Na minha infância (mais ou menos na época em que estavam construindo as pirâmides do Egito), o português dos jornais e revistas tinha um padrão de qualidade que era referência até na escola. A quem não tinha o hábito de ler livros, aconselhava-se que, pelo menos, procurasse manter sua proficiência lendo periódicos. Empìricamente, sempre constatei que a publicidade seguia a mesma regra: era extremamente raro encontrar erro de português em anúncio — qualquer tipo de anúncio.
Agora, você abre os jornais online e não encontra uma linha que não tenha nenhum erro de concordância, onde não falte nem sobre nenhuma palavra e onde se tenha certeza de que o estagiário-redator não tenha matado a aula de pronomes relativos. São textos que, na minha escola, teriam sido classificados abaixo do subcrítico (é com hífen?), com os mesmos nomes sendo grafados de duas ou três maneiras diferentes na mesma frase. Não raro, existem sequências que contradizem a chamada ou sequer fazem sentido.
Aí, chegamos ao maldito spam. Todo dia recebo aquelas mensagens pedindo que eu atualize meu módulo de segurança em algum banco onde não tenho conta. Sabe como é, “clique aqui para instalar um cavalo-de-troia na sua máquina e liberar acesso a suas senhas”. Uma das formas de se identificar esse tipo de mensagem é que sempre vem num português pavoroso, começando frase com minúscula, cheio de erros de ortografia, concordância nenhuma etc. e tal.
Só que, agora, com o agravamento da tragédia escolar nacional, mesmo as mensagens legítimas vêm povoadas de erros crassos. Então, não dá mais pra separar o trigo do joio. Qualquer dia, vou receber algum aviso importante mas identificá-lo como spam (no que provàvelmente acertarei, sem contradição mas cheio de doublethink).
Nessa inversão contemporânea de valores, pelo menos já consegui identificar algumas regras do neoportuguês, a saber:
- Toda vez em que o português correto proíbe o “a” craseado, o neoportuguês exige-o. Quando o português o exige, o neoportuguês proíbe-o. Por exemplo: a frase
A partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa às 8 h. — A Gerência.
, quando vertida para neoportuguês, fica assim:
À partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa as 8 h. — À Gerência.
- Toda vez que o português correto exige a forma “há” do verbo haver, o neoportuguês transforma-o em “a” isolado ou em “à”, craseado, à escolha de quem escreve. Assim, a frase
Há muitos anos não vou à escola.
é transformada em
À muitos anos não vou a escola.
- Toda vez que o português correto usa a construção “nada a ver”, o neoportuguês transforma-a em “nada haver” ou “nada a haver”.
- Toda vez que um verbo vem antes de seu sujeito, o neoportuguês exige que o verbo fique no singular, mesmo que o sujeito esteja no plural:
Chegou as novas regras de concordância!
- Toda vez que um verbo vem antes do sujeito e está na voz passiva, o neoportuguês exige que o verbo auxiliar e o particípio permaneçam sem qualquer concordância com esse sujeito:
Foi dado várias ordens para desocupar a praça.
E assim sucessivamente. Se você descobrir alguma regra do neoportuguês que não esteja aqui, por favor me informe. Preciso aprender essa nova língua urgentemente, para poder manter uma vida negocial saudável.
Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).
Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.
Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.
Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?
Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível
(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)
e que só depois das 23:30 h.
Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.
Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.
Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.
E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?
É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.
Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.
Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.
Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.
Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:
– Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.
– Trabalho.
– E você não sabe quanto eu pago à Oi.
– Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.
– Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.
Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.
… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.
(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.
É preciso entender que eu ainda não havia completado o boot do cérebro. Quando vi a contrail da esquerda, pensei em aviões no céu. Quando olhei a coluna de vapor da direita, pensei que fosse uma coluna de fumaça e pensei, “c@#$%&o, caiu um avião na Tijuca”. Aí vi de novo a contrail da esquerda e percebi que a da direita era outra, que o vento já estava dissipando.
Por décadas, os nerds fomos rejeitados. Quando eu estava no Exército, havia um coronel que me chamava de nerd. Acho que, em certa medida, ele estava me ofendendo, ou era sua própria noção distorcida do que seria um tipo de humor não ofensivo, mas, em igual medida, eu na verdade me orgulhava. Porque nós, nerds, sempre nos achamos superiores, certo?
O problema é que, hoje, ser nerd é maneiro. Então, todos os não-nerds ficam dizendo que são também. Não adianta negar nem explicar, porque eles nem sequer SABEM o que é ser um nerd, e de boa fé estão achando que são. Deixe-me dar-lhes a dica: se você deixou de entender uma porção significativa das piadas de Big Bang Theory e só riu dos nerds da série ”porque eles são engraçados”, ou porque são diferentes de você, então você não é um nerd. Muitas vezes, Sheldon não está só fazendo piada com os nerds, mas com você, que não é.
No ano passado, vi-me jantando com uma amiga atriz logo depois de sairmos do teatro onde ela fazia a madre superiora nA Noviça Rebelde. Junto vieram três de seus amigos do teatro, atores ou sei lá, e uma das sem-noção desse grupo começou a me perguntar o que é um nerd. A sério. Tinha ouvido a palavra mas não sabia o que era. Depois que expliquei, a desconectada criatura teve a desfaçatez, a ousadia, o desplante de me dizer que então era uma nerd.
Não, jovem, não é. Para entender a mente nerd, leia o Cardoso. Especialmente aqui. Não posso escrever melhor do que ele. Não se chega a nerd por vontade ou esforço pessoal. Se você precisa se esforçar, então automàticamente é impossível que se torne um nerd.
É frustrante. A vida inteira, ser um nerd era estar na de fora. Agora que os nerds conquistaram o mundo, agora que estamos por cima e ganhamos mais dinheiro (bom… menos eu), agora que é legal ser nerd, todo o mundo quer dizer que é nerd também! Porra, assim não dá! Os caras querem ter o bolo *e* comê-lo?!?! Só querem ganhar sempre sem trabalharem nunca?!
Ser nerd não é uma espécie de clubinho onde você entra só porque se diz sócio. Você nem sequer entra; você tem que já nascer dentro, ou melhor, um dia se descobrir dentro. E essa gente toda está querendo entrar, usurpar indevidamente.
Alguns de vocês podem estar acompanhando minha lenta e longa atualização das 500 respostas ao teste de nerdidade. Só que o teste é muito específico e datado. A época é claramente o início dos anos 90, e o viés das respostas fica muito alterado.
MAAAS acabo de descobrir uma versão atualizada do teste:
Taqui meu resultado. Foi alcançado, entre outras perguntas, sendo capaz de fornecer uma tabela periódica, um mapa-múndi, um mapa do mundo antigo e um exemplar da Ilíada, cada um em menos de quinze segundos. Quem se acha um nerd, saiba: pois eu sou um Cool High Nerd.
(Não consigo fazer upload da figura, mas foda-se. Sou um Cool High Nerd, não preciso provar nada.)
Meu resultado (1)
Meu resultado (2)
Consolidado (com base na versão feita minutos antes dessa que está acima):
Esta postagem nasceu como uma tentativa de comentário em resposta à postagem de Feliz-Natal da BAxt. Só que comecei a me estender demais lá, de modo que desisti e resolvi ocupar meu próprio espaço, não o dela. Mas a ela dedico este texto.
Ontem, véspera de Natal, entre 18:30 e 19 horas, eu ia andando pela rua junto com Esposa quando passamos por um cara que parecia não estar se sentindo bem.
Em pé, parado e de olhos fechados, apoiava-se na ventilação do metrô, a cabeça um pouco oscilante. Parecia muito aflito, como se tivesse uma baixa de pressão (conheço a sensação, é apavorante). Eu ia passando por ele, mas chamou tanto minha atenção que parei e voltei dois passos. Perguntei a ela: ajudamos?
Nesta cidade, é foda, você tem medo até de oferecer ajuda; mas pensei, é mais provável ele estar precisando do que não e, se fosse eu, bem que eu ia gostar de receber uma ajuda necessária. Então, hesitante e guardando um meio metro (vai que é maluco), pedi licença e perguntei se estava se sentindo bem.
Sem abrir os olhos, disse que não. Perguntei o que sentia. Sede, disse ele, entreabrindo os olhos mas sem se mexer. Pressão alta e uma falta de ar.
O cara não era nenhum mendigo. Magro e barbeado, estava vestido com camisa de botão, calça comprida e boné, tudo humilde mas arrumado. Na mão, só uma carteira. Vendo-se diante de mim, arregalou os olhos e começou a explicar a história atabalhoadamente. Repetiu que era pressão e que sentia sede.
Pedi à Esposa que fosse ao mercado próximo (nem dez metros), comprar uma água de 500 ml. Enquanto isso, antes que também eu ficasse tonto, e mantendo o distanciamento (afinal, vai que ele é, sim, ladrão), resolvi assumir o controle e comecei a fazer perguntas para eu mesmo montar o quebra-cabeças.
Pelo que contou, o sujeito é caseiro e mora sozinho no pé da serra de Teresópolis. Todo ano, no Natal, desce para visitar uma família que mora por ali. Só que, este ano, chegou e não encontrou ninguém; tinham vendido a casa. Estava desde o meio-dia no Rio de Janeiro, sem lugar para ir nem dinheiro para voltar. Como já escurecia e ele não queria passar a noite na rua no Rio, estava ficando nervoso. Com isso, a pressão foi subindo (palavras dele), a bronquite/asma começou a tirar-lhe o ar e ele sentia muita sede. As mãos tremiam.
Olhei em volta. Nenhuma farmácia, nenhum carro de polícia passando, pensei em ligar 192 mas ponderei, preciso mesmo acionar o SAMU? A vítima está lúcida, ambulância é pouca, deixa os feridos terem sua prioridade.
Ofereci-me a levá-lo a um posto de saúde que tem do outro lado do quarteirão. Ele ficou aflito: que a PM já tinha se oferecido a levá-lo a uma tal de UPA (confere: Unidade de Pronto Atendimento, perto dali também), mas ele tinha medo de médico, e não estava doente, nem queria ficar numa maca num lugar estranho, só queria ir pra casa, que em casa ele tinha a bombinha e sabia que melhorava. Disse que tinha vergonha de pedir qualquer coisa, por isso não queria pedir nada a ninguém, já tinha tomado seis ônibus (possível exagero), era a primeira vez que isso acontecia, não tinha ninguém no mundo, só queria voltar pra casa.
Tudo isso ele me dizia olhando no olho, humilde mas sem pedir nada, sem evasivas, sem olhar para o chão ou para os lados como fazem as pessoas que mentem para mendigar. Em um momento, o ar realmente pareceu faltar-lhe; nervoso ele estava mesmo. Parecia prisioneiro de sua situação: evidentemente, seria inútil e complicadora qualquer solução que não o ônibus para Teresópolis, mas a barreira até chegar a ele parecia intransponível.
E a história fazia sentido: se você tivesse 61 anos (mostrou-me a identidade: nascido em maio de 1948) e morasse em Magé, tudo que você ia querer era ficar na sua casa, ambiente conhecido. Deduzi que o nervosismo não era tanto de fome ou desabrigo (suportáveis), mas mais de ele subitamente se ver removido de seu pequeno mundo, sem uma estrutura de amparo, em ambiente desconhecido e potencialmente hostil.
Aí, disse que só precisava de R$ 22,20, sendo R$ 20 do ônibus de volta para Teresópolis e R$ 2,20 até a Rodoviária, um ônibus verdinho que ele sempre pega; e que uma moça lhe tinha dado R$ 8 de ticket-refeição, mas que a passagem ainda era um problema.
O ônibus conferia: linha 606, verde, passa ali mesmo onde estávamos, embora não parasse no ponto imediato, só no seguinte. A conta também conferia: passagem para Teresópolis custa por aí mesmo, e o 606 custa R$ 2,20. Mas continuei a perguntar: o senhor não tem dinheiro para voltar pra casa?
Não: a família que ele visita sempre lhe dá R$ 300 ou 400 e, com esse dinheiro, ele compra a passagem de volta.
E pensei: é muito temerário descer a serra sem ter o dinheiro da volta! Aí veio a autocrítica: isso sou eu, que tenho toda uma estrutura a minha volta, que sempre saio de casa com o dinheiro da despesa prevista, mais o mínimo para resolver imprevistos, e depois reponho o que porventura gasto. Mas vai ser caseiro em Magé! A gente tem que descer a serra mesmo, sem dinheiro para a volta.
Mentalmente, contei quanto dinheiro sabia ter na carteira (uma nota de 50, duas de 10 e uma de 5), enquanto explicava que o ônibus verde não parava ali. O homem arregalou o olho: pára sim, eu sempre venho nele! Esclareci que sim, mas não naquele exato ponto, mas que ali também tem ônibus com destino à Rodoviária. Nisso, passou um 234, mostrei-lhe: olhe, o da Rodoviária é como esse. Parou de falar, fixou bem, disse alto: azul e branco com verde.
Perguntei se ele conseguia ler no ônibus, “Rodoviária”, ele disse que era suficientemente letrado, só não era para aquelas letrinhas no celular, e gesticulou como quem aperta os botões. Esclareci: não é isso, é que podia não estar enxergando bem, se estava passando mal… Mas disse que enxergava, que seu único problema era não conseguir voltar pra casa, e que já não tinha a quem apelar — e aqui arfava, asmático –, então pedia a Jesus que lhe mandasse qualquer ajuda.
Ora, pombas, Jesus! Muito egoísta e muito conveniente pedir para si!
Mas, nesse ponto, avaliei: não queria ir a médico, então eu não haveria de forçá-lo; nem da asma poderia tratá-lo. Não me pediu dinheiro, mas, mesmo assim, podia ser tudo um golpe encenado, claro que podia! Afinal, ele havia dito, claramente, de quanto precisava; e isso já não é pedir? Mas o discurso estava todo coerente, não era aquele papo apressado de pidão profissional com história fajuta.
Refleti: que ajuda eu podia dar? Nesta sociedade onde só o que as pessoas pedem é dinheiro, eu me sinto PÉSSIMO quando isso é tudo que dou. O de que o caseiro parecia precisar era transporte, mas transporte eu não podia dar; podia dar aquilo que se transforma em transporte: desta vez, só dinheiro mesmo! Do mesmo modo, essa necessidade só podia ser expressa na forma de alguma quantia.
Então, fiz o que nunca faço por mendigo nenhum: olhei em volta, nenhum molambo à vista que pudesse vir me assaltar, saquei da carteira, puxei e dei R$ 20, ele agradeceu. Na hora, pensei, isso não completa o necessário, de modo que ele ainda vai ter que se virar na Rodoviária. Não adianta alegar que, lá, muito mais gente poderá ajudá-lo, porque sabemos que não se pode contar com isso.
A outra ajuda era a garrafa de água. Esposa chegou trazendo, abri-a, ele bebeu metade em um gole demorado.
Deixamo-lhe a garrafa d’água, que ele agradeceu penhoradamente, desejando-me também um feliz Natal e qualquer coisa a ver com Jesus (que, mind you, nem passou pela minha cabeça — OK, minto, passou sim, mas para me deixar puto. A verdade é que fui aluno em um colégio católico supertradicional, de modo que, apesar de todo o meu ateísmo, certas doutrinações afloram nessas horas. Como é que você faz quando quer que seu ato não tenha nenhum vínculo com valores cristãos e, no entanto, ele coincide exatamente com o que o catecismo te manda fazer?).
Fico pensando que talvez devesse ter esperado o próximo 234 junto com o caseiro, mas talvez isso já fosse mesmo além do necessário; eu já me havia certificado de que ele poderia se virar sozinho, e ele não me pediu para ficar. De todo modo, ainda me pergunto se fiz bem. Porque dar dinheiro é sempre uma forma de você dizer que ajudou sem ter realmente tido trabalho nenhum, assim se mantendo egoísta mas procurando sair bem na fita. E porque sempre há o risco de, na verdade, eu ter dado esmola a um vigarista. Quanto a essa hipótese, consolo-me pensando que vinte reais a menos no meu bolso vão me causar um dano pequeno comparado com a culpa que se acumulará no carma dele; fica sendo mais um pecado do qual ele terá que se arrepender mais tarde (olhaí o fundamento cristão sneaking back in).
Pelo menos não foi só o dinheiro. Resolvemos o problema da sede (que, recapitulando, foi o que causou minha parada), dei informação sobre ônibus e, em retrospecto, o melhor de tudo parece ter sido ainda uma outra coisa. Veja: o tempo todo respeitei a dignidade do caseiro, ouvindo-o, discutindo soluções, não insistindo em que aceitasse alguma dádiva minha, mas procurando descobrir o que ELE queria. Se pensarmos bem, acho que sua maior necessidade, ali, não era de água, nem de dinheiro, mas de que alguém ouvisse sua história e aplacasse sua ansiedade. Parecia precisar ser tranquilizado de que conseguiria voltar pra casa e de que não ficaria abandonado nesta cidade hostil.
Bem, se lhe dei isso, então dei o que não tinha. Porque, nesta cidade, ansiosos estamos todos, todos procurando nosso lugar de tranquilidade, e eu nem sequer tenho a fé que ele manifestava. Mas, se um caseiro de Magé se livrou de passar o Natal na rua no Rio de Janeiro, então — e que isto fique entre nós –, com isso, ele me deu um presente de Natal melhor do que eu costumo esperar.
Muita gente tem a imagem dos juízes como aqueles homens sisudos, conservadores e autoritários. Podem até ser, mas, às vezes, essa imagem está bem longe da verdade. Existe uma geração de juízes jovens que estão a par do que acontece no mundo. A saber:
De acordo com a Constituição da República, artigo 150, inciso VI, alínea d, livros são imunes a impostos. Isso significa que, no Brasil, livro não paga (ou não deveria pagar; se pagar, tem alguém tomando seu dinheiro ilìcitamente) não paga imposto de importação, imposto de exportação, IPI nem ICMS. Outro dia, a dona da loja de quadrinhos que frequento (Point HQ, na Tijuca) tava reclamando do que paga de imposto; e eu disse a ela, procure um advogado, que livro não paga imposto, nem revista, nem jornal, nem o papel destinado a sua impressão.
Aliás, em uma digressão: toda vez que vou ao Exterior (como se eu fosse sempre — até hoje, foram só cinco vezes), toda vez volto com vários livros. Não compro muamba, não compro eletrônicos, não compro bebida; só livros. Oquei, às vezes bebida, certa vez u’a máquina fotográfica, mas sempre dentro da cota de US$ 500; o que faz volume mesmo são livros. Certa vez, foi u’a mala inteira — a MALA INTEIRA — de livros. Fico torcendo pro fiscal me mandar abrir. Vai ser frustrante pra ele, porque não vai poder cobrar imposto por nada, hahaha. Fico imaginando a ganância seguida de decepção. Eu sou um recalcado mesmo, e divirjo. Voltemos ao ponto.
O ponto é o Kindle. Você sabe: aquele dispositivo da Amazon que está fazendo um sucesso danado, especialmente o Kindle 2, mais leve e com melhor interface do que o original. Agora tem até O globo no Kindle. Você compra o aparelhinho, ele tem o tamanho de um livro, uma tela e umas teclas. Você baixa os ebooks, revistas e jornais e vai lendo no ônibus, no aeroporto, na piscina do clube. Usa as teclas para folhear e para anotar seu exemplar do livro eletrônico. No Brasil não levo fé em que funcione, mas conto com a vanguarda de cobaias antenadas; depois que tiverem debugado bem, quem sabe se também compro um pra mim. E você pode ler belogues e alguns saites também.
Você poderia dizer que ele fosse um computador; e é, na definição mais clássica, um computador especializado. Na prática, só serve para você ler livros, periódicos e belogues. Não serve para jogar, não tem calculadora nem editor de texto, não exibe filmes, não navega na Web. Não tem software instalado a não ser o essencial, para sua atividade fim.
E aí: Kindle é livro? Não é livro no sentido do conteúdo, da obra literária; mas pode-se dizer que seja livro no sentido físico, do papel que sai da editora com letrinhas de tinta. Assim como você precisa daquele maço arrumadinho de páginas para ler a obra, também precisa do Kindle para ler a obra. É uma tese defensável, com a qual concordo.
Então, o saite Migalhas conta-nos de um caso decidido na semana passada. Não sei qual é a exata história, porque a decisão judicial não a relata pormenorizadamente, mas estou entendendo, pelo contexto, que o sujeito tenha comprado um Kindle da Amazon e, na hora de retirá-lo nos Correios, teve que pagar imposto. Posso entender o lado do fiscal da Receita: é eletrônico, não é impresso; logo, pague-se through the nose, como se diz em terras de Sua Majestade.
Mas o comprador não se resignou tão fàcilmente. Impetrou mandado de segurança dizendo: eu não tenho que pagar imposto, porque Kindle é livro e livro é imune.
Então, a Juíza Federal Substituta Marcelle Ragazoni Carvalho, da 22a. Vara Federal de São Paulo, decidiu a favor do impetrante. Entendeu que o Kindle, se não é livro no sentido clássico, equipara-se. Acertadamente, considerou que a Constituição não pode ser interpretada literalmente, mas sim conforme a intenção de seu texto, que poderá ser melhor atingida de uma ou de outra maneira conforme os tempos mudam e a tecnologia evolui. Você não precisa ficar editando o texto da Constituição (que, a propósito, já foi objeto de 68 emendas até hoje); basta atualizar a forma de lê-lo. Não vou me estender sobre isso, mas adianto que considero esse um dos tópicos mais interessantes (e, ao mesmo tempo, abstratos e filosóficos) de Direito constitucional e que, só sobre ele, já se escreveram dezenas de livros e capítulos de livros, tanto no Brasil como fora.
Então, disse a Juíza que a imunidade tributária da alínea d, de que falei acima, visa a assegurar a liberdade de pensamento e deve ser interpretada conforme sua finalidade, adaptando-se às inovações tecnológicas. No texto da decisão, ela citou jurisprudência do TRF da 4a. Região, que já dizia que o livro deve ser considerado, não só como o objeto de papel, mas como o conceito finalístico de livro. Na ocasião, o Tribunal havia reconhecido a imunidade do quicktionary (que, se pesquisei bem, é um scanner tradutor) por ter conteúdo de livro e funcionar como livro, ainda que o suporte físico fosse outro. Eu, particularmente, nem concordo com a decisão no caso do quicktionary, mas, se valeu para ele, com ainda mais razão a Juíza Marcelle Carvalho acompanhou o precedente.
Antes que você fique muito animado, advirto-o de que a decisão da juíza foi apenas uma liminar, com o efeito de permitir o desembaraço alfandegário sem pagamento de imposto. Mais adiante, ela ou outro juiz dará sentença julgando o mérito do MS, o que sempre pode reverter a situação. E, ainda que a sentença confirme o que foi decidido na liminar, caberá recurso por parte da Fazenda; depois dele, a situação pode muito bem subir até o STJ e o STF. Além disso, a decisão só vale para esse um caso, desse um Kindle, desse um sujeito importador; não vale para outras pessoas. Cada um que mova sua própria ação. Não se espante se você também tentar e o juiz do seu caso entender que Kindle não seja livro.
Mas que isso foi uma pequena vitória, foi. E a juíza se mostrou atualizada com a tecnologia.
Acabo de ver um linque na Web, com uma chamada tão mal escrita que fiquei até curioso: que notícia obscura seria essa? Então cliquei e li que Tiger Woods bateu com o carro, ontem, anteontem, sei lá.
Ordinàriamente, eu não continuaria lendo, mas o que me deixou tão intrigado foi a extensão da reportagem. Comecei uma metaleitura, na intenção de descobrir o que esses jornalistas conseguem extrair de um mero acidente de trânsito. Sei lá, vai que tem alguma implicação mais séria, né?
Bom. Aparentemente, Woods bateu com o carro perto de casa, às 2 e pouco da manhã. A esposa ouviu, acudiu e teve que quebrar uma janela para tirá-lo do carro. O golfista estava sangrando e com a consciência indo e voltando, mas consta que já passa bem.
O que me chamou a atenção, mesmo, foi o seguinte:
“Left unanswered was where Woods was going at that hour.” – Ou, em língua lusa, “o que ficou sem resposta foi aonde Woods estava indo àquela hora”.
Como assim? Ora, pombas, quer dizer que, agora, um cidadão tem que dar satisfações sobre aonde vai a que horas? Não pode mais dirigir seu carro de madrugada sem se tornar suspeito? Tem toque de recolher, é isso?
“Pois não, policial?”
“O senhor estava dirigindo seu carro de madrugada. Aonde estava indo?”
Faz sentido essa conversa pra você?
NINGUÉM TEM NADA COM A VIDA DELE. Não é pra se meter, ficar fazendo inquérito, saber aonde ele ia com seu carro.
Eu, hein.
***
Em uma nota não relacionada, vejamos.
Belogues, fóruns de discussão, email, listas de email, instant messaging, Google Translate, Orkut, Facebook, Google Docs, Google Maps, 4share, Rapidshare, Scribd, Flickr, Picasa, YouTube… Deixei alguma coisa de fora? Não, né?
Pois bem, ontem assisti a este vídeo de apresentação do Google Wave:
De início, fiquei apaixonado pela idéia. Juntaram tudo em uma interface só. Fundiram todos os modos de expressão que você tem na Web, de um modo intuitivo, como já aprendemos a esperar desse pessoal do Google. A programação deve ter sido animal, depois de sessões insanas de desenvolvimento da arquitetura, de modelagem, de brainstorms viajantes sobre as funcionalidades. A orientação a objeto salta aos olhos.
Ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar: confuso, bagunçado, com um elevadíssimo potencial para ser mal utilizado pelas mentes analfabetas destes tempos de inclusão digital. Deu-me a sensação de uma ferramenta prematura – não uma ferramenta que está “adiante de seu tempo”, mas uma implementação prematura, talvez carecendo de ferramentas que ainda estão por inventar e tais que, na falta delas, fica desconjuntado. Em outras palavras: está tudo agrupado, mas não realmente agregado, não realmente consolidado.
Sei lá. Como costuma acontecer nesses casos, é muito fácil ficar acrescentando previsões ao hype, sejam elas otimistas ou pessimistas, e quase garantido que estarão todas erradas. Eu poderia dizer, “complicado demais, não vai dar certo”, mas isso é o que disseram de tudo que DEU certo em tecnologia da informação. Muitas vezes, a coisa acabou simplesmente ganhando um uso que não tinha nada a ver com o uso imaginado originalmente. Outras vezes, foi o contrário: fez-se uma comemoração insana de tecnologias “revolucionárias” que simplesmente não pegaram. Ou você conhece alguém que tenha um telefone Iridium? Eu poderia dizer, “é tudo que eu queria, todo o mundo vai adorar”, e as pessoas continuarem preferindo a simplicidade da compartimentalização entre os canais.
Mas que é supermaneiro, é.
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Já que estamos falando em Web 2.0: está no ar o belogue colaborativo da REDARTE/RJ. A Redarte é uma associação de bibliotecas especializadas em arte situadas no Estado do Rio de Janeiro. Nas palavras do próprio belogue,
“A Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte no Estado do Rio de Janeiro (REDARTE/RJ) é uma rede de instituições com acervos especializados na área de artes no Rio de Janeiro e em Niterói. Seu objetivo principal é ampliar, para o público em geral e os pesquisadores de arte em particular, as opções de acesso a todo um universo de informações disponível em um conjunto expressivo e representativo de acervos especializados em arte.
“Participam da Rede instituições públicas e privadas, como museus, universidades, arquivos, centros culturais, totalizando 36 integrantes. As instituições são representadas na Rede por gestores dessas unidades de informação, graduados em Biblioteconomia e áreas afins.
“OBJETIVOS
”- Facilitar aos pesquisadores e ao público em geral o acesso a informações na área de arte;
”- Divulgar suas instituições integrantes;
”- Oferecer serviços e produtos informacionais;
”- Promover o intercâmbio de experiências entre os profissionais da Rede e auxiliar sua atualização;
”- Promover o intercâmbio de informações em arte através da localização de itens e do serviço de empréstimo entre as bibliotecas integrantes;
”- Incrementar a permuta e a doação de itens entre seus membros.”
Até há pouco tempo, a existência online da Redarte era só um website com edição centralizada, que não se comparava às várias atividades que aconteciam no mundo real. Agora, com a iniciativa do belogue, já dá pra ver uma dinâmica onde tudo que acontece é atualizado ràpidamente. Como a Redarte é liderada por bibliotecárias, o belogue cumpre a vocação da classe: contém inúmeros linques para instituições, bases de dados e relatos de eventos. Com o tempo, as organizadoras pretendem disponibilizar os powerpoints das palestras, artigos e por aí vai.
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Ainda no teste de nerdidade:
31- Você já discutiu com um professor? – É possível, mas não que me lembre.
32 – Você venceu? – Não.
33 – Algum palestrante já indicou que alguém procurasse você como tendo mais conhecimento? – No contexto, não creio.
34 – Você já tentou admissão a alguma faculdade só para “ver se conseguiria entrar”? – SÓ para isso? Não.
35 – No seu SAT, a Matemática estava mais de 300 acima de seu verbal? – Nem conheço o teste, mas já vi que não se aplica no Brasil. Pulo.
Até agora, 20/33. Até que está melhorando (ou piorando, não sei).
Nas últimas duas ou três semanas, temos tido dias de um calor desgraçado aqui no Rio. Hoje é um deles. A praia deve estar cheia, e você ouve os condicionadores de ar da vizinhança, virando direto. Não adianta tomar banho, porque a água desce da caixa na mesma temperatura em que você a queria num dia muito frio.
Em uma de suas obras, Vinicius de Moraes disse que sua receita para esses dias era chupar bala de hortelã. Isso era no tempo em que as casas não tinham ar condicionado.
Já eu recomendo minha fórmula, muito melhor. Em um copo de 300 a 500 ml, vá pondo, nesta ordem,
1 dose de rum Bacardi flavorizado com limão (pode ser outro destilado semelhante: rum, cachaça, gim)
Meia dose de licor de menta
Suco doce de limão até em cima
2 pedras de gelo
Não precisa mexer: conforme cada líquido vai caindo no copo, já mistura sozinho.
Isso ajuda!
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Esqueci-me de contar. Naquele dia em que fui ao zoísta, a sala de espera tinha uma TV ligada num desses programas de barraco ao vivo, onde as pessoas vão contar seus problemas familiares para que a plateia dê palpite. Difícil eu me concentrar na leitura. Posso escolher não ver (é só fechar os olhos), mas não posso escolher não ouvir.
Na TV, uma mulher reclamava do namorado, que só queria saber de jogar bola com os amigos e não dava atenção a suas necessidades de, hm, vadiar (para usar a curiosa nomenclatura de Jorge Amado em Dona Flor), ou de fazer o que a apresentadora chamava de “nhanhãnha”.
Mas, também, lógico. A mulher era feia como a fome!
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Aliás, no Afeganistão, dizque as mulheres também são todas muito feias e que nunca tomam banho. Por isso, eram obrigadas a usar aquela roupa que cobria o corpo inteiro, só deixando uma gradezinha para elas enxergarem. Parece que os Estados Unidos acharam pouco, então mandaram bombardear o país.
Não sei; dizem.
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Prosseguindo no teste de nerdidade:
26. Você já virou a noite estudando? – Tècnicamente, não. Dormi por quase uma hora.
27. Você já fez algum curso do tipo passar/não passar só para preservar seu GPA? – A pergunta parece-me inaplicável ao Brasil. Vou pular.
28. Você já soube mais sobre o assunto do que o professor? – Já.
29. … mas continuou na aula porque “precisava da nota”? – Sim.
30. … e o professor admitiu isso a você? – Não.
Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.
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Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:
– Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.
– Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.
Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.
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Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.
Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.
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Ainda no teste de nerdidade:
21. …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.
Até agora, 18/25.
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… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.
Sabe esse apagão que se abateu sobre as regiões Sul e Sudeste do Brasil na noite de terça-feira? Então. Constatei algumas coisas.
1 – A luz não caiu TOTALmente. Os LEDs de meu roteador ficaram acesos, assim como o rádio despertador esqueceu que horas eram mas ficou mostrando 00:00. Isso indica que havia energia nas linhas. Indica, também, que o que NÃO aconteceu foi o acionamento de algum mega-disjuntor em algum lugar; ainda estávamos conectados a Itaipu. Logo pensei no risco que isso envolve. Vai que alguém toma confiança de que “está sem luz mesmo” e vai mexer na rede. Torci para não ter notícia de gente eletrocutada no dia seguinte.
2 – Quando eu estava no Exército, tive uma instrução noturna em um acampamento. Aprendi que, na guerra, deve haver disciplina de luzes e sons. Aprendi que a luz de um cigarro aceso pode ser vista a centenas de metros de distância. Você definitivamente não pode acender lanterna, nem conversar nem fazer qualquer barulho, que o inimigo te vê e te escuta. Pois, na noite do apagão, deu para ver nìtidamente quem eram os vizinhos que iam fumar na janela, lá longe, no outro lado da rua. Impressionante.
3 – Minha ex-chefe me contou que teve gente dizendo que viu vaga-lume. Acredito que não, porque a cidade é um ambiente muito hostil para esses bichos, mas pode muito bem ser que sim nos bairros com mais vegetação – no Rio de Janeiro, estou falando na Zona Oeste, especialmente Vargem Grande e Recreio. Como ela lembrou muito bem, “a gente acha que não porque não tá vendo com essa luz toda em volta, mas eles ainda estão por aí”.
4 – Silêncio completo na vizinhança às onze da noite. No prédio vizinho, onde tem uma família que passa dia e noite aos berros entre si, todos calados. Então constatei que não estava ouvindo o burburinho de fundo das televisões ligadas, nem o vozerio difuso de todos os vizinhos. Minha conclusão é que, não tendo televisão, o povo ficou sem nada pra fazer e foi dormir. Ô gente dependente da caixinha eletrônica do diabo! Todo o mundo virou zumbi, pendurado nas imagens mágicas que Globo, SBT e Record despejam em seus cérebros embotados (sim, porque a classe média tem TV por assinatura só pra ostentar; o negócio mesmo é assistir aos mesmos canais do povão). Não foi só a falta de luz; o cérebro deles também vive em estado constante de apagão.
*** Prosseguindo no teste da nerdidade:
16 – Você se senta na fileira da frente por mais de 20% do tempo? – Não. Muito arriscado. 17 – Você já teve uma “assiduidade perfeita”? – Não que chamassem assim ou se importassem, mas já, inúmeras vezes. 18 – Você já verificou uma equação em um texto de Ciência por conta própria? (i.e. prova experimental) – Já. 19 – Você já deduziu uma equação que encontrou em um texto de Ciência? – Já. 20 – … quando não tinha que fazê-lo? – Já.
Continuo tendo que fazer uma faxina aqui no belogue: atualizar listas de linques, vídeos e leituras. Enquanto não faço isso,
Vocês devem estar sabendo que a Força Aérea tem uma concorrência em andamento para a compra de uns 36 novos aviões de caça. Após quase trinta anos de serviço do Mirage IIIEBR, a FAB iniciou a concorrência F-X para sua substituição. No início do governo Lula, nosso Poder Executivo entendeu que outras prioridades mereciam mais atenção, mormente o Fome Zero, de modo que a concorrência foi extinta antes de se escolher um vencedor. Como solução temporária, decidiu-se fazer o leasing de alguns Kfirs, aviões israelenses derivados do Mirage III (mas com turbojatos J79, os mesmos do Phantom II). Não acompanhei se esse leasing chegou a se efetivar, mas, algum tempo depois, uma nova solução temporária foi adotada: o leasing, ou empréstimo, de um punhado de caças Mirage 2000C, de um lote do início da produção e já usados pela França. Esses aviões estão em serviço na FAB com o nome de F-2000. A solução definitiva ficou adiada para quando se escolhesse o vencedor de uma nova concorrência, a F-X 2, que está rolando já faz um tempo e cujos concorrentes são o Dassault Rafale, o Boeing F/A-18E, o Sukhoi Su-35 e o SAAB 39 Gripen. Perdoe-me se eu tiver deixado algum outro modelo de fora.
O Gripen foi o primeiro caça de quarta geração a entrar em serviço e normalmente é considerado o mais bonito. Ele e o Su-35 costumam ser os mais admirados por amadores da aviação, este último por causa do desempenho impressionante (especialmente a manobrabilidade mas também o alcance), do porte e da capacidade de transportar armamento.
No 7 de setembro deste ano, muito antes de se anunciar um vencedor da F-X 2, nosso Iluminado Líder disse ao Sarkozy e à imprensa que o Brasil compraria o Rafale. Logo o Ministério da Defesa tentou botar panos quentes e dizer que isso ainda não era certo, mas sabemos o quanto nosso Glorioso Defensor parece estar acima de qualquer responsabilidade pelo que diz.
Mais adiante, ainda em setembro, um ex-colega de escola me perguntou qual avião eu pensava que seria vitorioso. Então, escrevi-lhe o que está abaixo. Fica registrado para me cobrarem depois do anúncio.
“Importante entender uma coisa. Em matéria de defesa nacional, os argumentos técnicos deveriam prevalecer, mas a política sempre acaba decidindo. Isso não é só no Brasil: o mesmo acontece nos países que costumamos tomar como paradigmas (EUA, Reino Unido, França).
“Você já percebeu que, em matéria de F-X 2, o que não falta são especialistas. Todo o mundo agora é especialista. As revistas populares comentam o assunto como se seus jornalistas fossem íntimos dele há anos e acompanhassem o cenário de defesa internacional, o que é ridículo. As reportagens acabam virando propaganda mal disfarçada. O povo ignora que o tema F-X e F-X 2 vem sendo discutido exaustivamente pela imprensa especializada há, pelo menos, uns sete anos, sem que o assunto tenha morrido.
“Em princípio, todos os aviões são muito bons. E não vou manifestar “preferências”: primeiro, que o que EU prefiro não faz a menor diferença para quem decide; segundo, que não tenho interesse pessoal na história. Não vou fazer como a molecada de doze anos, que gosta de gozar com o bilau dos outros e ficar enaltecendo os caças americanos como se esses próprios moleques é que os fabricassem na garagem de casa.
“Então, vejamos. O Brasil tem um longo histórico de cooperação com a França e a Dassault em razão do Mirage III. Também arrendou os Mirage 2000 por um tempo. E a França tem o hábito de facilitar a venda de armas, diferente dos Estados Unidos. Então, faz sentido comprar o Rafale, na continuação do uso de uma tecnologia já conhecida.
“F/A-18. Os Estados Unidos sempre resistiram em vender o pacote completo de armas que dá utilidade ao avião. Além do mais, tem havido uma certa tônica na política externa de não mais depender dos EUA para a defesa nacional, preferindo fornecedores que nos deem mais liberdade de uso para o equipamento.
“Su-35. A maior vantagem do avião russo é sua grande autonomia, que permite cobrir uma fração significativa do Território Nacional. Outra grande vantagem é sua robustez, adequada às condições climáticas e à necessidade, que a FAB tem, de não precisar fazer muita manutenção. As desvantagens são a notória falta de apoio logístico do fabricante e a maior necessidade de treinamento, por ser um avião oriundo de cultura diferente da ocidental.
“Saab 39 Gripen. Muita gente tem-no como favorito, mas, sinceramente, acho que é por ele ser considerado tão bonito. Como se fosse concurso de beleza de aviões. A vantagem do Gripen é o datalink integrado com os sistemas em terra e em outros aviões, tudo a ver com o SIVAM e com o radar **SUECO** já empregado no EMB-145. A seu favor também conta o fato de ser um avião de manutenção mais fácil. Só que tem dois problemas: um é a autonomia de titica que os aviões suecos sempre tiveram; outro é o que ouvi do pessoal da FAB em Santa Cruz: que os eletrônicos dele fritaram ao sol do Brasil; tinham que ficar trocando componentes queimados.
“Não sei qual desses aviões é mais adequado ao Brasil. Independente disso, imagino que o Rafale vá ganhar por causa de considerações políticas.
Está no noticiário dos últimos dias: o cientista e PhD americano David Nozette, 52 anos, trabalhou de 1989 a 2006 em projetos do mais alto interesse estratégico para seu país. Teve farto acesso a informação da mais alta sensibilidade, top secret etc e tal: inteligência de comunicações, sistemas de vigilância, defesas contra ataque nuclear, projeto de armas avançadas (nucleares inclusive), satélites de espionagem, you name it. Aí, foi pego pelo FBI tentando vender informação a uma pessoa que ele acreditava ser um membro da inteligência israelense.
O que os saites de notícias não estão dizendo, mas o próprio FBI está, é que, aparentemente, o Estado de Israel, mesmo, não esteve envolvido. Um agente do FBI apresentou-se a Nozette em setembro como sendo integrante do Mossad e, ao longo de poucos dias, valeu-se do correio para lhe enviar pelo menos dois questionários, que Nozette preencheu com informação privilegiadíssima, top secret mesmo, só com base no que guardara de cabeça. Também lhe pagaram US$ 11,000. Nozette afirmou ao agente que, embora já não tivesse acesso a vários documentos, ainda tinha muita informação na cabeça e estava disposto a vendê-la. As idas de Nozette ao correio foram filmadas, até que, em 16 de outubro, ele foi preso e está sendo acusado de tentativa de espionagem. A pena máxima é perpétua.
Agora, observe só. O Estado teve todo o controle da situação neste caso. Foi o próprio FBI que propôs o cometimento de todos os atos, que dirigiu a conduta de Nozette, que o estimulou e instruiu. Era impossível que Nozette efetivamente cometesse crime, porque não tinha como a informação chegar a Israel. Se o crime era impossível, então ele não estava tentando algo que, ao final, pudesse chegar a ser um crime consumado; não houve nem haveria prejuízo para seu país.
No Brasil, o Código Penal define a tentativa de cometer crime:
“Art. 14. Diz-se o crime: (…)
“II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”
Vejam que a execução não se iniciou, porque o que se iniciou não foi um crime, mas um simulacro, um teatrinho, um arremedo, supervisionado e controlado pelo Estado, onde Nozette era um hamster na gaiola. Então, não há que se falar em sequer punir a tentativa.
No Brasil, flagrante armado não vale, porque o próprio Estado provocou a conduta imoral do sujeito: ele fez, mas o Estado fez primeiro. Se o Estado foi maligno, não pode vir alegar que o sujeito também foi. Ou, em u’a máxima que se usa mais no Direito civil que no penal, “a ninguém aproveita sua própria torpeza” (em língua de poetas mortos, nemo turpitudinem alegans).
(O flagrante armado é diferente do flagrante esperado. Neste último, é o próprio criminoso quem tem a iniciativa, e você só fica de tocaia, à espera de que ele faça o que vai fazer mesmo, sem estímulo. Aí, não partiu do Estado.)
Incidentes como esse fazem-me pensar, obòviamente, em 1984, de Orwell. Onde, aliás, tem uma situação igualzinha, onde um agente bem graúdo do Estado (Inner Party) induz o protagonista Winston Smith a crer que está vindo fazer parte de uma conspiração, quando, na verdade, era tudo armado para se criar nele uma culpa, seguida de inquisição e correção.
A conclusão é em duas partes. Primeira: é verdade o que diz a nota do FBI? Resposta: não sei, mas vou presumir que sim, porque a narrativa faz com que ele mesmo fique mal na fita. Segunda: pode fazer isso? é Nozette culpado? Não, não pode, e não, não é. Porque o Estado criou toda a situção do nada.
Sei que já concluí, mas deixe-me complementar. Considere o seguinte. Se não fosse o FBI provocando, Nozette não ia fazer nada; ia continuar cuidando de sua vida. Poderá ser que o FBI tivesse suspeitas de que ele estivesse a ponto de se envolver com espionagem, mas não estamos na época de Minority Report: só poderia punir o crime efetivamente cometido, não o desejo seminal ou sonho louco de um sujeito potencialmente corruptível. Passados tantos séculos após a Inquisição Espanhola, hoje em dia já não se punem desejos e ânimos, mas somente atos efetivamente praticados. Então, não tem essa de “ah, mas ele era mau, ia cometer mesmo”. Nana nina não: nada de punir pensamentos. Eu mesmo tenho inúmeras idéias condenáveis (especialmente a de descumprir a nova ortografia em vez de escrever “ideias”), mas, do crânio para dentro, ali está meu âmbito de última defesa, meu forte inexpugnável, onde o Estado não pode invadir. O âmbito de punição possível começa na superfície da minha pele.
É de se pensar por que o FBI fez isso. Pode ser simples queima de arquivo, “ele sabia demais”. Pense bem: não é o que você faria? Se o sujeito é PhD, inteligente pra burro, dono de ótima memória e com acesso a tudo, é de se presumir que, depois de dezessete anos, ele já soubesse MUITA coisa e se tivesse tornado um perigo ambulante. O que os Estados Unidos fizeram foi ganhar a corrida contra os israelenses, iranianos e incas venusianos, prendendo Nozette antes que eles lhe pusessem a mão.
Então, é pura tirania mesmo: o Estado aprisionando seus súditos sem justa causa. Sem dúvida, isso atende a interesses bastante legítimos de segurança nacional, mas utiliza meios indignos de um Estado democrático de Direito. Viola valores democráticos fundamentais, põe o Estado acima do indivíduo e fere o interesse público. Não que os Estados Unidos sejam os únicos a fazerem isso (o Brasil faz muito), mas é que sempre são os primeiros a bater no peito, falando de democracia…
Como diz minha sogra: dime lo que te presumes y te diré lo que te falta.
Hoje eu estava olhando as reações dos belogues à vitória do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016.
(Ué, não era isso? Bom, mas já deve ter gente por aí achando que é. “O Brasil ganhou os Jogos Olímpicos de 2016.” Assim, por antecipação.)
É muito engraçado. Váááários belogues e comentários com atitude ambivalente. De um lado, condenam os negativistas, os derrotistas, e ufanam-se com a grande vitória que afaga nossa auto-estima (“auto-estima” agora é sem hífen? Pesquisaí). Que o Rio é tão bom quanto Oslo e que Liechtenstein tem problemas urbanos iguaizinhos aos nossos. De outro lado, admitem que “vai ser a maior roubalheira”, “não resolve nossos problemas”, “cabe a nós a fiscalização” etc.
Como sempre, não sei de nada. Mas o metrô vai até a Barra. Então, o sujeito vai sair lááá da Pavuna, vai dar a maioooor volta, vai passar pelo Centro, vai até a Barra. O que eu não entendi é como é que vou fazer para descer na Carioca. Sim, porque, quando você achava que não tinha como aumentar o grau de compactação, vêm os guardas com chicotes que dão choque e te fazem perceber que, se ficar na ponta do pé, até dá pra respirar. “Atenção! Todo o mundo bidimensional aê! Aperta mais! Você aí! Molda na parede! Isso!”
(Eu já contei de quando não consegui mover a cabeça no metrô? É angustiante. Não podia girar a cabeça para os lados. Não há nem que temer o batedor de carteiras, porque ele também não consegue mexer a mão. Em condições assim, nem precisava de vagão das mulheres.)
E não venham me dizer que estou amargo. Agora somos internacionalizados. Eu estou é demi-sec.
Estou há um tempo sem escrever e precisando fazer uma faxina em minhas anotações, de modo que, hoje, é só um comentariozinho rápido.
Mais cedo, eu estava lendo Cynthia Semíramis e sua preocupação com o subtratamento que as mulheres ainda recebem no mercado de trabalho.
Agora à noite, encontrei esta notícia. Em síntese: produtor tentou chantagear David Letterman porque, supostamente, Letterman teve relações com várias mulheres com quem trabalhou na CBS. Letterman confessou pùblicamente, desse modo esvaziando a chantagem. De um lado, a promotoria foi em cima do chantagista, enquanto, de outro, a situação de Letterman ficou complicada perante a percepção pública. Imprensa e advogados discutem se o que ele fez pode ser classificado como assédio sexual, aproveitamento de uma situação de vantagem etc. A emissora manifestou-se ao lado dele, mas sem excessos. O público sente-se traído porque Letterman costuma criticar políticos justamente por causa das puladas de cerca que cometem. Bill Clinton foi seu alvo durante anos.
Não vou fazer nenhum comentário sobre o caso de Letterman, primeiro porque nada sei, segundo porque já deve ter varada de gente fazendo isso. Vou observar só dois detalhes.
Um, que já faz alguns anos que percebi: se alguém, algum dia, resolver me chantagear, acho que a melhor saída é revelar pùblicamente aquilo que, em princípio, teria sido escondido. Fácil falar, claro. Porque nem sempre é fácil falar claro. É muito fácil vir com bravata quando não se está sofrendo na pele. Mas é a solução que resolve o problema definitivamente: esvazia a chantagem imediata e todas as chantagens futuras, que o chantagista teria o potencial de voltar a praticar porque o fato permaneceria. Essa minha tese foi alimentada por duas fontes: uma, Richard Bach, que, em Ilusões, sugeriu que você devesse viver de modo a não ser afetado pelo que outros dissessem de você — mesmo que estivessem mentindo. A outra é Frank Miller, que, em Batman: ano um, pôs o Tenente Gordon em um caso com sua colega Sarah Essen. Devidamente exposto a fotografias e ameaças, ele optou pelo caminho difícil, entrou em conflito conjugal mas continuou dono da própria vida.
Dois, o seguinte. A reportagem analisou, ouviu colegas e ex-chefes de Letterman e do produtor, consultou especialistas e advogados, todos perplexos e em dúvida sobre as condutas dos cavalheiros, mas fechou o texto com a constatação de que não houve nem se espera uma evasão de anunciantes do Late Show. O dinheiro continua entrando (~US$ 145M em seis meses de 2009). Por quê? A frase final é reveladora: “(…), said Laura Caraccioli-Davis, an executive vice president and director at Starcom. ‘We believe that he handled it with full transparency. Consumers are looking for that authenticity and honesty.’”
Full transparency, indeed. Em segredo, o sujeito mantém supostos envolvimentos (aliás, confessados) com mulheres sob sua influência. Mesmo assim, na empresa de publicidade que põe dinheiro no programa, uma vice-presidente — tipo de cargo profundamente envolvido em governança corporativa — analisa que ele agiu com transparência. Letterman continuará respeitado e o assunto nem é tão grave assim, na medida em que os anunciantes se mantêm fiéis, mesmo que ele não tenha sido com seu público. Beleza; o que importa é o que os consumidores percebem. Tudo se resume a isso.
Quer dizer, a humanidade continua podre. Ao fim e ao cabo, tudo neste mundo continua girando em volta do dinheiro. Então, quer saber? Nessa história, todo o mundo se merece. Não ganhei o meu, então todos que se danem.
Este é um texto desconjuntado, que descreve vários problemas urbanos de uma vez só, sem relacioná-los nem analisá-los. Não resulta de minhas reflexões; ao contrário: é o início delas. Nasceu de diversas impressões minhas à medida em que eu ia jogando pensamentos que vêm se atropelando em minha mente perturbada, sem a menor intenção de concluir alguma coisa — como, de fato, não concluí.
Para tudo que vejo, tenho várias reações, em geral simultâneas. Existe a reação emocional, que me é impossível escolher ou filtrar. Existe a reação defensiva, disfarçada de racional e causada por minhas experiências, que, muitas vezes, é preconceituosa, elitista, recalcada e também impossível de evitar. Normalmente, a última é a reação racional de verdade, oriunda de meus valores morais e políticos, construída deliberadamente a partir de tudo que já li e ouvi e de muita reflexão, e com a qual concordo: é minha opinião. Essa eu posso escolher, reformular, e é essa que exponho ao mundo.
Por exemplo: sou contra a pena de morte. Essa é minha opinião moral, jurídica e política. Já vi inúmeros argumentos favoráveis à pena de morte, mas todos consegui rebater com base em seu conteúdo falacioso ou do qual simplesmente divirjo, seja com base em contra-argumentos jurídicos, estatísticas, ou considerações práticas. Onde há pena de morte, normalmente só os inocentes são condenados, ou aqueles que cometem infrações de menor potencial ofensivo. Os verdadeiros facínoras sempre se safam.
Minha reação emocional é muito outra. Não consigo deixar de me revoltar com esta notícia (desculpe a fonte, mas é a que achei). Se, no dia em que você está lendo isto, o linque já saiu do ar, vou resumir pra você: uma moça vinha dirigindo um carro pela Linha Amarela (via expressa do Rio de Janeiro). Um animal sem mãe atirou um pedaço de concreto de 10 kg de encontro ao veículo e afundou o crânio da moça, com fratura exposta. Enquanto digito isto, a notícia é de que a moça está em coma. Pode-se entender por que, em momentos como esse, eu me sinta tentado a apoiar a pena de morte.
É cansativo viver cercado de uma criminalidade tão intensa. Eles tiram nossa liberdade. Não posso percorrer a Linha Amarela, não posso ir à UERJ de metrô à noite (a passarela é campo de caça dos assaltantes), não posso morar em certas áreas sem um baile fanque ao lado, gritando obscenidades e estimulando roubos, tráfico e homicídios a 547.000 decibéis por toda a madrugada. Não posso circular pela cidade onde moro e onde sou inofensivo, porque “é perigoso”, os predadores querem meu sangue e não tenho nada nem ninguém com quem contar. Não posso trabalhar duro, juntar dinheiro e comprar um carro, porque posso levar um tiro na cabeça no sinal de trânsito. (Pelo menos seria indolor.) Quando levaram o carro do meu irmão, comprado com horas de trabalho insone, dedicação e persistência, minha mãe levantou as mãos pro céu porque não o feriram nem molestaram a esposa dele, como se isso fosse uma dádiva, uma espécie de concessão da parte de quem tem direitos sobre nós, podendo dispor sobre nossa vida e nossa morte. Bem, sobre a morte, porque vida isso não é.
Aliás, por falar no baile. Os antropólogos e sociólogos vêm publicando trabalhos sobre como o fanque é a manifestação cultural de um grupo de excluídos sociais. Não posso negá-los. Para mim, faz todo o sentido que os excluídos se aglomerem e teçam alguma espécie de expressão e de identidade sócio-cultural através dos sons do fanque. Acredito, firmemente (olha a opinião aí, racional, ponderada), que a liberdade de expressão é um dos fundamentos mais nobres da democracia; e é minha opinião política que, com base nela, não se possa reprimir o fanque. Se tenho o direito de vir aqui escrever, da mesma forma o fanqueiro tem o direito de dizer o que quiser com o batuque de sua preferência.
Isso não significa que eu deva gostar do fanque (pela dissonância), nem que eu deva aprová-lo moralmente (pela apologia de uma vida desestruturada). Devo, porém, tolerá-lo, não apoiando quem pretende reprimi-lo. É inevitável que os autores do fanque exprimam aquilo que vêem e sentem, aquilo em que acreditam, suas intenções reprimidas e a vida lastimável que sofrem. Por todos os motivos históricos, econômicos e sociais, são pessoas maltratadas, despossuídas, desprovidas de liberdade. Não têm tantas oportunidades como os homens brancos adultos, não têm tantas escolhas nem tanto poder político, não ditam regras, não têm qualificação nem participam do mercado de trabalho formal em paridade com os homens brancos adultos. Se o fanque descreve uma vida desestruturada, é porque é isso que seu causador tem para descrever; ele não haveria de compor poemas parnasianos.
Então, estou entendendo que os autores do fanque são pessoas revoltadas, que devolvem ao mundo a agressividade de que se vêem vítimas (“vêem” com acento. Aos diabos com a reforma. Estou em um WASP mood, embora longe de ser um WASP). Não posso culpá-los por isso se também eu venho aqui cuspir meus resmungos.
Se os pais deixam de educar seus filhos, ensinam-lhes violência e eles vão ao baile, não tenho nada com isso; cada um cuida de sua vida. Não posso dizer a cada um o que fazer com seus filhos. Se o tráfico vende drogas no baile e expõe menores de idade à violência, esses são crimes graves, mas não se confundem com o próprio baile; não vou apoiar que ele seja proibido com base na suposta venda de drogas ou nos outros abusos. Só que o baile estupra meus ouvidos e os de meus vizinhos a 948 milhões de decibéis, e isso vai muito além da liberdade de expressão. Com a potência sonora, os fanqueiros demonstram que decidiram responder à violência com mais violência, de forma ampla. Não se alegue que é mera diversão, porque a diversão é possível sem invasão da esfera de direitos alheia. Poderíamos sugerir que eles procurassem os espaços de diálogo, que lutassem pelos canais formais construídos democraticamente, mas estaríamos alimentando uma falácia, porque eles não têm o acesso a esses canais tal como a escola nos ensina que têm. Falar no poder do voto, do diálogo e da conscientização é quase uma piada; não se pode esperar que o diálogo, que de nada adiantou nos quinhentos anos do Brasil (ainda) colonial, resolva as carências de uma geração atirada à marginalidade. Eles só conseguem reagir pela violência mesmo.
Portanto, à noite, gritos ásperos de “um cinco sete, um cinco sete” (vá pesquisar: Código Penal, artigo 157) impediam o sono de vários cidadãos. Vozes agressivas defendiam a união do Comando Vermelho contra facções rivais. Os tais cidadãos não só não podiam dormir como não tinham meios de fazer cessar a verborragia. “Com licença, Sr. Traficante. Pode abaixar as caixas de som? Não estou pedindo para interromper a venda de drogas, nem o abuso de menores, não; pode até continuar a desfilar com suas armas. Só peço que abaixem o amplificador ali.”
Já que não há diálogo, já que o conflito se resolve todo com base na força apenas, então tem que abaixar o som na marra. Como o cidadão comum é fraco diante do arsenal do boçal, o Poder Público cumpriu sua mais primitiva e hobbesiana função, sua fundamental razão de ser: reprimiu o estado de guerra em que vivem os homens, aqui representado pelos bailes fanque, batendo com seu tacape maior em quem trazia a insônia de todos com seus instrumentos malignos. O cidadão voltou a dormir.
Surgiu daí uma onda de revolta. O tráfico ganha muito dinheiro com os bailes, de modo que, manipulando sua massa de manobra, conseguiu reverter a atitude estatal. O foco do discurso saiu do barulho e passou a uma espécie de imposição da minoria sobre o consenso da maioria: os valores do fanque ganharam o manifesto apoio da ALERJ a esse mais novo “patrimônio cultural” do Estado do Rio. Com isso, esses valores foram reconhecidos como tão importantes que o fanque passou a ter precedência sobre a paz pública, sobre o sono dos trabalhadores, sobre o desejo de paz e a passeata inútil das velhas, de braços dados e camisetas brancas, pedindo paz no calçadão de Ipanema enquanto seus netos enchem o nariz de alcalóides ilícitos. Velhas filhas da p*ta.
Independente das agendas políticas em disputa, dos preconceitos, dos conceitos e da cultura (ou falta dela, segundo alguns), tenho uma certeza: enquanto os sociólogos discutem as minorias no ar condicionado e publicam suas teses acadêmicas em prestigiadas livrarias da Zona Sul, vários trabalhadores desta cidade vão voltar a passar suas noites em claro.
Outra notícia: em Bangu (subúrbio do Rio), hoje de manhã, explodiu um item de munição ainda não identificado. Supõe-se que a munição tenha sido furtada do campo de instrução de Gericinó. As versões são contraditórias, mas, aparentemente, alguns catadores de lixo manipulavam o objeto, seja brincando de jogá-lo um para o outro, seja dando-lhe marretadas para desmontá-lo e vender o material. Ao detonar, a granada (de mão, de morteiro ou lançada por fuzil, não sei) matou dois e feriu seis, pelo menos um gravemente.
Minha reação racional é que isso é lamentável e que não aconteceria em um país com mais justiça social, população instruída e mão-de-obra qualificada; lamento pelas vítimas imediatas e por seus familiares. Já minha reação emocional-cínica é que Darwin continua fazendo um bom trabalho. Não é pra ficar brincando com granada, nem é pra ficar dando marretada em material furtado de dentro de um campo de instrução do Exército. Não bastasse o crime de furto, é ÓBVIO que marretar munição não pode dar certo. Você há de entender por que a porção mais troglodita de meu cérebro chega até a comemorar o evento, para minha sincera perturbação e quase vergonha (“quase” porque não chego a concordar com ela).
***
Prosseguindo no teste de nerdidade:
11. Você já fez uma pergunta em aula? — Sim. (É só o que faço.)
12. Você já respondeu a uma pergunta feita em aula? — É provável, mas não lembro. Não.
13. Você já corrigiu um professor em aula? — Não do modo como a pergunta dá a entender, mas já. Sim.
14. Você já respondeu a uma pergunta retórica? — Todos os dias: “tudo bem?” Sim.
15. Você já deu uma aula? — Não no sentido formal, de estar presidindo ou ser o principal expositor. Não.
Na minha caixa de correio, todo dia encontro um spam intitulado “Find the One”.
Tem um episódio de Babylon 5 chamado “Babylon Squared”, onde o alienígena Zathras tem uma importante missão mas, primeiro, precisa encontrar “the One”. Cada um que aparece na sua frente ele examina e conclui, “not the One”.
Se eu fosse ele, procurava em Matrix. De qualquer modo, ele não deve estar prestando muita atenção, porque, como se pode ver pelas mensagens que recebo, tem até gente anunciando onde encontrar the One.
Ou isso, ou estou recebendo essas mensagens do mesmo endereço que me manda “Daters Wanted”.
6. … em nível superior? — Sim.
7. … e recebeu uma nota A? (Novamente traduzo como 7,5 ou acima.) — Sim.
8. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu no curso de #5? — Sim.
9. Você já se graduou nas “ciências duras”? (Engenharia, Física, Química etc. mas excluindo Psicologia, Economia etc.) — Já.
10. Você já estudou Latim? — Não.
Os caras realmente acham que eu vou cair. Mas o mais incrível não é isso. O mais incrível é que tem gente que realmente cai. Bem diz o ditado: “fools and their money are soon parted”.
Quer saber? Quem clicar, é bem feito. A Internet não é para as salsinhas. Se o analfabeto funcional não tem capacidade de amarrar sapato, escovar dente ou pontuar frase (não necessariamente nessa ordem), então não tinha nada que se meter na Internet, e está certíssimo que seu computador seja infectado.
Veja só o que recebi hoje.
ABRASPAS
Procedimento Investigatorio Nº 2009.00.17126-3
Prezado usuario,
Com ajuda de seu CPF e junto com seu provedor de e-mail, viemos por meio deste lhe informar que o seu CPF esta sendo usado em varias compras On-Line fraudulentas, por favor, clique no link abaixo e veja em quais locais foram feitas as compras e os valores. Caso voce nao seja o(a) responsavel, pedimos que nos preencha o formulario afim de que possamos tomar as atitudes necessarias por tais compras.
Formulario:
(cortei o URL)
FECHASPAS
O URL era ministeriopublico ponto ORG ponto br. Passando o mouse em cima, você vê que o linque vai para um saite obscuro com final ponto net.
Então, vem cá. Qual é meu CPF? Hein? O texto não diz, o que significa que é um texto genérico, que vale para qualquer um. Tudo bem, porque eu NUNCA tenho que informar CPF em compras online. E como é que meu provedor de email (o Yahoo!) vai informar que meu CPF está sendo usado em compras online, se meu provedor de email NÃO SABE meu CPF? Aliás, como assim o Yahoo! colaborou com o MP? A sede é fora do Brasil!
E tem aquela questãozinha básica: nossos analfabetos nunca foram à escola e, se tivessem ido, a escola não lhes teria ensinado que o Ministério Público não é defensor de seu CPF nem sucedâneo de operadora de cartão de crédito. Se tem uma coisa que o órgão não vai fazer, é investigar por você e trazer um retorno, mostrando onde houve a fraude, apresentando formulário e dizendo que vai fazer tudo por você — de um modo tal que você não precisa se mexer, não precisa levantar da poltrona, basta clicar e ele fará tudo por você, patricinha entitled (BAxt, foi mal o furto da expressão).
Aliás, isso é jeito de o MP se manifestar? “Tomar as atitudes necessarias”? Vamos abstrair do fato de o texto estar todo sem acento. “Tomar atitude”? Isso é jeito de procurador escrever? Pobre é quem diz que o presidente tem que tomar uma atitude. Atitude, pra mim, é marca de cachaça. Ou, como diria o Catarro Verde (linque aí ao lado), atitude de c* é r*la.
E que “atitude” é essa? Hein? Procedimento investigatório? Ação penal? O texto não diz. Eu vou clicar para o MP fazer o que é necessário, só não sei o que é, mas deixe, que eles são responsáveis; eles que saibam as consequências, eu não.
Ah, sim, antes que eu esqueça: alguma vez algum órgão público mandou EMAIL para você? A mim nunca! Quando o Estado quer falar comigo, sempre manda correio físico. Assim é obrigado a fazer.
Essa fraude, como tantas, está se aproveitando da preguiça alheia. É tão fácil, né? Você só clica e deixa que outros façam o trabalho todo por você. Veja bem, supostamente é a sua vida, então você mesmo teria que tomar as providências (aliás, Providência é outra marca de cachaça), mas não: tem quem faça, então pra quê? Muito melhor do que ir à delegacia, tirar segunda via, mandar carta para a operadora do cartão, perder uma tarde na fila, ter que faltar ao trabalho… Fique no ar condicionado mesmo… NOT!
Reclame à vontade, mas acho que esse golpe é justo. De vez em quando recebo uma variação dele: já recebi do “Ministério Público da Justiça”, já recebi do Tribunal Superior Eleitoral falando em problema com CPF… Até hoje não caí, mas, se cair, terá sido justo. (Se bem que não vai adiantar nada, porque não digito senha de banco no computador.)
Apideite: os saites do MPU e da Rede Nacional de Pesquisa têm advertências sobre essa exata fraude, com esse exato texto. E, buscando no Google pelo número do “procedimento”, dei-me conta de que o mesmo número já aparecia na versão antiga, emitida pelo (inexistente) “Ministério Público da Justiça”.
Alguns minutos atrás, deixei um comentário no belogue da BAxt (linque à direita), dizendo que eu havia obtido 44% no teste de nerdidade. Minha pontuação pode ter caído nos dez anos passados desde então, de modo que resolvi fazer o teste de novo, aqui, na sua frente. Aos poucos. Cinco perguntas de cada vez. Se quiser, vá fazendo comigo. São quinhentas perguntas, que interromperei quando perder a paciência (o que já demonstra uma queda no potencial de nerdidade). Tirei o teste daqui: The Nerdity Test, Version 5.x.cubed.minus.3.x.all.divided.by.2, 5 December, 1993.
1. Você já fez um curso de Matemática “superior”? (Trigonometria, Cálculo) — Já.
2. … na faculdade? — Já.
3. … e recebeu um A ? (Vou traduzir como 7,5 ou mais.) — Já.
4. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu durante #1? — Sim.
5. Você já fez um curso de Ciências? (Biologia, Física, Química) — Já.
Até agora, 5/5. Mas a tendência é que o número caia, até porque as perguntas seguintes têm um forte viés para a Eletrônica, que nunca foi minha praia. Mas veremos.
Alguns dias atrás, a BAxt fez algumas ponderações sobre o tratamento que os ricos fazem questão de dar aos pobres: aqui e aqui.
Minha Senhora estava chegando ao prédio onde moramos. Havia um morador segurando a porta do elevador, mas, quando ela chegou, o sujeito disse que ela podia subir e ficou no térreo, conversando com o vigia noturno. Ela embarcou sòzinha (no que fico muito feliz: menos um possível ataque de estuprador nesta cidade maravilhosa).
No dia seguinte, quando ela saía cedo para o trabalho, o vigia disse a ela que o morador lhe havia perguntado se ela era proprietária ou inquilina. Explicou: “é que tem proprietário que não sobe no elevador com inquilino”.
Então, agora, sou eu que baixo a seguinte regra: não subo no elevador com quem não sobe com inquilino.
***
Hoje é dia 8 de setembro. Se tiver algum trekker desnaturado lendo isto, lembro a ele o que esqueceu: hoje é o 43o. aniversário de Jornada nas Estrelas. Parabéns pra todos nós.
Vou te contar, meu. A quantidade de paraquedistas (agora é sem hífen?) que aparecem por aqui procurando por “profecias para 2010″ no Google não está no gibi. Veja bem, este é um belogue pequeno, não passa de quinze visitas por dia, mas, todo dia, tem pelo menos um procurando profecias para 2010.
Caraca. Esse povo tá precisando ler O mundo assombrado pelos demônios, do Carl Sagan. Parar de acreditar em trambiqueiros e estelionatários de modo geral.
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ONTEM FEZ SETENTA ANOS QUE COMEÇOU A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. Não vi NEM UM comentário na Internet sobre isso.
Verdade que não tenho navegado muito também. Mas, se você quiser ser lembrado de algumas estatísticas, taqui.
Não aguento mais (agora sem trema) me deparar com “houveram”.
Casos em que “houveram” está certo: “eles houveram de ouvir tudo que foi dito” (“eles tiveram que ouvir tudo que foi dito”).
Todos os outros casos estão errados. Não tem essa de “houveram vários acidentes”, nem de “houveram muitos casos de gripe suína”. Infelizmente, em todos os casos em que tenho encontrado a palavra “houveram” nos últimos, sei lá, quinze anos, o uso está errado. QUANDO O VERBO “HAVER” TEM O SIGNIFICADO DE “EXISTIR” OU “ACONTECER”, NÃO É PRA PASSÁ-LO PARA O PLURAL. NUNCA.
Por favor, parem com essa agressão ao português. Se vocês ouvirem alguém usando “houveram” desse modo errado (e podem ter certeza de que é o único modo como vão ouvir), por favor, apertem o botão de ejeção do infeliz.
Obrigado.
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Em uma nota não relacionada, quero saber por que é que há um helicóptero Super Puma da Força Aérea fazendo círculos em cima da Tijuca a esta hora da manhã de uma segunda-feira.
Conforme a abertura do texto que segue abaixo, sempre tive especial interesse nas obras não realizadas: o episódio não filmado, o livro não publicado, a versão alternativa do quadro, a forma que as naves da Frota Estelar poderiam ter tido. Também gosto de História alternativa, das histórias Elseworlds da DC Comics, e das variações não adotadas das coisas que conheço.
Felizmente não sou o único. Tony Buttler é um metalurgista inglês que trabalhava na High Duty Alloys, especializada em peças para aviação. Seu especial interesse em aviões fez com que completasse um mestrado em Biblioteca e Ciência da Informação e, em seguida, saísse desenterrando arquivos do governo, dos museus e de empresas sobre a evolução dos aviões militares. Desde o final dos anos 90, ele tem publicado diversos livros sobre a variedade de projetos para as forças aéreas do Reino Unido, da União Soviética e dos Estados Unidos, gastando especial quantidade de tinta nos aviões que não foram construídos.
O co-Autor do segundo livro é Yefim Gordon, que tem uma quantidade absurda de livros sobre a História da indústria aeronáutica soviética e russa, sempre fartos em informação obtida de seus numerosos e preciosos contatos no meio.
Eu já havia comprado outros livros de Buttler. Não sei se foi só desta vez que prestei especial atenção, mas esses dois a que me referi acima são tão bons que me motivaram a resenhá-los na Amazon.co.uk, que mos vendera.
Para meu próprio rastreamento, segue cópia do texto com que descrevi o primeiro livro aí em cima. Os parágrafos sobre o segundo são pràticamente iguais; só mudei uma frase e omiti outra.
“I have always been fascinated by ‘what if’ scenarios. In aviation, this translates as aircraft that never got off the drawing board. So, when I bought Tony Buttler’s British Secret Projects: Bombers Since 1949 and Soviet Secret Projects: Bombers Since 1945, I was aiming at numerous descriptions of unbuilt projects.
“Was I in for a treat. Yes, these books bring lots of text and drawings about endless scores of aircraft that never got built. However, their greatest strength is where they describe the development of airplanes that did in fact get a first flight. In both books, Buttler outlines the evolution in defence thinking of the relevant country at Ministry level, its impact in the doctrine for strategic defence and the consequent requirements and specifications of combat aircraft that should fit said doctrine. Each book then goes to show the industry’s approach to the specifications, explaining each manufacturer’s technical solutions to the problems posed: wing shapes, engines to be adopted, undercarriages, weapon loads, crew, why and how they would or would not be adequate, etc. The reader gets to see how aircraft designers think and how diverse aircraft features affect in-flight behaviour, cost and effectiveness. Then the Author retells of the military’s view on each project and the reasons for their adoption or rejection, the changes in requirements and therefore in specifications, contemporary views about in-service limitations, engine concerns, development cost, time to service entry, upgrades and the like. The political implications are also described (cases in point: the tortuous road that led to TSR.2 and its sad demise, and the AFVG discussions between the UK and France before commitment to Tornado). As a result, each chapter follows the backstory of development of well-known types, from the point of inception to detail design, with a comparison to the competitors up to the point when each fell by the wayside. The reader gets to see the whole gamut of projects that were mused before final adoption (or cancellation, as applicable) of Canberra, the three V-bombers, Buccaneer, Shackleton, Gannet, Seamew, TSR.2, Harrier, Jaguar and Tornado.
“All of this in a text that is fluent and light to read while, at the same time, the books are generous in technical specs, line drawings, and pictures of wood models, mockups, wind-tunnel models and actual prototypes.
“I recommend Buttler’s books to a variety of readers: those keen on the evolution of strategic thinking behind the military aircraft industry, those that want background on the requirements, development and reasons behind features of aircraft effectively built, and those that want to know more about the aircraft that remained stuck on the drawing board. At any rate, a good, solid, information-laden read — page turners with plenty of eye candy to boot.”
Continuando uma prática que iniciei algumas semanas atrás, resolvi criar uma página específica para arquivar meus comentários sobre Babilônia Cinco. Assim, reduzo o percentual de inglês do belogue ao mesmo tempo em que organizo a matéria mais conforme o (des)interesse do Leitor.
Portanto, além dos comentários que eu já havia feito sobre “There All the Honor Lies”, a partir de hoje estão no ar algumas notas sobre “Knives” e “In the Shadow of Z’ha’dum”. Infelizmente, as janelas de edição do WordPress não parecem ter sido feitas para páginas permanentes muito longas, e a formatação dá bem mais trabalho do que no Word. Esse problema só piora à medida em que o arquivo cresce e, aliás, nem sei se existe limite para esse crescimento. Portanto, creio que, algum dia, terei que arrumar uma melhor solução permanente para minhas notas. Até lá, vou colocando-as no arquivo criado hoje.
Esta história aconteceu a uma bibliotecária que conheço. Ela tem uma coleção completa da enciclopédia Barsa, que é maravilhosa mas ocupa vinte volumes daquele tamanho. Como o espaço em casa é pouco, ela procurou a Barsa em CD, para substituir mesmo. Foi a uma feira sobre bibliotecas, onde encontrou a vendedora.
Pois acontece que existe. De acordo com a vendedora, o CD vem de brinde na compra de uma Barsa completa em vinte volumes.
Mas, vem cá — pergunta a Bibliotecária Sem Espaço em Casa –, não dá pra eu levar só o CD? Diz a vendedora que não: você só leva o CD se comprar tudo mesmo, o que, aliás, custa um número de quatro algarismos.
E aí vem a pérola: a vendedora explicou que a editora tem o propósito de estimular as crianças à leitura e é por isso que não vende o CD separadamente.
Arrã. Estimular as crianças à leitura. As crianças vão ler uma ENCICLOPÉDIA, ainda mais uma sisuda feito a Barsa, que tem letra miúda e pouca figura, e vão passar a gostar de ler.
Aliás, pára. Antes de a criança ser afastada da leitura pela Barsa, primeiro ela teria que PEGAR a Barsa pra ler, o que já não vai acontecer. Aliás, antes de pegar a Barsa pra ler, os pais teriam que comprar pra ela, o que não aconteceria NEM se só custasse um reau. Vinte volumes? Sem figura?
Aí: temos uma novidade no linguajar da editora. “Encalhe de exemplares que ninguém mais compra” virou “estímulo à leitura”.
Vi o linque. Desconfiei que fosse charlatanismo, então cliquei para ver qual era a novel forma de enganar o público.
Vim parar aqui. Parece a história de sucesso de uma dona-de-casa americana típica, que teria conseguido perder 21 kg sem regime nem ginástica.
Só comendo açaí.
Ela começa dizendo não ser uma celebridade, mas minha desconfiança começou a se transformar em certeza quando vi que o texto ficava promovendo a Oprah e o Dr. Oz, usando a credibilidade de figuras que vendem MUITA credibilidade às donas-de-casa americanas e falando das maravilhas de uma frutinha que, para eles, é exótica. Santo de casa não faz milagre; portanto, para muitas americanas, seria garantido que a frutinha da Amazônia traria a receita extraterrestre para resolver todos os problemas de emagrecimento. Uma espécie de velho da montanha, só que em cápsulas.
Prosseguindo na descrição, detectei a lorota da “parede de gordura velha grudada no intestino”. É um velho truque dos charlatas do emagrecimento: eles te fazem engolir uma cápsula que, na verdade, contém uma espécie de massinha, dizendo que é remédio para purgar as gorduras velhas, toxinas, venenos etc. Dentro do seu corpo, a massinha absorve água, molda-se ao intestino e multiplica enormemente seu volume. Você acaba ca*ando esse negócio e acha que é mesmo uma substância que estava dentro de você fazia anos e que só agora está sendo expulsa, pelo “remédio”.
Pensei em entrar na caixa de comentários e denunciar a mentira do açaí. Foi aí que vi os comentários desabilitados. E a nota de copyright de uma empresa, não de uma pessoa física. E um linque para o belogue de Rachael Ray — esta, sim, celebridade no padrão Oprah. E também notei que o “belogue” só tinha esta entrada, de 2008, e mais nada.
Entrei no “belogue de Rachael Ray”. Idêntico, também tinha só esta entrada, texto igual, arranjo visual igual, mesmas cores, exceto que o texto não se dizia escrito por “Jenny Thompson”, mas por “Alyssa Johnson from Duque De Caxias, 21″.
Uma soccer mom americana de Duque de Caxias??? Ah, sim: aos 21 anos ela tem um filho de TREZE??? O que estão pondo na comida dessas meninas hoje em dia?
Bom. O último comprimido de anfetamina A gota d’água foi este detalhezinho no canto superior esquerdo: “Note: expiring on Fri, Aug. 14, 2009″. Estou digitando isto na sexta, 14 de agosto. Se você está lendo em outro dia, veja lá se a oferta não expira no dia em que está lendo, ou no dia seguinte.
Não sei. Certos websites, dá vontade de chamar a polícia. Exceto que não é crime, nem eu sei em que Estado publicaram.
Apidêite: testei. Agora Alyssa é de Niterói, mas ainda tem 21 anos e é casada há quinze. Já que agora é sábado, 15, a oferta vai só até domingo, 16. Aí: é muito Polishop, né não? “Mas espere! Você ainda leva este descascador de banana, inteiramente grátis!”
http://xkcd.com/123/ — sugestão da Pacamanca. E o mais engraçado é que o diálogo está 100% correto do ponto de vista da Física. Realmente, as forças centrífugas não existem nos referenciais inerciais, mas apenas nos referenciais em rotação, tal como explicado pelo vilão. Muito bom.
Refletindo sobre o episódio da menininha no metrô, fui lembrado de perguntar por que ela me pediu para ler a revista. Até agora, pensei em meus próprios termos, julgando que a revista tivesse algo em si mesma que despertasse o interesse da menina. Como a revista estava comigo, ela teria que pedir acesso.
Mas contei a história ao Raposo, que é pai de um menino mais ou menos da mesma idade e que me fez observar alguns meta-aspectos que eu estava deixando de lado. Segundo ele, provàvelmente a menina não estava tão interessada em algum conteúdo que tivesse percebido na revista. Acontece que ela viu um sujeito de terno, gravata e pastinha de couro, provàvelmente voltando do trabalho, com toda a aparência de seriedade mas lendo revistinha. Ora, certamente ela associa quadrinhos a infância (é o que faz a ignorante maioria das pessoas), mas viu um sujeito adulto lendo quadrinhos. Então, terá ficado curiosa, primeiro com o aparente contrassenso; segundo, com essa revista que devia ter algo de muito especial. É nesse ponto que ela quereria saber o quê.
Até ali, eu, sem saber, já havia deixado algumas mensagens para ela: que é lícito ler quadrinhos em idade adulta; que a leitura é algo tão bom que a gente a pratica sempre que tem um tempinho, até no metrô; e que, por mais atarefado e profissional que se seja, sempre se consegue um tempo para essa gratificação, mesmo que seja no metrô.
É claro que também se pode entender que eu seja um pobre-diabo tão atarefado que só mesmo no metrô vá ter tempo para a leitura.
Estou assistindo à segunda temporada da série. Para meu próprio registro, tenho escrito alguns comentários sobre episódios. Ocorreu-me que outras pessoas, assistindo, possam também querer esta informação. Então, a benefício delas, quando jogarem o nome deste episódio no Google, pode ser que venham parar aqui e se deparem com isto.
I am watching the series’s second season. For my own record, I have written some comments on episodes. It has occurred to me that other people, watching it, may want this information too. Thus, to their benefit, when they google this episode, they may end up here and find this.
This episode is a succession of disasters for Sheridan. Edition is therefore nervous, with innumerable short scenes and cameras zooming from side to side, giving the viewer the same uneasiness as Sheridan should be feeling.
02:47 — Now that we see where the passageway led, we can also see that, if Sheridan had ran forwards instead of backwards, he would very easily have cut the thief’s path, without the need of climbing to the level where he had been before. Of course, then there would be no episode to begin with.
13:30 — This is obviously one of the latex masks that production crew routinely uses for the Drazi.
13:40 — You can easily trace the latex prosthetics that Mark Hendrickson is wearing: its upper border runs from right in front of his ear, down through his cheek, to the front of a falsely bulbous neck. When he starts to pull it, you actually see all that there is to it, with the added utility of it passing in front of his mouth and thereby muffling his voice as if in a mask. A smart edit completes the motion in the mirror, convincing you of a full-head mask. Quite a clever job, actually.
14:00 — Universe Today: “Vorlons to make (…)” Can anyone please help me out with this?
17:56 — “Fear running out of questions” — This is really not what a warrior (such as Sheridan) would be expected to say. As a rule, the military do not encourage the habit of making questions.
18:03-04 — Watch for the break between takes: when Ivanova is shown only from the breast up, you see she is holding back her left arm. When she is shown fullbody, both arms are just hanging at her sides.
23:13 — As you watch this scene, pay attention to the intense repetition of extras walking by in the background. The same actors repeat their strolls over and over again.
23:16 — Now the human in a colored shirt (HCS) sets down his glass and rises.
23:19 — Now HCS leaves to the left.
23:24 — Is that the waistcoat Kirk was wearing near the end of Generations?
23:25 — Now who is lecturing whom on drowning trouble in alcohol?
23:25 — Now Purple-head Alien (PHA) walks to the left, followed by man wearing African cap (MWAC) and Drazi in beige robe (DBR).
23:31 — Now PHA walks to the right.
23:37 — Now MWAC walks to the right.
23:45 — Is that Mark Hendrickson walking in the back?
23:52 — Now HCS walks to the right.
23:54 — … And now PHBR walks to the right.
23:57-58 — Large robed alien (LRA) walks slowly, right to left.
23:59 — And here is Kirk in waistcoat (KWC) again.
24:03 — Here comes DBR again.
24:05 — Hendrickson walking towards you decidedly.
24:08 — There goes KWC.
24:09 — MWAC just passed again.
24:10 — And here comes DBR again; LRA is talking to someone.
24:13 — Short, grey-haired woman (SGHW) in the distance.
24:15 — Long-face alien was reading Universe Today at 14:00.
24:18 — Hendrickson, right to left.
24:19 — KWC just passed.
24:19-21 — Hendrickson like he’s waiting for someone.
24:28 — I think that was Hendrickson again.
24:33 — … and again.
24:35 — Second man with African cap (SMAC).
24:38 — Hendrickson again.
24:45 — DBR again, now at a quicker pace.
24:51 — Now DBR, talking to PHA.
24:53 — That Centauri walking — he’s appeared at least twice in the past 100 seconds (eg at 23:52-53).
24:54 — SGHW walking towards us.
25:03 — There goes the Centauri again.
25:05 — LRA just appeared in the distance.
25:07 — KWC passed again.
25:08 — SGHW walking at the back.
25:17 — LRA walking right to left.
25:20 — Was that not Hendrickson?
25:24 — SMAC walking left to right.
25:29 — There is that Centauri again at the back.
25:31 — SGHW.
25:41 — After SGHW again, the Ranger comes again, followed by Hendrickson.
25:51 — KWC just walked by, looking down.
25:56 — Look who’s here! SMAC, DBR and PHA.
26:03 — Now the Ranger again.
26:11 — KWC just walked right to left.
And many other examples appear. These were just the more obvious of the lot.
27:19 — Now who might Chester be? I can only think of Fran Fine’s dog.
28:02 — Allan did not make it much of a subtle job following Ashan…
28:06 — I believe I should take this as Lennier’s attempt at an FSNP.
31:38 — The order of delivering Ashan to Minbar came from the Minbari embassy on Earth, rather than from the Minbari embassy on B5 (i.e. Delenn). The latter would be both much more legitimate and much more practical. Now why is that?
34:59 — “I will retain honor” — now hold on there. This is not the same “honor” as they had been speaking of just seconds ago. There are two honors here, or two levels of honor. Once the setup attempt on Sheridan is revealed, the clan is going to lose honor before all Minbari, which includes Lennier — let us call this “clan honor”, which is extensive to everyone in the clan and pertains to the outer world’s perception of a clan and of its specific individuals. Now, Lennier is going to retain his own “personal honor”, but this is a sliver of honor which an individual wields before the rest of the clan — and only before the rest of the clan. There is no such “personal honor” before the rest of the world.
35:17 — Here we are, at the end of the episode, and we see someone privately confessing and explaining an elaborate plot to a (supposedly trustworthy) kinsman. Isn’t it obvious that the confession is being recorded?
35:40 — The trap was perfectly licit. If the Black Star had been crewed by honorable Minbari, they would never have thought of attacking a disabled ship and therefore never fallen for the ruse. It was their lack of honor that brought about their own undoing.
36:37 — Lennier is religious caste. Lavell was warrior caste. Surely they could not belong to the same clan?
Veja bem. Tal como todo o mundo, entendo que todo político é corrupto, safado etc. Tal como todo o mundo, “fora, Sarney” etc. Tal como todo o mundo, estou entendendo que nosso querido presidente do Senado dá um espetáculo de truculência e falta de sutileza típico dos políticos do Norte e Nordeste deste amado Zilzilzil, coronéis que sabem que ninguém tem peito de enfrentá-los e vão fazendo na cara de todo o mundo.
Aí, você lê esta notícia e fica pensando, “é um absurdo, o juiz tá comprado, é um ataque à liberdade de imprensa, é censura, é ditadura, abaixo Sarney”…
E eu digo, calmaí. Pode até ser um absurdo, pode ser um ataque à liberdade de imprensa, censura e ditadura, tudo isso. Pode ser. Mas observe dois detalhes.
1) Você leu os autos do processo? Leu os exatos termos da decisão judicial? Sabe o que exatamente foi deferido pelo juiz? Nem eu. Não considero prudente falar mal de uma decisão judicial sem, primeiro, saber que decisão foi essa.
2) A notícia veio pelo próprio Estado de São Paulo. Então, em princípio, está maculada pelo interesse do jornal, sem a isenção que se espera da imprensa. Em princípio, pode estar manipulada e não necessàriamente os fatos são esses que estão noticiados.
É claro que pode ser que o jornal tenha razão. Só pedi calma. Apure e leia antes de julgar, que, ùltimamente, a imprensa anda muito perigosa em matéria de política. Aliás, sempre foi.
De vez em quando eu resmungo que este é um povo de pouca instrução, pouco dado à leitura. Pelo que leio por aí, parece que estou sendo injusto quanto a essa segunda parte, porque BAxt e pacamanca já me convenceram de que a aversão à leitura dever ter algo de universal.
De todo modo, é um povo pouco instruído, sim. O tratamento que os livros recebem no Brasil é quase o de algo proibido. De fato, alguns anos atrás, um amigo de meu irmão ficou espantadíssimo quando, visitando-nos em nossa casa, surpreendeu-me lendo durante as férias, como se eu fosse maluco de estar desperdiçando meu tempo com uma tarefa que só deveria cumprir se fosse obrigado.
Então, eu passava agora há pouco em frente à livraria Eldorado da Tijuca, quando uma capa chamou minha atenção. Vários homens jovens, com traje de vôo, sentados na asa de um avião inglês da II Guerra Mundial, em uma fotografia em preto e branco típica da época (incidentalmente, dá pra dizer que o avião é inglês pela forma do motor que aparece no canto). O livro era Há muito o que contar… aqui, de A.L. Kennedy. Fiquei imaginando que fossem histórias de aviação durante a guerra, tema que sempre me atrai. Como não gosto de comprar um livro só pela capa, fui pesquisar por aí.
Primeiro, procurei A.L. Kennedy na Amazon. Encontrei Day, que tem a seguinte descrição:
Kennedy’s contemplative, stylized sixth novel (after Paradise) follows former Royal Air Force tail gunner Alfred Day as he relives his experiences in a WWII German prison camp. It’s 1949, and (…) He volunteers as an extra on the set of a war documentary, (…) The film set experience grows darker as Alfred begins reliving his time in the prison camp (…)
A capa era diferente da que eu tinha visto. Para confirmar que o livro fosse o mesmo, fui ao saite da Saraiva, a conferir a descrição. Olhe só o que encontrei:
A historia de um homem que foi piloto de um bombardeiro da Força Aérea Britânica durante a segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, em 1949, ele participa como figurante num filme em que revive sua experiência de prisioneiro de guerra.
Está notando algo diferente? No original, ele era tail gunner: artilheiro de cauda, aquele cara que vai dentro de uma jaulinha no rabo do avião, dando tiro nos alemães que vêm atacar por trás. No comentário brasileiro, ele se tornou piloto.
Relevando o ataque à ortografia (“historia” sem acento) e a impropriedade dos nomes (“Força Aérea Britânica”, em vez de “Real Força Aérea” ou de “Força Aérea britânica”, como se o “Britânica” fizesse parte do nome, o que não faz; e “segunda Guerra Mundial”, com o “segunda” iniciado por minúscula), resta o fato de que a resenha brasileira está, muito provàvelmente, errada quanto aos fatos. Quer dizer, não sei qual das duas, mas, se eu tivesse que apostar dinheiro, diria que a errada é a brasileira.
(No mínimo, porque é menor: meu Word contou 126 palavras, contra as 315 das duas resenhas da Amazon combinadas. Não vou contar o fato de que a Amazon deixa os leitores comentarem a obra, que seria covardia. Oito pessoas deixaram lá suas observações, muito mais úteis (e algumas mais extensas) do que as resenhas editoriais e, aliás, confirmando que Day era tail gunner. Aliás de novo, é por essa e inúmeras outras razões que eu adoro a Amazon: ela sempre dá vasta informação sobre o produto, permitindo que você saiba exatamente o que esperar dele, qual é a edição, o que chamou a atenção dos leitores etc. Você não toma nenhuma decisão no escuro. Já deixei de comprar inúmeros livros que compraria de outro modo, só com base nas resenhas deixadas lá.)
Você poderá argumentar que isso não faça diferença e que o livro terá valor, ou não, independentemente da posição que Day ocupava a bordo. Só que, se a idéia é expor o produto para que eu escolha se o quero, então tudo conta para meu julgamento. Sinceramente, eu, Atoz, dou mais valor à história do tail gunner do que à de um piloto, por duas simples razões. Uma, que as perspectivas são completamente diferentes: o piloto é um oficial, comandante da tripulação, responsável por erros e acertos e com poder de decisão sobre para onde leva o avião, enquanto o artilheiro de cauda não é um oficial, fica impotente para comandar qualquer coisa além de sua metralhadora, opera em um espaço bem mais confinado, e submete-se aos mesmos riscos do piloto mais o de levar um tiro na cara, que o piloto, em regra, não. São pontos de vista bem diferentes. Outra, que o ponto de vista do piloto está narrado em dezenas de livros e revistas sobre a guerra, mas o do artilheiro é bem mais difícil de se encontrar, e valorizo-o mais por isso.
Então, como você pode ver, o consumidor incauto, que não pesquisa em outros saites ou não fala inglês, é levado pela Saraiva a uma impressão errada sobre o livro. Além do mais, existe uma norma básica, né: o que não se pode é errar; se não sabe, então não escreva nada. Não vai cair a mão se, na dúvida, o livreiro escrever “tripulante” em vez de “piloto”.
Naturalmente, tudo isso decorre da displicência de quem não teve cuidado suficiente antes de resenhar Há muito o que contar… aqui. Imputo essa negligência ao espírito geral, reinante no Brasil, de se equiparar livro a mercadoria de camelô. É aquela noção de fazer tudo sem cuidado, porque tanto faz. Duvido que isso acontecesse em um país que desse valor à leitura.
Estava na Saraiva ontem quando vi uma caixa de DVD à venda: “os melhores episódios de Star Trek: The Next Generation”. Estou farto de me deparar com pífias seleções arbitrárias de três ou quatro episódios que se intitulam seleções dos melhores. Mesmo assim, curioso em saber quais estavam sendo rotulados como os melhores desta vez, conferi a listagem no verso.
Até que não fizeram mal. Realmente, os episódios estão entre os que considero os melhores da série: “The Measure of a Man”, “Yesterday’s Enterprise”, “The Best of Both Worlds” e “The Best of Both Worlds” Part II. Mas tenho uma reserva. Esses dois últimos ocupam metade da seleção com apenas uma história.
Quem comprar a seleção não estará mal. Até serve como uma boa introdução à série, da mesma forma como assim serve a seleção dos “melhores episódios da série Clássica”, também à venda: “Balance of Terror”, “The City on the Edge of Forever”, “Amok Time” e esqueci qual é o outro. Mesmo assim, após tantos anos me deparando com listas de melhores episódios de Star Trek, decidi que era hora de apresentar minha seleção dos melhores da NG.
Cabe observar que a série tem 176 episódios, alguns dos quais são ruins ou apenas passáveis, mas a maioria dos quais são realmente bons ou excelentes. Claro, porque, se não fosse assim, a série não seria boa, ela mesma. Então, qualquer lista de três, cinco ou dez melhores arrisca-se a ser injusta. Resolvi listar os doze melhores, perfazendo 7% do total, um em cada quinze, ou 9% dos que vi. Não levei em conta a popularidade dos episódios, mas considero sintomático que as listas de melhores episódios da NG sempre acabem repetindo os mesmos nomes. Alguns entram, outros saem, mas existem alguns que sempre tendem a aparecer.
Vejamos. Depois de ter assistido a 138 dos 176 episódios da NG, os episódios que considero melhores, sem qualquer ordem de preferência ou valor, são
“The Measure of a Man” (segunda temporada)
“Who Watches the Watchers” (terceira temporada)
“Yesterday’s Enterprise” (terceira temporada)
“The Offspring” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” Part II (quarta temporada)
“The Drumhead” (quarta temporada)
“Darmok” (quinta temporada)
“Cause and Effect” (quinta temporada)
“I, Borg” (quinta temporada)
“The Inner Light” (quinta temporada)
“All Good Things…” (sétima temporada)
Feita a lista, algumas constatações aparecem. Em primeiro lugar, não há episódios da pavorosa e tosca primeira temporada. Não é que ela seja realmente ruim, mas é que, em face de uma comparação com as demais, não tem chance. Em segundo lugar, é notável que, da sétima temporada, só haja o último episódio da série, visto como a qualidade dessa temporada é nìtidamente inferior à das que a precederam. Também é digno de nota como um terço dos melhores episódios se concentra na quinta, que também tem outras histórias muito boas, o que indica sua especial qualidade em relação às demais.
Observa-se que, nessa lista, não estão os episódios que envolvem os carismáticos personagens da Clássica: “Sarek”, “Unification II” e “Relics”. De fato, eles são marcos históricos notáveis, trazem grande carga afetiva, têm especial valor para trekkers, mas as histórias não são grande coisa em si mesmas (nem foram feitas para serem). Nem estão ali os episódios da saga klingon: “The Emissary”, “Sins of the Father”, “Redemption” e “Redemption II”. Minha explicação para isso é que a saga é muito boa como um todo, mas nenhum de seus episódios tem um valor individual tão eminente que o destaque dentre os 138; o valor está justamente na evolução da história ao longo de seu conjunto.
Em coerência com minhas preferências pessoais, não me surpreende que quatro episódios tratem de dignidade da pessoa humana e direitos individuais: “The Measure of a Man”, “The Offspring”, “The Drumhead” e “I, Borg”. Nem me surpreende que só um tenha batalhas espaciais como tema (“Yesterday’s Enterprise”) e três as utilizem incidentalmente (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “All Good Things…”). Três episódios envolvem viagens no tempo ou laços de causalidade (“Yesterday’s Enterprise”, “Cause and Effect” e “All Good Things…”) e três foram dirigidos por Jonathan Frakes (“The Offspring”, “The Drumhead” e “Cause and Effect”). Por último, três envolvem os borgs (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “I, Borg”). Essas duas últimas observações ilustram como Frakes e os borgs passaram a ter a boa vontade do público, o que explica a escolha do diretor de First Contact e daquela m*rda de Insurrection, bem como o excesso de uso dos borgs mais adiante, até a exaustão.
Existem outros episódios dos quais gosto bastante (p.ex. “Chain of Command, Part II”, “Relics” e “Parallels”), mas não mereceram entrar na “melhor dúzia”. Em algum momento você tem que traçar a linha de corte.
Hoje, eu voltava do trabalho em pé no metrô, lendo Os Novos Titãs no. 100. À minha frente, estava sentada uma menina, seus 8 a 10 anos, ao lado da mãe. De repente, a menina deu um toque na revista, chamando minha atenção.
– Posso ler com você? — perguntou da maneira mais despojada e aparentemente sincera.
– Cuma?
– Posso ler com você?
A primeira voz que ouvi foi a do egoísmo mesquinho: não, não pode, é minha e eu quero continuar a ler. Essa voz foi prontamente espancada e silenciada.
A segunda voz foi a da razão: impossível deferir ao pedido. Se estou em pé na frente dela, não tem como ela ler junto comigo. Um de nós teria que girar 180 graus. Além do mais, a história é complexa e violenta demais para uma menina da idade dela, cheia de palavras e conceitos que requerem uma cultura geral que ela não tem. Também é continuação da edição 99, de modo que ela não a entenderia. Não bastasse tudo isso, a história é simplesmente ruim. Não a recomendo nem a uma criança de oito anos, que deveria estar lendo alguma coisa mais divertida e mais instrutiva.
A terceira voz foi a da sabedoria. Se tem uma coisa que eu NÃO vou fazer é me tornar em obstáculo entre uma criança e a leitura. Taqui, na minha frente, uma oportunidade de ouro, que talvez nunca se repita, de facilitar o caminho entre ela e o mundo dos livros; os quadrinhos são uma excelente via para isso. É um momento em que nenhum adulto metido está impondo um livro chato a ela: ao contrário, ela está, espontaneamente, deixando-se levar pela curiosidade de ler alguma coisa. A revista está sendo puxada por ela, não empurrada a ela. E eu tenho o DEVER auto-imposto de facilitar o acesso, ou não me chamo Atoz (vá ao Google: veja por que me chamo Atoz. Dica: jogue, também, as palavras-chaves Sarpeidon e “Beta Niobe”).
Enquanto a mãe morria de vergonha e tentava censurar a menina, respondi à última ignorando a primeira.
– Isso vai ser um pouco difícil, porque nós estamos um de frente para o outro. — Fiquei pensando, aqui estou eu, de terno e gravata, discutindo geometria espacial com uma menina desconhecida de oito anos. Os buracos em que se metem as mentes cartesianas iludidas.
A menina não entendeu nada, “hã?”, porém continuei, “mas a gente pode fazer o seguinte: você vai lendo até a gente chegar na Tijuca”, e estendi-lhe a revista.
Ávida, ela foi abrindo as páginas, toda estabanada, e vi que a segunda metade da revista se separava da primeira ao longo da lombada.
– Cuidado, vai abrir as páginas.
Ela passou a folhear com mais cuidado e pensei, raios, ela vai entender que não é pra ler, e não é nada disso. Então, voltei à página que se abria e mostrei, “tá vendo, se abrir muito vai rasgar”.
– Ih! Por que que fica assim?
– Porque é velha. (Verdade. NT 100 é de julho de 1994 e o papel está seco.)
Foi lendo. Abriu numa página.
– Era aqui que você tava?
– Não, eu já tinha passado daí.
Voltou para o começo e foi lendo a revista em voz alta, com uma sensível dificuldade que, na idade dela, eu não tinha mais: para mim, aos oito anos, ia tudo fluindo. Também pensei, na minha época, depois do CA não tinha mais isso de ler em voz alta, a gente aprendia leitura silenciosa. Não tem alfabetização não? Não importa.
De repente, me peguei sem estar lendo nada e sentindo uma terrível crise de abstinência: eu quero alguma coisa pra ler e estou sem nada! A menina ficou com minha revista! Negativo. Abri a pasta e puxei meu exemplar de O príncipe, de Maquiavel, impresso em 1933. E segui lendo.
Chegando à Saenz Peña, confesso que senti um ligeiro medo de que a menina não fosse me devolver a revista. Infundado, primeiro porque a mãe não ia deixar, segundo porque eu já tinha lido todas as histórias e, terceiro, porque NT 100 é ruim mesmo, então não seria uma grande perda: melhor ficar com quem dá mais valor do que eu.
O trem parou, abriu as portas e somente então a mocinha fechou a revista e me devolveu.
– Agradece o moço. (É “ao moço”, dona.)
– ’Brigada.
– De nada.
APIDÊITE DO APEDEUTA (27/07/2009, 21:41 h): uma grande amiga, a quem vou dar o pseudônimo de Carolina Matoso, lembrou-me a seguinte possibilidade.
“já pensou se a menininha do metrô vê vc. lendo O Príncipe, larga a hq de lado e diz:
Sabe o Google Earth? Pois é. Acabei de flagrar um Airbus A380, fotografado em Heathrow em 2009.
Pelo menos até umas semanas atrás, as fotos de Heathrow eram todas de 2008 ou mesmo de antes, com o terminal 5 ainda todo em construção. Para minha sorte, pelo menos para uma parte do aeroporto, o Google atualizou as fotos para 2009 e, aí, apareceu isto aqui (o linque não leva ao Google Earth, mas ao Google Maps. A base de dados é a mesma):
O que chamou minha atenção imediatamente foi um avião bem maior do que os outros, que, de início, associei a um 747. Mas notei que havia uma enorme asa de enorme corda*. Também reparei que o enorme avião tinha pouco comprimento adiante da asa e um cockpit bem pertinho da ponta do nariz rombudo, de um modo tal que toda a curvatura do nariz ficava para cima do cockpit, não para baixo, como no 747.
Isso tudo já me dizia que era um A380. Some-se, ainda, o fato de que não muitas companhias aéreas se dispuseram a operar um monstro desses, e conseguimos ler na fuselagem: “Singapore Airlines” (a mesma que operou Concorde em conjunto com a British, lá nos anos 70).
Compare o 380 com os “aviõezinhos” que o rodeiam: imediatamente à esquerda, vemos um 767 da Air Canada e, mais à esquerda, um A340 da Virgin. Pombas, o A340 era pra ser um avião bem grande! Mais à esquerda ainda, um 747-400 da Cathay Pacific, modelo que, até há pouco tempo, era o recordista mundial em tamanho de avião de passageiros. Tire o zoom e compare os dois: o 747 fica pequenininho!
A sudoeste do 380, vemos um 757 taxiando; bem à direita do 380, um A321 da Air France. Minúsculos os dois.
Então taí.
*corda = distância entre bordo de ataque e bordo de fuga, ou entre a “frente” e os “fundos” da asa.
*** ANTES QUE EU ME ESQUEÇA
Hoje faz quarenta anos. É como eu já disse certa vez: verdade que é uma conquista americana mais do que uma conquista da raça humana. Ainda assim, é um tema que me empolga, e estimula-me pensar que alguns seres humanos andaram na Lua. Que, toda vez que você olha para ela, está olhando para os veículos, instrumentos e bases dos módulos de alunissagem, que lá deixaram. E pensar que até o seu celular tem mais memória do que qualquer coisa que tenham usado naquela época.
Agora é assim: eu entro na estação do Metrô de manhã. É aquele mundo de gente caminhando no mesmo sentido, todos apressados e com cara de idiota (eu não sou exceção). Só pela multidão em movimento, Metropolis-style (Fritz Lang, não Siegel & Shuster), já dá pra antecipar que, dentro do vagão, vai estar todo o mundo socado (no mau sentido mesmo).
Aí, dos alto-falantes vem uma voz descarnada de mulher, toda entusiástica. A pontuação, por esquisita que seja, é realmente a que eles usam: “Prezado Cliente! O Metrô Rio, agradece, a preferência, e deseja, um bom, dia!” Segue-se uma voz masculina: “Prezado, Cliente!, aguarde o desembarque dos demais passageiros antes de embarcar?! Evite, acidentes. (…)”
Só pode ser molecagem, né? Só pode ser espírito de porco. Primeiro, a hipocrisia sarcástica e debochada da moça pseudo-educada. Depois, o paternalismo da gravação que me trata feito criança.
A lamentável culminação disso é que não tenho sequer a quem mandar tomar no
APIDÊITE posterior ao primeiro comentário abaixo: eu tinha esquecido outra gravaçãozinha irritante. É assim: “Prezado Cliente: o Metrô Rio destina carros exclusivos para às mulheres [sic na crase] nos dias úteis, entre seis, e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde, e oito da noite. Respeitar a lei, é uma questão, de Cida Dania. Carro das Mulheres: respeito é bom e elas merecem.”
Olha só: cidadania é ter direitos políticos, poder votar e ser votado. Faveladinho usando computador não é cidadania, é demagogia e salsinhação do Orkut. Então, respeitar a lei não é questão de cidadania, não; é apenas uma forma inteligente de evitar as bordunadas dos brutamontes do Metrô, que ficam em frente ao vagão das mulheres, torcendo para aparecer um desavisado e descer-lhe a mamona. Não tem nada a ver com direitos políticos. E mais: respeitar a lei não é sequer questão de educação ou de caráter; é simplesmente um dever que você ou cumpre, ou vai pra cadeia, ou paga multa, ou a sanção que for. Algumas pessoas, querendo manter um discurso falacioso, vêm com essa de que cumprir a lei é questão de educação, como se a gente tivesse outra escolha. Não tem. Quem está no território do Estado tem que cumprir a lei do Estado, mesmo que não goste, mesmo que seja contra.
E como assim, “elas merecem”? Por que a ênfase? Por que a discriminação? Só elas é que merecem? Homem não merece?
Vou dizer a vocês, de fora do Rio (e também a quem está no Rio mas porventura não conhece a ratio legis): o motivo de existir um vagão destinado somente a mulheres é que, supostamente, tinha homem passando a mão na bunda das mulheres na hora do rush. Então, o simples fato de eu entrar no vagão não é, em si mesmo, alguma ofensa à dignidade feminina. Não se trata de algum território de propriedade das mulheres, tal que, entrando, eu estaria ofendendo-as, desrespeitando algo que fosse delas. Não. Apenas o Estado do Rio não quer que eu entre no vagão — eu estaria desrespeitando o Estado, que me proibiu de entrar. Não é o vagão nem são as mulheres, é o ato.
Outro dia, ouvi de uma moça no elevador: um rapaz, pilotando cadeira de rodas, entrou no vagão feminino por engano. Quando viu onde estava, a porta já tinha fechado. Foi imediatamente escorraçado por uma senhora. Ora, pombas, qual é o mal que pode fazer um moço em cadeira de rodas contra a bunda das circunstantes? Quem tá perto dele não tá olhando pra ele mesmo? Alguém vai dar esse mole? Mas, òbviamente, a imbecil julgava ter o especial direito de, sei lá, ter mais espaço.
O vagão das mulheres não é um direito das mulheres; é uma proibição aos homens. Antes que me venham com essa de que “mas o direito de um termina onde começa o do outro” ou de que, sempre que alguém tem um direito, é que alguém tem uma obrigação, deixa eu te dizer: existe um negócio chamado crime formal. Não, eu não estou dizendo que entrar no vagão das mulheres seja crime, estou apenas fazendo uma comparação. No crime formal, só de o sujeito praticar a ação, ele já merece punição, mesmo que não haja consequência (agora sem trema). Então, mesmo que não haja vítima, ele já incorreu em uma conduta proibida.
Poderão dizer, ah, mas a vítima é a sociedade. Bem, certamente. Só que, aí, é TODA a sociedade, inclusive eu e os demais homens, e não apenas as mulheres do vagão. Então não é isso.
Taí, viu? Comecei reclamando das gravações ofensivas e terminei no vagão das mulheres. Então, me deixa sair antes de levar p**rada.
O baruno, colega de minha irmã, edita o fotologue O Olho Que Tudo Vê. Em geral, são placas com erros grosseiros de português ou falhas gritantes de lógica, do tipo “leve um e pague dois”. Ele fotografa e mostra pra todo o mundo.
Infelizmente, hoje à tarde, eu não tinha câmera (nem meu celular a tinha) na estação de metrô da Carioca. Então, vou ter que narrar. Acompanhe.
Tem u’as máquinas de vender livro, iguais às que vendem chocolate e biscoitinho. Tem a máquina da esquerda, a máquina da direita, e os livros presos lá dentro, querendo sair.
Na máquina da esquerda, os livros têm códigos: 011, 012, 013 etc. Na vitrine da máquina, um papel havia sido colado com durex: “acrescente um zero na frente dos códigos dos livros desta máquina”. Pensei: ué, já não tem o zero? Então são dois zeros? Seriam 0011, 0012, 0013… Bom, pode ser. Quem define os códigos são eles.
Na máquina da direita, os livros têm códigos: 21, 22, 23…
Entende o que aconteceu? O idiota colocou o aviso na máquina errada.
É disso que falo, é a isso que me refiro quando escrevo sobre os Intreináveis. Não adianta. Enquanto continuar contratando mão-de-obra desqualificada, desleixada, desidiosa, analfabeta, negligente e indolente, é isso que vai continuar acontecendo.
E isso é por toda parte. Canso de verificar semelhantes exemplos várias vezes por dia. Gente que não está nem aí e ainda espera receber salário por isso.
***
A esse respeito, hoje cunhei outra máxima: CONTROL-CÊ-CONTROL-VÊ É PRA SER USADO COMO SUBSTITUTO DA DIGITAÇÃO — NÃO DO PENSAMENTO! Na faina diária, farto-me de encontrar exemplos em que pessoas simplesmente copiam um texto inteiro sem fazer revisão e, em consequência, sai tudo errado. Já quando eu copio um texto inteiro, geralmente o texto é meu mesmo e eu reviso ele todinho. O copia-cola é pra ser usado como substituto do tedioso trabalho de digitar tudo de novo, mas não é pra substituir o olhar atento de revisor. O usuário não deve — NÃO PODE — presumir que ”ah, é tudo igual” e nem olhar o que está fazendo.
Argh, que, se o mundo fosse gerido por mim, tava todo o mundo na rua. Não ia ter emprego pra ninguém, e a indústria ia parar. Ainda bem que não sou eu que respondo.
Dica do Cardoso: um vídeo resumindo o que anda acontecendo na indústria da publicidade por causa da Internet, especialmente (mas não apenas) da Web 2.0.
O vídeo tem várias virtudes. Uma é que realmente resume bem a questão. Outra é a escolha da música (uma de minhas preferidas). Outra, ainda, é o talento do Autor, que conseguiu manter a letra original *e* seu significado em inúmeras passagens. Resulta que a avaliação de mercado vem acompanhada de uma reação sentimental semelhante à de American Pie.
***
Em nota não relacionada, estou ouvindo …Calling All Stations… Que coisa estranha. Não parece um álbum do Genesis. Melhor dizendo, só lembra, em algumas passagens. Tem toda a cara do rock inglês de sua época (1998), mas eu não diria que é Genesis se não soubesse. Não é um álbum ruim, mas tampouco é inspirado, e nem chega perto de me causar o mesmo efeito de inúmeros e maravilhosos outros discos deles do período 1970-1986 (você que adora baixar material, busque: Foxtrot, Selling England By the Pound, The Lamb Lies Down on Broadway, A Trick of the Tail, Seconds Out, Duke, Three Sides Live, Genesis e Invisible Touch, deixando de fora uns que não me agradam tanto. Se for fazer busca por nome de música, comece por minhas favoritas do momento: Firth of Fifth, The Cinema Show, Carpet Crawlers, Los Endos, Afterglow e Duke’s Travels, sempre dando preferência para as versões ao vivo).
…Calling All Stations… parece só ter sido feito para bater ponto mesmo, seguindo formulinhas populares. Tenho quase pena do vocalista Ray Wilson, vários anos mais novo que os outros dois componentes da banda (Tony Banks e Mike Rutherford). Na época, li um depoimento dele, de que estava orgulhoso, sempre tinha sido fã… É isso que mata. A própria tietagem já mostra que ele não tinha condição de se misturar. Até agora, o álbum é o último gravado em estúdio pela banda. Foi um fracasso. Depois, Wilson saiu, e o Genesis ficou sem tocar por nove anos – certamente por terem percebido que não tinham mais condição. Mas o disco ao vivo que veio depois, Live Over Europe 2007, tem de volta Phil Collins, Chester Thompson (que toca bateria pra caramba) e Daryl Stuermer; e é muito legal. Recomendo-o.
Colega minha acaba de me contar que, indo e voltando do bebedouro, entreouviu uma conversa dos faxineiros no corredor.
“… Jornalzinho mais sem graça, esse Globo, Jornal do Brasil!… Agora que inventaram esse Expresso, Meia hora, é só esse que eu leio!…”
Pra quem não está no Rio: esses dois jornais são tablóides baratíssimos, que só trazem notícias da violência urbana, do futebol e da novela. Têm a linguagem mais acessível e complexidade nenhuma. Não trazem análises nem recapitulações.
Ninguém está errado nesta história. Os jornais mais sisudos, ditos “formadores de opinião”, trazem um texto que é muito complexo para esse público. As palavras são difíceis, as frases são longas, existem relações de causalidade, explicações históricas e temas como atos secretos do Senado, crise política de Honduras e mísseis norte-coreanos, que saem do cotidiano dos Deltas e Epsilons. Em contraste, os tablóides usam o mesmo vocabulário de seu público-alvo.
Assim, a manchete do Globo poderia dizer algo como “Operação da PM no Morro do Vidigal deixa 2 mortos”, enquanto a mesma notícia, no Expresso, viria em outros termos: “PM dá dura e 2 vagabundos levam pipoco”.
Ora, o propósito de toda empresa é gerar lucro para seus sócios. Então, o objeto social varia: uns vendem sapato, outros vendem diplomas, e outros, ainda, vendem jornal; mas o propósito é sempre o lucro. O que a empresa de jornalismo quer, ao fim e ao cabo, não é instruir nem ilustrar o povo; é vender jornal. Informar o povo é apenas um passo intermediário para a consecução do objetivo. Se a empresa imprime um jornal complexo e caro, ela não vende para essa população, e deixa de auferir lucro. Já se imprime um jornal acessível (intelectual como financeiramente), ela está atingindo mais gente, e é mais dinheiro na caixinha, que é o que interessa.
De todo modo, existe um resultado adicional, que também me deixa mais feliz sem ironia nenhuma. Considere que o faxineiro já não lê O globo nem o JBmesmo. Se ele ler o Meia hora, já estará lendo alguma coisa, que SEMPRE é melhor do que nada. Então, no final de tudo, provàvelmente está melhor assim, e todo o mundo fica satisfeito: o faxineiro em sua leitura matinal, o acionista do jornal com seu dinheirinho, e até eu, cercado de um gado que está um delta menos ignorante.
Sugestão: ignore os jornais. Os jornais dizem muita bobagem. Chutam, inventam, manipulam.
Vá à fonte. Saiu o relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA: Bureau d’Enquêtes et d’Analyses) sobre o acidente do Airbus 330 da Air France ocorrido em primeiro de junho.
Não estou dizendo que o relatório seja perfeito. Vão dizer que ele é político, que é viciado, vão dizer um monte de coisas. Pode ser. Mas tem dois detalhezinhos para os quais eu gostaria de chamar sua atenção.
1) O relatório é técnico. O jornal não é técnico.
2) O relatório é a fonte primária. O jornal vai citar o relatório, vai dizer que o relatório disse tal e tal coisa, mas você só vai saber o que o relatório disse quando ler o próprio.
Taqui os linques para o relatório em francês e em inglês. Um com 128 páginas, o outro com 72.
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Em uma nota não relacionada, comecei a ler Green Lantern: Ganthet’s Tale, de Larry Niven e John Byrne. Eu conhecia a fama dessa graphic novel de 1992, que é muito elogiada como um ponto de vista original trazido por seu escritor aos quadrinhos da DC. Aliás, Niven já era bastante celebrado como o Autor de Ringworld e das histórias das guerras contra os Kzinti. (Vivo confundindo Ringworld com Discworld, do também elogiado Terry Pratchett. Se tivesse lido algum dos dois, isso não aconteceria.)
A grata surpresa foi, ao abrir o livro, reconhecer o traço de Byrne, que eu não sabia que o havia desenhado. Não só foi uma surpresa como me fez pensar em como evoluiu minha percepção do talento desse inglês. É que, quando vi os desenhos dele pela primeira vez há alguns anos, não gostei: eram muito simples e as expressões faciais, sempre dramáticas. Com o tempo, passei a apreciar justamente a simplicidade, junto com o vigor e o caráter dramático das expressões não faciais, mas corporais. De suas obras, talvez o exemplo mais famoso entre os quadrinhos da DC esteja no clássico Man of Steel, que foi o reboot do Super-homem em 1986.
Vou acabar de ler Ganthet’s Tale e, se for bom mesmo e eu estiver com saco, virei resenhar aqui.
Quando eu estava na quarta série, meu livro de conjugações verbais não tinha o imperativo do verbo querer. A professora dizia que o verbo era defectivo – ou seja, um verbo que não tem conjugação em todos os tempos verbais. Ninguém me explicou o porquê, mas deduzi que fosse pelo contrassenso: você não teria como mandar uma pessoa querer alguma coisa. Apesar da aparência de razoabilidade, ainda fiquei pensando que isso era uma omissão grave na língua: normalmente, você não mandaria alguém querer nada, mas o português deveria ter essa possibilidade. Vai que, uma vez a cada Lua Azul (A Gata e o Rato, alguém?), um escritor precise expressar o conceito por alguma razão abstrata. Afinal, as possibilidades de pensamentos são infinitas, e deveria haver língua para exprimi-los.
Foi só vários anos depois que me dei conta: o verbo querer tem imperativo, sim. “Por favor, queira se retirar”, “queiram dirigir-se ao balcão”. Mesmo que não tivesse, observe que o imperativo afirmativo se constrói por repetição do presente do indicativo, sem o S, no caso da segunda pessoa, e por repetição do presente do subjuntivo no caso da terceira pessoa: “contanto que você digite o texto” (presente do subjuntivo de digitar), “por favor, digite o texto” (imperativo afirmativo de digitar). O imperativo negativo também tem fórmula, mas eu esqueci qual é; isso não vem ao caso, o que importa é que tenha fórmula. Portanto, automàticamente, querer tem imperativo, sim.
O fato de uma formulação não ser muito usada não deveria significar que não existisse na língua.
Mas a pergunta mais importante é outra: por que os livros e professores estão ensinando a língua incompletamente, como se alguns conceitos não existissem?
Òbviamente, você sabe, a esta hora Michael Jackson está na mesma ilha remota do Pacífico onde moram Elvis Presley, John Kennedy, Adolf Hitler e Greta Garbo, tomando prosecco e rindo de todos nós.
A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini
Enquanto isso, quem deu mó azar foi Farrah Fawcett: morreu justamente na véspera (ou no mesmo dia, de manhã, não sei bem). Consequência (agora sem trema): ninguém vai lembrar que ela morreu. Ele ganhará especiais e retrospectivas, ela não. Pois que conste aqui: Mulher Biônica, As Panteras e Encontro Fatal, com Larry Hagman.
Star Trek: Countdown é uma minissérie em quadrinhos, composta por quatro capítulos e publicada pela IDW nos meses anteriores a esse filme novo. Ela ajuda a entender o que aconteceu na linha de tempo “normal” antes dos acontecimentos do filme. Ou seja: que história foi aquela de supernova, de matéria vermelha, de Spock ajudando os romulanos etc. É uma espécie de prequel do filme, exceto que é ambientada no século 24. Atenção: seguem spoilers do filme e dos quadrinhos. Prossiga por sua própria conta e risco.
As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação.
Peraí, pára para tudo. Deixeu descomplicar. O filme Star Trek lançado em 2009, apelidado “Star Trek XI” e que ainda está levando nos cinemas, é ambientado no século 23 e mostra o início da carreira do Capetão Kirk e do Orelha. Exceto que ele não está mostrando o passado dos personagens como você os conhece. Conforme o próprio filme explica, o que acontece é que, no século 24, Spock — òbviamente bem mais velho — envolveu-se com os romulanos e com um acidente cósmico de proporções, bem, cósmicas, e a consequência (agora sem trema) foi uma viagem de Spock e de alguns romulanos no tempo, ao século 23. O surgimento de Spock e de uma nave romulana no século 23 é a causa de uma nova linha de tempo, uma realidade alternativa, divergente daquela que os demais filmes e séries mostravam. Nesta linha de tempo alternativa, muita coisa passa a ser diferente por causa da chegada de Spock e da nave romulana. E é nessa realidade alternativa que se desenrola o filme.
Bem, mas que acontecimentos foram esses, no século 24, que causaram a viagem de Spock de volta no tempo? O filme explica, até mostra resumidamente, mas o foco dele não é essa passagem. Ela só entra como uma justificativa histórica, fazendo a ponte entre a linha de tempo tradicional e a nova. Para quem está interessado nos porquês e desdobramentos, fica uma lacuna.
Então, Countdown supriu essa lacuna, contando justamente esses detalhes, e mais: foi lançada antes do filme. Isso faz todo o sentido, primeiro porque você, ao assistir, já vai com a explicação na cabeça. Segundo porque, seguindo a lógica das viagens no tempo e apesar de tudo, a história passada no século 24 realmente vem antes da história do filme. Realmente é antecessora, realmente o filme é sequência (também sem trema) dela. É como se fossem duas metades de uma história só, embora bastante separadas uma da outra.
Outro dia, li Countdown inteira (bom, mais ou menos… aos saltos. Vendo as figuras, aliás bonitas, e lendo os diálogos na diagonal). É uma minissérie da Nova Geração, tendo o Embaixador Spock como protagonista, e se passa alguns anos após os acontecimentos de Nemesis — que, incidentalmente, é, IMHO, o pior, mais fraco e mais sem sentido dos filmes de Jornada. Mas, voltando à minissérie, nela vemos onde foram parar alguns personagens da NG. Data é o capitão da Enterprise-E, tendo sido ressuscitado a partir das memórias que deixara em B4 no filme anterior (óbvio óbvio óbvio. Alguém tinha dúvida de que era isso mesmo que ia acontecer?). Não reparei no que LaForge está fazendo, mas ele também aparece, assim como o Embaixador Picard — que, assim, acabou materializando aquilo que havia sido prenunciado no episódo “Future Imperfect”. Já Worf é general entre os Glunkons, o que não faz muito sentido em face do destino que teve no final de Deep Space Nine (não vou contar, que também é spoiler. Google: “What You Leave Behind”). E mataram Worf???!!!
Em síntese, gostei bastante. Juntando com o que se lê aqui, imagino que ainda seja possível fazer boas histórias no século 24 da linha de tempo tradicional.
São 52 cartazes de filmes, adaptados para Jornada nas Estrelas. Os melhores momentos estão aqui embaixo. Logo depois, coloquei também os de Star Wars e de outros temas nerds. Vêm de outros linques do mesmo saite, clicáveis na página de Star Trek que indiquei no parágrafo de cima. Clique nas imagens para ampliar, porque, assim pequenas, perdem um pouco da graça.
Minha irmã voltou de Curitiba anteontem. Conta-me dos percalços da volta.
Primeiro, chegou cedo ao aeroporto para fazer um voo direto ao Santos-Dumont, partindo às 11:05 h. A moça-do-checkin disse-lhe que seu voo sairia 10 e pouco, teria escala em Campinas e chegaria ao Galeão. Apesar da insistência de minha irmã, a moça-do-checkin teimou que o voo dela tinha sido cancelado e que minha irmã teria que vir no voo das 10 e pouco. Já dentro da área de embarque, minha irmã procurou um moço-do-balcão da companhia aérea, esclareceu o mal-entendido e ouviu dele que seu voo original, direto, partindo às 11:05 h e chegando ao Galeão, estava confirmado.
Que houvera no balcão de checkin?
Bem, não sei. O que importa é que se consertou o voo. O moço-do-balcão perguntou se ela tinha bagagem despachada. Tinha. Então, ele foi pro rádio e mandou retificar.
Chegando ao Rio, minha irmã não encontrou sua bagagem. Procurou o moço-das-reclamações. O moço-das-reclamações perguntou como era a mala e, diante da resposta, também foi para o rádio: “Fulano! Eu já falei mil vezes, vou falar pela última vez: é pra descarregar a bagagem não identificada! Põe na esteira um!” A esteira 1 começou a andar e a mala de minha irmã apareceu.
Você reparou? “Bagagem não identificada.” Sabe o que isso significa? Que, lá no aeroporto internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, alguém teve o trabalho de tirar a etiqueta errada, mas não o de apor alguma correta. Entendo a dificuldade logística de se trazer a mala de volta para dentro do prédio e de se reemitir uma etiqueta que batesse com o cartão de embarque, mas, pombas, etiqueta NENHUMA???
Apideite: tem mais uma, que só lembrei depois. Todos já a bordo, o piloto anuncia que o destino é Santos-Dumont e uma passageira se assusta: peraí, Santos-Dumont? Eu estou indo para Congonhas! Este avião não vai para Congonhas? Diante da negativa, saiu apressada.
Aí você vê: òbviamente, a criatura se enfiou em qualquer portão de embarque sem conferir o que dizia a tela; e ninguém deu a mínima para o cartão dela. Bem sei disso, porque já reparei que difìcilmente as moças que recolhem cartão de embarque chegam a ler o que está escrito. Ou seja, ninguém está nem aí. Ah, quer saber? A primeira pessoa a prestar atenção tinha que ser a passageira. Merecia ir para o Santos-Dumont! [/apideite]
Já demonstrei aqui que o Brasil está caindo vítima dos Intreináveis. A empresa em questão é mais uma refém da falta de qualificação de pessoal da Grande Nação Brasileira. Se, antes, só os encontrávamos atrás do balcão do KFC e do Bob’s, agora eles parecem penetrar alguns domínios mais arriscados da economia brasileira, como são as atividades de terra dos aeroportos. Em breve, a segurança dos voos estará nas mãos deles (ou talvez já esteja). Não é animador? Fico pensando naqueles filmes de invasão alienígena, onde o herói descobre que está cercado, que todo o mundo em volta é inimigo e que não há a quem pedir socorro. São aqueles conquistadores silenciosos, que, quando você percebe, já tomaram tudo. Mais ou menos como os chineses na SAARA.
O que me deixa mais admirado não é a bagagem chegar sem etiqueta. É terem deixado ENTRAR NO AVIÃO sem etiqueta. Se isso acontecesse em Heathrow, ou em algum lugar igualmente pouco civilizado, fico pensando se não mandariam todo o mundo descer do avião, esquadrão antibombas e o escambau, e se não iria lá aquele robozinho sobre esteiras, levantando a mala de minha irmã até um canto remoto da pista, para explodi-la em segurança.
Em 25 de junho de 2008, entre 12:37 e 13:07 GMT+1, eu estava a bordo do Fokker 100 de prefixo D-AGPE, no vôo Air Berlin 2039, ocupando o assento 14A. Na aproximação final ao aeroporto internacional de Palma de Mallorca, deparei-me com esta embarcação.
USS Nassau em Palma de Mallorca, 25 de junho de 2008
Nos últimos dias, estive processando as fotos tiradas naquela semana. Imaginei dividir esta aqui com quem gosta de navios anfíbios e porta-helicópteros.
Uma breve busca no saite Hazegray mostrará que se trata do USS Nassau (LHA-4). No final de 2008, uma visitinha à página do navio me mostrou que ele estava retornando do Golfo Pérsico (ou seria mar Vermelho?) aos Estados Unidos, o que me faz deduzir que Mallorca fosse uma escala. Provàvelmente a parada terá servido para combinar duas acepções da palavra cruzeiro.
Se você prestar atenção, conseguirá ver que há dois Seahawks sobre o convés de voo. Não sei fazer o WordPress exibir um formato menor do que o original, de modo que tive que reduzir a imagem para 60%. Vou ver se dou um jeito de disponibilizar o tamanho original, mas não garanto.
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Em uma nota não relacionada: parece até que eu atraio. Anteontem, escrevi um parágrafo sobre o Império Britânico. Hoje a Wikipedia o escolheu como today’s featured article.
Na cabeça e na caixa de som: Dukes Intro, In the Cage, Afterglow, Home by the Sea, Firth of Fifth, Domino e Los Endos, em Live Over Europe 2007, do Genesis.
Pesquisando Isaac Asimov na Web, descobri que sua obra mais aclamada é a trilogia da Fundação. Diz a lenda (ou melhor, a Lenda, porque é o próprio Asimov quem conta) que ele havia acabado de ler o Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, e que estava agitado para escrever uma história semelhante, mas ambientada no futuro. Expôs a ideia a seu editor, que a encomendou.
No caso do Império Romano do Ocidente, aconteceu o seguinte. Após abranger metade da Europa e todo o entorno do Mediterrâneo, Roma estava demasiadamente estendida, e já não era possível manter as linhas de comunicação nem a coesão do império. Gradualmente, aumentou a dependência do governo central sobre as províncias, cujos senhores locais foram ganhando autonomia. Ao mesmo tempo, a abastança da capital gerou imperadores acomodados, que já não se ocupavam de estratégias de expansão nem de manutenção da infraestrutura. Das províncias, vinha tanta riqueza que os imperadores gastavam a maior parte do tempo em intrigas palacianas e terminavam assassinados por usurpadores. Ocupando-se do próprio umbigo, o poder central descuidou-se de manter a pax romana e, com isso, foi regredindo e permitindo a projeção dos poderes periféricos. Um dia, vieram invasões. Os poderes periféricos, conquistados pelos bárbaros ou não, tiveram que se virar sem o apoio do império, que acabou caindo também. Esse foi o início da Alta Idade Média, com a Europa dividida em inúmeros reinos e principados. Com a institucionalização das culturas germânicas sobre os escombros do Império, veio o feudalismo.
O que Asimov fez de 1942 a 1945 foi contar uma história semelhante, mas ambientada em um futuro indefinido em que a Galáxia começa sob o domínio do grande Império Galáctico. Sua capital, Trantor, é aquele pujante entroncamento de culturas e tecnologia que George Lucas representou como Coruscant. Pessoalmente, penso sempre numa Londres metálica e de dimensões planetárias. Afinal, Londres é a antiga capital do Império onde o Sol não se punha, recebendo tributos e visitantes das culturas mais variadas da Terra. Como a BAxt poderá confirmar, ali você encontra desde comida tailandesa até jóias do Azerbaijão.
A história começa com a inevitável queda do Império Galáctico e concentra-se na iniciativa de um brilhante matemático, Hari Seldon, cuja nova ciência da Psico-história permite, através de equações, prever o futuro mais provável de uma civilização com percentuais de probabilidade que equivalem à certeza. Seldon descobre que o Império deixará de existir em menos de trezentos anos, e que se seguirão trezentos séculos de barbárie. Para abreviar essa grande noite da ignorância, concebe a Fundação, situada em um planeta no limite mais externo da Galáxia. De acordo com o Plano de Seldon, a Fundação abrigará o conhecimento científico do Império e servirá como um farol na escuridão, permitindo o surgimento de um novo império em apenas mil anos. (Só uma coisa: mais alguém notou que essa é a mesma premissa da série Gene Roddenberry’s Andromeda?)
A narrativa da Fundação desenrola-se em oito grandes contos que a acompanham ao longo dos séculos e que foram publicados naquelas clássicas revistas de ficção científica dos anos 40. No início dos anos 50, uma editora iniciante se dispôs a compilar esse material. Então, o Autor escreveu mais um conto, que passou a ser o primeiro da sequência, e agrupou os nove contos em três livros: Foundation, Foundation and Empiree Second Foundation, que passaram a ser chamados, coletivamente, de “trilogia da Fundação”. Nos anos 80, Asimov publicou duas continuações (Foundation’s Edge e Foundation and Earth) e dois romances que se passam antes da trilogia (Forward the Foundation e Prelude to Foundation), mas eles não têm a mesma reputação do material original.
Hoje de madrugada, terminei o sétimo conto e, com ele, o segundo livro. Atenção: no trecho identado abaixo, vou contar detalhes da história até aqui e revelar o final do livro. Prossiga sob seu próprio risco.
No primeiro livro, aprendemos como a Fundação, inicialmente confiante no apoio do Império, acaba isolada entre planetas ignorantes e belicosos. Ora, clàssicamente, os detentores da tecnologia sempre foram temidos como magos encerrados em seus castelos, senhores de mistérios da vida e da morte: haja vista o arquétipo que alimenta as histórias do Golem, dos alquimistas, do Fausto de Goethe, de Frankenstein, de Gandalf e dos tecnomagos de Babylon 5. Então, a Fundação se vale disso e cria uma religião com que seus “sacerdotes” dominam os novos reinos que a rodeiam. Mais tarde, ela começa a vender as traquitanas de suas inovações tecnológicas cujo desenvolvimento o agonizante Império já não consegue acompanhar; e passa a dominar pelo dinheiro.
Na primeira metade de Foundation and Empire, um general tenta reconquistar a Fundação, em um último espasmo de glória a um imperador que só se preocupa com as frivolidades da corte. Nesses dias de ocaso do Império, o cinismo impede a sobrevivência de idealismos patrióticos, regulando a política de nobres que só querem expandir sua parcela de poder pessoal. Nos estertores, o Império decai para a autofagia, e o general é acusado de traidor por pretendentes do trono que preferem nivelar por baixo e veem nele uma ameaça a seus planos.
Na segunda metade de Foundation and Empire, surge a Mula, um mutante misterioso que ràpidamente subjuga alguns reinos relativamente poderosos. Um casal de cidadãos da Fundação é enviado a Kalgan, a mais recente e espetacular conquista da Mula, para descobrir quem é esse sujeito e qual é seu poder tão especial que dominou o planeta sem dar um tiro. Durante a visita, o casal resgata um homem esquisitíssimo e vestiço de palhaço, que estava sendo assediado por soldados. Na fuga, descobrem que se trata do bobo da corte da Mula e, na esperança de obter segredos úteis, dão-lhe asilo político na Fundação. O homem revela-se sempre inofensivo e inocente, mas pouco útil, porque se comporta feito uma criança autista e se apresenta sempre tão apavorado que não consegue articular um pensamento.
Fiquei um bocado desconfiado do palhaço. Afinal, ele é esquisito, a Mula é um mutante, sua aparição é tão conveniente aos dois espiões, e continuamos sem ver nem saber quem é a Mula.
Pouco depois, a Mula exige que a Fundação devolva seu palhaço, que alega ter sido sequestrado. Não sei por quê, mas foi nesse ponto que comecei a pensar que o palhaço era a própria Mula. Deve ter sido meu cinismo, que sempre parte do pressuposto de que, quanto mais perigosa a ameaça, mais inofensiva ela vai tentar parecer. De todo modo, o “sequestro” é a desculpa da Mula para mover guerra à Fundação, que também é conquistada sem violência. No último dia antes da invasão, o casal espião foge levando o palhaço para uma das colônias, que serve como refúgio à resistência.
O palhaço continua sendo desprezado por todos, que o deixam a sós com suas tolices. A Mula continua avançando, e continuamos a não vê-la. Minhas suspeitas aumentam.
Como garantia contra o fracasso do Plano, Seldon também havia estabelecido uma Segunda Fundação no lado oposto da Galáxia, a respeito da qual, até aqui, só sabemos que existe e mais nada. Na fuga, o casal espião é acompanhado por um matemático que procura reconstruir o conhecimento de Hari Seldon, perdido há séculos na desagregação do Império, para descobrir onde fica a Segunda Fundação e, com isso, avisá-la contra o avanço inexorável da Mula. O plano do matemático envolve uma viagem às ruínas de Trantor, onde é possível que ainda estejam os antigos arquivos.
A colônia resistente é conquistada sem luta, e a esposa observa que é muita coincidência: o casal está sempre um passo à frente, escapando no último minuto. Nesse ponto, eu ainda não tinha certeza de que o palhaço fosse a Mula: imaginei que ele pudesse apenas ter um daqueles localizadores que, nos filmes, o herói encontra embaixo do carro. Mas minha aposta continuava sendo que ele fosse a Mula sim.
A caminho de Trantor, a nave do casal é interceptada. Marido e palhaço são levados como reféns, separados um do outro mas devolvidos sem demora. Marido crê que a nave tenha sido enviada pela Mula, cujos homens conseguiram segui-los de algum modo. Palhaço tem outra teoria, que o convence e desconversa. Minha desconfiança transforma-se em certeza.
Em Trantor, a história se acelera e se enche de sinais de que algo está para acontecer, o que me fez perceber que o clímax estava perto apesar de faltarem dezenas de páginas. O matemático passa semanas revirando os antigos registros e calcula a localização da Segunda Fundação. Então, percebendo que vai morrer, elimina todos os rascunhos e diz ao casal que vai revelar o segredo só a eles — na frente do palhaço. Antes que ele diga, a esposa explode sua cabeça. O marido cobra uma explicação. E ela demonstra, item por item da história que acabei de lhe contar (revendo muito mais e menores detalhes, é óbvio), que o palhaço só pode ser a própria Mula.
Pela primeira vez, o palhaço fala como um ser humano normal. E confirma.
Fim. As páginas seguintes eram de anúncios de outros livros.
Aí, sem sacanagem: li as trinta últimas páginas de um pulo. Eu virava, já ia pro final — porque percebi que algo importante estava acontecendo e não aguentava o suspense — e tinha que voltar para ler de verdade, devagar.
Talvez eu tenha visto uma quantidade suficiente de episódios de seriados que lidam com mistério. Talvez seja o fato de estar assistindo a Babylon 5, que é cheia de sinais espalhados ao longo da história e onde ninguém é o que parece. Talvez eu tenha visto episódios demais de Scooby-Doo. Talvez Asimov tenha dado bandeira, semeando muita coisa que parecia não contar para a história e, com isso, despertando minha desconfiança (afinal, é sempre assim: quando o mistério é esclarecido, você descobre que sempre tivera os elementos, que eles nunca pareciam importantes e que bastava tê-los ligado com senso crítico, sem o envolvimento que os personagens têm). Talvez o excesso de atenção dada pelo Autor ao palhaço, aliado ao fato de que ele, na verdade, nunca fazia nada nem contribuía para os acontecimentos, tenha colocado um holofote em cima dele. Talvez o palhaço fosse a famosa arma de fogo de Chekhov.
De um lado, fiquei me sentindo vitorioso, por ter decifrado o mistério antes que o Autor o revelasse. Por outro, fiquei pensando se não era exatamente isso que ele queria, em uma espécie de parceria comigo. Em 1942, Asimov lançou uma ponte para alcançar mentes no presente e no futuro, inclusive a minha. É como um pequeno vislumbre e compartilhamento daquilo que o divertia, como um pequeno presente que ele me deu. Só tenho a agradecer.
A seguir, O príncipe, de Maquiavel, em tradução de 1933 pela editora Calvino Filho; e, depois, a Segunda Fundação.
Recém-lidas: Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994), inclusive “Childhood’s End”, originalmente publicada em Team Titans #1-A (setembro de 1992);
primeiras histórias de Team Titans #1-A a 1-E (setembro de 1992), publicadas em Os Novos Titãs no. 100 (julho de 1994). A primeira é imitação da origem do Dr. Manhattan, de Watchmen. Todas têm premissas genèricamente interessantes, mas todas são cheias de clichês e têm péssimos diálogos, desenvolvimentos sofríveis e desenhos feios e carregados de poluição visual; Action Comics #682 (outubro de 1992), “Gauntlet”, publicada em Super-homem no. 125 (novembro de 1994); Justice League Europe #42 (setembro de 1992), “Mother of Monsters”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 7 (fevereiro de 1995) — os desenhos são pavorosos e o colorido está todo errado, mas a história traz um interessante desenvolvimento a Power Girl. A jovem ruma para resolver suas inseguranças através do contato com a deusa-mãe que, do interior da terra, estimula sua feminilidade e, com isso, nutre a vida e desperta a criatividade.
Com esse desastre do voo da Air France, naturalmente os alarmes de fatalismo tendem a ser ajustados para sensibilidade máxima, apitando vários falsos positivos até serem desligados.
Mas os meus sensores de fatalismo já estavam ligados desde a véspera. Minha irmã me telefona para dizer que soube, pelo Orkut, que uma determinada colega minha de faculdade, a quem muito estimo, havia casado e enviuvado após quarenta dias.
Depois veio a historinha que vai abaixo.
Alguns anos atrás, eu fiscalizava obras e seus projetos no serviço público. Depois saí de lá, mas mantenho contato esporádico com dois colegas da seção onde trabalhava, inclusive minha ex-supervisora. Sucede que o último projeto que fiscalizei era para umas instalações de ar condicionado em um edifício que estava para ser construído em São Pedro da Aldeia, cidade a uns 120 km do Rio (medi com régua no Google Maps, portanto your mileage may vary).
Depois que saí do serviço público, a obra seguiu. Ora, minha ex-supervisora me mandou um email anteontem, contando que a equipe de fiscalização estava no carro, indo para SPA, quando, na estrada, um acidente interrompeu sua viagem. Morreu o engenheiro eletrônico e ficaram sèriamente feridas a engenheira civil e a arquiteta.
Fico pensando que eu estaria entre eles. Mas fico pensando, também, que, com a minha presença, o carro teria ficado superlotado, obrigando ao uso de uma van em vez de um Gol. Talvez nos salvássemos todos num veículo maior, justamente por minha causa. Talvez não. Talvez acabássemos indo em outro dia e sofrêssemos um acidente pior, que matasse também o engenheiro eletricista e o motorista (que sofreram bem menos na vida real).
São os imponderáveis. Certa vez, eu voltava de Congonhas ao Rio quando a moça do checkin me disse que havia um voo logo antes do meu e perguntou se eu queria antecipar. Para a Varig era bom negócio, porque, semigo, o avião ia decolar mais vazio e o assento não geraria mais receita, estando perdido para eles. Já comigo, o problema do assento vazio ficava adiado de meia hora, para meu voo original, e aumentava a chance de a companhia conseguir vendê-lo no último instante, por uma boa margem de lucro.
Naquele momento pensei: vai que, ao trocar, passo do voo sadio para o condenado e acabo morrendo, clássico caso daquele passageiro que morreu por causa de um acaso bobo. “Era hora dele mesmo, não tinha jeito”, diriam as mães dinás. Por outro lado, vai que meu voo original é que é o condenado e, antecipando, eu me salvo. Ia ser o cúmulo da ironia: o avião despencando e eu pensando, podia ter ido no outro… (Aliás isso tá na música da Alanis Morrissette, não tá? Tá sim, Ironic se não me engano).
Como (1) a probabilidade de queda de avião é bem pequena, (2) não dá pra adivinhar se ou qual vai cair, (3) no caso da eventual certeza de que um deles cairia, a distribuição era cinquenta-cinquenta, preferi raciocinar com a ÚNICA certeza que tinha: se nenhum dos dois caísse mas eu pegasse o voo que saía mais cedo, certamente chegaria mais cedo. Melhor do que passar outra meia hora de estresse num aeroporto apertado. Então, aceitei e, dois anos depois, estou aqui.
Outro fatalismo foi o do casal de brasileiros que morreu no voo da Spanair acidentado em Barajas no ano passado. Não vou detalhar o caso porque acabaria violando a privacidade alheia, mas basta dizer que encontrei pelo menos três semelhanças comigo, sem contar que era o mesmo aeroporto na mesma época. Faz você pensar. Bom, a mim fez pensar que meu Doppelgänger morreu e que, portanto, é bom eu andar pianinho porque perdi meu pára-raios (como é que se escreve agora? É “pararraios”?).
… O que me leva à conclusão de que não adianta a gente se preocupar. Se você vai pegar avião ou estrada, vai pegar mesmo. Não adianta deixar de viver porque o avião pode cair. Você pode ficar em casa e morrer de um acidente bobo: engasgado, eletrocutado na tomada etc. Melhor tomar o cuidado básico de evitar procedimentos òbviamente perigosos e deixar que o Monstro de Espaguete Voador cuide do resto.
Wonder Woman #20 (setembro de 1988), “Who Killed Myndi Mayer?”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008) — uma história de mistério contra as drogas, passável; Green Lantern #3 (agosto de 1990), “Sound and Fury”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 2 (junho de 2008) — mal desenhada e um pouco longa demais para a premissa, que é até interessante (Guy Gardner e Hal Jordan saindo na porrada e terminando amigos); Lobo #1-4 (novembro de 1990 a fevereiro de 1991), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — grotescas, bizarras, malucas e bem divertidas; John Constantine: Hellblazer: hábitos perigosos, de Garth Ennis e William Simpson, tradução de Enzo Fiuza, outubro de 2008, ISBN 978-85-7316-525-8, incluindo as histórias de Hellblazer #41-46 (maio de 1991 a outubro de 1991) — a cruel e bem divertida estréia de Garth Ennis com o personagem. Eu soube que o filme saiu daí. Bem escrito, bem cínico, trazendo uma apreciação das coisas que valem a pena da vida enquanto se passa a perna no Coisa-Ruim; Lobo’s Back #1-2 (maio-junho de 1992), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — idem às de cima; Os Novos Titãs no. 96 (março de 1994), incluindo as histórias de Deathstroke #13-14 (agosto-setembro de 1992) — bem ruim, confirmando que Marv Wolfman estava perdido com os personagens que lhe haviam trazido tanto sucesso oito anos antes; The Sandman #40 (agosto de 1992), “The Parliament of Rooks”, publicada em Sandman: fábulas e reflexões (2006) — bobinha e fora de sequência (se bem que nada é fora de sequência nessa série); Justice League Europe #41 (agosto de 1992), “Welcome to the Dark”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 6 (janeiro de 1995) — inútil; New Titans #90 (setembro de 1992), “That Which Lurks Within a Star”, publicada em Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994); Batman #484 (setembro de 1992), “Warpaint”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 1 (agosto de 1994), iniciando a Queda do Morcego; Justice League America #66 (setembro de 1992), “Together Again”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 8 (março de 1995) — história endógena trazendo o Átomo à equipe; The Sandman #41 (setembro de 1992), história publicada em Sandman: vidas breves. Misteriosa e bem escrita, mostra Delírio à procura de seu irmão Destruição, pedindo ajuda (e não conseguindo) de Desejo e Desespero e decidindo ir pedir a de Sonho, que a assusta; Hellblazer #57 (setembro de 1992), “Mortal Clay”, publicada em John Constantine: Hellblazer: sangue real — outra bem escrita por Garth Ennis, com John e Chas indo tomar satisfações com quem roubou o cadáver do Tio Tom.
Da última vez comentei como meu trabalho envolve negociar contratos, muitas vezes em inglês. Lembro-me de uma reunião a que compareci. Do meu lado da mesa, alguns gerentes da Companhia. Do outro lado, ingleses e americanos de uma mesma firma. No final da reunião, um dos súditos de Sua Majestade, aliás o mais velho e formal dos presentes, perguntou-me onde eu havia aprendido um inglês tão bom.
Surpreendido pela aparente gratuidade do elogio, respondi o melhor que pude: by reading The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, by the brilliant Douglas Adams. There is no better source.
Mas sou uma daquelas pessoas que só três horas depois conseguem pensar numa resposta mais adequada. Aqui estão algumas.
– That’s nothing. I can also think while riding a bicycle.
– Oh, you should have seen me yesterday: I named all 79 episodes of the original Star Trek series without skipping a beat.
– Not only do I speak English, I can also disassemble an FN rifle in under two minutes. Of course, that does not imply that I could put it back together again.
Swamp Thing: Regenesis, de Rick Veitch, Alfredo Alcalá e Brett Ewins, ISBN 1-4012-0267-5, reunindo as histórias de Swamp Thing #65-70, de outubro de 1987 a março de 1988. Recomendo.
Superman #18 (junho de 1988), “Return to Krypton”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 1 (maio de 2008). Recomendo.
(O título acima é para quem viu o episódio “The Corbomite Maneuver”. Não vou explicar.)
Quando eu estudava inglês no colégio e no curso, uma das coisas que vi, mais de uma vez até, foi como escrever cartas comerciais. Era uma redação toda formal, com o endereço do destinatário no canto superior direito, local e data, e abria com “Dear Sir or Madam,” Tinha que ser uma gramática toda castiça, com os tempos verbais bem cuidados e um fecho impecável: “I look forward to your reply. Yours truly, Fulano”.
Hoje negocio contratos internacionais, a maioria dos quais em inglês. Muitas vezes sou eu que abro as negociações, então sigo direitinho as instruções da Dona Nara, da Carmen Lúcia, da Dona Míria, do Quaresma e do Mr. Perry. “Dear Sir”, “Dear Mr. Sobrenome”, e vários had nots e would haves.
No início, as respostas me surpreendiam: ingleses e americanos mostravam uma total ausência de formalismo, preferindo ser chamados pelo primeiro nome (ou até abreviações: Ted, Chris). O vocabulário era totalmente coloquial. Os tempos verbais eram contraídos sem apóstrofo! I hadnt seen it, por exemplo. Ainda é assim, mas ainda não me habituei, mesmo após dois anos fazendo isso.
Então me lembrei de um detalhe: todos aqueles livros e professores estavam me contando sua versão acadêmica, sem exemplos extraídos do mundo real. Eu treinava e fazia provas, sempre com base no que tinha sido dado em sala de aula, sem verificação da realidade: será que realmente se escrevia carta assim? Ou isso era só o que *a escola* queria me fazer crer?
Duas hipóteses se candidatam a explicar o fenômeno. Uma é que primitivamente fosse assim mesmo e os livros tenham ficado desatualizados. Afinal, a vida se acelerou e já não escrevemos com o cuidado de nossos avós, que trabalhavam em estruturas fortemente hierarquizadas e cujos contratos tinham que vir em papel, a mão ou a máquina. Você tinha mais tempo elaborando uma carta e podia se dar ao luxo das firulas.
A outra hipótese é que nós, alunos latrino-americanos, tenhamos sido enganados por nosso paternalismo clientelista e pela falta de autoestima que lhe vem atrelada. O sinhô é sempre uma ameaça imprevisível, uma espécie de senhor de terras no feudo onde somos servos, a quem devemos homenagens pela simples diferença de status social, independentemente do interesse ou da posição das partes na negociação. Presume-se que o gringo seja mais respeitável, mais refinado, e que não dependa de nós para nada, de modo que tememos ofendê-lo, nós que desejamos os espelhos e miçangas que ele nos traz de outro mundo. Então nos desdobramos em rapapés e salamaleques.
A convivência me mostrou que eles erram, sim, que se confundem, que não são mais inteligentes e que deixam de usar s depois de apóstrofo só porque a palavra anterior também termina com s. De nosso lado, ainda temos uma força de trabalho analfabeta e desqualificada, de modo que o Gringo continua em vantagem. Mas não é um poder intrínseco nem sobrenatural que ele tenha. Talvez as veias da América Latina não estejam tanto para Galeano quanto para Galeno, que descobriu que somos todos feitos da mesma carne.
Tornei-me trekker em 1991, fã da série Clássica de Jornada nas Estrelas, ávido leitor, interpretador e cultuador de seu cânone. Assim como todos os outros iguais a mim, eu estava muito apreensivo com este novo filme que estreou anteontem. Minha expectativa era a seguinte: mais um filme de ação que vai ser apenas divertido sem conteúdo nenhum. Mas fôra anunciado como um reboot total, de modo que não tinha nenhum compromisso em respeitar o cânone ou a cronologia. Então, quanto a isso, eu estava tranquilo: na minha expectativa, o filme não ia respeitar nada do que tinha vindo antes, mas estava autorizado a esse desrespeito.
Ontem tive uma surpresa maravilhosa: O FILME É ÓTIMO!!! Depois de um filme ruim (Generations), um mais ou menos, de ação e suspense mas não de Jornada (First Contact), duas merdas rematadas (Insurrection e Nemesis), uma das quais sempre esqueço que sequer existiu, e uma série esquecível e desanimadora (Enterprise), talvez minha expectativa estivesse tão baixa que eu aceitasse qualquer coisa no filme de 2009, mas ELE É MARAVILHOSO.
Jornada nas Estrelas sempre foi sobre personagens, não sobre naves e batalhas. Em particular, a série Clássica era Kirk e Spock, seu caráter, seus temperamentos, sua amizade, sua interação. ISSO É EXATAMENTE A ESSÊNCIA DO NOVO FILME. Chris Pine está ótimo como James Kirk. Zachary Quinto (“Sylar de Vulcano”) está surpreendentemente bom como Spock. Karl Urban está excelente como McCoy. As essências dos três estão todas lá, junto com várias referências e maneirismos. E O FILME É SOBRE ELES, não sobre a nave, que é exatamente o que a série Clássica sempre foi.
Apesar de romper com a cronologia e mexer em várias coisas, o filme remete diretamente à série Clássica (embora seja de ação, não de exploração pacífica). Para meu espanto, respeita a história acumulada de Star Trek em muito mais lugares do que teria sido necessário, incorporando informação dos livros que nunca havia sido usada nos filmes.
A cereja no bolo é que, como bem observou o Maron (e era inevitável), todas as velhas frases estão lá. “Dammit, I’m a doctor, not a physicist!”, “Fascinating.”, “I have been, and always shall be, your friend.”, “… Green-blooded hobgoblin”…
Então, aqui você encontra alguns detalhes menores para reparar, que estou listando para quem ainda não viu o filme. Tenho que ser superficial e frívolo, falando só de detalhezinhos, senão estragarei seu prazer. Agora, se você já viu o filme (ou se não se importa em saber de tudo antecipadamente), esta resenha, mais completa, comenta a história, seus personagens e seus detalhes. Aliás, ela mesma já ganhou comentários, que só podem ser lidos a partir de lá.
Há 64 anos, em 8 de maio de 1945, os Aliados aceitaram a rendição alemã, pondo fim ao maior conflito armado que a humanidade já sofreu. Dia de grande euforia na Europa — mas uma euforia amarga e meio vazia, com cheiro de fumaça e sabor de lágrimas, porque famílias estavam desfeitas, milhões de pessoas estavam mortas, cidades estavam arrasadas, e muito sofrimento ainda viria com a fome e a penúria nos anos seguintes.
Em entrevista no excelente documentário Senta a Pua, o Brigadeiro Rui Moreira Lima conta a sensação que teve quando, jovem tenente da FAB, recebeu a notícia de que não teria mais que bombardear nem metralhar alemães no Norte da Itália: uma profunda alegria de que ninguém mais tinha que morrer e ninguém mais ia ter que dar tiro e todos poderiam voltar para casa.
Estou sendo insistente de propósito. Esse assunto é sério. Ainda tem muita gente que gosta de guerra. Não é pra gostar. Admito que gosto de estudar as guerras, em particular a própria IIGM, mas isso não quer dizer que eu goste delas, assim como não necessariamente um advogado penalista gosta de homicídios, um médico de doenças ou um fiscal da Receita de sonegação. Sort of.
Há 64 anos, em 7 de maio de 1945, a Alemanha se rendeu em Reims. No Brasil, o dia 8 de maio é comemorado como Dia da Vitória; nos Estados Unidos e Inglaterra, é chamado V-E Day (vitória na Europa — ainda faltava Japão, que foi em agosto).
23 milhões de mortos na União Soviética, 6 milhões de judeus nos campos de extermínio, 42 milhões nas cidades; 73 milhões de mortos no total.
Que nunca mais se repita e que sirva como escarmento para todas as gerações futuras.
***
Mudando de assunto: só quem pega gripe suína é espírito de porco. Deve tá cheio de gente contaminada à minha volta.
Hoje, cerca das 09:00 h, houve incêndio no Metrô do Rio de Janeiro. Eu estava lá: a estação Saenz Peña ficou cheia de fumaça e de um cheiro forte de borracha queimada. Que eu saiba, não houve feridos. Infelizmente, tampouco há evidência de que o Metrô tenha reembolsado o dinheiro de quem já havia pago, estava dentro do trem e teve que evacuá-lo. Confusão, incerteza e seguranças (?) desorientados.
Lápelas 10:50 h, li no Globo On e no Extra que, segundo o Metrô, houvera superaquecimento dos trilhos e que, por precaução, evacuaram tudo e levaram o trem para manutenção.
Essa é a versão oficial. O jornal não apresentou outra, e duvido que apresente, porque o que mais se vê hoje em dia é jornal repassando versão oficial, sem investigar nada.
Então, deixe-me trazer um pouquinho de contraditório. Oquei, não sou especialista em ferrovia nem em metrô. Mas sou engenheiro mecânico. Até onde sei, trilho só “superaquece” se houver um trem freando em cima, contìnuamente. De resto, trilho fica lá, parado. Se houver apenas trens passando por cima, contìnuamente, trilho só aquece um pouco. Se houver trem parado em cima, trilho não aquece.
Como não tinha trem freando em cima do trilho, resta investigar outra causa possível para um “superaquecimento”. A única hipótese que me ocorre é um curto-circuito: algum cabo que não deveria estar em contato com o trilho tenha, afinal, fechado contato e deixado passar aquela corrente suave que tira uma composição do lugar.
Outra possibilidade é, para mim, muito mais plausível: o Metrô teria simplesmente MENTIDO para o público, mascarando um incêndio com um improvável (quiçá impossível) “superaquecimento de trilhos”. Escolha sua hipótese.
Isso me lembra a bronca que dei numa colega outro dia: acreditava na versão oficial divulgada pelo saite de uma empresa, sem questionar. Tive que explicar a ela: se o saite diz isso, é que a verdade é justamente o contrário, e aquilo que se diz que aconteceu, como bem se pode estimar, na verdade não aconteceu.
Aliás, é por isso mesmo que, por enquanto, estou convicto de que Dilma não tem câncer coisa nenhuma. É claro que, nos próximos meses, veremos profissionais muito sisudos, todos de jaleco branco e mostrando consternação, apresentando os últimos desdobramentos no jornal da noite. Mas não acreditarei nem que ela morra.
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E essa é a cidade que pretende sediar jogos olímpicos.
Ano passado, comprei um computador Dell. Dele escrevi isto aqui. Olha, não tenho grandes queixas. Ele funciona direitinho, é suficientemente rápido, até agora nada deu defeito, consigo instalar tudo sem complicações. Já que tem que ser o maldito Vista, então que venha de fábrica: não tive nenhum dos problemas que as pessoas relatam pela Web.
Mas tem uma coisa bem chata. Se eu tentar acessar os diretórios Documents and Settings, System Volume Information ou uns outros que tem no HD, ele me dá uma das mensagens mais simpáticas que um sistema pode te mostrar: Acesso negado.
PQP. O computador é meu, comprado da maneira mais legal e legítima, nenhuma pirataria envolvida, e EU não tenho acesso aos MEUS DADOS que estão gravados no MEU computador!!! Sei lá, vai ver que a Dell ou a Micro$oft deve achar que, se EU tiver acesso aos MEUS dados, vou lhes causar algum grande prejuízo, vou roubar toda a sua propriedade intelectual… Ou, então, que eu sou uma daquelas salsinhas (TM Cardoso) que vai apagar algum arquivo fundamental e depois culpar o fabricante… O computador é MEU, eu deveria ser livre para mexer onde quisesse nele… “Ah, mas aí viola a garantia.” F*da-se a garantia, o risco é meu, eu decido se ainda vou querer técnico de graça depois de fazer uma cagada.
O que a parceria entre Micro$oft e Dell está me dizendo é que considera que seus clientes não sejam pessoas adultas e responsáveis, que precisem ser levados pela mão e que sejam essas fornecedoras quem pode decidir o que EU posso fazer com o MEU computador e o que não posso. Como se computador fosse arma de fogo, sei lá.
Aí, vou descobrir que tenho que hackear meu próprio computador. Tenho certeza de que consigo, deve ser só dar uns comandos e tal, só que não estou a fim da dor de cabeça, de ter que — calafrios terríveis: — entrar no registro do Windows
Lobotomia espacial
e depois ficar dando tela azul uma em cima da outra por ter editado o lugar errado… Além disso, na hora em que eu começar a mexer, os comandos secretos do Windows — que agora, para funcionar, receber atualizações etc., tem que estar permanentemente em contato com a nave-mãe no Oregon (é no Oregon?), enviando e recebendo pings sem eu saber, hackers oficializados de uma figa –, os comandos secretos vão acionar uma luz vermelha na sala de controle da Micro$oft, daquelas que giram e ficam gritando, AHWHOOGA, AHWHOOGA, … e vai sair uma equipe SWAT que vem aqui na minha casa, descer do helicóptero de rapel e me levar pra Guantánamo por violação dos termos de uso…
Outro é o notebook da Digníssima, aliás também Dell, legal etc. A maldita engenhoca foi comprada no Brasil. Aí, eu fui a Neviorque e trouxe um DVD sobre Beethoven (o compositor, não o cachorro), legítimo, não pirata, comprado em loja, etc. Aí ele travou: “este computador só toca zona 4. Seu DVD é zona 1. Você já mudou de zona quatro vezes. Quer mudar de zona de novo?” Ficamos com um ligeiro temor: vai que eu digo sim e ele tem um máximo de mudanças possíveis. Vai que, mais tarde, a gente precise do DVD de verdade, para alguma coisa de trabalho, sei lá, e ele diga que passou do máximo e não pode mudar de novo. Na dúvida, a gente preferiu não aceitar. Vamos deixar para ver no DVD player Panasonic que eu hackeei em 2007.
Pode isso? Eu ponho MEU DVD para rodar no MEU computador, sem violação do direito de ninguém, e o fabricante me vem com a gracinha de que não posso assistir porque comprei meu computador numa parte do mundo diferente daquela onde comprei o DVD, como se isso fosse proibido! “Arrá, você tentou assistir a um DVD americano em um computador brasileiro, não pode, é crime, bem feito, ficou sem computador.” Que mal há nisso? Que que eu fiz de imoral, de ilícito, de errado? Eles presumem que eu esteja pirateando, é isso? O que eles estão protegendo com isso?
Uma das criações mais nefastas que já houve no campo das comunicações foi esse zoneamento do mundo. Não há, não adianta, não há justificativa plausível para uma sacanagem global dessas. E não adianta dizer que é contra a pirataria. Essa p*rra não é eficaz, só aborrece, ninguém sai ganhando com ela. É só mais um jeito de me fazer ter trabalho, ter que sair catando tutoriais e executáveis pela Web, em saites obscuros que, aí sim, periga me passarem um vírus. Quer dizer: é a maldita indústria “legal” me empurrando pro abismo da ilegalidade.
A alternativa é eu procurar o concorrente: sair baixando tudo dos torrents e comprando no camelô da Carioca, que grita bem alto, “DVD jogos Corél! CD-rum, uínduófice Corél! Filmesjogos DVDiêê!” É isso que eles querem? Se eu comprar com esses caras, violando todas as proteções legais, tenho certeza de que não vou ter esse tipo de problema, já vem tudo desbloqueado.
Eu vivo resmungando dos retardados voluntários* que jamais escrevem seus próprios textos. Gente que, diplomada e tudo, prefere ctrl+c-ctrl+v no trabalho dos outros — afinal, é muito mais fácil.
Aqui, indícios de que certas respeitadas revistas também aderem a essa prática maligna:
E, aqui — dica do Cris Dias –, uma revista igualmente respeitada admite, abertamente, que não está nem aí para qualquer correspondência entre suas reportagens e a realidade:
Parece só um vídeo engraçadinho de comida brigando, mas NÃO É. É a explicação das guerras em que os Estados Unidos se meteram no mundo, representada pela comida dos países. A Inglaterra é o fish and chips, a Alemanha é o Pretzel com Bratwurst, a Rússia é o strogonoff, o Japão é o sushi, os árabes são o kebab.
Começa na Segunda Guerra Mundial, passa pela Coréia, Cuba, Vietnã, primeira Guerra do Golfo, 11 de Setembro e segunda Guerra do Golfo. Prestei muita atenção e reparei que as várias sutilezas estão representadas: a II Guerra Mundial começa com os judeus se mandando da Alemanha e os restantes sendo exterminados; a Alemanha passa por cima da França pra bombardear a Inglaterra; os americanos, com os ingleses vindo atrás, passam por cima da França pra bombardear a Alemanha. Etc.
Rússia e China ocupam meia Coréia “por dentro” enquanto, do outro lado, outra meia Coréia se junta aos americanos e ficam todos indo e voltando e se acabando em cima de uma fronteira que se desloca mas não se afasta. Depois, Rússia ocupa Cuba e assusta os Estados Unidos, Rússia penetra no Vietnã e põe a França pra correr, os americanos vêm ocupar o lugar da França ao lado do Vietnã do Sul e americanos e Vietnã se acabam sem vitória.
Enquanto isso, no Oriente Médio, os ingleses se mandam e deixam os judeus encararem os árabes sozinhos. Os árabes se juntam, Israel vem em defesa dos judeus, reduz mas não elimina os árabes.
Guerra Fria, nuclear stockpiling etc.
Os árabes (Kuwait), sentados em cima do óleo, são enxotados por outros árabes (Iraque) e fogem para pedir ajuda dos americanos. Americanos vêm, Iraque dispara vários Scuds em Israel, todos caem em Israel sem causar danos. Aí vem o 11 de Setembro.
Tem aqui um linque que explica qual comida é o quê:
Em um tópico relacionado, iniciei meu belogue Seventy Years Ago Today, narrando a II Guerra Mundial com tempo na escala 1:1. Para que nunca mais se repita. Faço-o experimentalmente: presumo não ter tempo de atualizá-lo com a frequência que gostaria. Faço-o também para ver qualé a do WordPress. Com alguns minutos, estou gostando tanto que penso em dar um pé na bunda do Blogger. Só por causa da preguiça, provavelmente não o farei.
***
Update: fiz. Acabei de me mudar pro WordPress, com mala e cuia. Teòricamente, é o que você está lendo agora. O belogue antigo ainda está onde estava, mas já não será atualizado.
Minha dona diz que eles são intreináveis. Não conheço melhor expressão.
Você vai ao comércio, o cara não consegue te vender uma bala Juquinha. Pergunta se tem o produto, está debaixo da fuça do infeliz, ele diz que não tem. Pergunta quanto é, ele diz que não sabe.
Minha colega foi à Saraiva da rua do Ouvidor, perguntou pelo Dicionário filosófico de Voltaire — com essas palavras — e o idiota lhe perguntou quem era o Autor. Ela repetiu, Voltaire, e o retardado escreveu “Wolter”, como se fosse um Walter que ele conhecesse.
Numa LIVRARIA! Ela não foi procurar o Dicionário no meio de um prédio em construção, nem nas termas, nem na cozinha.
E o pior é que não adianta a Saraiva demitir para contratar quem saiba ler. Ninguém sabe. É impossível contratar mão-de-obra qualificada neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval. É impossível treiná-los, eles não são capazes de aprender nada de nada de nada.
Amigo meu, médico, teve que explicar pro assentador de granito como é que se assentava granito, porque o mentecapto quebrou três pias sucessivas até aprender a cortar a pedra. Meu prezado doutor (duas vezes: por ser médico e por ter defendido tese) perdeu a paciência com o apedeuta, disse que um profissional consegue se sustentar com o que faz e que, òbviamente, o estropício não podia se considerar um profissional. Observo que, para esse doutor — que dá aula de Medicina em universidade pública, concursado e o escambau –, dizia, para esse doutor perder a paciência, precisa muito, não basta ser um caminhão de asneiras, tem que ser um trem de carga com cocô até em cima mesmo. Quando ele sofreu uma fratura cominutiva do ombro (osso quebrado em quatro partes), com uma dor que o fazia ver os sete anjos com as sete pragas (ele que é ateu), ainda assim manteve a compostura e falou civilizadamente com a pseudo-auxiliar de enfermagem que veio injetar-lhe o medicamento receitado para outro paciente enquanto ele continuava esperando o analgésico. Mas o fingidor de pedreiro conseguiu tirá-lo do sério.
No trabalho, vou usar a casinha e descubro que tem barata. Raios me partam! Tem um faxineiro que, sempre que entro no banheiro, está lá olhando pro teto e se ocupando só das próprias unhas, enquanto baratas tentam me engolir vivo. Aposto qualquer quantia, aposto meus diplomas — pode vir aqui em casa rasgar todos se eu estiver errado — que eu limpo banheiro melhor do que qualquer um desses descerebrados que estão, supostamente, GANHANDO SALÁRIO PRA FAZER ISSO há uma vida inteira.
NEM DISTRIBUIR PANFLETO NA RUA O CARA SABE: fica de costas para o sentido de onde vêm as pessoas, elas saindo do Metrô no início do horário comercial, ele não vendo ninguém se aproximar nem, portanto, conseguindo estender a mão a quem já foi embora. Quer dizer, nem esse ofício infernal de espalhador de filipetas, que devia ser dinamitado da face do planeta, nem essa pseudoprofissão inútil serve para absorver o excedente de mão-de-obra desqualificada, porque o sub-gump nem isso consegue fazer.
NEM ISSO. O aborto ambulante vai arrumar um jeito de se enfiar no canto de menor visibilidade da praça.
Eu entendo que o cara não queira produzir mais: o salário é o mesmo se ele vender e se não vender, o patrão é mau, a mais-valia é cruel etc. etc. Mas o que eles são clìnicamente incapazes de enxergar é que a alternativa é a demissão! O nanicocéfalo não percebe que, se não trabalhar, vai para o olho da rua — e continua não trabalhando!
Aí eu começo a entender aquilo que tanto escuto no Metrô: as histórias tristes de quem toma a demissão como uma inevitabilidade, uma decorrência natural do fato de estarem empregados, que é só uma questão de quando, não de se. Para eles é normal, não se emendam mesmo!
Quando eu varria chão no Exército, o chão ficava limpo. Não se via um grão de poeira. Eu não fazia mais do que minha obrigação, nem era especializado na tarefa. Hoje, eu vejo uma faxineira fingir que esvazia uma lixeira, derrubar a sujeira toda no chão, e ouço dela que isso acontece toda hora. WTF??? A mulher pretende GANHAR A VIDA fazendo isso? Precisa ter mestrado pra aprender a esvaziar lixeira, a varrer chão? Eu varro aqui em casa e fica tudo limpo; supunha que uma profissional especializada soubesse fazer ao menos isso.
Uma colega (a mesma do Wolter) observou que é porque eu presto atenção, porque me dedico a tudo que faço. Se é para fazer, é para fazer bem feito, seja um prato de comida, um parecer jurídico ou um banheiro limpo. É para tentar fazer cada vez melhor, fazer em menos tempo com a mesma qualidade, fazer com mais qualidade no mesmo tempo. Mas, para eles, parece que não. Andam pela vida com o 32-A607 ligado (escreva num papel e olhe no espelho). Não aprendem NEM QUEREM APRENDER. Por isso é impossível ensinar-lhes qualquer coisa.
E estão sempre reclamando que estão doentes, com dor aqui e ali, e que “ontem passaram mal”, e vão pegar atestado, ou não vão.
Então, quer saber? Não tenho pena não. Um amigo me dizia que não tinha essa suposta “pena de botar um pai de família na rua”, porque havia OUTRO pai de família faminto e qualificado que não conseguia a vaga porque um mequetrefe desses a estava ocupando. Eu vou além: é preciso ser isonômico. Se são todos igualmente indolentes e preguiçosos, então a fila tem que andar, é preciso cada um ceder a vez: brinca um pouquinho, depois dá o lugar pro outro. Não pode é um só querer ganhar sem trabalhar o tempo todo.
***
Da série Mais motivos para me deixar orgulhoso e assustado
Em um assunto distinto, porém relacionado, acabei de entender algumas das várias limitações que há anos venho percebendo nas pessoas. Acabei de entender por que é que tanta gente à minha volta lê tããããão devagar, palavra por palavra, causando-nos uma perda enorme de tempo e de produtividade. Taqui a explicação. Ou: “p*rra, por que esse cara está gastando um tempo enorme para ler esse pedaço que òbviamente não é o que interessa na discussão?”
Para minha desgraça em uma vida tão atribulada pela falta de tempo quando há tanto que fazer ou que quero fazer, agora entrei em mais um blog reading spree. Sabe como é: quando você começa a ler um, que linca pra outro, que linca pra outro, e você vai lendo tudo, opiniões, pontos de vista sendo compartilhados racionalmente, emocionalmente. Fico cheio de inveja que esse pessoal escreva tão bem. E tenha tempo. Ou pareça ter. E entro em fluxo de consciência e, como já disse outras vezes, quem escreve bem tem o dom de fazer você querer escrever tão bem. E muito, para aprender com a prática e ficar igual a eles. Ao lado dos belogues que referencio aqui no lado direito da tela, existem dezenas, dezenas que visito de vez em quando ou uma vez e nunca mais, mas cujos URLs anoto. Acho que vou passar a mencioná-los aqui.
Como esta entrada do Cocadaboa: que me fez vir aqui.
Sou ateu.
Agora que choquei, confesso: isso não é plenamente verdade. Não sei se Deus existe. A cada dia, mais me convenço de que não existe. Fui criado em escolas católicas, induzido a crer na existência, bondade, sabedoria e amor ilimitados de Deus, mas não sei não. Prefiro dizer: a eventual existência de Deus é irrelevante.
De um lado, impossível provar que existe. Deus se descobre é pela fé. A prova é racional, a fé não é. Se você chegasse a Deus pela razão, estaria tornando a fé desnecessária, o que contraria Deus. (Eu sei que não; isso foi uma falácia. Mas é apenas incidental; prossigamos.)
Por outro lado, impossível provar que não existe. Então, os ateus também estão agindo de acordo com uma fé. E fé é o que não tenho.
Deus, se existir, é inatingível: se Ela quiser se esconder, conseguirá isso melhor do que ninguém (a onipotência faz parte do conceito). Então, inútil me preocupar em descobri-La ou me convencer a favor ou contra.
Deus, se existir, é amoral. Não pune pecados nem premia boas ações. “Ah, então tá liberado! Então, Ela encoraja o mal, é isso?” Não, não é isso. Se fosse assim, Deus seria Imoral. Mas um Deus imoral premiaria pecados e puniria boas ações. Não creio que Ela faça isso. Creio que, se existir, não esteja nem aí. Fez o mundo e foi tirar férias, foi fazer outros mundos, está ocupada com as galáxias ou tentando resolver o problema da expansão cósmica, que levará ao esfriamento dos buracos negros, ao esgarçamento do espaço e à extinção da vida. Não está nem aí para o que nos acontece, não ouve orações, não concede audiência, não manda catástrofes nem salva aquele sujeito que ficou doze horas esmagado embaixo do caminhão e saiu sem ferimentos. Imagine como se sente o Dr. Manhattan (este ponto é mais contundente para quem leu o quadrinho).
Se Deus é amoral, que diferença faz eu puxar Seu saco? Que Lhe importa se eu repetir palavras mágicas enquanto seguro um colar de contas? O que Ela ganha com isso?
A alternativa seria um Deus maligno: se eu não repetir trinta pais-nossos, ou comer carne na sexta-feira, ou chutar a imagem da santa, vou para o inferno sem sursis. Para isso não acontecer, puxo-Lhe o saco. Mas sempre me identifiquei com a causa dos que vivem sob um regime tirano. Minha tendência é à rebeldia contra quem me tira minha God-given liberdade. Inclusive contra Ela: e eu e Ela saberíamos que seriam só aparências, e eu diria, não faço mais, me mande pro Inferno se quiser, aliás Você vai me mandar pro Inferno se quiser mesmo apesar de toda a minha puxação de saco, porque é onipotente e não responde perante ninguém, não tem que dar satisfações a algum tribunal olímpico ou valhállico, então vou exercer minha liberdade no pouco de vida que me resta. Prefiro ser sincero. E, no Inferno, lá estaria eu, com um punho cerrado e elevado em sinal de protesto, dizendo, Você sabe que eu estou aqui porque estou certo, eu ganhei de você: pode me quebrar, mas não pode me dobrar.
Mas Deus, se existir, não é maligna. Isso não faz parte do pacote. Então, em Sua infinita misericórdia, também não me mandaria pro Inferno nem que eu fosse mau. Então, pra quer esquentar a cabeça? Preocupemo-nos com esta vida, com quem sente fome e não sabe ler.
Se Deus existir, é onipotente (faz parte do pacote). Então, pode alterar as leis da Física a qualquer momento, inclusive retroativamente, reescrevendo a História, e nem saberíamos que o universo está mudado. Pode me fazer crer nEla de uma hora para outra, e eu nem saberia que um dia não teria crido (está certo esse particípio?). Então, inútil rezar, inútil resistir, inútil tentar puxar Seu celestial saco. Vai fazer o que quiser fazer, e não há nada com que eu consiga convencê-La do contrário. Nem há nada que eu possa fazer por Ela tal que ela retribuísse me fazendo algum favor: onipotentes não costumam precisar de qualquer ajuda. Para que acender velas e jejuar, então? Só para satisfazer Seu incomensurável ego? Deus tem problema de auto-estima, precisa que Lhe digamos quanto Ela é linda e maravilhosa?
Se Deus existir, é indecifrável, certo? Então, não adianta pensar sobre Ela, tentar entendê-La, filosofar sobre Ela — só se for para ser uma filosofia de nós mesmos, mas aí é sobre nós, não sobre Ela. Da mesma forma, inútil perscrutar quais são Seus indecifráveis planos para mim.
Isso se Deus existisse. Não creio que exista, então não tenho o que pensar dEla. De todo modo, irrelevante.
Mas e Jesus Cristo: existiu? Sua existência não é impossível, mas também a tenho considerado cada vez mais improvável. Se tiver existido, coitado, terá sido um sujeito brilhante, que teria tentado ensinar civilidade às pessoas, uma espécie de live-and-let-live hippie, só que alguns milênios off the mark. Òbviamente, foi devidamente punido por isso.
Mas então, e se eu decidir viver pelo Evangelho, isso faz de mim um cristão? Eu, que sou ateu? Adoro a parábola dos trabalhadores que passam o dia na vinha pelo mesmo salário (que, para mim, se traduz em “cuide da sua vida em vez de ficar com inveja de seu vizinho”), bem como a do irmão que vai trabalhar após ter dito que não ia, enquanto o outro não foi, mesmo tendo dito que ia. Adoro a história de se atirar a primeira pedra, e tudo mais. Se eu concordar com as regras de boa vizinhança que estão ali, isso faz de mim um cristão? The horror, the horror. Espero que não, mas talvez seja tarde demais.
Então, de um lado tenho vergonha de não admitir que sou ateu: pelo certo, eu deveria admitir logo, como sugere o Cris Dias. De outro, nem sequer disso tenho certeza!
Recém-lidos: Justice League #1 (maio de 1987), “Born Again”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008); Detective Comics #574 (maio de 1987), “…My Beginning… and My Probable End”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008);
http://yourinnergoddess.blogspot.com/ — Goddess Bless America, sobre a erosão dos direitos individuais numa América tornada insalubre pela direita religiosa;
http://infinitadiversidade.blogspot.com/ (da Cláudia Freitas, uma das pessoas que me recebeu tão amàvelmente no JETCOM em fevereiro de 1994, que Deus a tenha em Sua infinita ironia);
http://www.horsepigcow.com/ (não sei nem quem é, mas me amarrei em seu cenário jornalístico-belogueiro-literário e lhe desejo todo o sucesso, além de ela ser uma gata);
http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/ (Manual do Minotauro — o belogue das GENIAIS tirinhas do Laerte, que, se Deus não existe, pelo menos ele é a coisa mais próxima que um cartunista alcança);
É assim. Anteontem, saiu a lei 11.922, que tem 19 artigos tratando de créditos da Caixa Econômica Federal, financiamento imobiliário, fundo habitacional e sonho da casa própria. Beleza.
Aí, o artigo 20 estende o prazo para registrar ou entregar arma de fogo à Polícia Federal dentro do Estatuto do Desarmamento.
O artigo 21 trata da vigência da lei. Aí acaba o texto dela.
Peraí, volta. Que que diz o artigo 20?
Fui investigar. Tudo começou com a medida provisória 445 de 2008, cujos dois artigos tratavam de créditos da CEF com negócios imobiliários. Aí, a MP tramitou na Câmara dos Deputados, onde recebeu 18 emendas (detalhes aqui), todas pertinentes ao assunto. Todas exceto duas.
A emenda 16 autorizaria a DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes) a fazer obras com determinados recursos que não os tratados pela MP. Naturalmente, estava fugindo do assunto, e o Deputado Duarte Nogueira se insurgiu contra sua aceitação. Foi indeferido. Recorreu e perdeu. Detalhes aqui. A emenda entrou na então-MP 445, futura-lei 11.922.
A outra emenda era a de número 10, do Deputado Sandro Mabel. Ele considerou oportuno estender o prazo relativo às armas (e, pelas razões que ele expôs, concordo com ele) e, out of the blue sky, pediu para enfiar lá um artigo relativo a isso nessa MP-mas-em-breve-lei. Mais detalhes aqui.
E ficou assim! Olhei todos os pareceres escritos e falados na Câmara, inclusive das comissões, e ninguém falou nada! Passou totalmente embaixo do radar!
Eu estava entendendo que, pela boa técnica legislativa, não se podia usar lei de um assunto para tratar de outro. Em matéria de lei orçamentária (que não é o caso), isso é até proibido.
Vou ver se alguém no Senado reparou nisso. Mas não ponho muita fé.
PREMONIÇÃO
Depois da notícia das chicotadas no trem, vi esta, do Laerte:
Então, o Yahoo! publicou u’a matéria sobre a tendência que as pessoas podem ter ao puxa-saquismo em tempos de crise. Confesso que a li.
Mas vejam só este trecho:
“A [Consultora Fulana] diz que não é preciso envergonhar-se desse tipo de comportamento. O conselho dela para tempos de dificuldade econômica é: vá para o trabalho mais cedo, fique até mais tarde, assista às reuniões e ofereça-se como voluntário para fazer trabalho extra.”
Ué. No meu dicionário, chegar cedo, sair tarde e fazer trabalho extra chama-se TRABALHAR. Ela parece entender que isso seja puxar o saco.
Agora quem trabalha está puxando saco? Isso tem toda a cara da ética que impera neste País desde Martim Afonso. Você não pode trabalhar mais que os molóides, não pode (eventualmente) se destacar; você tem que ser medíocre. Têm que estar todos, em ordem unida, abaixo da média.*
Suponho, então, que quem puxa saco esteja trabalhando. Quer dizer, não posso trabalhar mais que outros, porque dirão que estou puxando saco. Que é só pra aparecer, apesar da produção medida e da receita maior para a empresa.
*Bonus points para quem percebeu que, por definição, é impossível estarem todos abaixo da média. Agora vá explicar isso pro Tenente [name withheld for privacy], meu instrutor no segundo ano do NPOR/IME, que queria todos os alunos acima da média.
Algumas pessoas acham que isto é arte genial e espontânea: o “Grande Artista” encher a cara e sair pela madrugada aporrinhando os outros, gritando barbaridades e mostrando a bunda. Acham que isso é ser grande, é desbravar fronteiras, é demonstrar aonde podemos chegar se sonharmos alto.
Eu acho que é babaquice.
***
Lei cínica número 47: se alguém disser a você que você está bem na fita e que a batata de outrem está assando, pode ter certeza de que é o contrário.
***
Eu venho no metrô sendo tratado pior do que gado, sendo lembrado de minha condição proletária massificada nos subterrâneos de Metropolis, e ainda querem que eu fique de bom humor?
Prossigo no intento de ler o núcleo da obra de Isaac Asimov: o pequeno conjunto de livros que o tornou célebre e que despertou o interesse de tanta gente na ficção científica. São menos de trinta livros, dos quais li os dois primeiros (Foundation e I, Robot) e estou no terceiro (Foundation and Empire). Creio que, agora, faltem vinte livros.
Diz-se que os dois primeiros concentram o que de melhor ele escreveu. Talvez ele tenha mesmo criado um choque em comparação com Autores anteriores, não sei. Talvez ele tenha trazido um pouco de humanidade a um campo que, de outro modo, é tido por árido. Talvez ele tenha sido o primeiro, ou um dos primeiros, a deixar as tecnicalidades de lado para se concentrar na trama. Pode ser. Por certo, o ponto rico do que ele escreve é um certo conteúdo de mistério, convidando o leitor a decifrar o que vai acontecer. Há, ainda, uma outra constante que identifiquei na obra e que indica muito da personalidade do escritor, que é uma confiança na Ciência e no racionalismo.
Os livros são mesmo bons, mas permitam-me dizer que Asimov é um tanto overrated. Em I, Robot, todos os personagens humanos, exceto a protagonista Susan Calvin, têm o pavio bem curto, estão sempre perdendo a paciência sem motivo, gritando, exasperando-se, de um modo irritante e sem explicação. Tenho duas hipóteses de trabalho para isso. A primeira é que o Autor, à época ainda pouco experiente, estivesse tentando criar personagens realistas, ele que era tão cerebral, e tenha errado na mão. Na tentativa de imitar as demais pessoas, teria acabado por fazer personagens excessivamente emocionais.
A segunda hipótese é que fosse um contraste intencional entre os defeituosos humanos, imprevisíveis e sempre à beira de um ataque de nervos, e os robôs, sempre equilibrados e racionais. Essa hipótese parece-me a melhor das duas, especialmente porque a Dra. Calvin aparece como um modelo de nerd respeitada — mais ou menos uma versão feminina e mais monótona do próprio Asimov — e difìcilmente perde a compostura. Porém, saiba que, com isso, o Autor acaba sendo repetitivo e inverossímil.
Além do mais, contrariando o caráter nerd do próprio Asimov, encontrei mais de um erro nos livros. Há momentos em que ele troca nomes, o que causa uma certa estranheza para quem vem lendo a história. É curioso que o editor original não tenha percebido isso, lá nos anos 40. Agora, passados mais de sessenta anos, naturalmente é tarde demais para uma correção, ainda mais que o Autor está morto.
Voltando à história da Fundação em si mesma: um dos atributos dos bons livros é estimularem você a procurar suas referências. Neste caso, Asimov já comentou que sua grande inspiração foi o Declínio e queda do Império Romano, onde Edward Gibbon demonstrou fatores sociais e econômicos como explicação para a evolução do império. Isso aparece na Fundação, cujo maior efeito sobre mim, até agora, é a vontade de ler o livro de Gibbon — todos os seis volumes.
Recém-lidos: Justice League of America #244 (novembro de 1985); 2009-03-21 — I, Robot, de Isaac Asimov; Bantam, ISBN 0-553-29438-5; 2009-03-23 — O que muda com o novo Acordo Ortográfico, de Evanildo Bechara; 1a. edição, 2a. impressão, dezembro de 2008, Nova Fronteira: Lucerna, ISBN 978-85-209-2138-8 (cheio de erros de português — e olha que o Autor é imortal, membro da Academia de Ciências de Lisboa, gramático ilustre, autoridade na língua e o escambau); Justice League of America #245 (dezembro de 1985); Superman #416 (fevereiro de 1986), “The Einstein Connection”, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008); Man of Steel #1 (1986), “From Out the Green Dawn…”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 1 (maio de 2008); Man of Steel #4 (novembro de 1986), “Enemy Mine…“, publicada em Superman 70 anos no. 3; Superman #2 (fevereiro de 1987), “The Secret Revealed”, publicada em Superman 70 anos no. 1 (setembro de 2008); 2009-04-11 — History of the DC Universe, de Marv Wolfman e George Pérez, ISBN 1-56389-798-9; Detective Comics #572 (março de 1987), “Dick Sprang Remembers”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).
Estava voltando do almoço e vi a manchete do jornal na banca: “veja aqui onde fazer declaração do imposto de renda de graça”.
Pensei: ué, em casa. Você vai à delegacia da Receita, pega o formulário, preenche e entrega. Tudo de graça. Ou, se tiver Internet em casa, baixa o programa, preenche e manda pela própria Internet, também de graça.
Não sei em outros lugares, mas, na Europa e, pelo pouco que sei, nos Estados Unidos mais ainda, é muito comum que as igrejas tenham letreiros junto à calçada, trazendo a programação de sermões ou eventos do gênero.
Na disputa por novos seguidores, algumas igrejas parecem não conhecer limites. Vejam só a foto que encontrei hoje:
Oquei, confesso minha cupidez. Primeiro, encontrei esta imagem, junto com seu broxante esclarecimento. Depois, segui o linque para o original. Você pode criar sua própria igreja, tal como fiz acima.
Viu só? Tentei fazer um trocadilho com o título do filme, dizendo “quem assiste a Watchmen“, mas fracassei miseràvelmente. Faltou o “the”. Paciência.
O fato é que fui ver hoje. Gostei, é um bom filme; vale o preço que se paga.
Mais de metade do cinema eram nerds como eu, barrigudos, na faixa de 35 a 50 anos, alguns acompanhados de outros nerds, outros arrastando as parceiras. Previsível, ainda mais em meio de semana: se fizeram como eu, esperaram a garotada se divertir e foram no horário mais tranqüilo, para poderem apreciar. Algumas risadas e aplausos mostravam que tinham lido os quadrinhos.
ATENÇÃO: VOU COMENTAR O FILME. Se não quiser saber detalhes, taqui um linque para você pular fora agora: é a entrada anterior deste belogue, sobre o vídeo do bacalhau.
Você foi avisado.
A fita está bem feitinha, mesmo desde a abertura com os créditos. Com a montagem que fizeram, ela já conta logo o que aconteceu a Dollar Bill, ao Traça e à Silhueta sem ocupar tempo de história e tirando esses pormenores do caminho ao mesmo tempo em que supre muito bem a necessidade de contar o que foi acontecendo aos heróis.
Passado o início, o que mais chama atenção é uma diferença previsìvelmente necessária em relação ao original: a supressão de detalhes. Na maior parte, não tenho queixas, porque atrasariam o filme sem contribuir para a história. É claro que, se Alan Moore os pôs ali, ele teve suas razões e a obra não estaria completa sem eles, mas, diabos, então vá ler o quadrinho, que, afinal, é genial mesmo. O filme não os comporta. A saber (e lembrando-me enquanto digito): os conflitos conjugais do psiquiatra e das lésbicas na banca de jornal, as reações de pessoas nos interrogatórios que Rorschach faz nos bares, a senhoria de Rorschach, a segunda visita dele a Dreiberg (perdendo-se o humor da segunda fechadura perdida), as reaparições do policial que primeiro entrou no apartamento do Comediante, o pai do Dr. Manhattan jogando o relógio pela escada de incêndio, o início da vida profissional de Manhattan, o homicídio de Hollis Mason, o encontro organizado pelo Capitão Metrópole onde vemos o destino do Traça. Tales of the Black Freighter não conta, porque já havíamos sido avisados de que não estaria no filme. Mas também não estão lá os resmungos do jornaleiro, embora o próprio jornaleiro esteja e o garoto lendo o gibi também. Para mim, é óbvio que estão lá sòmente para benefício dos fãs, porque nada acrescentam.
Outros detalhes foram trocados, também a benefício da simplicidade. A visita de Rorschach à torre de Veidt foi substituída por uma visita de Dreiberg. A discussão sobre brinquedos juntou-se à “tentativa de homicídio”. No encontro frustrado da segunda geração de vigilantes, o Capitão Metrópolis foi limado, juntamente com seus sonhos infantilóides e patéticos; seu lugar foi assumido por Veidt, que aparece já arquitetando seu plano. A entrevista de Janey Slater à Nova Express deu lugar a sua aparição no estúdio. A morte do pai de Manhattan foi trocada pela de Wally Weaver. Várias falas mudaram de lugar na história ou, então, aparecem ditas por outras pessoas. Os clássicos de saifai do cine Utopia foram trocados por uma exibição de The Outer Limits. Etc., etc. Regra geral, não creio que a versão para cinema tenha saído pior por isso.
Por outro lado, alguns detalhes foram acrescentados desnecessàriamente: a cena de sexo estendida a bordo de Archie (e grosseiramente explícita, em que pesem os benefícios, knowwhatImean, knowwhatImean, winkwink, nudgenudge, saynomore, saynomore, knowwhatImean, knowwhatImean, say — no — more!); a porta do banheiro revelando a Nite Owl e Silk Spectre que Big Figure estava lá dentro; e a exageradamente gráfica remoção dos braços de Larry.
Também o teletransporte é representado com efeitos demais. O original é instantâneo e mais discreto. Em especial, o de Rorschach, logo no começo, é tão súbito que, na percepção subjetiva do próprio, ele só nota que foi transportado depois que termina a frase. No filme, demora-se demais, com perda do humor.
Um detalhe estranho: na tentativa de estupro de Sally Jupiter, depois de apanhar mais do que no quadrinho (gratuitamente, a meu ver), ela não reage mais! No original, ela só não luta porque não consegue se mexer. No filme, fica esperando, sem estar imobilizada. Pergunto-me por quê.
Um detalhe bacaninha: Lee Iacocca no bolso de Veidt.
Um detalhe que tem tudo a ver com o filme todo e era de se esperar do personagem (e não sei como Moore não pensou nisto): descobrimos quem matou John Kennedy. Bem… ao menos naquele mundo.
Um detalhe contemporâneo demais: lutas em câmera lenta. Depois de Matrix, todas as cenas de luta estão em câmera lenta. Pelo menos dá para acompanhar, mas Moore não teria pensado nisso. Não é um mero uso de CGI que não havia em 1985; é uma inserção despicienda.
Por um terceiro lado, o filme (e insisto: é um bom filme) peca na tentativa de, às vezes, ter que enfiar todas as falas sem ter tempo para isso. Várias ficaram aceleradas em relação ao quadrinho, de um modo em que pessoas reais não teriam tempo de pensar, desconjuntadas, descontextualizadas. O exemplo mais forte é o reencontro de Rorschach e Dreiberg no porão. Quando Dreiberg pergunta, “whatever happened to them?”, ele não está contemplativo, e assume um ar de cobrança.
Também assim se perderam vários comentários cínicos de Rorschach, que, além de acelerado, foi parcialmente descaracterizado. Em alguns trechos, emocional demais: p.ex. pedindo para Nite Owl levantar Archie para não bater nas falésias; ou implorando para Manhattan no finalzinho. O Rorschach original é absolutamente apático, indicando a gravidade de sua doença mental. Especialmente na prisão, permanece sereno e não se dirige a ninguém com raiva nem com ironia (as quais demonstra diante do psiquiatra no filme). Imagino, entretanto, que só quem estava atento aos quadrinhos fosse notar a inconsistência. E o ator que o faz está ótimo. Aliás, fìsicamente, Rorschach estava igualzinho, em especial a voz, que foi desperdiçada em narrações aceleradas. Para ouvir uma versão correta de seu diário (aliás a única, em função de quem lê): aqui (original) e aqui (cópia conjugada ao quadrinho, mas abafada).
Um detalhe que não acrescenta a quem leu o quadrinho, mas que compõe um pouco no filme (embora, infelizmente, também o torne mais óbvio): quando o gordo Larry tenta pegá-lo através das grades e pergunta o que ele tem, a resposta nos quadrinhos é “your fingers. My perspective”. No filme, “your fingers. My pleasure”.
A determinação cínica de Rorschach também foi atenuada. Antes de aplicar o golpe ao seqüestrador, ele hesita, o que não faz no quadrinho. Ademais, aquele golpe é indolor (o cérebro já não está ali para sentir) e misericordioso (porque final). No quadrinho, a forma de execução é mais cruel.
O Comediante: perfeito. Infelizmente, a cena com Moloch padece do mesmo mal de quererem dizer tudo sem contexto para isso. O único outro exemplo ruim que me ocorre é Fernanda Montenegro como a prostituta/cigana de A Hora da Estrela, esquecível e torta imitação do indecifrável.
Uma falha que considero mais severa, embora outros vão discordar: quando Manhattan levanta seu relógio da areia, o efeito é o mesmo que seria se o relógio estivesse pronto e submerso e sùbitamente emergisse, afastando os torrões que estão no caminho. Brutal demais. No original, o efeito mostra a extensão do domínio de Manhattan sobre a matéria: o relógio é reunido a partir da areia que está na superfície, sem sujeira, mostrando que não existe nenhuma parte oculta, que você está vendo tudo que há. Isso faz diferença, porque ele enxerga aquele balé cósmico que empolga os astrônomos e vê o equilíbrio de tudo, todos os instantes são como fotografias estáticas onde ele escolhe se focalizar. Não há violência nem restos deixados por suas ações, que respeitam a ordenação elegante do universo.
A respeito disso, houve uma tentativa de se mostrar a perspectiva temporal dele, com as superposições de instantes em um só. Ainda assim, penso que se perdeu o vigor do trecho, tão curto, em que ele contemplava uma fotografia nas areias de Marte. Mais uma vez, parece-me ter sido o esforço de se enfiar tudo em menos de três horas.
Por falar em perspectiva, tem umas que são iguaizinhas. A saber: a primeira, com o sangue do Comediante na calçada; a de Manhattan ao som de Wagner; a da chuva sobre o túmulo do Comediante; a do controle da multidão; as da penitenciária. Ah, quase todas, se não todas.
A atriz que faz a Silk Spectre é bem ruim, mas não tem problema; é a mó gata.
Finalmente, o Grande Plano de Ozymandias. Acho que ficou melhor no filme. O original é muito complexo, envolve mais personagens, mais absurdos e, francamente, é um deus ex machina que sempre considerei especialmente inverossímil, não correspondendo ao conjunto da obra. A versão do filme é mais simples, requer menos detalhes na história (Max Shea, a genética) e, francamente, mais coerente, usando uma ameaça concreta, conhecida de todos, sem mensagens psíquicas.
Falei mal à beça, mas são queixas típicas de quem, na verdade, gostou. Claro que não é perfeito e, até certo ponto, é uma colagem; mas há suficientes passagens iguais para agradar aos fãs do original, que vejo como o principal público alvo.
Não me dê ouvidos (ou, neste caso, olhos). Vá ver e julgar por si mesmo.
Já que estou me sentindo particularmente bem, hoje vim aqui para fazer meu segundo elogio.
Uma das características mais nobres do ser humano é o impulso de contribuir para alguma obra maior. Os bons fãs de segmentos da cultura pop costumam verter esse impulso em fan fiction: histórias usando os mesmos personagens ou ambientadas no mesmo universo de Star Trek, Star Wars, Babylon 5, Harry Potter e pràticamente qualquer seriado, filme ou livro de sucesso entre nerds e geeks.
Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web.
Algumas dessas criações chamaram minha atenção. Regra geral, sua qualidade é ruim, mas percebe-se imediatamente que são feitas com paixão. Esse é o caso de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Exeter, Starship Farragut e Star Trek: New Voyages, que me parecem as mais célebres produções desse tipo (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).
Hidden Frontier está na sétima temporada e já gerou três spinoffs. O capitão tem uma das piores dicções que já vi em tela, os diálogos são óbvios, os uniformes são as típicas e patéticas cópias que cada um comprou de um fabricante diferente (com todas as variações de feitio e cor) e os atores (muito ruins) estão muito mal encaixados em cenários virtuais tirados de videogames. Mesmo assim, a série tem cinqüenta episódios no ar (ou melhor, nos cabos), o que é bem mais do que a média atingida por gente que só fala mal, feito eu. As outras séries têm menos episódios e são melhor produzidas, mostrando que o foco de HF está mais na quantidade: o negócio é gerar novos episódios contìnuamente, ainda que não perfeitos.
Já New Voyages foi uma das grandes surpresas de minha navegação incerta. A série estreou em 2004 e, desde então, tem seis episódios publicados. O produtor, diretor, roteirista, dono do estúdio e manda-chuva geral, James Cawley, despejou seus próprios sestércios — adquiridos como ator em Las Vegas — na montagem de uma ponte de comando idêntica à da série Clássica. Ele mesmo faz o Capitão Kirk em uma continuação que rotula como o quarto ano que a série não teve.
Em New Voyages, é claro que novamente os atores são ruins, mas você não poderia esperar alguém que igualasse o talento de um Leonard Nimoy ou a experiência de um DeForest Kelley. Nesse ponto, o maior pecado é que Cawley tenta overshatnerizar o próprio Shatner. Apesar disso, os valores de produção da série são notáveis. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas dos episódios da Clássica. A iluminação das paredes é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty.
Essa qualidade chamou a atenção de pessoas envolvidas na produção das séries oficiais de Jornada. Agora, entre os produtores está Doug Drexler (artista de CGI em Deep Space Nine), um dos ilustradores é o reverenciado Andrew Probert (criador dos desenhos da Enterprise nos filmes e da Enterprise-D), e há episódios escritos por D.C. Fontana e David Gerrold. Também já participaram Walter Koenig, George Takei, Grace Lee Whitney e J.G. Hertzler (General Martok).
New Voyages vem ganhando tanto reconhecimento que a Paramount assumiu a postura de não se meter e, mais recentemente, a série mudou de nome para Star Trek: Phase II — que é o nome informal dado à série de Jornada que teria sido produzida no fim dos anos 70 (e que acabou se tornando o primeiro filme de cinema).
Nessa esteira, alguns episódios que haviam sido escritos para Phase II em 1977 já estão sendo filmados: “Kitumba” e “The Child”. Este último havia sido escrito por Jon Povill, que era o editor e um dos principais criadores da Phase II original. Em 1988, esse episódio foi adaptado para A Nova Geração, mas, agora, retorna à forma original, tendo Povill como diretor. Além desses episódios, também estão filmando “Blood and Fire”, que havia sido escrito por David Gerrold para a NG em 1987, mas foi recusado à época.
Nos próximos episódios, o modelo de CGI da Enterprise vai ser alterado para tomar as feições que teria tido na Phase II original. É uma espécie de versão mais modesta da grande reforma que Probert desenhou e que se materializou no primeiro filme de cinema, em 1978.
Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare (e faz a referência). A produção visual é perfeita e começa com Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência retroativa ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise é aprisionada em um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e, para colher dados, Kirk envia o Tenente Sulu, que é interpretado por um ator tão jovem quanto Takei era em 1969. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte (sempre ele, mas em fan film a gente perdoa, porque é isso que a gente quer, até cair em coma alcoólico no drinking game). Por causa do acidente, quem volta para bordo é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto George Takei, que lhe dá vida.
O episódio só peca por ter mais de uma hora, extrapolando a duração dos originais em 20%. A meu ver, o problema foi não terem sabido cortar uma porção de diálogos que não contribuem para a história.
Não vou contar mais, mas sugiro baixar e assistir essa homenagem bem feita à série Clássica de Jornada nas Estrelas. O linque para “World Enough and Time” está aqui.
*** Não se pense que eu só esteja falando mal do Acordo Ortotrágico para ser do contra. Justiça seja feita: as regras para os hífens são mais claras agora. Antes, eram muito casuísticas, mas agora são sistemáticas.
*** Recém-lidos: Guia prático da nova ortografia, de Douglas Tufano; 1a. edição, agosto de 2008, Melhoramentos, ISBN 978-85-06-05464-2; Little Lost Robot, conto de Isaac Asimov em I, Robot; Tales of the Teen Titans #41 (abril de 1984), Baptism of Blood, publicada em The New Teen Titans: the Judas Contract.
Até dezembro de 1971, usavam-se acentos diferenciais no Brasil. Naquele ano, por força da lei 5765, deixamos de usá-los. Com isso, deixamos de diferenciar acerto (substantivo: eu acertei, isso foi um acerto) de acerto (do verbo acertar).
Haverá quem diga que o contexto sempre nos permitirá dizer qual das duas palavras está sendo usada. É verdade. Só que, com isso, o texto fica mais difícil, você leva mais tempo na leitura, tem que espremer mais raciocínio que seria melhor empregado interpretando o texto inteiro do que só uma palavrinha. O texto sofre, fica menos fluido, sua velocidade de leitura cai. Eu, pelo menos, sempre fico mais revoltado quando isso acontece.
Posso dar um exemplo de como a reforma de 1971 piorou minha vida sob alguns aspectos. Existe um livro de Monteiro Lobato chamado A reforma da Natureza (não da ortografia). A passagem mais criativa é onde Emília imagina papel nutritivo e com sabor, sugerindo que a fome do corpo seja tratada junto com a do espírito, de uma vez só. Você leria e, ato contínuo, comeria seu livro. Eis aqui o trecho original (cortesia do Scribd, onde você viola direitos autorais sem ser perturbado):
“– Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos — uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?
“A Rãzinha gostou tanto da idéia que até lambeu os beiços.
“– Ótimo, Emília! Isto é mais que uma idéia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos. As últimas serão as da sobremesa — gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.”
Quando li esse trecho pela primeira vez, interpretei essa última ocorrência da palavra gosto como o verbo gostar: eu gosto. Foi só anos depois que descobri que era o substantivo, sinônimo de sabor.
Como poderia Lobato ter resolvido a ambigüidade? No original mesmo, publicado lá pelos anos 40, ela estava resolvida, porque ele pôs acento em gôsto. Nos exemplares pós-1971, tratando-se do verbo, ele poderia ter posto um pronome reto eu, mas, no caso do substantivo, a ambigüidade não tem cura: você fica sem saber mesmo.
Apesar da “solução” de 1971, alguns acentos diferenciais permaneceram: pêra, pára e devo estar esquecendo outros.
Mas, agora, nossos Acadêmicos (que mais parecem os do Salgueiro do que os da Academia Brasileira de Letras) decidiram que não poderiam manter meio erro: tinham, por coerência, que ir até o fim e cometer um erro inteiro. Então, pelo novo Acordo Rotográfico, aboliram os acentos diferenciais que ainda restavam. Está lá, falaciosamente, no Anexo II do Acordo, item 5.4.1:
“As razões por que se suprime, nestes casos, o acento gráfico são as seguintes:
“a) Em primeiro lugar, por coerência com a abolição do acento gráfico já consagrada (…) pela Lei nº 5.765, de 18/12/1971 (…)”
As regras já não fazem sentido, a grafia já não tem lógica. Eles dizem que a pronúncia foi o principal critério da reforma, porém refazem as regras de modo que você não tenha como descobrir a pronúncia de nada a partir da leitura.
*** Podia ter sido pior. De acordo com o mesmo Anexo II, o acordo de 1986 abordou o fato de que algumas palavras levavam acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal (p.ex.: cômico x cómico). Para resolver esse problema, trouxe uma solução muito simples: pretendeu abolir TODOS os acentos da língua. O acordo de 1986 só não foi adiante porque os portugueses o rejeitaram em massa. Aí, os luminares decidiram repensar o caso e descobriram que, puxa vida, olha só, essa dupla acentuação só acontecia em 1,27 % (sim, isso mesmo: um vírgula 27 por cento) das palavras acentuadas! Por causa delas iam eliminar TODOS os acentos!
Repensado o caso, os gênios da Lexicologia descobriram que a eliminação dos acentos traria algumas dificuldades, a saber:
- ao ler as palavras, todo o mundo correria o risco de passar a pronunciá-las errado;
-ao aprender palavras pouco usadas (especialmente as de uso científico), o leitor correria o risco de aprender a pronunciá-las errado;
- de modo geral, seria mais difícil aprender a língua;
- ficaria mais difícil descobrir se o Autor de um texto estaria dizendo análise ou analise (“contanto que eu analise”), fábrica ou fabrica (“a Embraer fabrica aviões”), etc.
Vem cá. Primeiro, os caras resolvem abolir 98,73% dos acentos porque os outros 1,27% têm grafia variável; depois de rejeitada a medida, descobrem que era melhor avaliar o caso antes de tomá-la; e, finalmente, descobrem que sem os acentos ninguém ia mais conseguir ler nada? Qual foi a parte que eu perdi?
Tenho mais perguntas. Vocês já notaram que isso só acontece entre Brasil e Portugal? Nunca ouvi falar de ter havido imbroglios assim entre, por exemplo, a França, a Bélgica e o Canadá; ou entre Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Só nós, os numerosíssimos países falantes do português, é que ficamos dando essas voltas.
E pra que mudar se a gente continua conseguindo ler tudo?
*** Da última vez, comentei que havia algumas próclises e ortografias proibidas no texto do Acordo. Pra que não se pense que estou inventando ou que os exemplos são poucos, trago-vos mais alguns:
- No Anexo II, item 5.3(b): “com a possibilidade de, sem acentos gráficos, se intensificar a tendência (…)”.
- No Anexo II, item 5.4.1(a): “cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locação de cor;” — exceto que o certo é locução, não locação! Não tem ninguém alugando nada!
- No Anexo II, item 7.1: “Se, de fato, se abolisse o uso restritivo (…)”
Veja bem, não é que tenha que sair perfeito. É que quem está cagando a regra são eles. Então, quem tinha que PRESTAR ATENÇÃO no que está fazendo e FAZER CERTO são eles, não eu!
*** Já que não dá pra respeitar o que esses caras escrevem, estou pensando sèriamente em esquecer tudo isso. Estou — juro — disposto a voltar a escrever conforme pré-1971, com todos os acentos diferenciais que foram extintos então — e olha que nasci depois da reforma de 71. Assim, no trabalho eu vou até respeitar o Acordo. Mas, aqui no belogue e no Cantinho, realmente cogito se não vou passar a escrever cabêlo e obsoléto (sim, eu sei que obsoléto não levava acento).
De início, a idéia me pareceu ótima. Adquiri-a em visita à casa de T’Riet e Othon, em Houston. Foi assim: fiqui aqui ao computador o dia inteiro e, como faz muita gente, pus uma trilha sonora no drive. Exceto que, em vez de CD ou Media Player, a trilha era um DVD, que ficou rodando. O vídeo até estava ligado, mas eu queria era ficar ouvindo, com todos os diálogos e efeitos sonoros.
Um dos DVDs que rodei hoje foi Star Trek: the Motion Picture, edição do diretor (outros foram outros filmes da seqüência).
Pronto: agora à noite, meu cérebro não pára de ficar reproduzindo a música do encontro dos klingons com V’Ger. Inteira, com todas as trompas, fagotes, violinos e violoncelos. Quando acaba, começa de novo.
Antes: minha irmã me ligou alguns minutos atrás para dizer que o Salgueiro foi campeão do desfile de Carnaval no Rio e que, por isso, estão falando em fechar a praça Saenz Peña para comemorar. Para bom entendedor, meia frase basta: isso signif tudo mij e vomit, vdros quebr, tiros ocasion, tmlto e depred generaliz. Ah, que maravilha morar numa terra de tanta brasilidade, tanta malemolência, tanta ginga e selvageria.
E agora, vamos à mensagem de hoje.
*** Eu vivo falando mal de tudo. Então, para variar do padrão, hoje vou elogiar uma pequena peça tecnológica.
Meu computador anterior rodava Windows 2000. Nessa versão do sistema, o Windows Explorer permite a busca de arquivos: você indica o diretório onde o arquivo deve estar, o nome do arquivo, parte dele ou uma seqüência de texto contida nele, e ele encontra o arquivo para você. Um dos problemas é que essa busca é muito lenta.
Até que instalei o Vista (não tive escolha: veio assim de fábrica). A busca de arquivos do Windows Explorer é desastrosa. Ele só tem um campo para você preencher com palavra-chave, que pode ser o nome do arquivo ou texto contido no arquivo. A busca é extremamente lenta e, depois de alguns testes, confirmei que o Windows não conseguia encontrar um determinado arquivo ainda que fosse o único do diretório e eu apontasse qual diretório era esse. Além disso, retorna resultados que não se enquadram nos parâmetros de busca apontados — ou, em outras palavras, que não têm nada a ver com o que eu procurava e que só me fazem perder tempo. Devem ser os algoritmos heurísticos da Micro$oft. Sabemos no que deu o último computador que foi concebido para ser programado heuristicamente.
Então, fui à Web e catei uma meia dúzia de programinhas de busca ou gerenciamento de arquivos. Encontrei uma pequena maravilha chamada Effective File Search 5.5, de uma empresinha chamada Sowsoft. É um sharewarezinho básico como há décadas estamos acostumados a ver.
Sem sacanagem: o programa é levíssimo e rápido como um trem britânico em passagem de nível. A melhor parte são as opções de busca: você pode especificar tamanhos mínimo e máximo do arquivo que está procurando, data mínima e máxima, e texto contido no arquivo. Tamanhos e datas já ajudam pra caramba: você sabe que baixou aquele PDF entre dezembro de 2007 e março de 2008, sabe que pesa mais de 100 kB mas menos de 1 MB, só esqueceu o nome. Além disso, ele te dá operadores booleanos: é a opção de procurar arquivos com um nome “ou” outro nome, “e não” aqueloutro nome.
E é rápido. Mal você clica OK, ele já te dá os resultados precisos que você estava procurando, sem a demora inútil e burra do Vista. Para minha surpresa, descobri recentemente que ele dá alguns poucos resultados falsos, mas nisso não se compara ao Vista, que gera muito mais resultados falsos do que verdadeiros. E, como ele gera poucos resultados, é muito mais fácil identificar os falsos e verdadeiros do que no Windows, onde você fica um tempão rolando a tela para chegar no arquivo que procura.
Na instalação, o EFS ainda insere um atalho no menu de botão direito do Windows Explorer. Ali, onde você costuma encontrar “explorar’, “copiar”, “colar”, “excluir”, “criar atalho”, agora tenho também “effective search”.
Usuários de shareware têm o hábito de continuar usando a versão que baixaram e considerar que sejam apenas um mal necessário aqueles popups de lembrete “registre-se já para ter a versão pro”. No caso do EFS, o programa simplesmente pára de funcionar após trinta dias. Mas é tão bom que me fez pensar na justiça de retribuir a quem o criou da maneira mais justa e, além do mais, eu realmente queria continuar a usá-lo honestamente. Então, abri a mão: fui ao saite, paguei os R$ 70 pela licença, e eles me enviaram o código de desbloqueio por email. Bastou clicar e voilà, está funcionando para sempre, sem popups e sem spyware ou algum outro código malicioso oculto (meu firewall é um Comodo 3.5, sensível e atento. Eu saberia). Dinheiro bem e justamente gasto.
Um usuário mais avançado poderia argumentar que o EFS não valesse R$ 70, já que, certamente, foi construído em cima de um código mixuruca que um micreiro das antigas conseguiria imaginar na sua garagem em menos de meia hora. Mas você paga pela comodidade: eu não sei escrever o código de busca mixuruca. Tenho certeza de que seria fácil aprendê-lo, mas quanto tempo tenho? Então, prefiro pagar a quem me fez o conveniente e gentil serviço de trazê-lo pronto.
É assim: a empresa faz um programa eficaz, leve, simples, eficiente, e o cliente satisfeito a remunera por isso. Tão satisfeito que ainda faz propaganda de graça. É assim que devia funcionar com todos: dinheiro honesto ganho de maneira honesta.
Recém-lidas: Wonder Woman #286 (dezembro de 1981), primeira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008); Justice League of America #200 (março de 1982), páginas selecionadas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).
Acabo de ler que Sérgio Naya morreu hoje na Bahia. Sòzinho.
Para uma família, deve ser muito triste ler os comentários que já começaram a aparecer no saite dO Globo: “já foi tarde”, “tomara que o túmulo desabe” etc. Mas você colhe o que planta.
Até há pouco, a riqueza do ex-deputado estava inatingível, impedindo o pagamento de suas vítimas. Diz o mesmo saite que o advogado delas considera que, agora, vá ser mais fácil encontrar esses bens, porque, para que sejam herdados, terão que aparecer em juízo.
Infelizmente, discordo. Existem meios e modos, especialmente em um país ainda não informatizado. Além disso, os interessados sempre poderão continuar a curtir a fortuna sem que ela esteja em seu nome, quanto mais não seja porque ninguém virá reclamá-la. Formalidades jurídicas não importam quando o exercício do poder se faz na vida prática.
Mas o comentário mais sábio que li foi também o mais sucinto (como costuma ser): a esta hora, ele está curtindo a vida no Taiti.
Recém-lidos: Catch That Rabbit e Liar!, contos de Isaac Asimov em I, Robot; Justice League of America #168 (julho de 1979), publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008); Super-Star Holiday Special (abril de 1980), segunda história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).
Em inglês, quando um texto é um absurdo, costuma-se dizer que foi escrito não por um ser humano, mas por um macaco treinado.
Aí, um jornal nova-iorquino satirizou recente incidente onde um chimpanzé foi morto a tiros pela polícia: uma charge mostra o chimpanzé morto e um policial dizendo ao outro, “vamos ter que encontrar outro para escrever os pacotes de incentivo econômico”.
No saite dO Globo On, o que não falta à notícia são comentários irados (43 até agora), acusando o jornal de extremo racismo contra o Obama.
Convém não esquecer que não é o próprio Obama quem escreve as leis que aprova; que o verdadeiro Autor é o Congresso.
Acho que o racismo está na cabeça de quem comenta. De onde estou vendo, eles confessam que consideram o Obama comparável a um macaco — não necessariamente o cartunista considera.
Recém-lidas: Justice League of America #166 (maio de 1979) e #167 (junho de 1979), ambas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).
Conforme eu disse há mais de uma semana, estou mesmo estudando esta desgraça lingÜística (orgulhosamente a favor do trema — ainda vai ter passeata em defesa dos tremas discriminados).
Uma das dificuldades com que já me deparo é que não posso confiar no texto do próprio Acordo conforme baixei do saite da Presidência. Granted, os textos legais de lá sempre dizem que não substituem o original publicado no Diário oficial. Mesmo assim, quem é que vai ler direto no D.O.? A gente baixa e confia. Exceto que não.
Por exemplo: em português, é proibido usar pronome oblíquo depois de vírgula. Isso não tem nada a ver com ortografia; é regra de sintaxe. Mas veja o que encontrei no texto:
“… entre os princípios em que assenta a ortografia portuguesa, se privilegiou o critério fonético…”
Além disso, encontrei alguns casos de vírgula entre sujeito e predicado (uma heresia que nem a tiro de canhão 37 a gente consegue extinguir) e a estranha esquizofrenia segundo a qual, às vezes, o texto suprime o trema em sua própria redação (antecipando aquilo que ainda não estava em vigor), mas outras vezes não.
Nesse ponto, pergunto-me se estou estudando no exemplar correto do Acordo. Mas, então, onde?! No saite da Academia Brasileira de Letras, talvez? Lá não tem.
***
Ontem, uma advogada veio me dizer que, agora, cocô não vai mais ter acento. Eu contestei que sim, vai continuar a ter acento sim, já que é oxítona terminada em o. E fiquei indignado: como poderiam, como ousariam tirar os acentos das oxítonas terminadas em a, e, o? Não pode; a tendência natural da língua portuguesa é fazer de todas as palavras paroxítonas, o que faz com que essas oxítonas tenham que ser acentuadas para indicar que saem do padrão. Com a displicência de quem vê que vai levar o xeque-mate, ela saiu dizendo que não sabia e que, segundo o Globo Esporte, não saberemos mais o que estaremos comendo: se côco ou se outra coisa.
Primeiro: então Globo Esporte virou autoridade em matéria de ortografia?
Segundo: essa anedota (real embora) revela um aspecto mais profundo e mais nefasto do Acordo Ortopédico. A esta altura, já tem gente acreditando que TODOS OS ACENTOS VÃO CAIR! Para alguns, seria muito conveniente não ter que acentuar mais nada: não precisariam aprender aquilo que nunca souberam.
*** Apidêite do apedeuta: na caixa de comentários, aqui no final deste texto de hoje, você vê o estranho caso de uma professora que declarou a sua turma que não vai ensinar-lhes a reforma e que, na verdade, a reforma oficial mesmo é só em 2010. Não sei de onde ela tirou que o Acordo não seja oficial, nem de onde sacou 2010. Se tivesse lido o texto do Acordo, veria que o fim da transição é em 2012. Aliás, deve ser de propósito, para coincidir com o fim do mundo conforme o calendário maia e, assim, ninguém ter que aprender nada.
Agora, essa “professora” mostra uma atitude comuníssima em brasileiros, especialmente os que declaram imposto de renda: vai deixar para o último minuto, e nem um segundo antes. Uma vergonha.
***
Procurando por outra coisa, deparei-me com esta coleção de pequenos textos de George Orwell. Se você clicar neste linque que estou fornecendo, vai cair em um ensaio interessantíssimo, publicado em 1945, ainda atualizado (como, de resto, 1984 também está) e chamado Politics and the English Language. Trata-se de uma sagaz análise sobre como a língua inglesa está se deteriorando e como essa deterioração facilita, ou melhor, é aproveitada para finalidades políticas escusas que acabam por retroalimentá-la positivamente.
A leitura é fluida e acaba servindo como uma versão resumida do apêndice de 1984 (inédito à época mas perto de ser concluído), no qual Orwell descreve a criação do Newspeak, a “nova linguagem” do Partido de sua distopia. Faz tempo que estou com vontade de traduzir as passagens mais relevantes desse apêndice, que é uma espécie de manual do método mediante o qual o Partido pretende reduzir a possibilidade de discursos não ortodoxos. Extinguindo-se palavras da língua e amarrando-se a sintaxe, torna-se impossível a formulação de certos conceitos. De fato: se você não tem um nome para sua idéia, você não consegue comunicá-la a outros e, na verdade, será impossível conduzir raciocínios com ela. Efetivamente, a idéia se tornará inconcebível. Diferentemente das demais línguas, Newspeak não pretende expandir, mas limitar a variedade de pensamentos possíveis.
Em particular, há um trecho do ensaio que ecoa com precisão uma passagem do livro. É onde ele menciona que, ao meramente repetir o discurso ortodoxo, você se torna um autômato, e sua laringe emite sons sem que o cérebro disso se aperceba, anestesiado como está. Se a luz bater no seu óculos e fizer determinado reflexo, vai parecer que o óculos são discos brancos, sem olhos por trás, indicando que ali não há uma pessoa. Ora, essa é exatamente a descrição que ele faz de um sujeito que repetia o discurso vazio do Partido na segunda cena do refeitório em 1984.
***
Recém-lidas: Superman #292 (outubro de 1975), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008); The Flash Spectacular (DC Special Series #11, fevereiro de 1978), publicada em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008); Batman Spectacular (DC Special Series #15, verão de 1978), terceira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).
Genuìnamente tentando estudar o Acordo Ortográfico. Mas, como podem ver, ainda escrevo pelas regras anteriores a 1971, onde genuìnamente levava acento grave.
Pois é, como dizia meu professor de Direito civil, um lodaçal. Base XI, item 2o., alínea “a”, exemplifica uma regra para proparoxítonas com a pura expressão de como me sinto: “sôfrego, sonâmbulo, trôpego”.
O texto do Acordo, conforme baixei da página da Presidência, vem com alguns erros de transcrição que me fazem perder a fé nesse que é o conteúdo oficial divulgado pelo governo. Então, fui procurar o mesmo texto na Biblioteca Nacional. Para minha alegria, de lá salvei um PDF, que, depois constatei, sofre de mutilação textual: algumas linhas foram suprimidas e delas só vemos as cabecinhas de algumas letras. Deve ter sido na conversão de Word para PDF.
Amargurado, procurei o saite da Academia Brasileira de Letras, o STF de nossa língua, Grandes Pajés da tribo, doutos exegetas das Tábuas da Lei, autoridades máximas a quem nos voltarmos em momentos de grande comoção, confusão e consternação nacional.
“Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros, (…) tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional.”
Que me perdoe o Alex Castro, mas este é um momento em que não se pode errar no português. Saite da ABL não é notinha de rodapé nem aula de Matemática. Então, vali-me de um serviço que a Academia oferece, no qual você manda sua dúvida de Português e a instituição responde. Taqui a missiva.
“Na página de apresentação da ABL (‘Quem Somos’), encontra-se o seguinte trecho:
“‘Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros,’
“Minha dúvida é: não falta uma vírgula após o aposto? Assim: ‘40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta, e 20 sócios…’
“Uma segunda dúvida é motivada pelo seguinte trecho: ‘tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional’.
“Conforme está redigido, o texto poderia reduzir-se a dizer que a ABL tem por fim o cultivo (da língua) e a literatura. O cultivo e a literatura. Há simetria nesse texto? Não seria mais cabível dizer ‘… o cultivo da língua e DA literatura nacional’?
“Uma terceira dúvida: se a missão da Academia é a preservação (ou, em suas palavras, o cultivo) da língua, não deveria sua página de apresentação ser a primeira a dar o exemplo? É bem verdade que o texto continua compreensível conforme está, mas seu objeto não é outro assunto, nem a língua é nele meramente instrumental. De fato, é a página de apresentação, a oportunidade primeira de se estabelecer um padrão e demonstrar autoridade sobre a matéria. Se falhar a ABL, bastião mais nuclear da língua, é que nada mais há. A ela se volta o cidadão em busca de raízes — para sua frustração.
“São minhas dúvidas para hoje.”
Cabe um debate sobre a melhor concordância: “da língua e da literatura nacionais”? Mas preferi não entrar nisso; a falta de simetria era mais chocante.
Veja bem, não estou criticando alguma página informal da Web. Saite da ABL é coisa séria; é lugar onde eles têm que ser os primeiros a dar o exemplo. O padrão para eles tem que ser muito mais alto do que para mim, porque eles têm que ser o padrão.
Se for para fazerem como está, melhor fechar a porta e ir pra casa. Se bem que, conforme ouvi quando comentei isso, o Brasil inteiro tem que fechar a porta e ir pra casa.
***
Apidêite em 15/02/2009: hoje recebi um email de resposta da Academia: “concordamos com suas palavras”. Mas não mudaram nada no saite!
Um artista de nome Scott Wade mora em uma estrada de terra. Essa terra é feita principalmente de calcário, que deixa uma poeira bem fininha. Todo carro que percorre a estrada a mais do que a velocidade de uma tartaruga a galope (inclusive o carro de Wade) levanta atrás de si uma nuvem de poeira branca que forma um filme no vidro traseiro.
Deparando-se com uma tábula rasa para a arte toda vez que sai com seu carro, Scott gerou este magnífico resultado.
“A 7-Eleven tinha que mandar os caixas guardarem tribbles atrás do balcão para eventualidades como essa.”
“Sim, mas o grão não pode estar envenenado.”
“Essa é uma boa hora para a 7-Eleven usar borgs como seguranças. ‘We are the Borg. Robberies are futile. You will be assimilated into prison. Existence, as you know it, is over . From this time forward, you will service inmates in prison.’”
“This man shows no honor, and brings disgrace upon his family.”
“Aposto que havia bloodwine envolvido.”
“É uma pena ver que a crise abalou até o Império Klingon a ponto de recorrerem ao crime.”
“Isso já aconteceu no episódio 55. Acho que os romulanos estão envolvidos e deveriam ser investigados.”
“Today is a good day to rob!”
*** Apidêite
Alguns especialistas atentos denunciaram que não era realmente uma bat’leth, mas uma Valdris. Não era sequer uma arma klingon. Falha minha, pois eu deveria saber disso. Afinal, klingons não são manés.
Agora que o Genoma está decifrado, a Genética anda brincando com algumas potencialidades bem sérias que, até pouco tempo atrás, só interessavam a quem gostava de ficção científica. Em particular, existe uma possibilidade (bastante concreta mesmo que hoje ainda não esteja disponível) de os pais interferirem no código genético de seus filhos.
Abstraindo de governos totalitários e seus padrões eugênicos (Admirável Mundo Novo, alguém?), muita gente concordaria em se valer disso. Eu sou um deles. Afinal, você aproveitaria toda chance de evitar que seu filho nascesse com alguma doença séria, ou autismo, síndrome de Down, diabete ou mesmo alguma perturbação menor, como miopia. Queremos o melhor para nossos filhos, não é verdade?
Mas para quem faríamos isso? No momento em que interfere no genótipo, você pensa que está favorecendo seu filho. Está mesmo? Considere que ele ainda não existe. Você não está dando nada a ninguém, porque o donatário não está lá para receber. “Ah, mas está sim, estará aqui no futuro, vai aproveitar os benefícios no futuro.” Sim, mas seu filho, hoje, não recebe nada, porque não existe. Existe um conjunto de células, ou apenas uma célula, com a qual você interfere. A conseqüência é uma criança saudável, mas a criança saudável já nasce assim. Para ela, nunca houve um estado não saudável, nem mudança de um estado para outro. Ela sempre foi saudável. Você poderia pensar, “tem que me agradecer por isso, sem interferência não teria nascido assim”. Não teria, mas teria nascido de algum jeito. Ou não teria nascido. Para ela tanto faz, porque, seja como for que nasça, dali para a frente ela vai se virar, vai continuar existindo. O filho dirá lìcitamente ao pai: você não ME fez nada. Fez alguma coisa, mas não a mim, porque não havia eu. Qualquer coisa que tenha sido feita à criança, só terá sido feita depois de seu nascimento (essa vírgula era proibida, mas útil à compreensão da frase).
Considere, ainda, que o embrião não teve escolha nem foi ouvido. Imagine a possibilidade de que, afinal, ele escolhesse nascer como Down. A convenção social dirá que ele seria infeliz e que essa escolha não faz sentido. Mas lembre-se de que o Down pode não saber que é Down. A vida nunca foi de outro jeito para ele, assim como o cego que nasce cego não sabe o que é enxergar, nem, portanto, tem padrão de comparação. A vida, para eles, sempre foi isso, então é possível que estejam satisfeitos. É como a Matemática do colégio onde estudei, que era ensinada pelo método Papy. Diziam-me: esse método é mais difícil, não é? E eu, perplexo, perguntava: mais difícil do que o quê? Não conheço outra; para mim, Matemática é isso.
Se o embrião não tem escolha, será que o estamos beneficiando? Se o embrião ainda não é gente (aliás, não é nem embrião: é zigoto), não existe ainda a pessoa. Na óptica do Direito, não existe o sujeito de direitos; ele não tem direitos nem liberdade, porque, antes de tudo, ele não é. Não confunda com uma situação em que a pessoa está dormindo, ausente, em coma ou de outro modo incapacitada. “Você não estava, então eu tomei a liberdade de lavar a louça.” “Você ainda estava na barriga de sua mãe, então reprogramamos suas células.” Não. Nessas frases, não haveria o “você” nem o “suas”. Ninguém é destinatário dessas ações, porque a pessoa não existe, nem sequer o feto. Não há ninguém na barriga da mãe.
Mas estamos beneficiando alguém. Precisando de uma resposta, meu foco se volta para o outro interessado: os pais. Submeto esta hipótese a sua apreciação: ao escolher características genéticas do filho, os pais não beneficiam o filho; beneficiam a si mesmos. Preocupam-se com suas escolhas, com seu bem-estar, seu alívio de ter um filho com tais ou quais atributos. Atenção: não estou dizendo que estejam errados, nem estou dizendo que não amam os filhos. É só que, enquanto o filho não nasce, não há nem o “a quem” amar. Estou só apontando quem realmente é o interessado na manipulação genética. Se pensarmos no filho, a pergunta nem se aplica: enquanto ele nem existe, não faz sentido dizer que o “quem” seja ele. Ele só existe depois que já houve a manipulação.
***
Em outro tópico, estive novamente no KFC da rua São José, no Centro do Rio de Janeiro. É impressionante: de todas as vezes em que fui lá e pedi uma refeição, nunca acertaram meu pedido. Eu digo: feijão, salada KFC e purée de batata. Eles trazem arroz, salada KFC e purée de batata. Ou: feijão, salada KFC e arroz. Ou: feijão, salada KFC e farofa. Ou: feijão, arroz e batata frita. É consistente mesmo, tem direito até a certificação ISO 9000: erram meu pedido em 100% das vezes.
Pergunta Tostines: eles são desqualificados porque o salário é baixo ou o salário é baixo porque são desqualificados? Do alto de minha crueldade resmungona liberalista, acredito na segunda hipótese. A óptica do coitadismo preferirá a primeira.
Beiços-caídos no KFC me fazem pensar em eugenia profilática.
***
Recém-lido: Reason, conto de Isaac Asimov onde, a partir do raciocínio lógico, um robô se torna um fanático religioso.
Às vezes eu comento como a imprensa brasileira anda açodada e como tem gente desqualificada nas redações, agindo na contramão dos jornalistas responsáveis que não merecem meu enxovalhamento.
Olhem só esta. O Yahoo! Brasil reproduz a Agência Estado, que teria criado a seguinte matéria.
O texto diz assim: “A juíza Susan J. Crawford, que supervisiona os julgamentos por terrorismo na base militar norte-americana de Guantánamo, retirou ontem as acusações contra (…) um suposto terrorista saudita da Al-Qaeda (…)”
Juízes não “retiram acusações”. Juízes julgam. Quem acusa (ou “retira acusação”) é uma das partes do processo — no Brasil, é o Ministério Público, que, aliás, está impedido de “retirar acusações”. Lá não sei quem faz isso. Sei que é um órgão estatal, mas o que importa é que não é a própria juíza.
O texto prossegue: “Os encargos contra al-Nashiri representavam o último caso em andamento por crimes de guerra…”
Não tem algo soando estranho, não? Que “encargos” poderia haver contra ele? Em casos assim, costumo retraduzir para o inglês. “The charges against al-Nashiri…” Charges são acusações, não “encargos”. Sabe o que foi que causou isso, né? O bom e velho controlcê-controlvê. Usa-se um programa de tradução automática (Babylon, Babelfish etc.) e joga-se no texto aquilo que sai, sem nenhuma crítica.
Mais adiante, a matéria diz que “O porta-voz do Pentágono Geoff Morell disse que Susan retirou as acusações contra al-Nashiri sem entrar no mérito do processo.” Isso confirma minha dedução acima: de que a juíza extinguiu o processo desconsiderando as acusações, mas não as “retirando”. Está faltando técnica. Está faltando, mais do que tudo, PESQUISA. Olha só o que diz o texto original (que achei aqui): “On Thursday, two Obama administration officials said that the charges against al-Nashiri will be dismissed without prejudice. That means new charges can be brought again later.” “Dismiss” uma acusação não é “retirá-la”, mas desconsiderá-la, deixar de julgá-la.
O Cardoso tem razão: os caras querem ter conteúdo, mas só o que fazem é repetir o dos outros, sem nenhuma contribuição própria, sem dedicar um iota a pensarem no que estão escrevendo. Fala-se muito em reações rápidas, mas não adianta reagir rápido se só o que sai são barbaridades.
Agora, entrando no mérito. Alguns dias atrás, eu soube que o Obama tinha mandado suspender os processos contra os prisioneiros de Guantánamo. Quem olhar de fora pode pensar que isso é uma indicação de mudança de ânimo no sentido de libertá-los. Mas observe um detalhe: se o réu está preso, o que mais lhe interessa é que o processo ande. Assim haverá resolução e ele ou irá logo para a rua, ou ficará preso mais tempo — mas terá uma duração definida para sua pena, cujo cumprimento começa a contar imediatamente. Já se o processo é suspenso, ele continua preso indefinidamente, sem ainda ter iniciado o cumprimento de sua pena, estendendo um tempo de prisão que não conta (aos bacharéis: estou presumindo que não haja detração penal [CP, art 42] nos Estados Unidos, ou que, havendo, eles não a apliquem aos terroristas). Muito ruim para ele. Então, isto que é anunciado como grande salvação pode ser, na verdade, um agravamento da situação desses presos.
Ela diz que “A capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo é uma das características desses jovens, que cresceram em meio à velocidade e enxurrada de informações da era digital.”
Discordo fundamentalmente. Não, essa capacidade não é uma das características deles. Pelo que tenho constatado no ambiente de trabalho e como leitor dos textos dos outros, essa geração, que já nasceu com DDA, na verdade não consegue fazer sequer UMA tarefa ao mesmo tempo. Sai tudo errado.
“Nascidos a partir da metade dos anos 80, aprendem e se adaptam a novas situações com facilidade.”
Aqui tenho outra discordância. Não, eles não se adaptam com facilidade. Eles não se adaptam, ponto. Ficam só te olhando e querem tudo pronto.
“Proporcionalmente, são mais ousados e criativos.”
Ousados são, como todo adolescente. Criativos nunca. Aliás, é pior: não apenas imitam descaradamente como esperam que você os premie pela suposta criatividade. Questionados, reconhecem quem teve a idéia primeiro, bem como o fato de que sabiam disso, mas não admitem que estejam copiando!
Conheço uma moça que, embora seja da minha geração e não da Y, não conhece o conceito de criatividade. Ela tinha o estranho hábito de copiar textos dos outros e apresentá-los como próprios. Parecia julgar que, se trocasse o nome do Autor pelo dela, automàticamente o texto passaria a ser dela, como ela gostaria que tivesse sido. Certa vez, mostrei-lhe alguns desenhos de naves espaciais que eu havia feito. Respondeu-me elogiando e perguntando de onde eu os havia copiado. Mas não perguntou em tom de deboche, não: de boa fé, ela realmente acreditava que fosse impossível alguém criar alguma coisa; que, òbviamente, se alguém lhe mostra um desenho (bonito ou feio), é que necessariamente copiou de algum lugar. Imagino que seu cérebro fosse incapaz de alcançar o conceito de que alguém tinha que ter sido o primeiro. Senão, seria como esclareceu o sábio hindu: “it’s turtles all the way down”.
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Em outra nota, o governador do Illinois, Rod (ou Rob, as fontes divergem) Blagojevich, perdeu o cargo em razão da dificuldade de pronúncia de seu nome. A primeira-ministra da Islândia, Jóhanna Sigurðardóttir, mostrou-se preocupada por ser a próxima.
Aqui na Internet, muita gente diz que a Bíblia é um monte de histórias da Carochinha, que é tudo mentira etc. Eu também não acredito em algumas de suas histórias, mas isso não quer dizer que tenham sido escritas de má fé. Prefiro acreditar que tenham sido escritas (ao menos em parte) por gente sincera.
Considere, também, o episódio de I Crônicas 13 em que a Arca da Aliança estava sendo transportada em um carro de bois. Um dos bois tropeçou, a Arca quase caiu do carro, e o garoto hebreu Uzá, que vinha caminhando ao lado, estendeu a mão para evitar que ela caísse. Dizia a regra divina que era proibido tocar na Arca. Diz a narração que o pobre Uzá foi imediatamente fulminado por um raio.
Considere, ainda, que a Arca era revestida de ouro e que ela e o carro de bois eram feitos de madeira. Considere, finalmente, que, por décadas e séculos, ninguém tocara na Arca diretamente: só nas varas de madeira com que era transportada.
A madeira é um isolante elétrico. É concebível que, com o roçar das varas e carros durante tanto tempo, a superfície da Arca tenha acumulado um bocado de carga eletrostática. Um dia, o camponês Uzá, certamente descalço sobre o chão do deserto, toca a Arca com seus dedinhos — e fecha o circuito de aterramento. A descarga flui imediatamente por seu corpo, causando parada cardíaca. Como ninguém sabe fazer ressuscitação cardiorrespiratória, Uzá morre. É claro, isso é só uma hipótese. Não sei quanta carga o revestimento de ouro sustenta sem romper o dielétrico.
Outra explicação plausível para mim é um pouco mais elaborada e exige que o boi não tenha tropeçado tanto quanto ficado inquieto. Considere que uma Arca, sendo transportada pelo deserto, projeta-se uns dois metros acima do chão, destacando-se na paisagem. Suponha que estivesse ameaçando chuva (o que é raro mas acontece). Com o acúmulo de eletricidade estática no ar, forma-se um pouco de ozônio, cujo cheiro os sensíveis animais logo percebem (até nós: é o “cheiro de terra molhada” de antes da tempestade). O boi fica inquieto, a Arca quase cai, Uzá estende a mão e, com isso, conecta a Arca à terra. A Arca atua como um pára-raio, rompe o dielétrico (ainda mais porque está carregada há anos) e um raio realmente cai em cima do garoto.
É claro, isso são apenas hipóteses. Não tenho como testá-las, mas os Mythbusters têm. Nem sou tão bom em Eletricidade, cujo ramo da Engenharia era minha última opção ao fim do curso básico (acabei indo para a mecânica, que era a primeira).
Se eu não for apedrejado por causa dessa mensagem, pretendo vir aqui outro dia e reinterpretar a idade de Matusalém e o Sol parado de Josué. Uma dica: calendários.
Ontem fui ao supermercado Multi Market, no Rio de Janeiro, esquina das ruas Uruguai e Conde de Bonfim. Duas geladeiras de sorvete Kibon. Na da esquerda, o anúncio: “sorvete Kibon 2 litros R$ 10,90”. Dentro dela, os sabores de sempre: creme, chocolate, flocos, napolitano. Na da direita, flocos, napolitano, brigadeiro, Diamante Negro e Sonho de Valsa. Estes dois últimos tinham preços separados, mais caros, marcados junto a eles. Então, para me ater à promoção, peguei o de brigadeiro.
Chegando ao caixa às 22:11 h, brigadeiro custava R$ 11,90. Perguntei à Operadora Roberta por que ali eram R$ 11,90 se, na geladeira, eram R$ 10,90. Ela veio com o caô de que brigadeiro era mais caro e que o preço anunciado era só para os outros. Retruquei que não: que ele estava sem preço e, portanto, o preço mais baixo valia para ele também.
A operadora chamou a supervisora, que, primeiro, confirmou a uniformidade de preços. Mesmo assim, por insistência da maldita operadora (como se fosse ganhar comissão em cima de 1 real), a supervisora foi até a geladeira. Vi que ela procurava um preço diferenciado para o brigadeiro, sem sucesso. Voltou devagar, certamente pensando em algum jeito de sacanear o consumidor. Chegou dizendo que, como o brigadeiro estava na geladeira da direita, o preço de R$ 10,90 não valia para ele.
Eu poderia ter argumentado que (1) outros, para os quais os R$ 10,90 valiam na geladeira da esquerda, estavam na da direita também, o que não mudava seu preço; que (2) brigadeiro estava sem preço, então o cliente tem que adivinhar quanto é?; e que (3) brigadeiro sem preço, anúncio de Kibon 2 litros sem especificar sabor, é óbvio que o preço do anúncio vale para brigadeiro também.
Mas eu não disse nada disso. Só a encarei firme e disse, “então vamos fazer o seguinte. Por causa de 1 real, vamos estornar R$ 11,90. Tá bom pra você?”
Ela fez sem discutir, mas, no caminho pra casa, fiquei pensando que havia feito muito pouco. Eu devia ter simplesmente largado tudo mais em cima do balcão e ido embora sem levar nada. Afinal, se eles estão de sacanagem, também eu devia estar. Devia ter largado tudo ali em cima, só para terem o trabalho de guardar tudo de novo. É verdade que, em vez de me vingar em cima da empresa, eu estaria me vingando em cima dos empregados, mas foram os empregados que me trataram mal, com antipatia e criatividade em me aborrecer.
Pensei mais: que esse é o comportamento de todas as empresas que lidam com consumidores no Brasil. Presume-se que o consumidor (jamais cliente) esteja errado, procuram-se formas de aborrecê-lo, abusa-se da desvantagem logística da pessoa física. Por acaso vai falir o Multi Market se, uma vez só, admitirem o erro e me deixarem levar o sorvete pelo preço que me prometeram? Vai CAIR A MÃO se tirar um reÁU do preço final? Faltava menos de uma hora para fechar o mercado, ninguém mais ia levar sorvete em dia de chuva forte, era só explicitar o preço diferente na manhã seguinte. Mas não: por preguiça, por aleivosia, por espírito emulativo, só o que lhes ocorreu foi estimular mais um pouco a reação de Michael Douglas em Um Dia de Fúria.
Compare com as práticas da Amazon.com. Um livro demorou 61 dias para chegar. Escrevi reclamando, e simplesmente mandaram outro. Acabaram chegando dois e perguntei-lhes se queriam o segundo de volta. Recusaram e sugeriram que eu o doasse a uma biblioteca pública.
Sei que estou levantando muito o sarrafo da comparação. Mas ilegalidades como a do Multi Market se repetem todos os dias com cada um de nós, várias vezes por dia, neste País abençoado onde o Direito do consumidor só existe no papel. Quando aprendo formas de combater esses pequenos massacres, constato que não há relações jurídicas, mas apenas relações de poder. As reações são sempre retaliaçõezinhas, como vir aqui escrever isto ou negociar, na hora, quem sai perdendo mais: eu, R$ 1, ou eles, R$ 41 (se bem que essa é uma batalha que já começa perdida, porque as empregadas não sabem fazer conta e, pior, não se importam. Nem se importa a empresa, principal interessada: se eu não levar, algum favelado leva mesmo).
“Mas, Atoz, por que você não procurou o gerente?” Arrã. O Multi Market já deixara evidente a sua posição. Você sinceramente acredita que, em um supermercado com essa conduta de preços e essa negligência em expô-los,o gerente vai ficar do meu lado em vez de sustentar a história de operadora e supervisora de caixa?
Agora, o que o Multi Market ganha com isso? Ganha que vou passar a ir mais vezes ao Extra, ao Ultra, à Sendas, ao Campeão, ao Tijuquinha e às padarias da região. Eles jogaram fora uma excelente oportunidade de conquistar um cliente. Bastaria estornar, lançar o valor correto e pronto, o cliente satisfeito tende a voltar. Veja o Hortifruti, por exemplo. Se compro um pão no Hortifruti e o pão mofa antes da validade, basta procurá-los com a nota fiscal que eles trocam sem fazer perguntas. Com isso, mesmo o Hortifruti sendo mais caro, eu tenho a tendência de ir comprar lá.
O Multi Market mantém aquela atitude antiga dos comerciantes brasileiros: de que o comércio é uma guerra contra o consumidor, onde o mercado tem que fazer tudo a seu alcance para levar as menores vantagens em tudo. A visão embotada não enxerga que, abrindo mão de R$ 1 que não é dele, o mercado ganharia R$ 41 de mim.
Praga de Atoz surte efeito. Eu sinceramente desejo que aquelas duas percam seus empregos e morram sentindo dores e que o amaldiçoado Multi Market acabe fechando.
Aqui no Rio de Janeiro, a posse do Obama foi tão importante que o prefeito decretou feriado. Ninguém trabalhou.
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Você nunca quis saber quem fazia os uniformes dos supervilões? Então. A resposta está em Flash Comics #155 (setembro de 1965): “O desafio dos supervilões!”, publicada no Brasil em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008). Quando o Mestre dos Espelhos foge da prisão, acompanhamos seus pensamentos:
“Com certeza serei apanhado num pulo com estes trapos da prisão! Tenho que conseguir uma roupa nova! E sei exatamente onde!
“Logo, numa região sórdida da cidade…
“Lá está! O alfaiate que costumava fazer fantasias pra supervilões foi trancafiado pela polícia! Mas soube pelos rumores que seu aprendiz, chamado Leach, tinha aberto essa nova loja num lugar diferente!”
Aí está. Agora você sabe.
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Quando ouvi esta gravação, alguns dias atrás, fiquei emocionado. Adivinhe o que é.
Isso é a digitalização do original feito por dois irmãos radioamadores italianos, que, ao ouvirem falar do lançamento do Sputnik I, montaram um equipamento rude, porém suficiente para passarem o restante da corrida espacial ouvindo todas as comunicações abertas de soviéticos e americanos. Acumularam quilômetros de gravações, entre elas isso que você ouviu: as emissões do primeiro satélite construído pela raça humana, lançado em outubro de 1957. Preservadas em meio digital, evocaram-me tudo que já li sobre a Era Espacial e seus efeitos inevitáveis em nosso futuro (parte do qual já é nosso passado). Tão simples, o sinal apenas afirmava que sua fonte estava ali e mais nada, mas, para mim, esse é o som de quando eclodimos o ovo. Nas palavras de Tsiolkovsky, assim começamos a sair do berço.
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Saindo do berço em outro sentido da expressão, este é o primeiro vídeo que subi para o YouTube (se não abrir, tente http://www.youtube.com/v/50pup9L-ES4 ).
Fui eu mesmo que filmei quando fui ao Flying Legends em 12 de julho de 2008. O Flying Legends é um evento anual que acontece em Duxford, Inglaterra, em uma antiga base aérea da RAF (aliás, a primeira base a receber Spitfires, no longínquo 1938). O vídeo mostra a preparação para o encerramento do show, quando decolaram juntos todos os caças da II Guerra Mundial que voaram no evento (primeiro os da Marinha americana, depois os da USAAF e, por último, os Spitfires). Em seguida (mas isto não está nesse filme, só em outro), fizeram um grande Balbo sobre o campo: 26 caças em formação, em uma longa fileira. Vou ver se subo esse outro mais tarde.
*** Recém-lida: Green Lantern #31 (setembro de 1964), primeira história.
Recém-lidos: As concepções fenomenológicas elementares do Estado e do Direito, de André Ricardo C. Fontes, publicado em Cadernos da Escola da Magistratura Regional Federal da 2a Região – EMARF, v. 1, n. 2 (outubro de 2008-março de 2009); Superman #164 (outubro de 1963), primeira história; Superman #167 (fevereiro de 1964).
Quando os líderes sindicais querem mobilizar suas categorias, que fazem? Vão para cima do carro de som e discursam em tom de censura a sua base sindical. Isso mesmo: dirigem palavras agressivas, reprovando seus colegas. É sempre um tom antipático, acompanhado pelo brandir de dedos que acusam os demais trabalhadores por seu predicamento, culpando-os pela postura do empregador.
É verdade que nós, não outrem, somos responsáveis pelo que nos acontece. Mesmo assim, a meu ver não se justifica a animosidade desses sindicalistas contra sua própria base. Se julgam que estão sendo pisoteados e massacrados pelo capital, ora, que se queixem contra o capital, não contra a mão-de-obra. Se o trabalhador está sendo privado de melhores condições, não é por obra de outro trabalhador.
Qual será a reação natural de quem está ao alcance dos alto-falantes? A minha é de querer me afastar. Se alguém fica cobrando alguma coisa de mim onde não estou obrigado, se alguém vai ficar me condenando em tom de dono da verdade sem que eu lhe deva nada, não vou querer ficar amigo dessa pessoa; vou querer é distância. “Você não pode aceitar, você não pode se deixar levar, vocês têm que se levantar, vocês têm que se insurgir.” Eu não tenhoquê nada.
Não estou querendo minar o movimento nem justificar apatia. Estou resmungando, isto sim, contra uma hostilidade mal endereçada.
Se muita gente reagir como eu, vai ficar difícil esses caras terem adesão. Ocupam-se tanto de fazer política que se esquecem de ser políticos.
***
Às vezes, estou na fila para atendimento em uma sorveteria, ou em uma lanchonete, ou em semelhante comércio. O balconista pergunta a quem está à minha frente.
Como assim, “pode ser”??? Quem está pagando é você! Quem tem o ônus de definir como quer o sanduíche (sorvete, refrigerante) é você! Quando dizem “pode ser”, não estão dizendo como querem, mas apenas autorizando o atendente a escolher como ele quiser: se põe ou não põe. Estão permitindo que ele defina, estão dizendo que tanto faz.
Comigo é mais direto. “Sim, por favor” (e o “por favor” só está ali por educação, que favor não é) ou “não, obrigado”. Só. Sem essa de “pode ser”.
Gente que não se define, não se afirma, não sabe o que quer!
Agora está resolvido: diante desta manifestação do presidente de nosso Senado Federal, certamente Israel e o Hamas chegarão a um acordo. Por que ele demorou tanto? Teria evitado centenas de mortes.
A linha de meu telefone fixo estava cruzada com as de outras pessoas (assim mesmo, no plural). Se eu ligasse para a própria Telemar, ela identificava meu número como outro. Às vezes, eu tirava o fone do gancho e encontrava uma conversa já instalada.
Sábado de manhã, o telefone tocou.
– Bom dia.
Silêncio.
– Alô, olá, quem fala?
Entrou uma senhora com sotaque levemente português.
– Alô. O sinhoire queire falar com quem?
– Eu? Não, minha senhora, fui eu que atendi. O telefone tocou e eu atendi.
– Como? O sinhoire ligou e o sinhoire mesmo atendeu?
Tem cada uma!
***
Uma de muitas coisas que odeio é ser chamado de “meu querido”. Especialmente por vendedores, balconistas, telemarqueteiros e assemelhados.
Smallville costuma ser elogiada por seu conteúdo intrínseco, como série. Quanto a sua relação com a mitologia do Super-homem, até hoje só li gente ou neutra ou falando mal. Pelo que leio, há razões para isso; o criador (foge-me o nome) faz muita coisa diferente do que estava estabelecido nos quadrinhos. Exigências do formato, que alguns fãs não vêem (pré-acordo ortográfico) como adaptação, mas como desrespeito.
Agora, Star Trek, o novo filme. Quando o primeiro trailer estreou, falei bem à beça, e ainda falo. É um trailer para os fãs da antiga. Respeitoso, com o tema de espaço, a música da série, a voz do Nimoy, e a homenagem à nave como símbolo das conquistas humanas.
E sai o segundo trailer. Uma b*sta. É igual a todos os insuportáveis trailers de filmes de ação: 24 fotogramas piscantes por segundo, todos de cenas diferentes, pra você nem conseguir identificar o que viu. Parece que eles se esforçam para a audiência ter ataques epilépticos. E tambores, tambores, tambores, explosões, correria, tiros faiscantes. Uma m***a.
Veja só: não estou falando mal do filme, mas do trailer. Pelo que já li e vi, entendo que o filme não terá compromisso com o cânone, mas não espero esse compromisso. Ao contrário, há tempos vêm declarando que é reboot na franquia, começa tudo de novo, tal como a Galactica de agora. Então, vão falar mal, dizer que ele não respeita a tradição, mas a proposta não é mesmo de respeitar a tradição.
Percebe como a queixa é parecida com a de Smallville? Então. Alguém percebeu antes. Dá só uma sacada neste vídeo genial (mas só depois de ver o segundo trailer acima).
O que um fã não faz. É de cair pra trás. Com e sem rima. Observem que até os Thundercats e Watchmen estão ali. (Aliás oportuno para o filme.)
Falar em Thundercats, o Alexandre Maron também indicou um trailer feito por fã, com muito tempo e dedicação, para um suposto (e inexistente) filme deles. Dugarai. Comentário que deixei por lá:
“Ué, não entendi. Thundera é Praxis?
“Brincadeira. E eu achei o Tygra bem feito.
““An ancient evil rises.” Caraca, mais clichê do que isso impossível. Como minha Digníssima gosta de comentar (e eu com ela): “são os antigos”. Pode ver: até quando você recua à época do Conan, ou de Çatalhöyük, sempre tem os carinhas que já eram antigos.”