://www.baxt.net/blog/2010/04/13/seria-muito-seria/#comment-27779
http://www.baxt.net/blog/2010/04/21/o-conhecimento-da-ignorancia/#comment-27791
http://www.baxt.net/blog/2010/07/05/mordendo-a-lingua-parto/#comment-27831
http://www.baxt.net/blog/2010/08/10/como-foi-o-seu-parto-le-ai/#comment-27916
http://www.baxt.net/blog/2010/09/15/as-pessoas-mal-informadas/#comment-27986
https://www.blogger.com/comment.g?blogID=1486619705951395295&postID=1605094035426037004 01/08/10, 02:59 h.
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452818
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452820
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452823
http://www.interney.net/blogs/lll/2010/09/09/ideologia/#c642135: “em princípio, o crente-na-ideologia não está mentindo. A ideologia surge quando o sujeito vê a vida a sua volta, só conhece isso, então acha óbvio, e acaba gerando alguma explicação que acomode esse óbvio. // Lembra quando você discutiu o cabimento daquela frase ‘Alex, você está fora da realidade’ ? Aquele discussão foi ótima e tem TUDO a ver com isto aqui, não acha? Minha ideologia é a expressão do que é minha ‘realidade’.”
http://www.interney.net/blogs/lll/2010/09/09/termotecnico/#c642141: “Uma vez eu defendia dissert. de mestrado. Virou um membro da banca e perguntou de que fonte eu tinha tirado determinada tabela. // Fiquei olhando pro cara, tentando entender se a pergunta era mesmo o que eu pensava que fosse, quando meu orientador foi mais rápido: // — Foi ele mesmo que calculou a tabela, ué. // E pior que tinha sido mesmo. Tinha dado um trabalhão! // Pois, né, se não indiquei a fonte… é que fui eu! Raios! // (Detesto quando as pessoas, na falta de atribuição de crédito, presumem que o autor NÃO seja eu.)
http://www.interney.net/blogs/lll/2010/10/02/por_que_tantos_brasileiros_pobres_e_anal_2/#c652528
http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=592&view=findpost&p=67018
http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=5094&view=findpost&p=67019
http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=177&view=findpost&p=67021
http://forums.hiddenfrontier.com/index.php?showtopic=10711&st=240&gopid=271392&#entry271392 e concordo com a opinião logo acima da minha.
http://diariodeumdoentedosnervos.blogspot.com/2010/09/porque-as-pessoas-sao-pobres.html?showComment=1284700320376#c8660850505015023791: “O mais interessante é que o título da postagem fica mais correto, e faz mais sentido, do que se fosse ‘por que as pessoas são pobres’. Mesmo que possa ter sido sem querer. // Eu sempre soube que apartamento, comprado novo, tendia a desvalorizar, igual carro. Se compro, compro APESAR do que vai acontecer ao valor, e não POR CAUSA do que vai acontecer ao valor. // Mas as pessoas nunca fazem conta mesmo. Nunca raciocinam objetivamente sobre o que vão fazer a seu dinheiro. As decisões de investimento deveriam ser as mais frias, mais maquiavélicas, objetivas, Realpolitik, pragmáticas. Mas são as mais emocionais. Cheio de pesquisa pra dizer isso, mas nem precisava.”
O princípio da anualidade fazia sentido na medida em que o Direito tributário era subdivisão do Direito financeiro, conforme explicitado pela CF/1946, artigo 5o., que menciona o Direito financeiro mas não menciona o tributário. O próprio CTN, de 1966, cita esse artigo como a norma da qual extrai sua constitucionalidade. Naquele tempo, o planejamento tributário do Estado estava inserido na composição orçamentária (era a parte onde o dinheiro entrava), e o Direito tributário era compreendido como estando a serviço da composição do orçamento. Quando o Direito tributário ganhou autonomia, deixou de haver um ‘planejamento anual dos tributos’ e o princípio da anualidade desapareceu. Apesar disso, o Direito tributário é tratado como metade do curso de Direito financeiro na UERJ. (30/08/2010, 21:19 h)
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Propulsão de dobra com uma nacele a menos
Advirto ao preclaro Leitor que este texto só faz sentido para trekkers. Quem não for trekker também pode ter a aprender, mas não se espante se não souber do que estou falando.
Recentemente, minha colega Leila Kalomi consultou-me a respeito de propulsão de dobra, que é a utilizada pelas naves de Jornada nas Estrelas. Considerei que nossa troca de emails poderia ser guardada para referência futura, não só por nós dois, mas por eventuais googladores. Então, com autorização dela, segue abaixo.
1 – Sei que é possível uma nave voar(?) com apenas uma nacele, mas qual seria o desempenho da que está funcionando? 50%? Seria possível uma velocidade de dobra muito grande?
Se uma nave foi feita para voar com duas naceles, em princípio ela não será capaz de voar com uma só. Para dar forma ao campo de dobra, ela precisa da configuração das duas. Com uma só nacele, o campo será só o campo gerado por ela, que é assimétrico, incompleto. Só seria simétrico se tivesse as duas. É diferente do caso de quando a nave já foi feita para voar com uma nacele só.
Os detalhes por trás vêm daqui: http://www.ex-astris-scientia.org/treknology/treknology-w.htm (… descer até Warp nacelle).
É claro, isso sou eu deduzindo. Ou inventando. O bom da treknologia é que é igual a Direito: cada um diz uma coisa, porque ninguém sabe nada. E todas as versões são aceitáveis, porque você não tem um paradigma “real” para contrastar.
2 – Em teoria, seria o seguinte: a nacele danificada está com um rombo. Daí, deduzo que o combustível deve vazar, certo? Seria possível criar um campo de força para conter esse vazamento?
Não é o combustível que está vazando. É plasma de dobra (isso, pelo menos, é certo; já foi falado diversas vezes em DS9/Voyager). Se você pegar o capítulo 5 do ST:TNG Tech Manual, o plasma de dobra é o que resulta quando você combina matéria e antimatéria no reator de dobra.
Esse vazamento pode ser contido por um campo de força, porque estamos tratando de um gás quente a ser recolhido no espaço como tantas vezes se faz, tanto para recolher como para evitar que entre ou saia de algum lugar. Por exemplo, os extintores de incêndio de bordo funcionam assim: bloqueiam o acesso do oxigênio ao fogo por meio de um campo de força local. Também as portas dos hangares da Enterprise-D têm um campo de força para evitar que o ar escape, mantendo as portas abertas com atmosfera lá dentro. Outros exemplos: em Generations, o campo de força que evita a despressurização na Enterprise-B, permitindo que Scott e Chekov fiquem perto do rombo no casco; e em First Contact, quando Pituquinha abre uma escotilha e mostra a Lily Sloane que é uma longa queda até Montana.
Mas não seria desejável conter o plasma de dobra que vazou. Ele é muito quente, e qualquer nave que esteja vazando plasma de dobra está arriscada a uma falha de contenção em pouco tempo. O ideal é interromper o vazamento o mais cedo possível e deixar que o plasma já vazado se perca no espaço — que é o que eles costumam fazer se você reparar. Para interromper o vazamento, há de se parar a produção do plasma (i.e. desligar o reator) e fechar o buraco.
Você pode pensar em usar um campo de força para “tapar o buraco”, mas isso equivale a tomar remédio para diarreia. O objetivo não é segurar dentro de você aquilo que é ruim. O objetivo é deixar ir embora e parar de produzir mais — ou seja, desligar o reator (assim parando de produzir mais), deixar o plasma escapar evacuando os conduítes, e fechar os conduítes, ou com campo de força ou com algum anteparo. Eu presumo que as naves sejam equipadas nesse sentido, de preferência com anteparos porque não gastam energia para se manterem.
3 – Em caso afirmativo, como seria esse campo de contenção? Alguma ideia?
Os campos de contenção são os mesmos campos de contenção que são usados para muita coisa. Existem dois tipos: os gravitacionais e os magnéticos. Os gravitacionais são os campos obtidos por geração artificial de gravidade; são campos de gravidade, mais intensos ou menos intensos, gerados pela nave com tecnologia que só foi inventada em algum momento lá pela década de 2060. É a mesma tecnologia dos diversos campos de força que servem como barreiras ou suportes, p.ex. o SIF (Structural Integrity Field), que ajuda a manter a nave inteira durante manobras; o IDS (Inertial Damping System), que segura os ocupantes para eles não virarem pizza quando a nave acelera; o defletor navegacional; os escudos; e o raio trator.
Já os campos magnéticos — que me parecem os mais indicados no seu caso — são tecnologia das décadas de 1940-1960. São campos que contêm, feito garrafas, a matéria que quer escapar feito um gás. São exemplos o campo de contenção do teletransporte e o campo de contenção de plasma de dobra (que é gerado dentro do reator e dos conduítes para evitar contato do plasma com as paredes).
Campos gravitacionais também serviriam no seu caso, mas eles são mais indicados para objetos sólidos e força bruta. Para controles refinados e objetos fluidos, campos magnéticos são mais apropriados. Especialmente se for plasma, por razões que a Física do século 20 explica perfeitamente: o plasma é eletricamente carregado, e todo campo magnético só se presta a aprisionar um gás se ele estiver eletricamente carregado.
Não acredito que, passados dezesseis anos, eu ainda consiga dizer tanta bobagem com coerência e, pior, dominando o assunto. Eu e Senhora temos assistido a episódios feitos por fãs e, de vez em quando, algum personagem manda uma dessas, tipo assim: “vai ter que trocar os injetores de plasma”, ao que eu digo na hora para ela: “pô, mas essa manutenção é demorada pra burro, vai ter que estacionar numa base estelar para fazer o serviço, e ainda vai ter que calibrar os injetores novos”. Em seguida, o outro personagem responde: “mas isso só vai poder ser feito na base tal, e vamos ter que chamar alguém que entenda da calibração necessária”. Ela só fica me olhando enquanto eu digo, “eu não disse?” [Atualização: ontem, estávamos vendo o primeiro episódio de Star Trek: Odyssey. Uma romulana sugere a adaptação de um quantum slipstream drive em uma nave romulana. Pensei, isso não pode, porque vai interagir com a singularidade quântica que os romulanos usam para propulsão. Dito e feito: ato contínuo, o Ten.-Cte. Aster responde exatamente o que pensei.]
4 – Uma pequena dúvida: é possível entrar dentro de uma nacele com ela funcionando ou é hermeticamente fechada?
Com ela funcionando não pode. O plasma de dobra é mais quente do que palpite comprado para o páreo armado da corrida de cavalos. Vaporiza a vítima em menos tempo do que leva uma multidão de trekkers famintos para esgotar o estoque de fotografias autografadas que o Nimoy levou para a convenção.
Mas, com a nacele desligada, pelo menos nas classes Galaxy e Sovereign, você pode até entrar nela — conforme visto em “Eye of the Beholder” (http://stng.36el.com/st-tng/episodes/270.html).
De todo modo, não é hermeticamente fechada. Existe um escapamento de plasma “gasto” através das laterais, que é o que permite rastrear a nave através do espaço. Mas aí é só saída, não serve de entrada.
Vista interna de uma nacele da classe Sovereign: http://www.ex-astris-scientia.org/scans/sovereign-nacelle.jpg
5 – Mais uma vez você dá mostras que o seu intelecto continua afiado. Vou explicar a situação e, quem sabe, você me ajuda a sair da sinuca de bico em que me meti. [Seguem-se detalhes da história que está escrevendo.] (…) Uma nave da classe Excelsior está dentro da Zona Neutra Romulana por uma série de fatores. Uma Warbird descobre a dita nave[, que] tem a nacele esquerda atingida. Acontecem alguns fatos e ela acaba por se livrar da Warbird, mas ainda está dentro da ZN e ela precisa urgentemente sair de lá. A minha pobre ignorância já tinha pensando a respeito de um campo de contenção e a sua resposta 2 vai de encontro àquilo que tinha intuído, mas tinha partido da seguinte teoria: ora, se um avião pode voar com apenas um motor, por que não uma nave? Terei de repensar isso. Estou encalacrada no seguinte ponto da história: o engenheiro-chefe pensou em usar o feixe de teletransporte para criar um campo de contenção para que o plasma não se perca. Ele pensa em mandar o plasma através do transporte e ao mesmo tempo criaria um campo que serviria de contenção e assim poderia aumentar a velocidade de dobra, pois, do jeito que a nave está, vai demorar uns seis meses pra sair da ZN e claro, não seria lá muito prudente passar seis meses sendo perseguidos pelos romulanos. Deu pra entender? Please, be free para publicar onde quiser. Quem sabe alguém também não dá um pitaco que ajude?
Depois dessa última pergunta, discutimos o tema ao telefone, e recrutei auxílio de meu primo, meu irmão Leandro M. Pinto, que deu uma excelente sugestão: pode-se conjugar uma certa quantidade de naves auxiliares e fazê-las ocupar o lugar da nacele faltante. Nas palavras dele no Twitter,
Outra opção é tecnoblabar os shuttles na posição da nacele perdida e utilizar as deles para complementar o campo de dobra da nave
Legal é que a solução encontrada dá para ser escrita de maneira bem dramática – pilotos coordenando esforços com a nave, etc.
O lance é o seguinte: nada disso existe, certo? Nada disso existe. Mas já existe um bocado de trabalho teórico em cima, verdadeiros tratados sendo escritos. Especial atenção merecem os saites de Joshua S. Bell, Jason Hinson e Bernd Schneider. Então, no dia em que os trabalhos do maluco do Alcubierre gerarem resultado e cruzarmos a barreira de Dobra Um, a maior parte da teoria já estará desenvolvida! Graças a nós, trekkers, boa parte do trabalho estará pronta!
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Another collection of boring annotations
Again, these are my annotations on some comics I have read in the not too distant past, aiming mostly at myself and googlers. But you are welcome to enjoy them.
In items 1 through 6, the page numbers refer to the Superman: Krisis of the Krimson Kryptonite trade paperback.
1. Superman #49 (Nov 1990)
Page 9, panel 4: of course, “J.L. Byrne” is penciller and writer John Lindley Byrne, the artist who has had the most influence on Superman since 1986.
Page 10, panel 1: “alter-ego booster” is certainly a reference to Superman being Clark Kent in disguise.
2. Starman #28 (Nov 1990)
Page 60, panel 5: “Hanna” refers to inker Scott Hanna.
Page 61, panel 2: Time magazine has Batman on the cover. Of course, DC belongs to the Time-Warner group.
Page 61, panel 3, shows a cover from National Periodicals — DC’s old name.
3. Action Comics #659 (Nov 1990)
Page 78, panel 1: the kid on the left is wearing a Hulk T-shirt. This is a possible reference to both writer Roger Stern and penciller Bob McLeod’s previous work on The Incredible Hulk.
4. Superman #50 (Dec 1990)
Page 102, panel 2: “don’t let your current situation color the decision” probably refers to the red kryptonite.
Page 102, panel 5: “Dennis” is artist Dennis Janke.
Page 103, panel 2: “not so windy these past few days” because Superman is powerless, so he has not made the newspapers fly around as usual.
Page 106, panel 4, and page 107, panel 6: Kevin Dooley, editor.
Page 108, panels 2-5: nice, realistic dialogues. My favourite in this edition.
Page 112, panel 1: note an elongated Mr Fantastic, the Thing conveniently hiding his appearance under the pink fluid, and the Human Torch’s flames in the air. The Invisible Woman is nowhere to be seen…
Page 112, panel 2, refers to “fantastic new friends”.
Page 121, panel 1. Emphasis is put on the number of friends: four.
Page 121, panels 2-3 refer to the Impossible Man, an annoying but harmless foe (sort of) of the Fantastic Four.
Page 121, panel 4. The Fantastic Couple wears blue (clearly the right-hand one is a woman), and we can also see the Human Torch’s wake and the Thing, still under the pink slush.
Page 123, panels 1-3. After the 70s, villains are not in black & white. You come to understand that Luthor is a human being also, with virtues, and you come to understand some of his side, the life history that leads him to act as he does, his motivations. You see his reasons, which make all sense in his point of view — he is not necessarily “wrong”, and there is no wrong. Furthermore, Luthor’s dignity and reputation are unmarred by these revelations, since they are made by another person while he is unconscious, and, at that, by a maternal woman who cares for him, who understands him, and who has compassion for him.
Page 127, panel 2. Clark Kent’s novel has been published by Warner Books.
5. The Adventures of Superman #473 (Dec 1990)
Page 131. You can see an Elvis impersonator in the background.
Page 133, panels 4-6. This, added to Superman #49, page 10, panel 1 (see above), leads me to wonder. Has Lois already found out about Superman’s secret identity? After Action Comics #662 (where he reveals it to her), I have not read the followup Superman #53, so I would not know whether there Lois admits to having deducted it a while before. If she has by now, then Superman #49, page 10, panel 1, amounts to her teasing him, whilst this here instance in Adventures #473 is her way of allowing him the dignity of keeping the secret while unprepared to reveal it and saving face at the same time. Will have to check.
Page 140, panels 2 and 4; page 141, panels 1-2; page 142, panels 2-3; and page 143, panel 1: the USAF has never operated F-14s, none has ever been operated in Wyoming, F-14s have never been painted in camouflage, and the camouflage does not match any USAF standard, though these are accurate depictions of F-14s.
Page 143, panel 6, is a refreshing attempt at humour where the comics do not take themselves too seriously.
6. Action Comics #660 (Dec 1990)
Page 158, panel 2, provides for an interesting comparison between the customs of 1990 and those of 2010. Twenty years ago, no one who had their wits about them would think of bringing a mobile phone to a date. It was impolite to others and a bulky nuisance to self. Twenty years later, no one thinks of not bringing the mobile wherever. Reading this page in 2010, it is a stark contrast that, though I had thought that so little had changed, some things can already be traced as markedly different. Readers’ assumptions are clearly supposed to be significantly different in this respect between the two decades.
In another note, panel 2 goes to show how much of a workaholic Lois is, going to the extreme of bringing her mobile along on a date.
Page 158, panel 3. Look at the size of this gadget! Those are batteries for you!
7. Doom Patrol #47 (Sep 1991)
As published in Doom Patrol volume 4, page 159, panel 2, reads “DP inker – new dad!”, which should lead me to assume that inker Mark McKenna (who probably filled those headlines) had just become a father. Likewise panel 4 reads “Congrats”.
8. Detective Comics #659 (May 1993)
As published in Brazil in Liga da Justiça e Batman no. 8, page 8, panel 1: “Simpson Flanders” seems to be an obvious joke on the Simpsons’ neighbour Ned Flanders. Dr Flanders appears again in Robin #1 (Nov 1993).
9. Flash #76 (May 1993)
As published in Flash: the Return of Barry Allen, page 60, panel 4, refers to a certain Broome Building. John Broome was the Flash’s main penciller during the Silver Age.
10. Justice League America #80-83 (Sep-Dec 1993)
Evidently, the two alien fugitives’ names, Blake and Corbett, are references to those old scifi TV series, Blakes 7 and Tom Corbett, Space Cadet.
11. Action Comics #692 (Oct 1993)
As published in Brazil in Super-Homem no. 126, page 47, panel 3, the oldest reference on Doctor Occult is a passage from the Daily Planet dated 1935. I take this as an homage to DC’s oldest character, Doctor Occult, who first appeared in New Fun Comics #6, October 1935, thus predating even Superman (whose Action Comics #1 is from June 1938).
12. Superman: the Man of Steel #28 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 127, página 3, quadro 1, e página 25, quadro 1: “Jotapê” é Jotapê Martins, da equipe de tradutores do Estúdio Art & Comics, que fazia a tradução dos títulos da DC em 1995.
As published in Brazil in Super-Homem no. 127, page 8, panel 2, the pizza carton from “Titano’s” is a reference to Titano, the giant monkey from Superman Annual # 1 (1987).
13. Batman #502 (Dec 1993)
As published in Brazil in Batman no. 5, page 44, panel 4, Mad magazine appears on a rack, presumably with Alfred E. Neuman on the cover (obviously). Mad is published in the US by DC Comics.
14. The Adventures of Superman #507 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 128, página 3, quadro 2: novamente, “Jotapê” é Jotapê Martins.
Página 7, quadro 1, contém uma referência a Superboy no. 2 dando a entender que conta a história da morte de Adam Grant. Entretanto, a última edição antes de Adventures #507 é Superman #84 (Dec 1993), que saiu em Super-Homem no. 127 e que é a que mostra essa morte. A história que saiu em Superboy no. 2 (junto com outras que não vêm ao caso) é a de Superman #85 (Jan 1994), que, na verdade, é posterior a Adventures #507 e lida com as consequências imediatas do evento, mas não é onde ocorre o próprio.
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RAF a baixa altitude
Nos últimos dias, andei assistindo a diversos vídeos de aviões no YouTube. Creio pertinente dividir com quem também gosta.
Conforme alguns textos aqui embaixo já indicam, neste ano compareci ao Royal International Air Tattoo, um evento de dois dias onde, das 10 às 18 h, aviões militares voam na sua frente nonstop. Recentemente subi dois vídeos, um de um Harrier GR7, outro de um C-17A, ambos filmados no evento.
Agora, apresento alguns do F-22A, que encontrei no Tubo, feitos por outras pessoas. Estão pràticamente no mesmo ângulo com que vi ao vivo, com a diferença de uma qualidade de vídeo melhor do que a da minha câmera, sob todos os aspectos, inclusive de enquadramento e estabilidade.
Primeiro, tem a decolagem do F-22, que é impressionante. Chamo sua atenção para os vórtices de ponta de asa e na ponta da deriva, que ficam bastante visíveis com a condensação e o escapamento dos motores.
E agora o melhor destes três vídeos do F-22, mostrando mais, mais de perto e com melhor qualidade.
Depois, encontrei alguns vídeos feitos numa região de Gales chamada Mach Loop. Os aficionados sobem a montanha e ficam à espera, câmeras em punho, esperando os jatos rápidos da Real Força Aérea, que, em treinamento, passam a alta velocidade e mais baixo do que a altura dos vales. A explicação está aqui. E, aqui, você encontra algumas excelentes fotografias tiradas ali. Você tem mais explicações e excelentes amostras aqui.
E agora os vídeos. Abaixo você poderá ter boas vistas de Hawk 100, Hercules, Jaguar, Tornado GR4, Typhoon, e até um F-15E da USAF. Supostamente, os Hawks vêm de RAF Valley, uma base próxima dali. Os demais não sei, mas nunca vêm de longe. Para começar, dois Tornados.
Neste aqui, repare que, depois do Hercules, vem um Tornado. Quando ele faz uma curva à direita, forma-se condensação acima da asa, indicando o descolamento da camada limite.
Aqui são Typhoons.
Este é de um Tornado.
Esta é a vista traseira do cockpit de um Hawk que percorre esse terreno.
E, por último mas não menos importante, uma miscelânea.
Este aqui foi no Distrito dos Lagos, uma região montanhosa e agreste no Noroeste da Inglaterra, quase divisa com a Escócia. É uma região muito usada por montanhistas, gente que gosta de acampar, de passar frio na chuva fina, de fazer longas caminhadas no meio das pedras, mas também pelos pilotos em treinamento a baixa altitude. Então, numa dessas saídas ao frio ar livre, a vítima capturou um Jaguar.
Mais vídeos no nosso plantão.
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Medo de altura, mas não de eletricidade
Existe uma passagem do romance Contato, de Carl Sagan, onde um personagem religioso desafia a fé da cientista na Ciência. Atendendo ao desafio, ela solta um pesadíssimo pêndulo de Foucault e fica exatamente onde estava, na certeza de que, na volta, ele não vai atingi-la. Como de fato não a atinge.
O vídeo abaixo mostra o que, de fato, é você confiar sua VIDA à Ciência. Mostra o que é que, de fato, significa você acreditar em um princípio científico, segurar na mão de Faraday e ir.
A ideia é a seguinte: no século XIX, Michael Faraday descobriu que, em um objeto metálico, a corrente elétrica flui por fora, mas não por dentro. Em um fio elétrico, a corrente está sempre na superfície, nunca no núcleo. Agora, pense no sujeito que vai inspecionar fios de alta tensão. O cara veste uma roupa que é 25% aço inox. Então, a roupa é uma gaiola de Faraday e protege seu usuário. Quando ele encosta em um cabo que está com UM MILHÃO DE VOLTS de potencial em relação à terra, a corrente flui em volta dele, a carga ocupa o lado externo da roupa, e ele adquire o mesmo potencial do cabo. Daí por diante, é mamão com açúcar.
Alguns diriam que é preciso ter muito colhão para fazer o que esse cara faz. Concordo na medida em que não se pode ter medo de altura, nem se pode dar um passo em falso, nem tocar em nada na hora errada. Concordo na medida em que o vento do rotor pode jogar a vítima lá embaixo. Mas, quanto à voltagem, não precisa ter coragem não: basta entender e, daí, acreditar.
Aí, você põe um homem temente-a-Deus ali em cima, sem a roupa especial, e um desses inspetores. Vamos ver quem protege mais: as orações ou a roupa.
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RIAT 2010 — Harrier e C-17
De ontem para hoje, subi mais dois vídeos do Royal International Air Tattoo 2010. Estão no YouTube, mas, para facilitar sua vida, seguem também abaixo, inclusive com os textos que os acompanham. Aproveite.
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Harrier hovering at RIAT 2010
A BAE Harrier GR7 from 4(R) Squadron displays its hovering abilities before the amazed crowd at Royal International Air Tattoo 2010 on Saturday, 17 July. The sound was the loudest we had at the event. As my wife filmed this, I stood at her side but, even if I shouted at her, she could barely hear me. That’s Pegasus engine noise for you! Our Sony CyberShot DSC-TX1′s sound filter preserves your ears now, though.
Please pay attention to the columns of smoke, shooting vertically from the four nozzles, which go to show the Harrier’s vectoring to good effect.
At the very end, the voice you hear is mine, asking Wife to stop shooting. Battery was low, I feared the camera would not have enough of it to record the movie to the flash card, and this is what I was telling her.
Um BAE Harrier GR7 do Esquadrão 4(R) (Reserva) demonstra sua capacidade de pairar perante a multidão impressionada no Royal International Air Tattoo (Real Desfile Aéreo Internacional) 2010, no sábado, 17 de julho. O ruído foi o mais alto que houve no evento. Enquanto minha esposa filmava isto, eu fiquei ao lado dela, mas, mesmo que eu gritasse, ela quase não conseguia me ouvir. Assim é o ruído do motor Pegasus pra você! Agora, porém, o filtro de som de nossa Sony CyberShot DSC-TX1 preserva seus ouvidos.
Preste atenção às colunas de fumaça, ejetadas verticalmente dos quatro bocais, que mostram a vetoração do Harrier de modo eficaz.
Bem no finalzinho, a voz que você ouve é a minha, pedindo a Esposa que pare de filmar. A bateria estava no fim, eu temia que a câmera não fosse ter o suficiente para gravar o filme no cartão de memória, e era isso que eu estava dizendo a ela.
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Boeing C-17A Globemaster III landing at RIAT 2010
After a remarkable demonstration of agility for an airplane this size, a C-17A from the 58th Airlift Squadron, 97th Air Mobility Wing, US Air Force, lands at RAF Fairford, nearing the end of its participation on the Saturday, 17 July, portion of the Royal International Air Tattoo 2010. Please take note of the high sink rate approach, followed by a short landing run with thrust reversers. According to the host, this ability is in much-needed use today in Afghanistan, reducing the aircraft’s exposition to guns at the vulnerable moment when it approaches, lands and stays on ground at forward bases.
Após uma notável demonstração de agilidade para uma aeronave deste tamanho, um C-17A do 58o. Esquadrão de Transporte Aéreo, 97a. Ala de Mobilidade Aérea, Força Aérea dos Estados Unidos, pousa na base Fairford da Real Força Aérea, próximo do fim de sua participação na porção de sábado, 17 de julho, do Real Desfile Aéreo Internacional 2010. Observe a aproximação em alta razão de descida, seguida de uma corrida de pouso curta com reversores de empuxo. Segundo o apresentador, essa capacidade está em uso necessário hoje no Afeganistão, reduzindo a exposição da aeronave a armas de fogo no vulnerável momento em que se aproxima, pousa e permanece no solo nas bases avançadas.
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Swamp Thing annotations to Greg Plantamura
Agora há pouco, enviei este texto ao Greg Plantamura. Estou dividindo com potenciais googladores. Não é necessariamente com você.
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Hello. I keep on perusing your Swamp Thing pages. Quite a job, may I insist.
Earlier today I was reading New Titans from 1993. There is a sequel to Swamp Thing #60 there!!!
Cyborg went catatonic some ten or twelve issues before New Titans #103 (Nov 1993), losing his memory and, in fact, all ability at communicating. In this issue, he is at the S.T.A.R. Labs, where Team Titans’ Prester Jon is attempting to interface with his inner circuits. Late in this issue, the cause of tampering is found to be a group of aliens who are the avatars of beings from a machine planet.
In New Titans #104 (Early Dec ’93), the Titans are brought to the aliens’ planet — lo and behold, that’s the machine planet from “Loving the Alien” (Swamp Thing #60). It transpires that Swampy’s visit, years before, brought the planet out of a stagnation state. Some of its “life” forms learned then of new ways and became curious about this “life”. As a consequence, they left their cradle and went out into the stars, seeking understanding, which ultimately led to Cyborg being hacked. I am still at this point in my reading, so I do not know where this leads, but there you have it.
In NT #104, Marv Wolfman attempts to describe the machines’ world in much the same way as Alan Moore had, but fails. Just as in ST #60, panels are disjointed from one another, and the text floats in off-narration with sentences that are not to be much understood. Anyway it lacks Moore’s spark (which, it is my feeling, was also missing from the original #60, which was very poor in my own POV — still, that was Moore, for better or for worse).
In fact, NT #104 has a two-page spread panel where the Titans arrive at a gate to the machine planet’s core. It pretty much imitates Spock’s venture into V’Ger in Star Trek: the Motion Picture — and, instead of a fixed, aloof Ilia figure, what do we have? Four Swamp Thing figures, which I believe correspond precisely enough with the Green’s four avatars selected by the Parliament of Trees for the Regenesis/Spontaneous Generation storyline — you know, Ghost Hiding In the Rushes, Kettle-hole Devil and their likes.
In my opinion, NT #104 sucks. Still, I think it a worthy reference and one you might like to purchase from online second-hand retailers such as Mile High Comics, My Comic Shop etc. etc. so you can check it for yourself. And you will have the benefit of checking the original, for I have so far only had access to Brazilian translations, which leave out some of the text.
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On another note, I made a mistake years ago when I wrote to you on Swamp Thing #70. You wrote up an annotation and credited it to me (thank you), but in fact I should have referred to issue #71, and so should you. Please check! The annotation is part of the issue #70 annotations and goes like this:
“PAGES 22-23:3 João Paulo Cursino pointed out to me that the sound effects “SHLOEL BSSTTE TTLBN” sound like the artists names Bissette and Totleben. But who is Shloel?”
… except I should have referred to issue #71, where those pages were printed.
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On a third note, please check Swamp Thing #34, included in the beautiful storyline of volume 2. Page 20 (to be sure: I refer to the page with text “With me.”, “With him.”, “…”) — does page 20 not depict a woman’s vulva, very clearly in front of you? You can clearly distinguish the labia, the clitoris, there’s even a lot of hair around it. I think this was the intent there. It is a beautiful piece of art by Bissette and Totleben, who managed to disguise it from moralists by making it look like a piece of plant. The things those guys managed to get away with, the madness of Moore, the best hiding of things in plain sight…
Another vulva, I think, can be found in issue #70 (“The Secret Life of Plants”), in page 17 (the one where Abby lies down on some orchids), albeit in a more symbolic sense. Please take note of the orchid’s shape.
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And issue #65, page 14, panel 5 — Take note of a tire at the bottom right corner. Is the brand not “Alcalá”? :-)
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Issue #66, page 2 — “Len and Berni were here 1972″. Indeed. Len Wein and Berni Wrightson created S.T. in 1972. Apparently they did so as they sat in Arkham Asylum. That explains it. :-)
Would you please check these and add them to your notes?
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De especialistas marca barbante
Aqui tem uma entrevista com o Autor de quadrinhos Robert Crumb, um dos ícones vivos da contracultura dos anos 60. Em determinado trecho, diz o entrevistador:
Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos. E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”].
Extremamente educado, simpático e gentil, (…)
E aí eu digo: de fato, a escolha do mediador faz uma diferença enorme. Em 1996, fui convidado pelo Prof. Paulo Metri, então diretor cultural do Clube de Engenharia, para ser um dos debatedores após uma exibição do filme Jornada nas Estrelas VI, no auditório do clube. Aceitei muito honrado, porque o tema é caro a mim e eu era (ainda sou) muito preparado para discutir qualquer aspecto de Jornada, em especial esse filme.
A exibição foi um sucesso, o filme se presta a várias discussões sobre geopolítica, ecologia, ideologia, pacifismo e anacronismo, eu e minha amiga Patricia contribuímos bastante, e o público só saiu porque estava na hora de fechar o auditório. Acontece que, como mediador, o clube pusera um sujeito que nunca tinha assistido a Jornada nas Estrelas nem conhecia nada de nada do tema. Pois o camarada começou atacando o filme — sem se dar conta de que boa parte dos que ali estavam já gostavam bastante dele — e prosseguiu a falar mal dos trekkers como alienados, irresponsáveis — sem se dar conta de que quase toda a plateia era composta por trekkers. De início, foi constrangedor vê-lo antagonizar palestrantes e público sem saber do que estava falando (uma das eternas marcas da arrogância oriunda da ignorância) mas, de certo modo, foi até engraçado como todo o mundo se uniu para praticamente escorraçá-lo de modo paternalista, se é que isso não é uma contradição em termos.
De outra feita, no mesmo Clube de Engenharia, o filme era 2001. Conforme eu já disse várias vezes, sou adepto da tese do Underman de que 2001 seja uma obra aberta: cada um vê nele o que é levado a ver, e o significado do filme só se completa na mente de cada um. É verdade que isso vale para toda obra de arte, aliás para toda obra: afinal, você precisa do receptor para se completar a mensagem. Mas, em 2001, nada tem realmente seu próprio significado: é você que põe seu significado na obra que está vendo. É como se cada pessoa visse um filme diferente.
Só que certas pessoas levam esse tecido aberto a extremos. Lembro-me de um senhor idoso velho, componente da mesa de debatedores, que, quando o filme terminou, começou a malhá-lo dizendo que sua principal mensagem era denunciar o ridículo do capitalismo americano. Exemplificava com as cenas da comissária de bordo, servindo bandejas devagar em zero-g com seu capacete branco redondo, e dos astronautas jogando xadrez com Hal. WTF?! Posso até entender que ele considerasse ridícula a cena da comissária, mas claramente se via que o ancião velho não conhecia o contexto em que o filme fôra feito (bem na parte mais excitante da Era Espacial, 1964-68), não tinha lido o livro 2001 original nem o livro onde Arthur Clarke explica das motivações e procedimentos da criação do filme (anote aí: Lost Worlds of 2001, com tradução esgotada no Brasil, Mundos perdidos de 2001), nem òbviamente tinha estudado qualquer coisa sobre a obra que tinha acabado de ser exposta.
Portanto, cuidado com isto. Quando for convidar alguém para ser debatedor ou mediador em qualquer seminário, congresso, painel, mesa redonda, o que for, tenha atenção a quem você estiver chamando. Certifique-se de que a pessoa conheça o tema. Aliás, isso vale para qualquer convite que se faça para qualquer coisa, não é verdade?
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Completamente fora de contexto, uma citação de Alex Castro
Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.
O original está aqui.
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Uma tuitagem mais duradoura
Joguei isto no Twitter, mas quero deixar mais fixo e recuperável. Então, repito aqui.
You can take the boy out of the favela, but you can’t take the favela out of the boy: http://bit.ly/aCeQXA
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Em uma nota mais animada, acabo de subir um vídeo. Fui eu mesmo que fiz em Duxford em 10 de julho:
É um Balbo, ou seja, uma grande formação de aviões, desfilando comemorativamente. Nos comentários do vídeo, identifico-os. Taqui a tradução do que digo lá:
Museu Imperial da Guerra em Duxford, 10 de julho de 2010, 16:56. À medida em que a formação se aproxima aparentemente por sobre a B-17G Sally B, o som aumenta para uma fileira de motores Merlin e radiais. Da testa à cauda: P-51 Mustang + Sea Fury + Fury + F4U Corsair, três AD Skyraiders, quatro Mustangs, três Spitfires + HA.1112 Buchón (Bf 109 fabricado na Espanha com motor Merlin), três Spitfires, P-40 + dois Spitfires, três Yaks.
Algo não vai muito bem com minha memória. Distintamente me lembro de ter visto o Bf 109 autêntico (com motor DB 605) em formação com Spitfires e o I-16; entretanto, não os identifico no vídeo. Contribuições são bem-vindas.
Esses nem são todos os aviões que participaram do Flying Legends. Houve outros Spitfires; houve o Battle of Britain Memorial Flight (Esquadrilha Comemorativa da Batalha da Inglaterra) com seus Lancaster, Spitfire e Hurricane; houve Bücker monoposto e biposto; houve Gladiator; houve Bearcat; houve Sally B escoltada por Mustang; houve MS.406.
No FL 2008, o Balbo não tinha Skyraiders, Fury nem Sea Fury, mas tinha Wildcat, P-39, B-25 e A-26. Ainda não o subi, mas, de todo modo, o filme não ficou tão bom.
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Teria sido mais barato telefonar para Marte
Em 2008, comprei dois telefones celulares de minha operadora. O vendedor disse que os dois estavam desbloqueados. Ingênuo ou burro, não pensei em testar se era verdade.
Em 9 de julho de 2010, cheguei a Heathrow sabendo que, se fosse usar meu celular em roaming, pagaria uma fortuna. Então, ali mesmo, diante da esteira de bagagem, fui à máquina que vende chips (“SIM cards”) e comprei um da Lebara. Assim, como quem compra Coca-Cola, só que era chip de celular, entende? Igual àqui, no Brasil.
É claro que, quando troquei o chip de minha operadora pelo da Lebara, o celular acusou que estava bloqueado. A partir daí, apesar de ter levado uns vinte minutos entre o desembarque e o recolhimento de bagagem (incluído aí o controle de passaporte), ainda fiquei umas duas horas discutindo com a “assistência ao cliente” da operadora, pedindo para desbloquearem meu telefone remotamente.
O de minha esposa até desbloquearam. O meu, não: dependia de pedirem o código à Nokia, com prazo de resposta de cinco dias úteis. Pedi-lhes que enviassem o código por SMS ao celular de minha esposa, que é da mesma operadora. Enviaram ao teu?
Ao dela também não.
O único motivo de eu não dizer qual é minha operadora é que, se eu fizer isso, dita Murphy que serei processado por difamação. De todo modo, as quatro operadoras que temos no Rio de Janeiro te tratam do mesmo jeito; então, você pode mudar de uma para outra, que não faz a menor diferença.
Mas daí. Quando vi que o desbloqueio não ia sair na hora, resolvi telefonar para minha mãe, só para dizer que tinha chegado. Ontem veio a conta: R$ 8,91 pelos 18 segundos que durou a ligação. Isso dá R$ 29,70 por minuto.
Com o chip da Lebara, eu telefonei DA INGLATERRA PARA O BRASIL pagando 4p por minuto. Pelo câmbio do dia em que comprei créditos, isso dá R$ 0,1058 por minuto. Ou seja, custou 281 VEZES MAIS BARATO.
Deixe-me repetir isso. Com o dinheiro que eu gasto para falar UM MINUTO da Inglaterra para o Brasil, no roaming da operadora do Brasil, eu falo QUATRO HORAS E MEIA com o chip da operadora inglesa. Só posso chegar à conclusão de que minha operadora pensa que a Inglaterra fica em Marte, sei lá. Dizque ligação interplanetária só fica mais barata quando os dois lados da linha estão do mesmo lado em relação ao Sol. Não sei, dizem.
Além disso, temos uma amiga alemã que tem uma amiga espanhola. Pois ouvi da espanhola que ela tem um contrato de combo (telefone, Internet e TV, sabe como é) do mais simples — com 12 MEGAbits por segundo. Vamos presumir que, lá como aqui, a operadora só entregue um sétimo do valor contratado. Mesmo assim, esse um sétimo é DOZE vezes maior do que o plano mais simples que minha operadora de Internet me oferece. E não venha me dizer que “não tenho mais porque não quero”. Eu pedi mais, mas o moço que veio instalar mostrou-me, com medidor de ruído, que a linha não comporta mais do que 1 mega. Então, eles estornaram a cobrança dos 2 mega e fiquei com um só mesmo.
Verdade que eu posso estar errado, posso ter sido enrolado — tudo pode ser, não sou especialista. Mas está claro para você que nós somos uns índios? Está claro que nossos planos são dos mais caros que existem entre Vênus e Júpiter e que ainda temos que comer muito feijão para sonharmos com inclusões digitais e o raio que o parta?
Depois disso, volto para o Galeão na noite de 24 de julho e descubro que há um descontrole total no desembarque. A calçada está tomada de empregados de cooperativas que ficam, agressivamente, impedindo a aproximação de veículos de fora e, de modo até hostil, quase forçando os passageiros para dentro das mandíbulas de seus motoristas. Uma ambulância estava estacionada, sem emergência nem luzes acesas, em vaga de táxi especial. Nenhum empregado da Infraero à vista.
Então, que temos? Um aeroporto com intermodalidade quase nula (só umas poucas linhas de ônibus, uma delas a que segue para a zona Sul e que não tem horário), sem trem, sem metrô, com uma bandalheira que se apoderou do ponto de táxi; denúncias de cambistas ilegais disfarçados de carregadores de mala; ausência quase completa de comércio; um free shop (o de quem sai do País) que mais parece uma piada de mau gosto; uma minúscula área de coleta de bagagens que, ademais, está caindo aos pedaços; ambientes sem iluminação; várias áreas comerciais vazias; ausência de sinalização em língua estrangeira correta; e pessoal do comércio e serviços incapaz de falar um português correto, quanto mais inglês…
Mas nada tema: teremos Jogos Olímpicos em 2016 e Copa do Mundo em 2014. Com esse nível de preparo e de serviços, tenho certeza de que tudo vai dar certo.
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Era dia 21 de julho, e eu estava a 1200 pés
Do jeito como é a vida, corrida, atropelada, é provável que eu nunca venha aqui escrever sobre a viagem da qual voltei no último sábado. Mas vou dizer quais foram os pontos altos: a decolagem de um B-52 (evento que havia anos eu esperava poder testemunhar e que, de certo modo, era o mais aguardado), a decolagem do Vulcan XH558 (jogue XH558 no Google para entender a importância) e um voo de apenas 28 minutos onde o piloto em comando… era eu. Tirei a foto abaixo para provar. Ou melhor, só provo para quem acredita, porque, para quem não acredita, a foto não prova nada.

Ao comando de um Cessna 172S. Ao fundo, a ilha de Wight, objeto de comentário em http://www.baxt.net/blog/2009/04/13/voltei-para-casa/
Òbviamente, eu não estava sòzinho. O instrutor tinha mais de 13.500 horas, a maior parte das quais voando linhas domésticas na British; e a aeronave tinha um full glass cockpit todo modernão, onde os instrumentos apareciam no LCD.
E vou dizer uma coisa, viu. O avião voa sòzinho se você tirar a mão dos controles, nivelado e retinho. Mas, se você encostar de leve, ele over-obedece, é muito sensível. Um toquezinho de nada, e o nariz levanta ou mergulha. E acontecem coisas engraçadas também. Por exemplo: encontramos uma térmica e o avião começou a subir sòzinho, sem ser comandado. Com aquele tanto de asa que o 172 tem, é inevitável, então eu tinha que toda hora comandar mergulho. Conclusão: passei mais tempo me concentrando nos instrumentos e tentando não exagerar as manobras do que realmente olhando pra fora. Acontece; é bom que se aprende. Mas valeu cada minuto, cada segundo.
No mesmo dia, à tarde, caminhamos sobre o muro da cidade de Chichester, erguido no tempo dos romanos. Um passeio que indico.
Além disso, foi só tardiamente que descobri que London Pride é uma excelente e macia ale. Tardiamente porque já estava na sala de embarque, voltando para o Brasil, sem nunca ter pedido um pint no JD Wetherspoon. Fica para uma próxima.
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Yamato 2010
Desde 19 de junho, estou em Davis, na California, e este computador nao acentua (claro que acentua, mas ainda nao aprendi). Se quiser saber mais detalhes da minha vida, tem um bocado de coisa no Twitter, entao nao vou entrar nisso agora.
Esta interrupcao no silencio foi so para dizer que meu irmao Leandro M. Pinto mandou uma dica no Twitter que eu tinha que compartilhar com voce. Eh este video aqui.
So quem viu esse desenho na Manchete sabe o arrepio que vai ser se for mesmo verdade (i.e. se nao for um desses fake teasers que eu mesmo venho aqui apregoar de vez em quando). Pago o que for necessario para ir ver esse filme. Ponho minha casa na hipoteca se for o caso. Isso TEM que ir para o cinema no Brasil!
Laboratório da evolução, 2010
Diz a teoria da evolução que, quando as condições ambientais mudam, as espécies mais adaptadas vão sobreviver, enquanto as outras vão se extinguir. (Aliás, é com base nisso que Richard Dawkins tenta levantar seu astral dizendo que você necessariamente descende de uma linhagem de vencedores.)
Antigamente, o metrô do Rio de Janeiro era simples. Na linha 1, as estações terminais eram Botafogo e Saenz Peña. Qualquer trem que você pegasse em uma dessas estações iria te levar, necessariamente, a todas as demais, inclusive Estácio.
Mesmo assim, todo dia alguma desdentada me perguntava, “moço, qual é o trem que vai pro Estácio?” Meu ódio fervia por causa do óbvio, até o dia em que minha colega Maria Luiza, engenheira hidráulica que é exemplo de profissionalismo e discrição e que pega trem lá pra não sei onde, esclareceu-me que, na Central do Brasil, você tem que saber em qual trem está embarcando, porque não tem uma linha só; e essa gente está acostumada é com isso. Vá lá. Entretanto, continuo com ódio, porque, diabos, basta olhar em volta. Tem mapa, tem sinalização, tem tudo.
Mas, enfim, aqueles tempos eram simples. Só tinha um tipo de trem na linha 1, e o único lugar onde as faxineiras mudavam de linha era no Estácio. Simples, simples, simples, e, mesmo assim, toda vez eu tinha que responder.
Os tempos mudaram e com eles veio uma confusão do catso. Depois da obra entregue este ano (note bem que eu não disse “terminada este ano”), o metrô passou a ter trens circulando na linha 1 sem serem exatamente da linha 1. O trem da linha 1, mesmo, circula com um painel de LEDs vermelhos, avisando que é o trem da linha 1. Aí vem um trem lá de Deusmelivre, ocupando os mesmos trilhos da linha 1, mas só circulando na linha 1 entre Central e Botafogo. Os LEDs desse trem são verdes, indicando que é um trem da linha 2. Além disso, acabou a conexão no Estácio, e os pobres têm várias opções de estação para mudarem de um trem para outro: todas entre Central e Botafogo.
Exceto que não exatamente. Porque à noite, nos fins de semana, nos feriados, nos dias que terminam em “-feira”, e nos horários entre 6 da manhã e 18 horas, ou bàsicamente quando eles querem, o Metrô Rio costuma suspender esse esquema e voltar ao esquema antigo. Apagam os LEDs dos trens da linha 1 (porque òbviamente só podem ser da linha 1, certo?, pra que os LEDs?), e volta a necessidade de fazer conexão no Estácio. Então fica assim: tem dia que duas linhas ocupam os trilhos da linha 1; tem dia que a linha 2 sai da linha 1, passa pela Central mas daí vai direto a São Cristóvão sem passar pelo Estácio; e tem dia que, para passar da linha 1 para a linha 2, tem que descer no Estácio tal como antigamente. E às vezes eles não avisam. Ou seja, um bundalelê do ca**lho, onde ninguém se entende e onde, mais de uma vez, já vi os seguranças inúteis, mal orientados, dando informação errada pro passageiro.
Hoje, por exemplo, resolvi pegar o metrô no final do expediente, como não fazia havia meses, achando que estaria menos cheio por ser dia enforcado (ontem foi Corpus Christi, amanhã é sábado) e porque agora, supostamente, acabou a megatransferência dos pobres do Estácio, de modo que eles estariam todos no outro trem. Ledo engano. Foi eu passar meu cartão pré-pago maldito, rodar a catraca, e ouvir o infeliz do PA avisando que, hoje, “excepcionalmente” (“rá rá rá”, riu-se o Doutor Plausível), a conexão voltou a ser necessária no Estácio. Lá fui eu ter que esperar um trem menos entupido para dividir meus seis centímetros quadrados com a metade da população mais odiada pelo Deputado Justo Veríssimo.
E foi aí que me dei conta de uma coisa. Já faz vários meses que não vejo mais as lavadeiras perguntadeiras. Nada daquelas aflições com lenço na cabeça e Folha universal na mão, perguntando qual é o trem que vai pro Estácio. Considerando a mudança súbita das condições ambientais nos meses precedentes, e sabendo da reduzida capacidade que algumas pessoas têm de se adaptarem a mudanças, estou entendendo que essa espécie tenha sido extinta.
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Cliff’s Notes para Os Sertões
Euclides da Cunha foi aquele escritor celebrizado pelo episódio global em que foi corneado pelo cineasta Guilherme Fontes. Seu grandiloquente relato Os sertões é considerado uma das grandes e clássicas obras da literatura brasileira. Infelizmente, também é considerado um livro intragável, porque, além de longuíssimo, usa de um vocabulário mais rebuscado que igreja barroca.
Mas, agora, seus problemas acabaram! O Sr Atoz, em um serviço de utilidade pública, oferece abaixo um resumo de Os sertões em apenas um parágrafo! A saber:
Multidão de fudidos vai morar numa enorme favela no sertão da Bahia para seguir as profecias de um lunático que diz que o fim do mundo está próximo. O Exército cerca a área e sobra pipoco pra todo o mundo. Fim.
Não sei por que ainda ficam botando dificuldade naquilo que é simples.
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Notícias censuradas
Eu nunca tinha ouvido falar, mas, graças ao Cardoso (de novo!), encontrei o Diário de Barrelas. As melhores notícias que você ainda não tinha lido. Eu rrecomêindo!
E a primeira notícia que você deve ler é esta: Apple desiste de fazer novos iPods.
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25 não muito gentis anos depois…
Cardoso deu a dica no Twitter: http://bit.ly/apRSiT
Mas o melhor são os comentários. Vou reproduzir os melhores no original, é mais engraçado (e estou com preguiça de traduzir).
“This is one of those cases where measuring dicks THEN and measuring dicks NOW would have a very, VERY different outcome.”
“Hey dumbass. Dame Judi Dench wasn’t in Top G…..oh wait.”
“The real question is which one turned the other gay.”
“Left: Sexual Icons / Right: Homosexual Icons”
“See Top Gun 2!! Thrill to learn how Maverick left the USN when the F-14 was retired and is now a disgruntled cargo pilot for FedEx angered that he is only making $40k a year. Charlie lost her job after the Cold War ended, military budgets were slashed, she went gay, her snatch dried to men and she couldn’t fuck to save her job. She is now a functionary at a feline rescue group and has 11 cats in her loft apartment.”
Em tempo: aos pilotos de sofá que ficaram parados em meados dos anos 80 e cuja única fonte de referência são aqueles livros da Nova Cultural, aviso que o F-14 saiu de serviço em 2006. Agora só quem os tem voando é o Irã. Ah, a ironia…
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Receita de milkshake
Esta é a receita de milkshake que aperfeiçoei nos últimos meses através de experimentação. É bastante empírica, de modo que nunca fica igual; mas sempre fica excelente, quase sempre perfeita.
Tudo começou como minha tentativa de imitar, em casa, a receita de mateshake de cappuccino do Rei do Mate. O original ainda é deles, mas acho que gosto mais dos resultados a que cheguei.
A receita é dimensionada para dois copos que devem ter uns 500 ml. Primeiro, vai leite semi-desnatado até cerca de 40 % do volume dos copos. Depois, cinco generosas colheres de sopa de pó de cappuccino. Três Corações é a melhor marca, mas também é a mais cara. Depois, uma colher de sopa, rasa, de Matte Leão em pó. Depois, uma quantidade de sorvete de creme Kibon que supere tudo isso em volume, mas só até o ponto de você pensar se o copo do mixer não vai transbordar (nosso mixer pouco passa de 1 litro). Por último, um cálice generoso de conhaque barato (temos usado Nautilus, mas serve Dreher, Presidente… você pegou a ideia). Da última vez, substituí o conhaque por uma dose generosa de Amarula e ficou excelente.
Bata bem. O sorvete diminui bastante de volume, de modo que mal dá para encher os dois copos. Bem, na verdade depende das circunstâncias, porque às vezes ultrapassa. A consistência é perfeitamente cremosa e quase não faz espuma. É um litro de felicidade gelada, companhia ideal para assistir a episódios de sua série de TV favorita.
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Seguindo a tendência enigmática de questões que já coloquei aqui, e valendo outro prêmio por enquanto indefinido, lanço o desafio: em quais versos Carly Simon previu e resolveu as dificuldades postas por Eyjafjallajökull? A dica joguei no Twitter. Respostas na caixa de comentários.
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Os superpoderes de Sniper Serra
Sei que não fica bem kibar o belogue dos outros. Mas é que esta aqui do Sniper Serra é tão boa, mas tão boa, que tenho que passar adiante assim.
Porque é muito nerd! O primeiro que vier aqui na caixa de comentários e acertar a ligação entre as figuras e a frase no final ganha um prêmio!
E tem esta aqui também, que já me convenceu da Jovemnerdice de Sniper Serra. Vou ter que adicioná-lo a meus feeds!
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Isto merecia ser retuitado
… mas, como isto aqui não é o Twitter, vou pôr o linque:
http://sniperserra.tumblr.com/
A dica eu peguei no SENSACIONAL Porra, Mauricio!, que tenho acompanhado no Twitter e é imperdível.
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E tem esta notícia no saite do Globo On: “Babuínos na África do Sul estão incorporando hábitos humanos e já tentam até usar celular”. Daqui a um tempo ela terá saído do ar, assim como os comentários. Então, permita-me preservar dois deles para a posteridade (ou, pelo menos, por um tempinho a mais):
Babuíno falando no celular? Dê uma volta no centro da cidade e você vai ver um monte.
Eles vão treinar os babuínos para atendimento em call centers.
De fato.
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Star Wars crash course em 2:12
… E aqui temos um excelente resumo da trilogia Star Wars (a original e única), em apenas 2 minutos e 12 segundos. Perfeito.
Ah, sim, eu ia me esquecendo de dizer… É stopmotion feito com Lego…
Dica do Animação S.A.
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Sobre a experiência de ir assistir a Homem de Ferro 2
Não vou falar sobre o filme. Não precisa. É muito bom, etc. Armaduras que voam, muitas metralhadoras, projéteis perfurantes e explosivos. Pode ler tranquilo, não vou revelar detalhes que estraguem surpresas pra ninguém.
Vou falar sobre como foi ir ao cinema desta vez.
Quando você compra ingresso para o Kinoplex, você escolhe o lugar com antecedência. Fui à Internet na última sexta-feira à noite e me pus a escolher no Shopping Tijuca, sala 6. Como tenho feito desde 2006 (ou antes, não estou certo), preocupei-me em ficar o mais colimado possível com o centro da tela. Infelizmente, a representação da sala no computador é apenas esquemática, de modo que não se pode ter certeza de nada. Medindo com régua, o meião da sala ao longo da horizontal eram os assentos 14 e 15, mas e na vertical? A única certeza que eu tinha era que a fileira bem no meio não correspondia ao meio da altura da tela. Meio no chute, imaginei que a fileira ideal fosse um pouco acima da metade, entre M e Q. Alguns assentos na periferia da sala estavam ocupados, mas a maioria não. Aí, observei que O14 e 15 também estavam ocupados. Mas que incrível coincidência: dois dias antes da sessão, alguém comprara ingressos bem no meio da horizontal e na zona que parecia ser o meio da vertical. Deduzi que os ocupantes deviam ser cinéfilos profissionais que sabiam o que estavam fazendo.
Como dizia o Chapolim Colorado, “sigam-me os bons”, então fui na aba dos connoîsseurs, escolhendo a segunda-melhor fileira, que seria a P. E fiz uma nota mental de manifestar minha apreciação pela nerdice ao encontrar a figura sentada à minha frente.
Aaah, tá, vou falar do filme. Mas só um pouquinho, tá?
Bem no comecinho, você descobre que o vilão é um klingon. Se souber por quê, por favor, diga aqui nos comentários que, se acertar, eu prometo que ganha um prêmio. (Não vou pensar em qual. Um problema de cada vez.)
O laboratório de Tony Stark continua tendo um telão com o noticiário. Tal como no primeiro filme, onde fizeram product placement esperto da Dell, desta vez as beneficiadas foram a LG, a Kodak, a Oracle (mencionada explicitamente pelo menos duas outras vezes), a Sega (que, suponho, deve ter lançado o VG do filme) e a Audi — que também ganha um painelzão de vários metros de altura e, claro, é a marca que Stark dirige. Kodak aparece novamente em velhos rolos de filme. Quando fores assistir, faz favor, vê se deixei algum nome de fora.
Na primeira cena com Scarlett Johansson, Tony Stark está treinando com Happy Hogan e a chama para subir aonde ele está. Segue-se uma tomada em close do rosto da moça. Tão em close que dá para ver as espinhas por baixo da maquiagem. Photoshop FAIL.
Vamos às aeronaves. As deste filme não fugiram ao padrão do anterior, mas são menos numerosas. Aparecem um C-17 no começo e B-1, B-2, C-17, F-16 e F-22 na base aérea de Edwards. Os F-16 têm o esperado código de cauda ED, assim como o traje do Máquina de Guerra, que, pelo que eu tenha reparado, não é mencionado pelo nome. O esquadrão VX-25 identifica uma das armaduras, mas, pelo que pesquisei, não existe. Novamente, o jato executivo de Stark não é nenhum que exista, mas me parece um projeto que a Sukhoi desenvolveu por um tempo nos anos 90, parecido com uma versão espichada do turboélice Piaggio Avanti.
Aqui cabe um comentário sobre a tradução que legendou o filme. Quando Rhodes pergunta a Stark se o equipamento é “supposed to smoke”, a tradução correta é perguntar se era para estar saindo fumaça — e não se era “para fumar”, como se o paládio do peito de Stark fosse uma caixa de charutos. No finalzinho do filme, “stable-ish” não é “estável”, mas “quase estável”. Isso foi o em que reparei. Estava muito concentrado no filme para observar legendas, mas essas me chamaram a atenção.
Naturalmente, em um filme desses ninguém espera que se vá respeitar completamente o fundamento científico. Nem teria graça, òbviamente. Por isso, vou observar só um detalhe impussívi, que é o seguinte. É verdade que a raça humana tem a capacidade prometeica de sintetizar novos elementos químicos: todos os que vêm depois de 92 na tabela periódica são prova disso. Também é verdade que o jeito de fazê-lo é usar um acelerador de partículas para jogar núcleos atômicos um contra o outro. Só que o que não é verdade é que um tal acelerador caiba em um laboratório doméstico — na vida real, estaria mais para o LHD (se bem que esse também é um monstro de exagero). Menos ainda o método seria jogar um raio pra cima de uma pecinha triangular presa em um torno e menos ainda se esperaria que, miraculosamente, a pecinha deixasse de ser feita de seu material (whatever seja) para passar a estar constituída do tal novo elemento químico. Aliás, quanto mais novo o tal elemento, mais fuderoso tem que ser o acelerador, e o do filme é uma piada. Por fim, na vida real a primeira coisa seria jogar a pecinha num espectrômetro de massa para se ver do que é feita e se realmente se trata do tal novo elemento, sem achismos. Afinal, método científico é isso. A tentativa poderia ter dado errado; tem que submeter a testes pra saber. E não “congratulations, sir, acabou de criar um novo elemento”, como se Ciência se construísse no improviso, por mais prodigioso que seja o intelecto starkiano. Mas relevemos. Adiante.
Agora, existe uma inconsistência em que tenho reparado em todos os filmes que envolvem computadores-que-controlam-coisas e personagens-que-sabem-driblar-criptografia-e-invadir-sistemas-alheios. Já faz 25 anos que estamos usando Windows, em uma ou outra encarnação. Mesmo assim, você já notou que, nesses filmes, os especialistas em segurança de informação NUNCA usam o mouse? Aliás, as máquinas nem têm o ratinho! É tudo feito via linha de comando, desde o tempo de Tron e Jogos de Guerra. A impressão que dá é que todo o mundo, do Pentágono às Indústrias Stark, passando pela Batcaverna e pelos alienígenas de ID4, todo o mundo ainda está rodando alguma interface de UNIX ou MS/DOS, a mais primitiva que conseguir!
(Suponho que seja mais dramático assim. Afinal, você sempre escuta o bater frenético dos dedos sobre as teclas, bastante aumentado em relação à vida real, enquanto o foco normalmente está no rosto do ator. Já com o mouse, você teria que acompanhar o ponteiro na tela, e os cliques seriam poucos e silenciosos, quebrando o ritmo e alienando os alienados que não usam computador — e que talvez ainda sejam maioria, apesar dos esforços de Bill e Steve.)
Mais uma vez, a trilha sonora encaixou direitinho. São oportunas Another One Bites the Dust, do Queen, e todas as inserções de metal pesado, tal como as do primeiro filme. Uma faixa que me surpreendeu — por não ser exatamente um exemplo de popularidade — foi Pick Up the Pieces, pràticamente igual à versão do disco A Hot Night in Paris, da Phil Collins Big Band, de 1999. É a musiquinha instrumental que aparece na cena em que o personagem Justin Hammer faz uma dancinha em cima de um palco.
Antes de eu passar à cena final, chamo sua atenção para a indefectível participação de Stan Lee. Bem que eu estava achando que o Larry King não fosse tão magro.
Mas vamos à tão esperada cena final. Esperada, certo? Claro! Porque, depois que as letrinhas subiram no primeiro filme do Homem de Ferro, todos vimos a verdadeira última cena, com Nick Fury na mansão de um perplexo Tony Stark, sem dizer como conseguiu entrar e começando um discurso sobre a Avenger Initiative.*
O quê??? Você é um daqueles trouxas que se levantam quando as letrinhas começam? Você perdeu a cena mais maneira do primeiro filme? Ah, mas não vai dar esse mole de novo, né. Afinal, você teve dois anos para saber o que havia perdido, e até alugou o DVD para conferir. Ou também é daqueles que dão stop assim que começam as letrinhas no DVD?
Pois é. Desta vez aconteceu de novo. As luzes nem se haviam acendido e já tinha mogalera fugindo do cinema, parece até que tem formiga na cadeira. É fobia, só pode ser! Não sei o que é tão repulsivo, mas a impressão que dá é que o cinema vai irromper em chamas se não estiverem todos do lado de fora quando acabar o rol dos atores.
Mas tenho a impressão de que havia muitos gatos escaldados também, porque um número incomum de nerds ficou sentadinho esperando subir todas as letrinhas. E olha que tem letrinha pra caramba! Passaram os nomes de todos os pintores, gesseiros, jardineiros (não estou brincando, pode conferir) e, básico, aquele mundão de gente que trabalhou nos CGI do filme, que é o que mais toma os créditos hoje em dia.
Antes do fim dos créditos, rolaram agradecimentos a John Byrne, Romita Jr., Romita Sr. e — desculpe, esqueci quem era o outro quadrinhista. Provàvelmente pelas diversas ideias que foram sendo usadas ao longo do filme.
E afinal não nos decepcionaram. Veio a última cena e foi bem legal. É óbvio que não vou contar nada dela, mas os conhecedores de Marvel (ainda que beeeeem superficiais) vão reconhecer. É fugaz, somente um segundo de filme ou dois, os últimos antes do escurecimento definitivo. E me faz pensar… Não vi o segundo filme recente do Hulk (não se preocupe, a cena não tem nada a ver com ele; eu disse que não ia contar o que era e mantenho a palavra); mas algo me diz que tenho que alugar o DVD, nem que seja só pela eventual cena pós-créditos, que nem sei se tem. Só pelo gosto, porque nem há um quebra-cabeças a ser montado. Sabemos no que vão dar essas ceninhas, temos lido.
Ah, sim, o cinéfilo do assento O15 mostrou que tinha escolhido O de otário. Foi embora assim que os créditos começaram a subir. Como disse minha companhia, não era especialista coisa nenhuma: deve ter escolhido o assento porque a mulher dele se chama Olga e 15 foi o dia em que ele se casou.
* Não sei traduzir isso. Iniciativa dos Vingadores? Iniciativa Vingadora? Iniciativa Vingadores? Leitores de Marvel, sugiram.
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Postando às 04:40 da manhã
Não prometo visitar sempre, mas acabo de me divertir um bocado lendo os pensamentos nerds desconexos daqui. Lembra muito o XKCD. Altamente nerd. Requer elevadas doses de nerdice para entender.
Algumas pérolas:
“If I weren’t on my way to being a neuroscientist, I would have to get a Ph.D. in Mathematics, because its the only way I could have an academic career all about Tetris and still be taken seriously.”
E quem entender esta aqui ganha um prêmio. Dica: quem primeiro falou nisto foi o Capitão Oveur.
“When on an airline, Pt 2
“As the crew is thanking me for flying with them, I have to resist the urge to ask the pilot if he has ever been in a Turkish prison and/or enjoys gladiator films.”
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Atualizados meus comentários a Babylon 5
Acabo de atualizar meus comentários a Babylon 5, com alguns parágrafos sobre “Into the Fire” (da quarta temporada).
Obrigado pela atenção.
Some more comics annotations
All information here is garnered from the Brazilian translations of these issues, which were published in Superalmanaque DC no. 2 (June 1991). They are listed here in the order in which they appear there, which is the order in which they are supposed to be read as part of the Janus Directive storyline.
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Checkmate! #16 (May 1989) — pencils by Rick Hoberg
In page 3, panel 6, a helicopter attack is represented on Project Atom which is the exact selfsame attack depicted in Suicide Squad #27 — an issue immediately preceding this one here. In Checkmate! #16, the helicopter can be identified as a twin-engine Bell AH-1 Cobra. Curiously, in SS #27, the helicopter was no current type, instead being some generic design contrived by the penciller. I would suggest they coordinate somewhat better if they wanted to appear so ingenious in showing continuity.
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Checkmate! #17 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin
In pages 4 and 5, the helicopters are respectively a long-cabin Bell 206 and a Bell 212. If I could venture a guess, I would say that the penciller was resorting to some Bell calendar to draw his pictures from.
Page 9, panel 3; page 14, panels 4 and 7 — The spaceship is Starblade, directly from the pages of Spacecraft 2000-2100 AD, by Stewart Cowley.
Page 16, panels 3 and 4 — The helicopter is a Hughes 269 (TH-55 Osage).
Page 19, panel 5; page 20, panel 3; page 23, panel 3; page 24, panel 1 — The helicopter appears to be an Aérospatiale AS 365, even though its first appearance gives it the front of an SA 360.
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Suicide Squad #29 (1989) – pencils by John K. Snyder III
Page 16, panel 1 — The Starblade features prominently at a picture that is a near-replica of the original from Spacecraft 2000-2100 AD.
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Checkmate! #18 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin
Throughout this issue, the USAF fighters are clearly those seen in An Illustrated Guide to Future Fighters and Combat Aircraft, by Bill Gunston, as the British Aerospace P.1214-3. The Brazilian edition of Gunston’s work (Aviões do futuro) has them on volume II, page 43. In Checkmate! #18, the same picture can be seen on page 17, with the major difference that the single, fuselage-mounted engine has been replaced by four engines under the wings. Other depictions are seen on pages 1, 12, 18 and 19.
Likewise, the Starblade is featured throughout, notably on pages 14, 15, 18, 19 and 20.
Page 21 — The landing on the Starblade’s cargo bay was unlikely enough, to say the least. Now they compound it with a charge very much resembling one of those from the silly G.I. Joe cartoon, which, to be sure, was contemporary to this issue.
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Suicide Squad #30 (1989) — pencils by John K. Snyder
Page 19, panel 2 — Starblade again.
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Mais anotações a quadrinhos
Toda a informação aqui foi apanhada das traduções brasileiras destas edições, que foram publicadas em Superalmanaque DC no. 2 (junho de 1991). Elas estão listadas aqui na ordem em que aparecem lá, que é a mesma ordem em que devem ser lidas como parte do arco Conspiração Janus.
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Xeque-mate #16 (maio de 1989)– desenhos de Rick Hoberg
A página 3, quadro 6, representa um ataque de helicóptero ao Projeto Átomo que é o mesmo e exato ataque mostrado em Esquadrão Suicida #27 — uma edição imediatamente precedendo esta aqui. Em Xeque-mate #16, pode-se identificar o helicóptero como um Bell AH-1 Cobra bimotor. Curiosamente, em ES #27, o helicóptero não era qualquer tipo atual, sendo, em vez disso, de algum formato genérico imaginado pelo desenhista. Eu sugeriria que eles se coordenassem um pouco melhor se quisessem parecer tão engenhosos em mostrar continuidade.
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Xeque-mate #17 (junho de 1989) — desenhos de Steve Erwin
Nas páginas 4 e 5, os helicópteros são, respectivamente, um Bell 206 de cabine longa e um Bell 212. Se eu pudesse arriscar um palpite, diria que o desenhista estivesse recorrendo a algum calendário da Bell de onde tirar suas figuras.
Página 9, quadro 3; página 14, quadros 4 e 7 — A nave espacial é a Starblade, diretamente das páginas do clássico Naves espaciais 2000 a 2100, por Stewart Cowley, livro tão fácil de se encontrar nos sebos do Rio de Janeiro e, até há uns anos, na promoção dos encalhes da Sodiler.
Página 16, quadros 3 e 4 — O helicóptero é um Hughes 269 (TH-55 Osage).
Página 19, quadro 5; página 20, quadro 3; página 23, quadro 3; página 24, quadro 1 — O helicóptero parece ser um Aérospatiale AS 365, apesar de sua primeira aparição lhe dar a frente de um SA 360.
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Esquadrão Suicida #29 (1989) — desenhos de John K. Snyder III
Página 16, quadro 1 — A Starblade aparece com destaque em uma figura que é quase uma réplica da original de Naves espaciais 2000 a 2100.
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Xeque-mate #18 (Jun 1989) – desenhos de Steve Erwin
Por toda esta edição, os caças são claramente aqueles vistos em Aviões do futuro, de Bill Gunston, no volume II, página 43, como o British Aerospace P.1214-3. Em Xeque-mate #18, pode-se ver a mesma figura na página 17, com a grande diferença de que o motor único, montado na fuselagem, foi substituído por quatro motores sob as asas. Outras representações são vistas nas páginas 1, 12, 18 e 19.
De forma semelhante, a Starblade aparece ao longo da edição, notavelmente nas páginas 14, 15, 18, 19 e 20.
Página 21 — O pouso no compartimento de carga da Starblade era improvável o bastante, para se dizer o mínimo. Agora, eles o compõem com uma carga que em muito se assemelha a uma daquelas dos infantis desenhos animados dos Comandos em Ação, que, note-se, eram contemporâneos desta edição.
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Esquadrão Suicida #30 (1989) – desenhos de John K. Snyder
Página 19, quadro 2 — Novamente a Starblade.
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O Garoto da Camisa Dourada não morre mais
Já deve fazer uns quinze anos que William Shatner só interpreta um personagem: William Shatner.
Desde o início da carreira, ele sempre disse que estava interpretando a si mesmo, que se comportava no palco e na tela como se comportaria na vida real diante daquela situação, e que tentava trazer de si mesmo, e de sua vida, para dentro do personagem. Tenho certeza de que isso foi verdade para o Capitão Kirk, que é indissociável dele (a despeito de Chris Pine — um filme em 2009, por melhor que seja, não apaga 44 anos de História).
Por variadas razões, Shatner é o meu herói — a começar por ter sido o grande Rapa-Trilho da Galáxia, assim denominado em priscas eras de JETCOM por minha colega Leila Kalomi. Nos anos 70, qual moleque de doze anos não queria estar no lugar dele, no comando da Enterprise e de suas 400 almas, desbravando o espaço com um phaser numa das mãos e alguma tripulante gostosona a tiracolo na outra? E ainda sendo mais esperto do que o Spock e enganando os inimigos e a morte por mais um dia?
Só que, de meados dos anos 90 para cá, o homem largou qualquer pretensão ao fingimento. É escancarado mesmo: toda vez que aparece na mídia, ele faz a si mesmo, e faz de si mesmo um personagem, uma paródia constante de todos os seus papéis canastras do passado. Nem parece o ator substituto ovacionado por Henrique V, de Shakespeare, ou o sério passageiro assustado de “Terror a 20.000 Pés”, no Além da Imaginação.
Sua biografia traz evidências de que ele tenha sido um canalha, e é bem possível mesmo. Gente com um ego do tamanho do dele costuma deixar uma trilha de corpos e corações partidos atrás de si. Mas o sujeito nos entretém tão bem que não vou julgá-lo (de todo modo, não estava lá pra saber). Você fica em dúvida sobre quanto é sério em seu discurso, até que lembra que ele tem consagrado sua vida à diversão, ao teatro e à pândega. NADA é sério. Aquela disputa aparentemente mesquinha com George Takei, onde pede desculpas e convida Takei a vir a seu programa quando quiser — não dá pra levar a sério tampouco. É muito provável que ele mesmo não esteja dando importância a nada disso, que respeite Takei mais do que diz e que não se importe com ele nem uma fração do que declara. Na verdade, não parece importar-se com ninguém, nem pode: se um sujeito na condição de Shatner tiver qualquer pudor, não faz um décimo do que ele vem fazendo.
O mesmo vale para tudo que Shatner faz em cima de um tablado ou na frente de uma câmera. Aos 79 anos, o cara aparenta mais hiperatividade e jovialidade do que muita subcelebridade de dezoito. E não é que “esteja sempre se reinventando”, como é moda dizer, mas fazendo sempre o mesmo: William Shatner.
Veja bem: ele pode. Olha o tamanho da filmografia do malandro. Então, com esses créditos, ouso afirmar que, hoje, esteja permanentemente se divertindo, importando-se zero com o que a audiência vai pensar, e, na verdade, de certo modo, divertindo-se à nossa custa. Basta observar qualquer coisa que ele tenha feito na televisão nos últimos quinze anos. Exemplos ilustres que conheço: How William Shatner Changed the World, de 2005; seu personagem Big Giant Head, onde satiriza o Capitão Kirk e a si mesmo (inclusive em Twilight Zone) em 3rd Rock From the Sun; e Free Enterprise, onde declama Júlio César, de Shakespeare, em ritmo de rap. Especial destaque merece sua participação em Boston Legal: aquilo não é Denny Crane coisa nenhuma, nem é realmente atuação em qualquer sentido da palavra. Aquele ali é William Shatner sem nenhum disfarce, inclusive se declarando senil para não ter que responder por nada do que faz ou diz. E a mulherada ainda morre pelo cara!
Agora ele confirma todo esse histórico. Depois de ter gravado o clássico álbum The Transformed Man nos anos 70, declamando Lucy in the Sky e destroçando Mr. Tambourine Man, agora Shatner retorna a sua veia não-exatamente-musical e faz este dueto de Total Eclipse of the Heart com o fenômeno instantâneo Lin Yu Chun:
Dá pra disputar? O Oscar eterno vai mesmo para The Shat, com u’a mão nas costas!
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Cena excluída de Star Wars Episódio IV (o original)
Isto ficou no chão da sala de edição de George Lucas. Agora, com o poder da remasterização, está recuperado especialmente para você.
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… e agora Iron Man
Hoje parece ser o dia de pôr minhas notas em dia. Acabo de subir uma nova página, em princípio a não ser atualizada: os comentários do Sr Atoz ao primeiro filme do Homem de Ferro.
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More dull annotations on comics
These are my annotations on some comics issues I have read not too long ago. They are not meant to be interesting to the general public, but only to myself and to those who google for them.
Batman #500 (Oct 1993)
Page 7, panel 2; page 8, panel 5; page 23, panel 6; and page 24, panel 1 – Jordan B. Gorfinkel, Assistant Editor.
Page 23, panel 6 — Does the sign not remind you of Geoforce?
Page 52 — The car’s impact was reused in 2005′s Batman Begins.
Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993)
Page 19 (Brazilian edition), panel 3 — The Cyborg’s eye and teeth are reminiscent of Swamp Thing‘s Anton Arcane as seen after death in Alan Moore’s run.
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Estas são minhas anotações a algumas edições de quadrinhos que li há não muito tempo. Elas não pretendem interessar ao público em geral, mas apenas a mim mesmo e àqueles que googlarem por elas. A numeração das páginas e dos quadros segue a das edições originais.
Batman #500 (Oct 1993) — publicada em Batman no. 4 (junho de 1995)
P. 7, quadrinho 2; p. 8, quadrinho 5; p. 23, quadrinho 6; e p. 24, quadrinho 1 – Jordan B. Gorfinkel, Editor Assistente.
P. 23, quadrinho 6 — O símbolo não lembra o do Geoforça?
P. 52 – O impacto do vagão foi reutilizado em Batman Begins, de 2005.
Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993) — publicada em O retorno do Super-Homem no. 3 (novembro de 1994)
P. 19 (edição brasileira), quadrinho 3 — O olho e os dentes do Superciborgue remetem aos de Anton Arcane após a morte, conforme representado no período em que Alan Moore escrevia o Monstro do Pântano.
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Babylon 5: comentários de março e abril
Acabo de atualizar meus comentários a Babylon 5, com acréscimos sobre “Z’ha’dum”, “The Hour of the Wolf”, “Whatever Happened to Mr. Garibaldi?” e “The Summoning”. Também já vi “Falling Toward Apotheosis”, mas nada tenho a acrescentar.
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O fantasma de São Diogo
Até o século XIX, havia no Rio de Janeiro um prolongamento da baía da Guanabara, chamado Saco de São Diogo. Os registros divergem, mas, pelo que entendi, o Saco ocupava a região onde, hoje, ficam parte da região portuária, a estação Leopoldina, a avenida Francisco Bicalho, o Trevo das Forças Armadas, e pedaços da Cidade Nova. Um debate sobre sua extensão aqui.
Durante o século XIX, aquela área foi toda aterrada. Naturalmente, nem por isso se tornou muito mais alta. Ali chegam o Rio Comprido, o rio Joana, o rio Maracanã, o Trapicheiro e outros cursos d’água que drenam o terreno de nossa cidade desde o tempo da última glaciação. O canal do Mangue é prova de que, por ali, um bocado de água ainda corre para o trecho de baía junto à rodoviária Novo Rio. O Saco de São Diogo foi-se, mas sua macro-influência na hidrografia do Rio permanece, feito um fantasma que se recusa a ser derrotado.
Quanto à Praça da Bandeira, històricamente sempre foi alagada. O terreno ali é desconfortavelmente baixo, era dominado por um manguezal e estava ìntimamente ligado ao Saco de São Diogo, com toda a sujeição às marés que caracteriza esse tipo de situação. O traçado topográfico variava fortemente conforme o Saco estivesse mais ou menos cheio de água e, mesmo que hoje haja uma praça por cima, os rios ainda passam ali por baixo. Mesmo hoje, se chover forte durante a maré alta, a desembocadura dos rios fica mais baixa do que o nível do mar, a água não tem pra onde ir e é alagamento na certa.
Acho que isso explica por que é que, em tempo de chuvas como a desta semana, não convém ficar muito perto de São Cristóvão e Maracanã. Agora há pouco, eu estava assistindo ao Jornal Nacional online, e tem o vídeo de um ônibus em frente ao CEFET, com água na altura da janela!
E diz a previsão do INPE que vai continuar chovendo nesta quarta-feira e além…
Na cobertura jornalística do G1, tem um meteorologista dizendo que “não é possível associar [a chuvarada desgraçada dos últimos dois dias], que classificou de ‘atípico’, com o aquecimento global, mas também não se pode descartar sua influência”. Em outras palavras, o homem não sabe o que diz. Mas deixe-me acrescentar alguma coisa, eu, que não sou especialista em p**ra nenhuma. Primeiro, concordo que seria ignorante e leviano associar uma específica chuva, em uma específica semana, a um fenômeno mundial de longo prazo, como é o aquecimento global. Não dá pra fazer esse vínculo, como alguns palpiteiros poderão tentar amadorìsticamente. Em matéria meteorológica, existe um zilhão de fatores envolvidos, e não é a primeira vez que chove forte no Rio.
Mas, segundo a mesma reportagem, a causa da chuva forte seria o calor brabo dos últimos dois meses, que provocou uma umidade incomum no ar sobre a cidade. Com a chegada de uma frente fria, caiu o mundo em cima da gente. Ora, com base nisso, arrisco-me a identificar uma tendência para o futuro sim, por mais que eu prefira estar errado: com o aquecimento global, mais vezes veremos o ar ficar úmido além do que era habitual durante o século XX. As chuvas torrenciais, que aconteciam a cada vinte anos, vão passar a acontecer a cada quinze, dez, cinco, dois anos; já não vai ser algo incomum, mas perfeitamente previsível. Com a chuva, virão a falta de luz, o caos nos transportes, isso tudo.
Então taí. Como Esposa estava comentando comigo ontem: vai acabar esta nossa mamata de ter tudo fácil, eletricidade, telefone, água potável. Vamos ter que conviver com escassez sim, e a vida de nossos filhos não vai ter os luxos da nossa. Quero dizer, para quem é rico assim como para quem é pobre, o padrão de vida vai cair e as agendas vão ter que considerar mais contingências do que as nossas. Tudo vai mudar em nossa civilização. E não descarto a falta de comida.
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Pra quem ainda fica glorificando a guerra
Li há pouco a notícia: ontem foi divulgado um vídeo que era mantido em sigilo pelo exército americano desde 2007. O vídeo está aqui. Essencialmente é o seguinte: dois repórteres, câmeras na mão, acompanham um grupo de sete homens no Iraque, dos quais dois me parecem estar armados (mas posso estar enganado). O vídeo foi feito da câmera do canhão de um helicóptero Apache, que filma tudo que acontece no lado para onde está apontado o canhão. O artilheiro do helicóptero identifica uma das câmeras como uma RPG (arma antitanque muito comum entre guerrilheiros por todo o mundo) e, depois de obter autorização, abre fogo contra o grupo inteiro, gastando 82 cartuchos (basta ver o contador no canto inferior direito: 252 decresce para 170). Oito morrem na hora. O nono, por coincidência o fotógrafo, consegue se arrastar, ferido. Um veículo pára para resgatá-lo e o helicóptero põe mais 120 projetis em cima dele, finalmente matando o ferido.
Você pode assistir ao vídeo tranquilo, porque não tem aquela sangueira que deve ter imaginado, nem dá para ver corpos despedaçados. É tudo muito abstrato, e o helicóptero está longe. Não se escuta nada do que deve estar acontecendo no chão.
Mas várias coisas me impressionaram. Uma delas é a precisão com que o artilheiro consegue identificar os alvos. Outra coisa — e isto é importante — é que o canhão do Apache é o M230, um monstro de 30 mm, projetado para furar blindagem de tanque. Os projetis são explosivos ou incendiários. Ou seja: são mais do que overkill para acertar gente, certamente muito piores do que os cruéis projetis de 5,56 mm dos fuzis que os traficantes e os exércitos do mundo usam por aí.
Outra coisa que me impressiona é a remoção emocional dos militares envolvidos, o profissionalismo de alguém para quem aquilo é só mais um dia de trabalho. Na verdade, em mais de um momento eles comemoram o sucesso dos disparos, e tem um que até ri quando, mais tarde, um veículo blindado de infantaria, também americano, acidentalmente atropela um dos corpos. Considerando que os atiradores estavam na confortável proteção do helicóptero enquanto os alvos estavam indefesos em campo aberto, é muito fácil censurar os soldados e chamá-los de ianques covardes e brutais. Só que há um fenômeno fàcilmente esquecido por quem nunca foi à guerra, que é a gradual desumanização, o embotamento de quem se acostuma a matar sem uma censura por parte do sistema. O cara nem percebe que está errado e, de todo modo, no meio da guerra onde está, muitas vezes ele tem mesmo que matar para não ser morto. Então ele se acostuma e, para ele, puxar o gatilho é tão corriqueiro quanto este teclado aqui para mim.
Tem também o par de segundos transcorridos entre o momento em que começamos a ouvir os tiros e o momento em que vemos os impactos na terra. É demorado mesmo. Por aí se pode ver a distância a que estava o helicóptero. E as vítimas não saem correndo antes de a terra começar a voar à sua volta, o que indica que nunca ouviram os disparos: os projetis são supersônicos. Também aí podemos perceber a precisão do M230. Considerando que, pelas especificações de projeto, provàvelmente bastava que o canhão fosse capaz de acertar veículos à distância, claramente ele atende à exigência, porque dá para acertar um homem, escolhido individualmente.
Estou mostrando esse vídeo com um propósito. Tem gente que se empolga com armas de fogo, que se impressiona com sua capacidade de destruição. Alguns são militares, outros são adolescentes; alguns são apenas entusiastas da História das guerras. Conheci várias pessoas assim em meu tempo de vida, embora hoje não conviva com nenhuma, e todas — verdade seja dita — sempre foram minoria nesses grupos aí. Às vezes vemos vídeos de guerras, tanques rolando pela pista, soldados desembarcando, aviões largando bombas, mas é sempre com aquele distanciamento de mostrar o lado de quem atira, ou cenas que não são de combate. O lado da vítima só costuma aparecer nas obras de ficção. Por mais realista que seja, sempre rola um sangue de mentirinha, e você sabe que não é real. Pois o que este filme mostra é como realmente fica a vítima que leva tiro de canhão. Não é nada divertido, não é algo a que se assista para se ficar empolgado. É bem despojado, sem música nem drama. E é para ver como é.
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Um aguaceiro olímpico
Você já sabe o que eu vou dizer, né? É um absurdo, UM ABSURDO que uma cidade, qualquer cidade, pare por causa de uma simples chuva de algumas horas. Mais ainda uma cidade que pretende sediar jogos olímpicos e copa do mundo. Não é possível que a infra-estrutura (tem hífen?) pare de funcionar, e não haja hospitais, nem planos de contingência, nem mais transporte público. Eu soube que, no apagão do início do ano, tinha hospital que não tinha gerador e gente morreu por causa disso. Não é possível que seja tudo no improviso, não é possível descobrirmos isso só quando falta luz. TÁ TUDO ERRADO.
Ontem à noite, várias localidades ficaram inundadas no Rio de Janeiro, todo o trânsito parou, os ônibus pararam de circular, bombeiros militares tiravam gente de seus carros na Praça da Bandeira, minha rua ficou sem luz (a única na Tijuca, aparentemente), o Metrô parou de funcionar durante um intervalo de tempo. Hoje de manhã, quase ninguém no meu local de trabalho, a luz só voltou quase às dez da manhã, e a Defesa Civil pede que ninguém saia de casa. Nos hospitais e quartéis dos bombeiros, os plantonistas dobraram, e eu não me surpreenderia se alguém me dissesse que os jornalistas na tevê são os mesmos de ontem à noite, que não conseguiram ir pra casa e cujos substitutos não chegaram. Nos quartéis do Exército, tenho certeza de que todo o mundo também teve que dobrar o serviço, mas para esses estou pouco me f*dendo e estou até rindo, já paguei o que devia à força, já fiz ronda de madrugada, fiquei de serviço debaixo de chuva no réveillon do milênio.
Ninguém fez nada para resolver nada, e aí me incluo; a crítica vale também para mim mesmo. Eu não sabia se meu síndico havia tentado contato com a Light para trazer a luz — como se o caminhão da Light fosse conseguir chegar a nossa rua no meio do dilúvio –, então tentei contato. Descobri todas as linhas da empresa ocupadas, e tome ouvir musiquinha. Dessa vez, não posso culpá-los.
Enquanto isso, meu telefone fixo é um fax Panasonic que só funciona se estiver ligado na tomada, de modo que fiquei também sem telefone. Passei a contar com o celular, cuja bateria já não estava no máximo e, portanto, tinha que ser usada com parcimônia. Esposa lembrou que temos dois no-breaks (o do computador e o da TV), ambos com carga, e perguntou se poderíamos carregar os celulares neles. Suponho que sim, mas é aquilo: você só tem meia hora de carga — use-a sàbiamente! Aí, lembrei que, dois dias antes, eu havia carregado a bateria da máquina fotográfica. Quer dizer, ainda tinha essa carga com que contar. Me senti o próprio Magáiver*, restabelecendo a luz da rua só com a bateria de lítio de 2,4 Wh da Sony.
E como é que eu soube que a luz tinha voltado? O infeliz do meu vizinho já tinha botado o rádio no máximo. O mesmo e repetitivo disco, over and over again.
* A formulação correta da frase seria “Senti-me o próprio McGyver”, mas não teria o mesmo gosto.
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Agora foi a revista Veja
A revista Veja desta semana (datada 07/04/2010 e intitulada “O insuportável peso de voar”) traz sua matéria de destaque na página 68. Está lá, reclamando (a meu ver, com razão) da falta de infraestrutura aeronáutica no Brasil, de como os aeroportos não aguentam o tráfego nem as empresas estão preparadas.
Infelizmente, como de hábito, a matéria é pródiga em estatísticas de pouco significado e não indica ter feito muita pesquisa junto a especialistas de verdade. Bàsicamente, o ponto de vista apresentado é o do autor da matéria, sem outras vozes. Mas o mais interessante não é isso.
Entre as páginas 70 e 71, há uma suposta comparação entre os aeroportos de Guarulhos e Gatwick, com uma foto de cada um. Estive em Gatwick por duas vezes em 1998 e, motivado apenas pelo saudosismo, decidi olhar a foto com atenção, para reviver as memórias de tudo que reconhecesse.
Pois reconheci, alright. Chamou-me a atenção como o aeroporto era amplo e iluminado. Memórias agradáveis vieram, enquanto eu observava, “parece até o Terminal 5 de Heathrow…”.
Peraí. O janelão de vidro era igual ao do Terminal 5. Na verdade, a foto era idêntica a uma que tirei dois anos atrás, no Terminal 5; o ponto de vista era o mesmo da minha foto. Não é pra menos que me parecesse tão familiar: NÃO ERA GATWICK COISA NENHUMA, era o Terminal 5 de Heathrow.
Já nem tem mais graça, nem há mais novidade. Estava eu diante de mais um daqueles casos, que tantas vezes já vim relatar, onde o estagiário da revista NÃO SABE e, por isso, enfia qualquer foto mesmo. Afinal, ele não sabe a diferença, nem se importa; por que alguém deveria se importar, não é mesmo?
Não é que o estagiário seja obrigado a conhecer Gatwick. Ninguém é. Mas — mais uma vez, repita meu mantra –, SE NÃO SABE, NÃO CHUTA. Ele não está legalmente obrigado a apresentar uma foto de Heathrow dizendo que é Gatwick. Se não quer colocar uma foto de Gatwick, basta não pôr foto nenhuma! Deixa sem foto! Se faz questão de pôr uma foto dizendo que é de Gatwick, então arrume uma foto de Gatwick! Não é pra catar a primeira foto que aparece e, pronto, escolher que, agora, Gatwick é assim. A realidade não se molda à ignorância do estagiário, por mais que ele deseje.
As demais matérias da revista eram, em sua maioria, propaganda disfarçada de jornalismo. Felizmente não tenho a queixa de ter gasto meu dinheiro em propaganda: o exemplar não era meu.
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Acidente da Fumaça em Lages
Vá ao YouTube e você encontrará inúmeros vídeos do acidente havido ontem com um Tucano da Esquadrilha da Fumaça. Dos que vi, o melhorzinho é este.
Estes aqui também são bem completos.
Mais uma vez, os auto-intitulados especialistas vão apresentar suas óbvias causas do acidente. Já vi um comentário no mesmo YouTube, de um sujeito que diz ter acompanhado telemetria do avião e, com isso, percebido pane, assim como ouvido o piloto, a dizer no rádio que o motor tinha falhado. Pode ser verdade, pode ser mentira. Não sei.
Tenho uma pergunta. O avião estava òbviamente perto do chão, apontado para o chão e não para o público, e nivelado com o cockpit para cima. Não vejo motivo para o piloto precisar ficar a bordo até o último instante (embora talvez ele tivesse). Que eu saiba, os assentos do Tucano são zero-zero: funcionam a zero velocidade e zero altitude. Por que, então, ele não ejetou?
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Bad Yahoo!
Ontem, primeiro de abril, o Yahoo! pôs no ar a seguinte desportagem:
No final, vem um teste: você consegue identificar um mentiroso? São dez perguntas, cada uma com três opções, e você vai escolhendo a que lhe parecer correta. Assim, por exemplo:
1) Quando conversa com alguém e desconfia do papo, você presta atenção:
a) nos olhos da pessoa.
b) no jeito como ela fala.
c) na forma como ele está sentado.
Respondi às dez perguntas e pedi o resultado. Veio:
É difícil te enganar. Você é capaz de farejar uma mentira a quilômetros de distância. Além de ficar atento aos aspectos físicos, você é capaz de perceber as intenções de quem as conta por seus traços comportamentais.
Quem não gosta de ler isso? Inflaram à beça meu ego!
Só que me dei conta de um detalhe: eles não disseram quantas perguntas eu havia acertado. Então, fiz o teste de novo, e mudei todas as respostas.
DEU O MESMO RESULTADO.
Depois, mudei para a terceira opção de cada pergunta. Mesmo resultado, de novo!
Percebe o que houve? Não é teste coisa nenhuma! O Yahoo! conta com o ego do leitor. Todo o mundo adora se sentir inteligente, capaz, arguto e sagaz. O leitor NUNCA vai desconfiar que o Yahoo! só disse o que disse para puxar seu saco! O que o Yahoo! quer, na verdade, é que seu leitor veja a “credibilidade” do portal, que se sinta paparicado, que queira voltar mais e mais vezes por causa disso.
SÓ MESMO RETARDADOS MENTAIS.
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Casal Nardoni
O título desta postagem é o que Cardoso costuma chamar de Google bait.
A manchete do jornal dizia, enooorme: “FOI FEITA JUSTIÇA”.
Alguém vai lá e explica pro jornalista que sempre seria feita justiça, de um modo ou de outro. Quaisquer que fossem as decisões do júri (condenando ou absolvendo) e do juiz (estabelecendo o quantum da pena), estaria sendo feita justiça. Por definição, justiça é aquilo que eles decidem. É pra isso que existe Poder Judiciário. “Justiça” não é sinônimo de “condenar”.
Outra: “agora você pode descansar em paz, Isabella”. Outro desinformado. Alguém, por favor, vai lá e explica pra esse sujeito, que não sabe p*cas de processo penal, que não acaba aí. Qualquer um que já tenha lido qualquer notícia, sobre qualquer processo penal, sabe que, depois da sentença, ainda cabe recurso. Vocês podem tacar pedra à vontade, dizer que as hipóteses são mais restritas no júri, que o protesto por novo júri foi abolido, podem dizer o que quiserem. A defesa sempre vai entrar com o recurso que quiser, ou até com habeas corpus, e algum tribunal sempre vai ter que, no mínimo, dizer que o recurso não cabe. Mas nunca acaba ali.
Não adianta vir me dizer “ah, mas o jornalista não fez curso de Direito, não é obrigado a saber esses detalhes”. Realmente, não é mesmo. Mas, então, PERGUNTA, P#RRA. Insisto e insisto: SE NÃO SABE, NÃO CHUTA. Não é pra escrever sobre o que não sabe, nem é pra inventar. Advogado taí é pra isso mesmo, pra responder pergunta. Eu, por exemplo, não sou especialista em nada, mas não tem uma palavra que eu escreva aqui cujo significado ignore.
Conheço a tese: tudo é pra ontem, não dá tempo de consultar um especialista, o jornal tem que ir pra gráfica, se possível, ONTEM. Já sei, já sei. É, realmente vai cair o dedo se o sujeito pegar um telefone e ligar prum advogado antes de escrever besteira. Realmente, cinco minutos vão fazer uma diferença enorme para um jornal que leva 24 horas pra ficar pronto.
Ah, é só pra vender jornal mesmo, que se f*da. TNC todo o mundo.
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Cabides aéreos
Minha amiga Moema enviou-me o linque:
http://www.bemlegaus.com/2010/03/cabides-avoados.html
Em resposta, enviei um email a ela, que reproduzo e expando aqui. Abre aspas.
É bem legaus!
E é um episódio muito interessante da História da aviação esse da Ponte Aérea de Berlim. Em alemão, Luftbrücke: literalmente, “ponte de vôo”, ponte aérea. Em inglês, Berlin Airlift. Um dos aviões (um C-54 — não o mesmo do cabide) ficou conhecido como Candy Bomber. Seu piloto (Cap Gail Halvorsen) atirava chocolate pela janela na aproximação final ao aeroporto, cada um com seu pequeno paraquedas (agora sem hífen), causando impressão nas crianças de Berlim que dura até hoje. Em alemão, é Rosinenbomber (está no texto). Halvorsen ficou impressionado que, durante a guerra, apenas três anos antes, ele fazia a mesma rota ao comando de um bombardeiro, largando sua carga mortífera sobre a cidade que, agora, ajudava a sustentar. Depois da iniciativa de Halvorsen, vários pilotos passaram a fazer a mesma coisa.
Quando a P.A. de Berlim fez cinquenta anos, várias revistas especializadas publicaram matérias comemorativas. Tenho-as. São artigos superinteressantes, detalhando o esforço logístico louco que foi sustentar Berlim Ocidental durante um ano e meio, trazendo de tudo: carvão, batata, leite, arroz, remédio, biscoito, café, açúcar, sal, madeira, roupa, sapato, gasolina, graxa, tecido, tudo. Um avião por minuto — um por minuto! No inverno, com neblina arriscada, um a cada três minutos! Sabe lá o que é sustentar isso, nonstop, por um ano e meio?!
Hoje, existe um monumento na frente de Tempelhof, referente à Ponte Aérea. O formato do cabide é o de um setor de disco, remetendo ao pátio de estacionamento de aeronaves desse aeroporto, que tem esse formato bem chamativo. Tempelhof não é usado pela aviação comercial há vários anos, mas uma passada pelo Google Earth (ou Google Maps) mostra vários aviõezinhos estacionados, bem como um C-54, preservado em metal natural, a leste do pátio.
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Observação jurídica sisuda: serviços públicos e dignidade da pessoa humana
Diz o Professor Alexandre Santos de Aragão:
Os serviços públicos têm uma conotação coletiva muito mais ampla que as atividades econômicas privadas. Visam à coesão social, sendo muitas vezes um instrumento técnico de distribuição de renda e realização da dignidade da pessoa humana (art 1o., III, CF), com o financiamento, através das tarifas dos usuários que já têm o serviço, da sua expansão aos que ainda não têm acesso a ele.
(Serviços públicos e defesa do consumidor: possibilidades e limites da aplicação do CDC. LANDAU, Elena (org.). Regulação jurídica do setor elétrico. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. P. 153-154. Apud GUERRA, Sergio; SAMPAIO, Patrícia Regina Pinheiro. Ordem constitucional econômica. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, s.d. P. 42.)
Portanto, o Autor vê, no serviço público, uma forma de materialização da justiça distributiva e da noção abstrata de dignidade da pessoa humana (art 1o., III). Eu acrescentaria que também é uma das formas de se materializar outro comando constitucional: o do artigo 3o., I.
Artigo 3o. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
O grifo é meu.
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Minha contribuição à paranoia global
A partir do final do século XIX, a pólvora negra foi deixando de ser usada nas armas de fogo. Em seu lugar, passou-se a usar nitrocelulose, que é mais energética e menos sensível a atrito e pressão, causa menos corrosão nas armas, tem um processo de fabricação mais seguro e faz muito menos fumaça. Por todas essas razões é que, nos últimos cem anos, a munição de todas as armas de fogo não usa pólvora como propelente, mas nitrocelulose, apesar de o público leigo continuar chamando de pólvora.
Ora, esmalte de unha é, basicamente, nitrocelulose dissolvida em acetato. Quando se diz que esmalte é inflamável, talvez seja tècnicamente mais apropriado dizer que seja explosivo, porque é isso que ele é.
Agora, falemos na segurança dos aeroportos do mundo. Nas salas de embarque espalhadas por todo este lindo planeta azul, cartazes advertem da proibição de determinados itens na sua bagagem: armas brancas e de fogo, substâncias inflamáveis, corrosivas ou tóxicas, animais, explosivos…
Peraí. “Explosivos”?
Isso vale para esmalte de unha?
Sssshhhh!!!!… Vale, sim. Por enquanto, os agentes de segurança ainda não se deram conta disso, nem proibiram as madames de embarcarem com suas últimas tonalidades da moda. Quero ver o rebu que vai ser quando perceberem que qualquer perua inconsequente pode iniciar um incêndio a 20 mil pés…
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Retuíte nerdiano de quem não tuíta
Isto é maravilhoso. Dica do Juan (que não conheço, mas acabo de visitar o belogue dele). O WordPress não me deixar mostrar o vídeo nem na porrada, mas, se você clicar, é diversão garantida.
Star Wars: Uncut Trailer from Casey Pugh on Vimeo.
A explicação você encontra aqui: centenas de fãs estão, cada um, refilmando uma cena de quinze segundos de A New Hope. Quando tiverem terminado, os caras farão a colagem.
Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias
Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.
Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.
Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.
Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.
Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.
Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.
Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.
Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.
A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:
Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.
Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.
Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.
Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.
Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.
Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:
a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.
Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.
Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.
Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.
Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.
Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?
Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.
E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”
Eu sei. Sei muito bem.
E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!
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Helicópteros e sabotagem
Estava lendo no Globo On: caiu no Centro-Oeste um helicóptero do Batalhão de Aviação do Exército.
Como se só houvesse um. Na verdade, são quatro Batalhões de Aviação do Exército. A matéria até dá a entender que a aeronave era do 3o. Batalhão, mas será que vai cair o dedo se escrever certo?
Mas o mais importante é isto. A fotografia mostra um helicóptero Tigre, usado pelos exércitos francês e alemão e não usado no Brasil. E a legenda diz “Modelo de helicóptero que caiu no Pantanal /Reprodução TV Morena”. É evidente que o helicóptero caído não tem como ser do mesmo modelo do da foto.
É o que vivo dizendo sobre a absoluta preguiça de se pesquisar qualquer coisa, tão comum entre pseudojornalistas brasileiros. Ninguém olha nada. Fiquei sem saber qual é o modelo do helicóptero que caiu. E aí você começa a duvidar de tudo: sequer caiu?
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Boçais e ladinos
Hoje havia uma notícia no jornal: um homem foi executado pelo tráfico porque havia dito “é nóis”.
Pensei, que maravilha! Finalmente os erros de português estão sendo punidos como merecem!
Lendo o restante da matéria, descobri o verdadeiro motivo: “é nóis” era o lema da facção criminosa inimiga da dos homicidas. Aí não tem graça.
Mas bem que ajudaria se minha primeira impressão tivesse sido real. A Companhia de Comédia Melhores do Mundo fez uma peça de teatro (vídeo aqui) onde o sequestrador avisava à polícia que ia matar um refém para cada erro de português. Pleonasmo eliminava dois reféns. A peça tinha o seguinte diálogo:
– Vou ligar para uma autoridade aqui pra resolver o problema!
– Liga para um delegado, para um deputado, sei lá. Liga pro Presidente Lula!
– P***a, “Presidente Lula”?! Cê quer uma chacina aqui??!!
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Pode ser que você tenha lido um de meus textos sobre os intreináveis. Se não leu, faz favor: vai lá e depois voltaqui para ler o que segue abaixo. Eu espero.
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Já leu? Então tá bom. Só mais uns espacinhos, e aí entra meu texto novo.
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É o seguinte. A Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005, traz um interessante comentário em matéria não assinada, intitulada Vende-se gente e constante da página 89:
Os comerciantes de escravos classificavam suas mercadorias como usadas ou novas, sendo ‘boçais’ os [escravos] sem habilidades ou treinamento, (…) e ‘ladinos’ os escravos africanos assimilados.
Você aprende duas coisas daí. Primeiro, que essa é a origem do uso que fazemos da expressão “ladino”, que significa, basicamente, “safo”, “esperto”, “atilado”, “malandro”.
Segundo, que os intreináveis se enquadram na exata definição de “boçal”. Com a diferença de que jamais podem vir a se tornar ladinos.
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A imbecilidade humana, mais de perto
Vou começar com a seguinte premissa: o Metrô está errado. Não há como livrar a cara da empresa. Tudo que vem dando errado nos últimos meses, tudo, tudo, é culpa do Metrô Rio.
Pra você, que não usa o sistema, permita-me explicar. Aqui no Rio, existem duas linhas de metrô: linha 1 e linha 2. Para passar de uma para outra, você desce na estação Estácio e sobe ou desce a escada. Alguns meses atrás, os governos estadual e federal e o Metrô fizeram o maior alarde para dizer que isso tinha acabado e que, agora, você embarca na linha 2 e vai direto até o ponto final da linha 1, sem mudar de linha. Se você, que está fora do Rio, está se perguntando como pode e desconfiando que não faça sentido, é porque não faz mesmo. Na verdade, era mentira. Ainda é necessário descer no Estácio.
Exceto que, durante a semana, na linha 1, circulam trens das duas linhas. Então, é o seguinte; preste atenção: quando você está na linha 1 e vem um trem, é preciso reparar na tabuleta na frente do trem. Se estiver escrito “Pavuna”, é que, lá na frente, ele vai mudar da linha 1 para a linha 2. Se estiver escrito “Saenz Peña”, é que ele vai permanecer na linha 1. Além disso, existe na plataforma um LCD que diz para onde está indo o trem, nos mesmos termos. Basta ler a droga da tabuleta ou o raio do LCD que você vai para onde quer.
É claro que um sistema desses é absolutamente confuso. Não bastasse o fato de que, a cada seis meses, eles mudam os nomes das direções na linha 1 (já foram Tijuca e Botafogo, depois passaram a ser Zona Sul e Zona Norte, depois Saenz Peña e General Osório, e assim até acabarem os nomes, quando então ciclarão de volta), eles òbviamente tinham que up the ante e aumentar o valor da aposta, fazendo os trens das duas linhas andarem nos mesmos trilhos. Com a população analfabeta que temos, realmente ajuda muito. Some-se a isso o desastre das integrações multiplicando por um milhão o número de passageiros, mais os trens que não aguentam mais a quantidade de gado que estão carregando e cujo sistema de ar condicionado pede arrego, mais as quebras e paradas inúmeras que acontecem durante o dia, mais o eventual desligamento do arcond (antigamente, ele ficava ligado mas os retardados achavam que não, porque continuava quente. O imbecil queria geladinho até num dia de 40 graus com o triplo de gente que o vagão comportaria, já que o imbecil não sabe como arcond funciona. Agora é diferente, eles desligam mesmo), e você tem o quadro catastrófico que só quem viaja sente.
Agora, a ressalva é a seguinte. Este nosso povo desdentado, mulambento, que arrasta chinelo pelo chão por absoluta preguiça de levantar o pé, este povo de beiço pendurado e se entupindo de salgadinho Torcida, este povo com a bermuda que põe a bunda à mostra ou encrava o shortinho no rêgo (dependendo do sexo), este povo que acha estèticamente desejável a mulambice escrotástica e repulsiva da Gata da Hora do jornal O dia (outro dia, li no mesmo jornal que já teve até travesti na capa e, pelo visto, nenhum desses boçais rematados percebeu a diferença), este povo, enfim, que “é brasileiro e não desiste nunca” de pelar o saco, este povo faz questão, questão de não prestar atenção, um minuto que seja, aos avisos que são dados pelo sistema de alto-falante.
Acompanhe o caso. Hoje, embarquei quando o LCD dizia “Saenz Peña”, o que estava repetido na tabuleta, lá na frente. Dentro do trem, duas mulambas, vestidas com aqueles trapos de R$ 0,99 mas certamente se achando a caminho de alguma festa bizuleu regada a Skol em lata, conversavam entre si e totalmente ignoravam os avisos insistentes que o desgraçado do condutor repetia a cada parada: “este trem está indo para a estação Saenz Peña. Para tomar a linha 2, os passageiros devem descer na estação Estácio”. Chegou ao Estácio e metade do trem saiu. As duas mulambas imediatamente sentaram à minha frente e continuaram a não dar bola para avisos sonoros, indiferentes ao fato de metade do trem ter saído. Até que viraram pra trás e perguntaram para o rapaz a meu lado: “ué, não tá indo pro Estácio não?”
– O Estácio já passou.
– Ué, mas tem que fazer a baldeação? Disseram que tinha acabado a baldeação.
– Não acabou não. Pra fazer baldeação, tem que descer no Estácio e pegar a linha 2.
– Ué, mas eu perguntei pro rapaz [deve ter sido um segurança] e ele disse que tinha acabado a baldeação no Estácio. [Quer dizer: se for verdade, ainda por cima os empregados continuam dando informação errada. Realmente, o nível de orientação que costumo testemunhar nos empregados do Metrô costuma ser sub-Bob's.]
Nisso, saíram para pegar o trem em sentido oposto, a fim de voltar para o Estácio e lá pegar linha 2 para seu baile fanque. Mas você vê? Ninguém presta atenção a NA-DA. Já vi isso acontecer inúmeras vezes: o condutor avisa e repete, insiste, enche o saco, mas, quando chega no Estácio e sai aquele mundo de gente, sempre tem um retardado que permanece a bordo e não se toca de que todos os demais arrasta-chinelos saíram de uma vez. O imbecil sempre se surpreende quando chega à Saenz Peña e descobre que tem que voltar.
Não vejo outra explicação para o que relatou meu ex-padawan Rumpelstiltskin. Que me perdoe seu ponto de vista tão condescendente dessa vez, mas só pode ser isso: permanente ânimo que têm de JAMAIS prestar atenção a qualquer aviso.
Na empresa onde trabalho, todo ano eles fazem uma simulação de incêndio, para manter a proficiência da evacuação do prédio. O aviso de emergência é dado por uma gravação no sistema de som: “atenção. É necessário abandonar este andar”. Tenho certeza de que, no dia em que for real, essas mulambas vão todas morrer. Acenderei uma vela para São Darwin, agradecendo também a elas por contribuírem para a melhoria da raça humana pelo maravilhoso mecanismo da seleção natural.
Desgraçadas.
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Trailer do Lanterna Verde!
Quando vi a chamada, Green Lantern trailer, pensei mesmo que fosse de verdade. De todos os super-heróis (ainda tem acento?), pelo menos de todos os super-heróis principais, o Lanterna é talvez o único que nunca ganhou filme. E é justamente aquele que mais me interessa ver em filme. E não estou sòzinho nisso; faça uma enquête e você vai ver que muita gente também gostaria. Até já imaginei conceitos para não um, mas vários filmes do LV, com base nas histórias dos quadrinhos.
Antes de clicar, reparei no aviso: “this is a fan-made trailer”. Não tem nada de real. Na verdade, nem a ideia é original, porque a gente já conhecia aquele excelente fake trailer dos Thundercats (se você não conhece, saiba que está perdendo. É uma obra de arte). Imitando o caso dos Thundercats, o trailer do Lanterna é uma óbvia colagem de cenas de ID4, da série Enterprise (o andoriano tornado Guardião), do trailer do Star Trek de 2009, de falas do Senhor dos Anéis (tem acento?)… Mas não importa. É maneiro:
É verdade que o filminho segue as mesmas obviedades de todos os trailers de filmes de ação: feitos para quem sofre de DDA, potencialmente induzindo espasmos epiléticos na audiência, com dez cenas por segundo, sem dar tempo de você sequer saber o que está vendo, com o mesmo tipo de música, todos aqueles portentos visuais… Aliás, ele prova que qualquer garoto, usando ferramentas que estão em domínio público (ou não deveriam… “fotoshop-jogos-coréu”, alguém?), qualquer garoto consegue fazer a mesma coisa que custa milhões aos estúdios. Quer dizer, a tecnologia e a indústria do entretenimento nivelaram a todos.
Não me queixo não. Se você observar quanto dinheiro vai para esse ramo da economia, mais tudo que é lançado ao consumidor de tecnologia, entre telefonia celular, banda larga, smartphones, netbooks… Ainda é melhor do que gastarem em guerras, que é outro ramo que movimenta muito dinheiro.
Há um toque do trailer que será melhor apreciado por quem é fã dos quadrinhos: entre os membros da Tropa dos Lanternas Verdes, dá pra identificar Kilowog, Tomar-Re e até mesmo Ch’p. Naturalmente, ficaram faltando Katma Tui e Arisia, que, aliás, em tempos polìticamente corretos, necessàriamente teriam que ser inventadas se não existissem. Nada que não se possa corrigir.
O juramento dos Lanternas também caiu bem. Não dá pra escutar direito, e parece até uma tropa de borgs falando, mas ficou bem como encerramento.
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Intervalos menores do que na Ponte Aérea de Berlim!
Procurando o aeroporto de Frankfurt no Google Earth, encontrei isto que está aqui embaixo.

Quero manter o tamanho da figura pequeno; então, para ver melhor os detalhes, vá direto no Google Earth ou Google Maps e pare na posição indicada por ela: aprox. 50 graus, 03 minutos Norte / 8 graus, 37 minutos Leste.
Observe a pista que aparece como 25R. À direita, vemos três 747 que acabaram de decolar, muito próximos um do outro. Também vemos suas sombras: para cada avião, a sombra está à esquerda na foto, atrás do avião.
Você pode reparar que os aviões estão alinhados com a mesma pista. A julgar pelas sombras, também pode observar que estão todos a muito baixa altura. Estimei a distância entre um e outro como algo perto de 640 metros, o que equivale, grosso modo, a oito segundos de vôo. Ora, a decolagem de um 747 leva mais de trinta segundos (já medi). Então, estamos diante de um cenário onde o avião da frente nem havia acabado de rolar pela pista quando o próximo já vinha logo atrás. Em face de todas as normas de segurança de vôo, isso é uma completa impossibilidade.
Mas observe, também, que as três aeronaves são iguais. Frankfurt é o aeroporto mais movimentado da Europa continental e tem vôos indo para todo lugar do mundo. Ali passam aviões de tudo quanto é companhia aérea, em todos os tamanhos, formatos e pinturas. Quais são as chances de três Jumbos brancos decolarem em sequência?
A essa altura, você já deduziu o mesmo que eu: é o mesmo avião, fotografado três vezes pelo satélite. O software do Google é tão bom que fez a colagem das fotos sem costura e você nem percebeu. É só nessas horas que a gente descobre.
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Finalmente, questões importantes
Sinceramente, este cara realmente conseguiu me fazer perder a respiração de tanto rir — em particular nesta página (“quanto tempo você sobreviveria após chutar o saco de um urso?”). Descobri o saite através de uma indicação no Twitter. Tem quadrinhos, dicas de gramática e questionários que lhe dão as respostas para algumas das questões mais tormentosas que já encontrei, como nos exemplos abaixo.
Se mordido por um zumbi, quanto tempo você levaria para ser infectado?
Quanto tempo você sobreviveria na superfície do Sol?
Quanto tempo você sobreviveria acorrentado a um beliche com um velocirráptor?
Quantas solitárias seu estômago consegue sustentar? (Vamos abstrair do fato de que elas moram é no seu intestino, não estômago.)
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Afundação Biblioteca Nacional
Você não leu errado o título deste texto.
Hoje cedo, eu estava lendo a capa de meu exemplar de O retorno do Super-Homem no. 3, que foi publicado em 1994. Ali existem um ISBN-10 (85-7305-120-5) e um ISBN-13 (978-85-7305-120-9). Muito curioso: que eu soubesse, ISBN-13 não existia em 1994.
(É, eu sei: ninguém nem repara naqueles algarismos. Mas eu reparo em tudo. Quando digo que leio os livros inteiros, é pra valer. Leio até sumário, e só não leio índice porque tomaria muito tempo.)
Fui pesquisar. Comecei pela Wikipedia, que me disse que a migração forçada para ISBN-13 começou em 2005, com o abandono do ISBN-10 até 2007. Teòricamente, já existiam números ISBN-13 desde os anos 80, mas eu não os via nas capas dos livros, provàvelmente pelo simples motivo de não serem obrigatórios nem, portanto, atribuídos com frequência. Então, fui ao saite da Fundação Biblioteca Nacional, onde existem algumas páginas sobre o tema, para saber desde quando são usados no Brasil.
Sabe quando eu contei que a página de entrada da Academia Brasileira de Letras tinha erros de português? Então. É a mesma vergonha. Na BN, você encontra algumas pérolas nesta página:
Comunicado Importante ao Editor !
O que vai mudar ?
A partir de 01 de janeiro de 2007 o ISBN passará a ter 10 dígitos?.
Não. A nova numeração será precedida pelo número 978, que irá identificar o produto livro e o número de controle será recalculado.
Vamos devagar. O que é o “produto livro”? Da Wikipedia, entendi que o ISBN-13 foi concebido de modo que seus números estivessem no padrão EAN, que é o código de barras universal, também com treze algarismos. O EAN é usado para tudo: panela, chiclete, máquina fotográfica, faqueiro, sabão em pó. Quando uma leitora de EAN vê um código começando com 978, ela entende que é livro e continua a ler os demais algarismos de modo a identificar qual livro.
Só que a BN não explica nada disso. Então, o leitor fica perdido no espaço para entender a frase: “irá identificar o produto livro”, certo?
Além disso, vem cá: não tá faltando vírgula não? “… pelo número 978, que irá identificar o produto livro VÍRGULA e o número de controle será recalculado.” Oração adjetiva explicativa tem que vir entre vírgulas.
O texto continua: “Todos os livros publicados a partir de 01/01/2007, deverão ter ano de edição 2007 (…)”. Claramente se nota que é uma obra do neoportuguês: o infeliz tirou a vírgula de onde era obrigatória, mas, para ser coerente, é claro que tinha que pôr aquela ali onde é proibido: entre sujeito e verbo. Aliás, é batata: quando não se vai à escola, esse tipo de erro é garantido.
Mas isso não é tudo. Veja só: “Quando o ‘prefixo 978′ se esgotar, será adotado o ‘prefixo 979′, que ocorrerá nova mudança de prefixo editorial para os Editores.” Entendeu? QUE ocorrerá nova mudança. Simples: é só faltar à aula sobre pronomes relativos e usá-los como quiser.
Muito bem. Isso tudo eu encontrei, não na roça, nem no garimpo, nem numa borracharia — lugares onde o cuidado com o português está no final da lista de prioridades. Encontrei, isto sim, em uma página informativa da BIBLIOTECA NACIONAL. Vou repetir: BIBLIOTECA NACIONAL. Então, quando digo que vão ter que usar a tecnologia de exploração em águas ultraprofundas da Petrobras para encontrar o nível atual do padrão de qualidade, não é realmente um exagero. Aliás, já caiu tanto que saiu do outro lado e foi parar na China.
Eu quero parar de resmungar, mas eles não dão uma chance à paz!
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Relação sinal/ruído em queda
Na minha infância (mais ou menos na época em que estavam construindo as pirâmides do Egito), o português dos jornais e revistas tinha um padrão de qualidade que era referência até na escola. A quem não tinha o hábito de ler livros, aconselhava-se que, pelo menos, procurasse manter sua proficiência lendo periódicos. Empìricamente, sempre constatei que a publicidade seguia a mesma regra: era extremamente raro encontrar erro de português em anúncio — qualquer tipo de anúncio.
Agora, você abre os jornais online e não encontra uma linha que não tenha nenhum erro de concordância, onde não falte nem sobre nenhuma palavra e onde se tenha certeza de que o estagiário-redator não tenha matado a aula de pronomes relativos. São textos que, na minha escola, teriam sido classificados abaixo do subcrítico (é com hífen?), com os mesmos nomes sendo grafados de duas ou três maneiras diferentes na mesma frase. Não raro, existem sequências que contradizem a chamada ou sequer fazem sentido.
Aí, chegamos ao maldito spam. Todo dia recebo aquelas mensagens pedindo que eu atualize meu módulo de segurança em algum banco onde não tenho conta. Sabe como é, “clique aqui para instalar um cavalo-de-troia na sua máquina e liberar acesso a suas senhas”. Uma das formas de se identificar esse tipo de mensagem é que sempre vem num português pavoroso, começando frase com minúscula, cheio de erros de ortografia, concordância nenhuma etc. e tal.
Só que, agora, com o agravamento da tragédia escolar nacional, mesmo as mensagens legítimas vêm povoadas de erros crassos. Então, não dá mais pra separar o trigo do joio. Qualquer dia, vou receber algum aviso importante mas identificá-lo como spam (no que provàvelmente acertarei, sem contradição mas cheio de doublethink).
Nessa inversão contemporânea de valores, pelo menos já consegui identificar algumas regras do neoportuguês, a saber:
- Toda vez em que o português correto proíbe o “a” craseado, o neoportuguês exige-o. Quando o português o exige, o neoportuguês proíbe-o. Por exemplo: a frase
A partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa às 8 h. — A Gerência.
, quando vertida para neoportuguês, fica assim:
À partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa as 8 h. — À Gerência.
- Toda vez que o português correto exige a forma “há” do verbo haver, o neoportuguês transforma-o em “a” isolado ou em “à”, craseado, à escolha de quem escreve. Assim, a frase
Há muitos anos não vou à escola.
é transformada em
À muitos anos não vou a escola.
- Toda vez que o português correto usa a construção “nada a ver”, o neoportuguês transforma-a em “nada haver” ou “nada a haver”.
- Toda vez que um verbo vem antes de seu sujeito, o neoportuguês exige que o verbo fique no singular, mesmo que o sujeito esteja no plural:
Chegou as novas regras de concordância!
- Toda vez que um verbo vem antes do sujeito e está na voz passiva, o neoportuguês exige que o verbo auxiliar e o particípio permaneçam sem qualquer concordância com esse sujeito:
Foi dado várias ordens para desocupar a praça.
E assim sucessivamente. Se você descobrir alguma regra do neoportuguês que não esteja aqui, por favor me informe. Preciso aprender essa nova língua urgentemente, para poder manter uma vida negocial saudável.
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Pessoa jurídica comete estelionato?
Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).
Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.
Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.
Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?
Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível
(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)
e que só depois das 23:30 h.
Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.
Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.
Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.
E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?
É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.
Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.
Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.
Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.
Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:
– Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.
– Trabalho.
– E você não sabe quanto eu pago à Oi.
– Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.
– Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.
Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.
… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.
(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.
Rastros no céu
Acordei ontem de manhã e vi este cenário:
É preciso entender que eu ainda não havia completado o boot do cérebro. Quando vi a contrail da esquerda, pensei em aviões no céu. Quando olhei a coluna de vapor da direita, pensei que fosse uma coluna de fumaça e pensei, “c@#$%&o, caiu um avião na Tijuca”. Aí vi de novo a contrail da esquerda e percebi que a da direita era outra, que o vento já estava dissipando.
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Passei! Passei no teste!
Por décadas, os nerds fomos rejeitados. Quando eu estava no Exército, havia um coronel que me chamava de nerd. Acho que, em certa medida, ele estava me ofendendo, ou era sua própria noção distorcida do que seria um tipo de humor não ofensivo, mas, em igual medida, eu na verdade me orgulhava. Porque nós, nerds, sempre nos achamos superiores, certo?
O problema é que, hoje, ser nerd é maneiro. Então, todos os não-nerds ficam dizendo que são também. Não adianta negar nem explicar, porque eles nem sequer SABEM o que é ser um nerd, e de boa fé estão achando que são. Deixe-me dar-lhes a dica: se você deixou de entender uma porção significativa das piadas de Big Bang Theory e só riu dos nerds da série ”porque eles são engraçados”, ou porque são diferentes de você, então você não é um nerd. Muitas vezes, Sheldon não está só fazendo piada com os nerds, mas com você, que não é.
Nerds acham graça na maior parte das piadas de http://xkcd.com/. Nerds acham graça em todas as piadas (que tenham graça) de http://www.phdcomics.com/.
No ano passado, vi-me jantando com uma amiga atriz logo depois de sairmos do teatro onde ela fazia a madre superiora nA Noviça Rebelde. Junto vieram três de seus amigos do teatro, atores ou sei lá, e uma das sem-noção desse grupo começou a me perguntar o que é um nerd. A sério. Tinha ouvido a palavra mas não sabia o que era. Depois que expliquei, a desconectada criatura teve a desfaçatez, a ousadia, o desplante de me dizer que então era uma nerd.
Não, jovem, não é. Para entender a mente nerd, leia o Cardoso. Especialmente aqui. Não posso escrever melhor do que ele. Não se chega a nerd por vontade ou esforço pessoal. Se você precisa se esforçar, então automàticamente é impossível que se torne um nerd.
É frustrante. A vida inteira, ser um nerd era estar na de fora. Agora que os nerds conquistaram o mundo, agora que estamos por cima e ganhamos mais dinheiro (bom… menos eu), agora que é legal ser nerd, todo o mundo quer dizer que é nerd também! Porra, assim não dá! Os caras querem ter o bolo *e* comê-lo?!?! Só querem ganhar sempre sem trabalharem nunca?!
Ser nerd não é uma espécie de clubinho onde você entra só porque se diz sócio. Você nem sequer entra; você tem que já nascer dentro, ou melhor, um dia se descobrir dentro. E essa gente toda está querendo entrar, usurpar indevidamente.
Alguns de vocês podem estar acompanhando minha lenta e longa atualização das 500 respostas ao teste de nerdidade. Só que o teste é muito específico e datado. A época é claramente o início dos anos 90, e o viés das respostas fica muito alterado.
MAAAS acabo de descobrir uma versão atualizada do teste:
http://nerdtests.com/ft_nt2.php?score
É óbvio que o fiz imediatamente. E passei!
Taqui meu resultado. Foi alcançado, entre outras perguntas, sendo capaz de fornecer uma tabela periódica, um mapa-múndi, um mapa do mundo antigo e um exemplar da Ilíada, cada um em menos de quinze segundos. Quem se acha um nerd, saiba: pois eu sou um Cool High Nerd.
(Não consigo fazer upload da figura, mas foda-se. Sou um Cool High Nerd, não preciso provar nada.)
Consolidado (com base na versão feita minutos antes dessa que está acima):
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Tijuca, Rio de Janeiro, 24 de dezembro
Esta postagem nasceu como uma tentativa de comentário em resposta à postagem de Feliz-Natal da BAxt. Só que comecei a me estender demais lá, de modo que desisti e resolvi ocupar meu próprio espaço, não o dela. Mas a ela dedico este texto.
Ontem, véspera de Natal, entre 18:30 e 19 horas, eu ia andando pela rua junto com Esposa quando passamos por um cara que parecia não estar se sentindo bem.
Em pé, parado e de olhos fechados, apoiava-se na ventilação do metrô, a cabeça um pouco oscilante. Parecia muito aflito, como se tivesse uma baixa de pressão (conheço a sensação, é apavorante). Eu ia passando por ele, mas chamou tanto minha atenção que parei e voltei dois passos. Perguntei a ela: ajudamos?
Nesta cidade, é foda, você tem medo até de oferecer ajuda; mas pensei, é mais provável ele estar precisando do que não e, se fosse eu, bem que eu ia gostar de receber uma ajuda necessária. Então, hesitante e guardando um meio metro (vai que é maluco), pedi licença e perguntei se estava se sentindo bem.
Sem abrir os olhos, disse que não. Perguntei o que sentia. Sede, disse ele, entreabrindo os olhos mas sem se mexer. Pressão alta e uma falta de ar.
O cara não era nenhum mendigo. Magro e barbeado, estava vestido com camisa de botão, calça comprida e boné, tudo humilde mas arrumado. Na mão, só uma carteira. Vendo-se diante de mim, arregalou os olhos e começou a explicar a história atabalhoadamente. Repetiu que era pressão e que sentia sede.
Pedi à Esposa que fosse ao mercado próximo (nem dez metros), comprar uma água de 500 ml. Enquanto isso, antes que também eu ficasse tonto, e mantendo o distanciamento (afinal, vai que ele é, sim, ladrão), resolvi assumir o controle e comecei a fazer perguntas para eu mesmo montar o quebra-cabeças.
Pelo que contou, o sujeito é caseiro e mora sozinho no pé da serra de Teresópolis. Todo ano, no Natal, desce para visitar uma família que mora por ali. Só que, este ano, chegou e não encontrou ninguém; tinham vendido a casa. Estava desde o meio-dia no Rio de Janeiro, sem lugar para ir nem dinheiro para voltar. Como já escurecia e ele não queria passar a noite na rua no Rio, estava ficando nervoso. Com isso, a pressão foi subindo (palavras dele), a bronquite/asma começou a tirar-lhe o ar e ele sentia muita sede. As mãos tremiam.
Olhei em volta. Nenhuma farmácia, nenhum carro de polícia passando, pensei em ligar 192 mas ponderei, preciso mesmo acionar o SAMU? A vítima está lúcida, ambulância é pouca, deixa os feridos terem sua prioridade.
Ofereci-me a levá-lo a um posto de saúde que tem do outro lado do quarteirão. Ele ficou aflito: que a PM já tinha se oferecido a levá-lo a uma tal de UPA (confere: Unidade de Pronto Atendimento, perto dali também), mas ele tinha medo de médico, e não estava doente, nem queria ficar numa maca num lugar estranho, só queria ir pra casa, que em casa ele tinha a bombinha e sabia que melhorava. Disse que tinha vergonha de pedir qualquer coisa, por isso não queria pedir nada a ninguém, já tinha tomado seis ônibus (possível exagero), era a primeira vez que isso acontecia, não tinha ninguém no mundo, só queria voltar pra casa.
Tudo isso ele me dizia olhando no olho, humilde mas sem pedir nada, sem evasivas, sem olhar para o chão ou para os lados como fazem as pessoas que mentem para mendigar. Em um momento, o ar realmente pareceu faltar-lhe; nervoso ele estava mesmo. Parecia prisioneiro de sua situação: evidentemente, seria inútil e complicadora qualquer solução que não o ônibus para Teresópolis, mas a barreira até chegar a ele parecia intransponível.
E a história fazia sentido: se você tivesse 61 anos (mostrou-me a identidade: nascido em maio de 1948) e morasse em Magé, tudo que você ia querer era ficar na sua casa, ambiente conhecido. Deduzi que o nervosismo não era tanto de fome ou desabrigo (suportáveis), mas mais de ele subitamente se ver removido de seu pequeno mundo, sem uma estrutura de amparo, em ambiente desconhecido e potencialmente hostil.
Aí, disse que só precisava de R$ 22,20, sendo R$ 20 do ônibus de volta para Teresópolis e R$ 2,20 até a Rodoviária, um ônibus verdinho que ele sempre pega; e que uma moça lhe tinha dado R$ 8 de ticket-refeição, mas que a passagem ainda era um problema.
O ônibus conferia: linha 606, verde, passa ali mesmo onde estávamos, embora não parasse no ponto imediato, só no seguinte. A conta também conferia: passagem para Teresópolis custa por aí mesmo, e o 606 custa R$ 2,20. Mas continuei a perguntar: o senhor não tem dinheiro para voltar pra casa?
Não: a família que ele visita sempre lhe dá R$ 300 ou 400 e, com esse dinheiro, ele compra a passagem de volta.
E pensei: é muito temerário descer a serra sem ter o dinheiro da volta! Aí veio a autocrítica: isso sou eu, que tenho toda uma estrutura a minha volta, que sempre saio de casa com o dinheiro da despesa prevista, mais o mínimo para resolver imprevistos, e depois reponho o que porventura gasto. Mas vai ser caseiro em Magé! A gente tem que descer a serra mesmo, sem dinheiro para a volta.
Mentalmente, contei quanto dinheiro sabia ter na carteira (uma nota de 50, duas de 10 e uma de 5), enquanto explicava que o ônibus verde não parava ali. O homem arregalou o olho: pára sim, eu sempre venho nele! Esclareci que sim, mas não naquele exato ponto, mas que ali também tem ônibus com destino à Rodoviária. Nisso, passou um 234, mostrei-lhe: olhe, o da Rodoviária é como esse. Parou de falar, fixou bem, disse alto: azul e branco com verde.
Perguntei se ele conseguia ler no ônibus, “Rodoviária”, ele disse que era suficientemente letrado, só não era para aquelas letrinhas no celular, e gesticulou como quem aperta os botões. Esclareci: não é isso, é que podia não estar enxergando bem, se estava passando mal… Mas disse que enxergava, que seu único problema era não conseguir voltar pra casa, e que já não tinha a quem apelar — e aqui arfava, asmático –, então pedia a Jesus que lhe mandasse qualquer ajuda.
Ora, pombas, Jesus! Muito egoísta e muito conveniente pedir para si!
Mas, nesse ponto, avaliei: não queria ir a médico, então eu não haveria de forçá-lo; nem da asma poderia tratá-lo. Não me pediu dinheiro, mas, mesmo assim, podia ser tudo um golpe encenado, claro que podia! Afinal, ele havia dito, claramente, de quanto precisava; e isso já não é pedir? Mas o discurso estava todo coerente, não era aquele papo apressado de pidão profissional com história fajuta.
Refleti: que ajuda eu podia dar? Nesta sociedade onde só o que as pessoas pedem é dinheiro, eu me sinto PÉSSIMO quando isso é tudo que dou. O de que o caseiro parecia precisar era transporte, mas transporte eu não podia dar; podia dar aquilo que se transforma em transporte: desta vez, só dinheiro mesmo! Do mesmo modo, essa necessidade só podia ser expressa na forma de alguma quantia.
Então, fiz o que nunca faço por mendigo nenhum: olhei em volta, nenhum molambo à vista que pudesse vir me assaltar, saquei da carteira, puxei e dei R$ 20, ele agradeceu. Na hora, pensei, isso não completa o necessário, de modo que ele ainda vai ter que se virar na Rodoviária. Não adianta alegar que, lá, muito mais gente poderá ajudá-lo, porque sabemos que não se pode contar com isso.
A outra ajuda era a garrafa de água. Esposa chegou trazendo, abri-a, ele bebeu metade em um gole demorado.
Deixamo-lhe a garrafa d’água, que ele agradeceu penhoradamente, desejando-me também um feliz Natal e qualquer coisa a ver com Jesus (que, mind you, nem passou pela minha cabeça — OK, minto, passou sim, mas para me deixar puto. A verdade é que fui aluno em um colégio católico supertradicional, de modo que, apesar de todo o meu ateísmo, certas doutrinações afloram nessas horas. Como é que você faz quando quer que seu ato não tenha nenhum vínculo com valores cristãos e, no entanto, ele coincide exatamente com o que o catecismo te manda fazer?).
Fico pensando que talvez devesse ter esperado o próximo 234 junto com o caseiro, mas talvez isso já fosse mesmo além do necessário; eu já me havia certificado de que ele poderia se virar sozinho, e ele não me pediu para ficar. De todo modo, ainda me pergunto se fiz bem. Porque dar dinheiro é sempre uma forma de você dizer que ajudou sem ter realmente tido trabalho nenhum, assim se mantendo egoísta mas procurando sair bem na fita. E porque sempre há o risco de, na verdade, eu ter dado esmola a um vigarista. Quanto a essa hipótese, consolo-me pensando que vinte reais a menos no meu bolso vão me causar um dano pequeno comparado com a culpa que se acumulará no carma dele; fica sendo mais um pecado do qual ele terá que se arrepender mais tarde (olhaí o fundamento cristão sneaking back in).
Pelo menos não foi só o dinheiro. Resolvemos o problema da sede (que, recapitulando, foi o que causou minha parada), dei informação sobre ônibus e, em retrospecto, o melhor de tudo parece ter sido ainda uma outra coisa. Veja: o tempo todo respeitei a dignidade do caseiro, ouvindo-o, discutindo soluções, não insistindo em que aceitasse alguma dádiva minha, mas procurando descobrir o que ELE queria. Se pensarmos bem, acho que sua maior necessidade, ali, não era de água, nem de dinheiro, mas de que alguém ouvisse sua história e aplacasse sua ansiedade. Parecia precisar ser tranquilizado de que conseguiria voltar pra casa e de que não ficaria abandonado nesta cidade hostil.
Bem, se lhe dei isso, então dei o que não tinha. Porque, nesta cidade, ansiosos estamos todos, todos procurando nosso lugar de tranquilidade, e eu nem sequer tenho a fé que ele manifestava. Mas, se um caseiro de Magé se livrou de passar o Natal na rua no Rio de Janeiro, então — e que isto fique entre nós –, com isso, ele me deu um presente de Natal melhor do que eu costumo esperar.
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A juíza antenada
Muita gente tem a imagem dos juízes como aqueles homens sisudos, conservadores e autoritários. Podem até ser, mas, às vezes, essa imagem está bem longe da verdade. Existe uma geração de juízes jovens que estão a par do que acontece no mundo. A saber:
De acordo com a Constituição da República, artigo 150, inciso VI, alínea d, livros são imunes a impostos. Isso significa que, no Brasil, livro não paga (ou não deveria pagar; se pagar, tem alguém tomando seu dinheiro ilìcitamente) não paga imposto de importação, imposto de exportação, IPI nem ICMS. Outro dia, a dona da loja de quadrinhos que frequento (Point HQ, na Tijuca) tava reclamando do que paga de imposto; e eu disse a ela, procure um advogado, que livro não paga imposto, nem revista, nem jornal, nem o papel destinado a sua impressão.
Aliás, em uma digressão: toda vez que vou ao Exterior (como se eu fosse sempre — até hoje, foram só cinco vezes), toda vez volto com vários livros. Não compro muamba, não compro eletrônicos, não compro bebida; só livros. Oquei, às vezes bebida, certa vez u’a máquina fotográfica, mas sempre dentro da cota de US$ 500; o que faz volume mesmo são livros. Certa vez, foi u’a mala inteira — a MALA INTEIRA — de livros. Fico torcendo pro fiscal me mandar abrir. Vai ser frustrante pra ele, porque não vai poder cobrar imposto por nada, hahaha. Fico imaginando a ganância seguida de decepção. Eu sou um recalcado mesmo, e divirjo. Voltemos ao ponto.
O ponto é o Kindle. Você sabe: aquele dispositivo da Amazon que está fazendo um sucesso danado, especialmente o Kindle 2, mais leve e com melhor interface do que o original. Agora tem até O globo no Kindle. Você compra o aparelhinho, ele tem o tamanho de um livro, uma tela e umas teclas. Você baixa os ebooks, revistas e jornais e vai lendo no ônibus, no aeroporto, na piscina do clube. Usa as teclas para folhear e para anotar seu exemplar do livro eletrônico. No Brasil não levo fé em que funcione, mas conto com a vanguarda de cobaias antenadas; depois que tiverem debugado bem, quem sabe se também compro um pra mim. E você pode ler belogues e alguns saites também.
Você poderia dizer que ele fosse um computador; e é, na definição mais clássica, um computador especializado. Na prática, só serve para você ler livros, periódicos e belogues. Não serve para jogar, não tem calculadora nem editor de texto, não exibe filmes, não navega na Web. Não tem software instalado a não ser o essencial, para sua atividade fim.
E aí: Kindle é livro? Não é livro no sentido do conteúdo, da obra literária; mas pode-se dizer que seja livro no sentido físico, do papel que sai da editora com letrinhas de tinta. Assim como você precisa daquele maço arrumadinho de páginas para ler a obra, também precisa do Kindle para ler a obra. É uma tese defensável, com a qual concordo.
Então, o saite Migalhas conta-nos de um caso decidido na semana passada. Não sei qual é a exata história, porque a decisão judicial não a relata pormenorizadamente, mas estou entendendo, pelo contexto, que o sujeito tenha comprado um Kindle da Amazon e, na hora de retirá-lo nos Correios, teve que pagar imposto. Posso entender o lado do fiscal da Receita: é eletrônico, não é impresso; logo, pague-se through the nose, como se diz em terras de Sua Majestade.
Mas o comprador não se resignou tão fàcilmente. Impetrou mandado de segurança dizendo: eu não tenho que pagar imposto, porque Kindle é livro e livro é imune.
Então, a Juíza Federal Substituta Marcelle Ragazoni Carvalho, da 22a. Vara Federal de São Paulo, decidiu a favor do impetrante. Entendeu que o Kindle, se não é livro no sentido clássico, equipara-se. Acertadamente, considerou que a Constituição não pode ser interpretada literalmente, mas sim conforme a intenção de seu texto, que poderá ser melhor atingida de uma ou de outra maneira conforme os tempos mudam e a tecnologia evolui. Você não precisa ficar editando o texto da Constituição (que, a propósito, já foi objeto de 68 emendas até hoje); basta atualizar a forma de lê-lo. Não vou me estender sobre isso, mas adianto que considero esse um dos tópicos mais interessantes (e, ao mesmo tempo, abstratos e filosóficos) de Direito constitucional e que, só sobre ele, já se escreveram dezenas de livros e capítulos de livros, tanto no Brasil como fora.
Então, disse a Juíza que a imunidade tributária da alínea d, de que falei acima, visa a assegurar a liberdade de pensamento e deve ser interpretada conforme sua finalidade, adaptando-se às inovações tecnológicas. No texto da decisão, ela citou jurisprudência do TRF da 4a. Região, que já dizia que o livro deve ser considerado, não só como o objeto de papel, mas como o conceito finalístico de livro. Na ocasião, o Tribunal havia reconhecido a imunidade do quicktionary (que, se pesquisei bem, é um scanner tradutor) por ter conteúdo de livro e funcionar como livro, ainda que o suporte físico fosse outro. Eu, particularmente, nem concordo com a decisão no caso do quicktionary, mas, se valeu para ele, com ainda mais razão a Juíza Marcelle Carvalho acompanhou o precedente.
Antes que você fique muito animado, advirto-o de que a decisão da juíza foi apenas uma liminar, com o efeito de permitir o desembaraço alfandegário sem pagamento de imposto. Mais adiante, ela ou outro juiz dará sentença julgando o mérito do MS, o que sempre pode reverter a situação. E, ainda que a sentença confirme o que foi decidido na liminar, caberá recurso por parte da Fazenda; depois dele, a situação pode muito bem subir até o STJ e o STF. Além disso, a decisão só vale para esse um caso, desse um Kindle, desse um sujeito importador; não vale para outras pessoas. Cada um que mova sua própria ação. Não se espante se você também tentar e o juiz do seu caso entender que Kindle não seja livro.
Mas que isso foi uma pequena vitória, foi. E a juíza se mostrou atualizada com a tecnologia.
Agora dá licença, que vou voltar a minha inércia.
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Para dias quentes
Nas últimas duas ou três semanas, temos tido dias de um calor desgraçado aqui no Rio. Hoje é um deles. A praia deve estar cheia, e você ouve os condicionadores de ar da vizinhança, virando direto. Não adianta tomar banho, porque a água desce da caixa na mesma temperatura em que você a queria num dia muito frio.
Em uma de suas obras, Vinicius de Moraes disse que sua receita para esses dias era chupar bala de hortelã. Isso era no tempo em que as casas não tinham ar condicionado.
Já eu recomendo minha fórmula, muito melhor. Em um copo de 300 a 500 ml, vá pondo, nesta ordem,
1 dose de rum Bacardi flavorizado com limão (pode ser outro destilado semelhante: rum, cachaça, gim)
Meia dose de licor de menta
Suco doce de limão até em cima
2 pedras de gelo
Não precisa mexer: conforme cada líquido vai caindo no copo, já mistura sozinho.
Isso ajuda!
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Esqueci-me de contar. Naquele dia em que fui ao zoísta, a sala de espera tinha uma TV ligada num desses programas de barraco ao vivo, onde as pessoas vão contar seus problemas familiares para que a plateia dê palpite. Difícil eu me concentrar na leitura. Posso escolher não ver (é só fechar os olhos), mas não posso escolher não ouvir.
Na TV, uma mulher reclamava do namorado, que só queria saber de jogar bola com os amigos e não dava atenção a suas necessidades de, hm, vadiar (para usar a curiosa nomenclatura de Jorge Amado em Dona Flor), ou de fazer o que a apresentadora chamava de “nhanhãnha”.
Mas, também, lógico. A mulher era feia como a fome!
***
Aliás, no Afeganistão, dizque as mulheres também são todas muito feias e que nunca tomam banho. Por isso, eram obrigadas a usar aquela roupa que cobria o corpo inteiro, só deixando uma gradezinha para elas enxergarem. Parece que os Estados Unidos acharam pouco, então mandaram bombardear o país.
Não sei; dizem.
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Prosseguindo no teste de nerdidade:
26. Você já virou a noite estudando? – Tècnicamente, não. Dormi por quase uma hora.
27. Você já fez algum curso do tipo passar/não passar só para preservar seu GPA? – A pergunta parece-me inaplicável ao Brasil. Vou pular.
28. Você já soube mais sobre o assunto do que o professor? – Já.
29. … mas continuou na aula porque “precisava da nota”? – Sim.
30. … e o professor admitiu isso a você? – Não.
Até agora, 20/29.
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Quase um twit
Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.
***
Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:
– Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.
– Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.
Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.
***
Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.
Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.
***
Ainda no teste de nerdidade:
21. …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.
Até agora, 18/25.
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… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.
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O apagão dos cérebros
Sabe esse apagão que se abateu sobre as regiões Sul e Sudeste do Brasil na noite de terça-feira? Então. Constatei algumas coisas.
1 – A luz não caiu TOTALmente. Os LEDs de meu roteador ficaram acesos, assim como o rádio despertador esqueceu que horas eram mas ficou mostrando 00:00. Isso indica que havia energia nas linhas. Indica, também, que o que NÃO aconteceu foi o acionamento de algum mega-disjuntor em algum lugar; ainda estávamos conectados a Itaipu. Logo pensei no risco que isso envolve. Vai que alguém toma confiança de que “está sem luz mesmo” e vai mexer na rede. Torci para não ter notícia de gente eletrocutada no dia seguinte.
2 – Quando eu estava no Exército, tive uma instrução noturna em um acampamento. Aprendi que, na guerra, deve haver disciplina de luzes e sons. Aprendi que a luz de um cigarro aceso pode ser vista a centenas de metros de distância. Você definitivamente não pode acender lanterna, nem conversar nem fazer qualquer barulho, que o inimigo te vê e te escuta. Pois, na noite do apagão, deu para ver nìtidamente quem eram os vizinhos que iam fumar na janela, lá longe, no outro lado da rua. Impressionante.
3 – Minha ex-chefe me contou que teve gente dizendo que viu vaga-lume. Acredito que não, porque a cidade é um ambiente muito hostil para esses bichos, mas pode muito bem ser que sim nos bairros com mais vegetação – no Rio de Janeiro, estou falando na Zona Oeste, especialmente Vargem Grande e Recreio. Como ela lembrou muito bem, “a gente acha que não porque não tá vendo com essa luz toda em volta, mas eles ainda estão por aí”.
4 – Silêncio completo na vizinhança às onze da noite. No prédio vizinho, onde tem uma família que passa dia e noite aos berros entre si, todos calados. Então constatei que não estava ouvindo o burburinho de fundo das televisões ligadas, nem o vozerio difuso de todos os vizinhos. Minha conclusão é que, não tendo televisão, o povo ficou sem nada pra fazer e foi dormir. Ô gente dependente da caixinha eletrônica do diabo! Todo o mundo virou zumbi, pendurado nas imagens mágicas que Globo, SBT e Record despejam em seus cérebros embotados (sim, porque a classe média tem TV por assinatura só pra ostentar; o negócio mesmo é assistir aos mesmos canais do povão). Não foi só a falta de luz; o cérebro deles também vive em estado constante de apagão.
***
Prosseguindo no teste da nerdidade:
16 – Você se senta na fileira da frente por mais de 20% do tempo? – Não. Muito arriscado.
17 – Você já teve uma “assiduidade perfeita”? – Não que chamassem assim ou se importassem, mas já, inúmeras vezes.
18 – Você já verificou uma equação em um texto de Ciência por conta própria? (i.e. prova experimental) – Já.
19 – Você já deduziu uma equação que encontrou em um texto de Ciência? – Já.
20 – … quando não tinha que fazê-lo? – Já.
Até agora, 16/20.
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F-X não são só “efeitos especiais”
Continuo tendo que fazer uma faxina aqui no belogue: atualizar listas de linques, vídeos e leituras. Enquanto não faço isso,
Vocês devem estar sabendo que a Força Aérea tem uma concorrência em andamento para a compra de uns 36 novos aviões de caça. Após quase trinta anos de serviço do Mirage IIIEBR, a FAB iniciou a concorrência F-X para sua substituição. No início do governo Lula, nosso Poder Executivo entendeu que outras prioridades mereciam mais atenção, mormente o Fome Zero, de modo que a concorrência foi extinta antes de se escolher um vencedor. Como solução temporária, decidiu-se fazer o leasing de alguns Kfirs, aviões israelenses derivados do Mirage III (mas com turbojatos J79, os mesmos do Phantom II). Não acompanhei se esse leasing chegou a se efetivar, mas, algum tempo depois, uma nova solução temporária foi adotada: o leasing, ou empréstimo, de um punhado de caças Mirage 2000C, de um lote do início da produção e já usados pela França. Esses aviões estão em serviço na FAB com o nome de F-2000. A solução definitiva ficou adiada para quando se escolhesse o vencedor de uma nova concorrência, a F-X 2, que está rolando já faz um tempo e cujos concorrentes são o Dassault Rafale, o Boeing F/A-18E, o Sukhoi Su-35 e o SAAB 39 Gripen. Perdoe-me se eu tiver deixado algum outro modelo de fora.
O Gripen foi o primeiro caça de quarta geração a entrar em serviço e normalmente é considerado o mais bonito. Ele e o Su-35 costumam ser os mais admirados por amadores da aviação, este último por causa do desempenho impressionante (especialmente a manobrabilidade mas também o alcance), do porte e da capacidade de transportar armamento.
No 7 de setembro deste ano, muito antes de se anunciar um vencedor da F-X 2, nosso Iluminado Líder disse ao Sarkozy e à imprensa que o Brasil compraria o Rafale. Logo o Ministério da Defesa tentou botar panos quentes e dizer que isso ainda não era certo, mas sabemos o quanto nosso Glorioso Defensor parece estar acima de qualquer responsabilidade pelo que diz.
Mais adiante, ainda em setembro, um ex-colega de escola me perguntou qual avião eu pensava que seria vitorioso. Então, escrevi-lhe o que está abaixo. Fica registrado para me cobrarem depois do anúncio.
“Importante entender uma coisa. Em matéria de defesa nacional, os argumentos técnicos deveriam prevalecer, mas a política sempre acaba decidindo. Isso não é só no Brasil: o mesmo acontece nos países que costumamos tomar como paradigmas (EUA, Reino Unido, França).
“Você já percebeu que, em matéria de F-X 2, o que não falta são especialistas. Todo o mundo agora é especialista. As revistas populares comentam o assunto como se seus jornalistas fossem íntimos dele há anos e acompanhassem o cenário de defesa internacional, o que é ridículo. As reportagens acabam virando propaganda mal disfarçada. O povo ignora que o tema F-X e F-X 2 vem sendo discutido exaustivamente pela imprensa especializada há, pelo menos, uns sete anos, sem que o assunto tenha morrido.
“Em princípio, todos os aviões são muito bons. E não vou manifestar “preferências”: primeiro, que o que EU prefiro não faz a menor diferença para quem decide; segundo, que não tenho interesse pessoal na história. Não vou fazer como a molecada de doze anos, que gosta de gozar com o bilau dos outros e ficar enaltecendo os caças americanos como se esses próprios moleques é que os fabricassem na garagem de casa.
“Então, vejamos. O Brasil tem um longo histórico de cooperação com a França e a Dassault em razão do Mirage III. Também arrendou os Mirage 2000 por um tempo. E a França tem o hábito de facilitar a venda de armas, diferente dos Estados Unidos. Então, faz sentido comprar o Rafale, na continuação do uso de uma tecnologia já conhecida.
“F/A-18. Os Estados Unidos sempre resistiram em vender o pacote completo de armas que dá utilidade ao avião. Além do mais, tem havido uma certa tônica na política externa de não mais depender dos EUA para a defesa nacional, preferindo fornecedores que nos deem mais liberdade de uso para o equipamento.
“Su-35. A maior vantagem do avião russo é sua grande autonomia, que permite cobrir uma fração significativa do Território Nacional. Outra grande vantagem é sua robustez, adequada às condições climáticas e à necessidade, que a FAB tem, de não precisar fazer muita manutenção. As desvantagens são a notória falta de apoio logístico do fabricante e a maior necessidade de treinamento, por ser um avião oriundo de cultura diferente da ocidental.
“Saab 39 Gripen. Muita gente tem-no como favorito, mas, sinceramente, acho que é por ele ser considerado tão bonito. Como se fosse concurso de beleza de aviões. A vantagem do Gripen é o datalink integrado com os sistemas em terra e em outros aviões, tudo a ver com o SIVAM e com o radar **SUECO** já empregado no EMB-145. A seu favor também conta o fato de ser um avião de manutenção mais fácil. Só que tem dois problemas: um é a autonomia de titica que os aviões suecos sempre tiveram; outro é o que ouvi do pessoal da FAB em Santa Cruz: que os eletrônicos dele fritaram ao sol do Brasil; tinham que ficar trocando componentes queimados.
“Não sei qual desses aviões é mais adequado ao Brasil. Independente disso, imagino que o Rafale vá ganhar por causa de considerações políticas.
“Então taí minha opinião.”
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Winston Smith, O’Brien e Miniluv
Está no noticiário dos últimos dias: o cientista e PhD americano David Nozette, 52 anos, trabalhou de 1989 a 2006 em projetos do mais alto interesse estratégico para seu país. Teve farto acesso a informação da mais alta sensibilidade, top secret etc e tal: inteligência de comunicações, sistemas de vigilância, defesas contra ataque nuclear, projeto de armas avançadas (nucleares inclusive), satélites de espionagem, you name it. Aí, foi pego pelo FBI tentando vender informação a uma pessoa que ele acreditava ser um membro da inteligência israelense.
O que os saites de notícias não estão dizendo, mas o próprio FBI está, é que, aparentemente, o Estado de Israel, mesmo, não esteve envolvido. Um agente do FBI apresentou-se a Nozette em setembro como sendo integrante do Mossad e, ao longo de poucos dias, valeu-se do correio para lhe enviar pelo menos dois questionários, que Nozette preencheu com informação privilegiadíssima, top secret mesmo, só com base no que guardara de cabeça. Também lhe pagaram US$ 11,000. Nozette afirmou ao agente que, embora já não tivesse acesso a vários documentos, ainda tinha muita informação na cabeça e estava disposto a vendê-la. As idas de Nozette ao correio foram filmadas, até que, em 16 de outubro, ele foi preso e está sendo acusado de tentativa de espionagem. A pena máxima é perpétua.
Agora, observe só. O Estado teve todo o controle da situação neste caso. Foi o próprio FBI que propôs o cometimento de todos os atos, que dirigiu a conduta de Nozette, que o estimulou e instruiu. Era impossível que Nozette efetivamente cometesse crime, porque não tinha como a informação chegar a Israel. Se o crime era impossível, então ele não estava tentando algo que, ao final, pudesse chegar a ser um crime consumado; não houve nem haveria prejuízo para seu país.
No Brasil, o Código Penal define a tentativa de cometer crime:
“Art. 14. Diz-se o crime: (…)
“II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”
Vejam que a execução não se iniciou, porque o que se iniciou não foi um crime, mas um simulacro, um teatrinho, um arremedo, supervisionado e controlado pelo Estado, onde Nozette era um hamster na gaiola. Então, não há que se falar em sequer punir a tentativa.
No Brasil, flagrante armado não vale, porque o próprio Estado provocou a conduta imoral do sujeito: ele fez, mas o Estado fez primeiro. Se o Estado foi maligno, não pode vir alegar que o sujeito também foi. Ou, em u’a máxima que se usa mais no Direito civil que no penal, “a ninguém aproveita sua própria torpeza” (em língua de poetas mortos, nemo turpitudinem alegans).
(O flagrante armado é diferente do flagrante esperado. Neste último, é o próprio criminoso quem tem a iniciativa, e você só fica de tocaia, à espera de que ele faça o que vai fazer mesmo, sem estímulo. Aí, não partiu do Estado.)
Incidentes como esse fazem-me pensar, obòviamente, em 1984, de Orwell. Onde, aliás, tem uma situação igualzinha, onde um agente bem graúdo do Estado (Inner Party) induz o protagonista Winston Smith a crer que está vindo fazer parte de uma conspiração, quando, na verdade, era tudo armado para se criar nele uma culpa, seguida de inquisição e correção.
A conclusão é em duas partes. Primeira: é verdade o que diz a nota do FBI? Resposta: não sei, mas vou presumir que sim, porque a narrativa faz com que ele mesmo fique mal na fita. Segunda: pode fazer isso? é Nozette culpado? Não, não pode, e não, não é. Porque o Estado criou toda a situção do nada.
Sei que já concluí, mas deixe-me complementar. Considere o seguinte. Se não fosse o FBI provocando, Nozette não ia fazer nada; ia continuar cuidando de sua vida. Poderá ser que o FBI tivesse suspeitas de que ele estivesse a ponto de se envolver com espionagem, mas não estamos na época de Minority Report: só poderia punir o crime efetivamente cometido, não o desejo seminal ou sonho louco de um sujeito potencialmente corruptível. Passados tantos séculos após a Inquisição Espanhola, hoje em dia já não se punem desejos e ânimos, mas somente atos efetivamente praticados. Então, não tem essa de “ah, mas ele era mau, ia cometer mesmo”. Nana nina não: nada de punir pensamentos. Eu mesmo tenho inúmeras idéias condenáveis (especialmente a de descumprir a nova ortografia em vez de escrever “ideias”), mas, do crânio para dentro, ali está meu âmbito de última defesa, meu forte inexpugnável, onde o Estado não pode invadir. O âmbito de punição possível começa na superfície da minha pele.
É de se pensar por que o FBI fez isso. Pode ser simples queima de arquivo, “ele sabia demais”. Pense bem: não é o que você faria? Se o sujeito é PhD, inteligente pra burro, dono de ótima memória e com acesso a tudo, é de se presumir que, depois de dezessete anos, ele já soubesse MUITA coisa e se tivesse tornado um perigo ambulante. O que os Estados Unidos fizeram foi ganhar a corrida contra os israelenses, iranianos e incas venusianos, prendendo Nozette antes que eles lhe pusessem a mão.
Então, é pura tirania mesmo: o Estado aprisionando seus súditos sem justa causa. Sem dúvida, isso atende a interesses bastante legítimos de segurança nacional, mas utiliza meios indignos de um Estado democrático de Direito. Viola valores democráticos fundamentais, põe o Estado acima do indivíduo e fere o interesse público. Não que os Estados Unidos sejam os únicos a fazerem isso (o Brasil faz muito), mas é que sempre são os primeiros a bater no peito, falando de democracia…
Como diz minha sogra: dime lo que te presumes y te diré lo que te falta.
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Tomara que os maias tenham acertado a previsão
Hoje eu estava olhando as reações dos belogues à vitória do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016.
(Ué, não era isso? Bom, mas já deve ter gente por aí achando que é. “O Brasil ganhou os Jogos Olímpicos de 2016.” Assim, por antecipação.)
É muito engraçado. Váááários belogues e comentários com atitude ambivalente. De um lado, condenam os negativistas, os derrotistas, e ufanam-se com a grande vitória que afaga nossa auto-estima (“auto-estima” agora é sem hífen? Pesquisaí). Que o Rio é tão bom quanto Oslo e que Liechtenstein tem problemas urbanos iguaizinhos aos nossos. De outro lado, admitem que “vai ser a maior roubalheira”, “não resolve nossos problemas”, “cabe a nós a fiscalização” etc.
Como sempre, não sei de nada. Mas o metrô vai até a Barra. Então, o sujeito vai sair lááá da Pavuna, vai dar a maioooor volta, vai passar pelo Centro, vai até a Barra. O que eu não entendi é como é que vou fazer para descer na Carioca. Sim, porque, quando você achava que não tinha como aumentar o grau de compactação, vêm os guardas com chicotes que dão choque e te fazem perceber que, se ficar na ponta do pé, até dá pra respirar. “Atenção! Todo o mundo bidimensional aê! Aperta mais! Você aí! Molda na parede! Isso!”
(Eu já contei de quando não consegui mover a cabeça no metrô? É angustiante. Não podia girar a cabeça para os lados. Não há nem que temer o batedor de carteiras, porque ele também não consegue mexer a mão. Em condições assim, nem precisava de vagão das mulheres.)
E não venham me dizer que estou amargo. Agora somos internacionalizados. Eu estou é demi-sec.
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“Nossa missão é agradar ao cliente.”
Estou há um tempo sem escrever e precisando fazer uma faxina em minhas anotações, de modo que, hoje, é só um comentariozinho rápido.
Mais cedo, eu estava lendo Cynthia Semíramis e sua preocupação com o subtratamento que as mulheres ainda recebem no mercado de trabalho.
Agora à noite, encontrei esta notícia. Em síntese: produtor tentou chantagear David Letterman porque, supostamente, Letterman teve relações com várias mulheres com quem trabalhou na CBS. Letterman confessou pùblicamente, desse modo esvaziando a chantagem. De um lado, a promotoria foi em cima do chantagista, enquanto, de outro, a situação de Letterman ficou complicada perante a percepção pública. Imprensa e advogados discutem se o que ele fez pode ser classificado como assédio sexual, aproveitamento de uma situação de vantagem etc. A emissora manifestou-se ao lado dele, mas sem excessos. O público sente-se traído porque Letterman costuma criticar políticos justamente por causa das puladas de cerca que cometem. Bill Clinton foi seu alvo durante anos.
Não vou fazer nenhum comentário sobre o caso de Letterman, primeiro porque nada sei, segundo porque já deve ter varada de gente fazendo isso. Vou observar só dois detalhes.
Um, que já faz alguns anos que percebi: se alguém, algum dia, resolver me chantagear, acho que a melhor saída é revelar pùblicamente aquilo que, em princípio, teria sido escondido. Fácil falar, claro. Porque nem sempre é fácil falar claro. É muito fácil vir com bravata quando não se está sofrendo na pele. Mas é a solução que resolve o problema definitivamente: esvazia a chantagem imediata e todas as chantagens futuras, que o chantagista teria o potencial de voltar a praticar porque o fato permaneceria. Essa minha tese foi alimentada por duas fontes: uma, Richard Bach, que, em Ilusões, sugeriu que você devesse viver de modo a não ser afetado pelo que outros dissessem de você — mesmo que estivessem mentindo. A outra é Frank Miller, que, em Batman: ano um, pôs o Tenente Gordon em um caso com sua colega Sarah Essen. Devidamente exposto a fotografias e ameaças, ele optou pelo caminho difícil, entrou em conflito conjugal mas continuou dono da própria vida.
Dois, o seguinte. A reportagem analisou, ouviu colegas e ex-chefes de Letterman e do produtor, consultou especialistas e advogados, todos perplexos e em dúvida sobre as condutas dos cavalheiros, mas fechou o texto com a constatação de que não houve nem se espera uma evasão de anunciantes do Late Show. O dinheiro continua entrando (~US$ 145M em seis meses de 2009). Por quê? A frase final é reveladora: “(…), said Laura Caraccioli-Davis, an executive vice president and director at Starcom. ‘We believe that he handled it with full transparency. Consumers are looking for that authenticity and honesty.’”
Full transparency, indeed. Em segredo, o sujeito mantém supostos envolvimentos (aliás, confessados) com mulheres sob sua influência. Mesmo assim, na empresa de publicidade que põe dinheiro no programa, uma vice-presidente — tipo de cargo profundamente envolvido em governança corporativa — analisa que ele agiu com transparência. Letterman continuará respeitado e o assunto nem é tão grave assim, na medida em que os anunciantes se mantêm fiéis, mesmo que ele não tenha sido com seu público. Beleza; o que importa é o que os consumidores percebem. Tudo se resume a isso.
Quer dizer, a humanidade continua podre. Ao fim e ao cabo, tudo neste mundo continua girando em volta do dinheiro. Então, quer saber? Nessa história, todo o mundo se merece. Não ganhei o meu, então todos que se danem.
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Tragédias cariocas e proibição do fanque
Este é um texto desconjuntado, que descreve vários problemas urbanos de uma vez só, sem relacioná-los nem analisá-los. Não resulta de minhas reflexões; ao contrário: é o início delas. Nasceu de diversas impressões minhas à medida em que eu ia jogando pensamentos que vêm se atropelando em minha mente perturbada, sem a menor intenção de concluir alguma coisa — como, de fato, não concluí.
Para tudo que vejo, tenho várias reações, em geral simultâneas. Existe a reação emocional, que me é impossível escolher ou filtrar. Existe a reação defensiva, disfarçada de racional e causada por minhas experiências, que, muitas vezes, é preconceituosa, elitista, recalcada e também impossível de evitar. Normalmente, a última é a reação racional de verdade, oriunda de meus valores morais e políticos, construída deliberadamente a partir de tudo que já li e ouvi e de muita reflexão, e com a qual concordo: é minha opinião. Essa eu posso escolher, reformular, e é essa que exponho ao mundo.
Por exemplo: sou contra a pena de morte. Essa é minha opinião moral, jurídica e política. Já vi inúmeros argumentos favoráveis à pena de morte, mas todos consegui rebater com base em seu conteúdo falacioso ou do qual simplesmente divirjo, seja com base em contra-argumentos jurídicos, estatísticas, ou considerações práticas. Onde há pena de morte, normalmente só os inocentes são condenados, ou aqueles que cometem infrações de menor potencial ofensivo. Os verdadeiros facínoras sempre se safam.
Minha reação emocional é muito outra. Não consigo deixar de me revoltar com esta notícia (desculpe a fonte, mas é a que achei). Se, no dia em que você está lendo isto, o linque já saiu do ar, vou resumir pra você: uma moça vinha dirigindo um carro pela Linha Amarela (via expressa do Rio de Janeiro). Um animal sem mãe atirou um pedaço de concreto de 10 kg de encontro ao veículo e afundou o crânio da moça, com fratura exposta. Enquanto digito isto, a notícia é de que a moça está em coma. Pode-se entender por que, em momentos como esse, eu me sinta tentado a apoiar a pena de morte.
É cansativo viver cercado de uma criminalidade tão intensa. Eles tiram nossa liberdade. Não posso percorrer a Linha Amarela, não posso ir à UERJ de metrô à noite (a passarela é campo de caça dos assaltantes), não posso morar em certas áreas sem um baile fanque ao lado, gritando obscenidades e estimulando roubos, tráfico e homicídios a 547.000 decibéis por toda a madrugada. Não posso circular pela cidade onde moro e onde sou inofensivo, porque “é perigoso”, os predadores querem meu sangue e não tenho nada nem ninguém com quem contar. Não posso trabalhar duro, juntar dinheiro e comprar um carro, porque posso levar um tiro na cabeça no sinal de trânsito. (Pelo menos seria indolor.) Quando levaram o carro do meu irmão, comprado com horas de trabalho insone, dedicação e persistência, minha mãe levantou as mãos pro céu porque não o feriram nem molestaram a esposa dele, como se isso fosse uma dádiva, uma espécie de concessão da parte de quem tem direitos sobre nós, podendo dispor sobre nossa vida e nossa morte. Bem, sobre a morte, porque vida isso não é.
Aliás, por falar no baile. Os antropólogos e sociólogos vêm publicando trabalhos sobre como o fanque é a manifestação cultural de um grupo de excluídos sociais. Não posso negá-los. Para mim, faz todo o sentido que os excluídos se aglomerem e teçam alguma espécie de expressão e de identidade sócio-cultural através dos sons do fanque. Acredito, firmemente (olha a opinião aí, racional, ponderada), que a liberdade de expressão é um dos fundamentos mais nobres da democracia; e é minha opinião política que, com base nela, não se possa reprimir o fanque. Se tenho o direito de vir aqui escrever, da mesma forma o fanqueiro tem o direito de dizer o que quiser com o batuque de sua preferência.
Isso não significa que eu deva gostar do fanque (pela dissonância), nem que eu deva aprová-lo moralmente (pela apologia de uma vida desestruturada). Devo, porém, tolerá-lo, não apoiando quem pretende reprimi-lo. É inevitável que os autores do fanque exprimam aquilo que vêem e sentem, aquilo em que acreditam, suas intenções reprimidas e a vida lastimável que sofrem. Por todos os motivos históricos, econômicos e sociais, são pessoas maltratadas, despossuídas, desprovidas de liberdade. Não têm tantas oportunidades como os homens brancos adultos, não têm tantas escolhas nem tanto poder político, não ditam regras, não têm qualificação nem participam do mercado de trabalho formal em paridade com os homens brancos adultos. Se o fanque descreve uma vida desestruturada, é porque é isso que seu causador tem para descrever; ele não haveria de compor poemas parnasianos.
Então, estou entendendo que os autores do fanque são pessoas revoltadas, que devolvem ao mundo a agressividade de que se vêem vítimas (“vêem” com acento. Aos diabos com a reforma. Estou em um WASP mood, embora longe de ser um WASP). Não posso culpá-los por isso se também eu venho aqui cuspir meus resmungos.
Se os pais deixam de educar seus filhos, ensinam-lhes violência e eles vão ao baile, não tenho nada com isso; cada um cuida de sua vida. Não posso dizer a cada um o que fazer com seus filhos. Se o tráfico vende drogas no baile e expõe menores de idade à violência, esses são crimes graves, mas não se confundem com o próprio baile; não vou apoiar que ele seja proibido com base na suposta venda de drogas ou nos outros abusos. Só que o baile estupra meus ouvidos e os de meus vizinhos a 948 milhões de decibéis, e isso vai muito além da liberdade de expressão. Com a potência sonora, os fanqueiros demonstram que decidiram responder à violência com mais violência, de forma ampla. Não se alegue que é mera diversão, porque a diversão é possível sem invasão da esfera de direitos alheia. Poderíamos sugerir que eles procurassem os espaços de diálogo, que lutassem pelos canais formais construídos democraticamente, mas estaríamos alimentando uma falácia, porque eles não têm o acesso a esses canais tal como a escola nos ensina que têm. Falar no poder do voto, do diálogo e da conscientização é quase uma piada; não se pode esperar que o diálogo, que de nada adiantou nos quinhentos anos do Brasil (ainda) colonial, resolva as carências de uma geração atirada à marginalidade. Eles só conseguem reagir pela violência mesmo.
Portanto, à noite, gritos ásperos de “um cinco sete, um cinco sete” (vá pesquisar: Código Penal, artigo 157) impediam o sono de vários cidadãos. Vozes agressivas defendiam a união do Comando Vermelho contra facções rivais. Os tais cidadãos não só não podiam dormir como não tinham meios de fazer cessar a verborragia. “Com licença, Sr. Traficante. Pode abaixar as caixas de som? Não estou pedindo para interromper a venda de drogas, nem o abuso de menores, não; pode até continuar a desfilar com suas armas. Só peço que abaixem o amplificador ali.”
Já que não há diálogo, já que o conflito se resolve todo com base na força apenas, então tem que abaixar o som na marra. Como o cidadão comum é fraco diante do arsenal do boçal, o Poder Público cumpriu sua mais primitiva e hobbesiana função, sua fundamental razão de ser: reprimiu o estado de guerra em que vivem os homens, aqui representado pelos bailes fanque, batendo com seu tacape maior em quem trazia a insônia de todos com seus instrumentos malignos. O cidadão voltou a dormir.
Surgiu daí uma onda de revolta. O tráfico ganha muito dinheiro com os bailes, de modo que, manipulando sua massa de manobra, conseguiu reverter a atitude estatal. O foco do discurso saiu do barulho e passou a uma espécie de imposição da minoria sobre o consenso da maioria: os valores do fanque ganharam o manifesto apoio da ALERJ a esse mais novo “patrimônio cultural” do Estado do Rio. Com isso, esses valores foram reconhecidos como tão importantes que o fanque passou a ter precedência sobre a paz pública, sobre o sono dos trabalhadores, sobre o desejo de paz e a passeata inútil das velhas, de braços dados e camisetas brancas, pedindo paz no calçadão de Ipanema enquanto seus netos enchem o nariz de alcalóides ilícitos. Velhas filhas da p*ta.
Independente das agendas políticas em disputa, dos preconceitos, dos conceitos e da cultura (ou falta dela, segundo alguns), tenho uma certeza: enquanto os sociólogos discutem as minorias no ar condicionado e publicam suas teses acadêmicas em prestigiadas livrarias da Zona Sul, vários trabalhadores desta cidade vão voltar a passar suas noites em claro.
Outra notícia: em Bangu (subúrbio do Rio), hoje de manhã, explodiu um item de munição ainda não identificado. Supõe-se que a munição tenha sido furtada do campo de instrução de Gericinó. As versões são contraditórias, mas, aparentemente, alguns catadores de lixo manipulavam o objeto, seja brincando de jogá-lo um para o outro, seja dando-lhe marretadas para desmontá-lo e vender o material. Ao detonar, a granada (de mão, de morteiro ou lançada por fuzil, não sei) matou dois e feriu seis, pelo menos um gravemente.
Minha reação racional é que isso é lamentável e que não aconteceria em um país com mais justiça social, população instruída e mão-de-obra qualificada; lamento pelas vítimas imediatas e por seus familiares. Já minha reação emocional-cínica é que Darwin continua fazendo um bom trabalho. Não é pra ficar brincando com granada, nem é pra ficar dando marretada em material furtado de dentro de um campo de instrução do Exército. Não bastasse o crime de furto, é ÓBVIO que marretar munição não pode dar certo. Você há de entender por que a porção mais troglodita de meu cérebro chega até a comemorar o evento, para minha sincera perturbação e quase vergonha (“quase” porque não chego a concordar com ela).
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Prosseguindo no teste de nerdidade:
11. Você já fez uma pergunta em aula? — Sim. (É só o que faço.)
12. Você já respondeu a uma pergunta feita em aula? — É provável, mas não lembro. Não.
13. Você já corrigiu um professor em aula? — Não do modo como a pergunta dá a entender, mas já. Sim.
14. Você já respondeu a uma pergunta retórica? — Todos os dias: “tudo bem?” Sim.
15. Você já deu uma aula? — Não no sentido formal, de estar presidindo ou ser o principal expositor. Não.
Até agora, 12/15.
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Find the One
Na minha caixa de correio, todo dia encontro um spam intitulado “Find the One”.
Tem um episódio de Babylon 5 chamado “Babylon Squared”, onde o alienígena Zathras tem uma importante missão mas, primeiro, precisa encontrar “the One”. Cada um que aparece na sua frente ele examina e conclui, “not the One”.
Se eu fosse ele, procurava em Matrix. De qualquer modo, ele não deve estar prestando muita atenção, porque, como se pode ver pelas mensagens que recebo, tem até gente anunciando onde encontrar the One.
Ou isso, ou estou recebendo essas mensagens do mesmo endereço que me manda “Daters Wanted”.
Prosseguindo no teste de nerdidade:
6. … em nível superior? — Sim.
7. … e recebeu uma nota A? (Novamente traduzo como 7,5 ou acima.) — Sim.
8. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu no curso de #5? — Sim.
9. Você já se graduou nas “ciências duras”? (Engenharia, Física, Química etc. mas excluindo Psicologia, Economia etc.) — Já.
10. Você já estudou Latim? — Não.
Até agora, 9/10.
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