Caixa de sabão do Sr Atoz

Archive for the ‘Frustrações urbanas’ Category

“Frango já nasce assim”

deixe um comentário »

Verificando as estatísticas do WordPress para este belogue, acabo de descobrir que alguém jogou a seguinte expressão de  busca no Google: “calendario maia e o fim do mundo resumo para a escola”.

Sério.

Vamos deixar uma coisa bem clara: se a sua escola está jogando fora o seu precioso tempo em pretender dizer que o fim do mundo esteja iminente por QUALQUER razão, ela está ENSINANDO ERRADO. Se alguém teve que fazer resumo prà escola relacionando os dois assuntos, então alguém tinha que cassar o diploma desse professor, que está ensinando obscurantismo em vez de dar aula séria.

… A menos que o propósito seja justamente dizer que não faz sentido. Aí pode.

Aliás, peraí! Se a expressão de busca foi essa, é que tem alguém querendo vir à Internet pra pegar o resumo PRONTO, né! Alguém aí tá querendo levar nota sem ter tido trabalho! O nome disso é ESTELIONATO.

Outra expressão de busca com que vieram parar aqui: “quais sao os tipo de embalagem utilizada na exportaçao de cachaça e como sao tranportadas”.

Vamos deixar de fora os erros de digitação, que não são o foco.

O foco está no seguinte: NÃO É ASSIM QUE SE PESQUISA. Aparentemente, o usuário se dispôs a consultar o Grande Oráculo da Internet escrevendo a pergunta, para que o Oráculo lhe trouxesse a resposta pronta: “veja, os tipos são estes; e elas são transportadas assim” — mais uma vez, sem querer ter o TRABALHO de pesquisar, de olhar mais de uma página, de MONTAR SEU PRÓPRIO TEXTO.

Cada vez tenho menos paciência com quem quer receber tudo pronto. E tem uma geração inteira assim, querendo receber tudo de bandeja. Para eles, frango já vem ao mundo daquele jeito: depenado, sem cabeça, com as patas e asas dobradinhas, congelado. E ainda reclamam de terem que temperar.

Que m*rda de mundo, esse em que viverei minha senectude.

EOF

Escrito por sratoz

02/05/2012 em 23:15

Metodologia e comprometimento

deixe um comentário »

Vamos fazer o seguinte: ficam proibidas as palavras “metodologia” e “comprometimento”. Até hoje, em TODAS as instâncias em que vi essas palavras, seriam igualmente cabíveis “método” e “compromisso”.

Vou além: “metodologia” seria o estudo do método, nunca o próprio método. Mas não vemos ninguém elaborar uma verdadeira metodologia; só o que vemos são métodos ou suas descrições. Toda vez que alguém vem me falar de uma “nova metodologia” ou perguntar “qual é a metodologia”, pode ver: é sempre de um método que estão falando.

A mesma coisa no caso de “comprometimento”. Analisemos: “meter” é um verbo que não se limita ao significado a que estamos habituados. Também significa “enviar”, mas por vias um tanto ocultas. A saber: “remeter” (“enviar novamente”, ou “enviar na direção de algo já visto anteriormente”), “prometer” (“enviar para adiante”, ou “não fazer agora mas deixar para um momento futuro”), “arremeter” (“enviar novamente para cima”, como fazem os pilotos ao desistirem de pousar), “submeter” (“enviar para debaixo”, ou “propor a alguém que estará por cima”). Etc.

Existem outras manifestações desse verbo, já não tão fàcilmente reconhecíveis, em outras classes gramaticais: “missão”, que significa “ato de enviar alguém para cumprir determinada tarefa”, “míssil”, que significa “objeto que se pode lançar/enviar”.

Na mesma linha, “comprometer” significa “prometer conjuntamente”. É quando duas pessoas prometem uma à outra, cada uma prometendo uma coisa. Diz-se que as duas partes se comprometem a alguma coisa. Então, o que fizeram é um compromisso. Quando você diz que já se comprometeu, isso implica que tanto você prometeu a alguém como esse alguém prometeu a você. Entende-se que o compromisso diminua um pouco a liberdade de quem prometeu.

Às vezes me deparo com a palavra “comprometimento”, significando dedicação: a pessoa mostra comprometimento com um emprego, com uma causa, com uma comunidade. Dela se espera isso porque haverá alguma espécie de recompensa: salário, honras, reconhecimento. Agora me diga: existe alguma ocasião em que se use essa palavra que NÃO admita “compromisso”?

Não. Portanto, rogo a você, Leitor, que pare já o uso desses neologismos odiosos. Um porque usado erradamente (“metodologia”), o outro porque supérfluo (“comprometimento”) diante de outra palavra que significa a mesma coisa mas que é muito mais elegante, pura, curta e antiga.

EOF

Plantões histéricos, quase nunca históricos

with

Às vezes você está lá, tranquilo, sem p*rra nenhuma pra fazer assistindo à Sessão da Tarde, quando o filme é interrompido por aquela música escandalosa do Plantão da Globo. “Pã pãpã pãpã pãpãpãpããã… Pã pãpã pãpã pãpãpãpã pãpããããã… tem tem temtemtem…” Por todos esses anos, sempre que eu era interrompido por essa música, só pensava em uma coisa: “f*deu, Angra explodiu”. Sério. Juro.

Aí, depois, não era nada disso, era para dizer que o Mubarak tinha renunciado, ou que o Zé Alencar tinha finalmente parado de fazer c* doce e abraçado a noite gentil… Minha reação sempre foi a mesma: p*rra, vocês me estressam, me apavoram, me acordam daquela morgada básica de depois do almoço interrompem meu filme, e tudo isso pra quê? Pra me contar de uma notícia que acabou de acontecer do outro lado do mundo e que podia muito bem esperar até o jornal da noite!

Não, sério: meu raciocínio é sempre o seguinte. Para alguma coisa interromper o meu filme, para ser tão urgente a ponto de não dar para esperar até o Jornal Nacional, só pode ser que a urgência exige que eu corra para salvar minha vida. Tipo, tem que ser uma m*rda estratosférica mesmo, de nível nuclear, algo cuja única resposta adequada seja “salve-se quem puder”, “corram para as colinas”… Tem que ser alguma coisa tão séria, mas tão séria, que a Globo entenda, olha só, vou ter que interromper o seu filme, mas é que isto NÃO PODE ESPERAR, é sério demais, é para salvar a sua vida, serviço de utilidade pública, sabe?

Mas não, é para dizer que determinado ditador caiu lá naquele lugar do outro lado do meridiano de Greenwich. Como se eu fosse sair correndo em seguida, “ó meu Deus! Preciso ir já para o aeroporto, pegar o primeiro voo para o Egito, achar que sou o Chuck Norris e restaurar o pobre ditador no poder single-handedly”… Ou então, “caramba! O papa acabou de morrer! Preciso ligar para meu corretor AGORA para vender minhas ações da Santa Sé antes que despenquem mais!” Não, né. Então, você que está estudando produção de TV e que sonha um dia interromper o Vale a Pena Ver de Novo dos outros com o Plantão da Globo: não é pra fazer isso. Combinado? Pode ser?

E mais: quando for acidente mesmo em Angra (pédepatomangalôtresvezes, bate na madeira), DUVIDO que a reação seja assim instantânea. Dá uma olhada nisto aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki#Japanese_realization_of_the_bombing. P*rra, cai uma BOMBA NUCLEAR na cabeça dos infelizes, a nuvem é visível a centenas de quilômetros, e ninguém se toca durante vários minutos! (Claro que, para mim, é fácil falar. Eu já ficaria APAVORADO só de perceber que a linha telefônica ficou muda, que o quartel-sempre-em-contato não responde e que, estranhamente, não tem nenhum avião americano na área.  Quebra-cabeça não difícil de montar, esse.)

EOF

Escrito por sratoz

16/02/2011 em 23:25

Servidores públicos, escândalos e falácias

deixe um comentário »

Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…

Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.

Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.

Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.

Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.

==========
Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.

Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.

Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.

EOF

Por que não vou renovar minha assinatura de Scientific American Brasil

com 4 comentários

Em abril de 2010, encerrava-se minha assinatura da revista Scientific American Brasil, editada pela Duetto. A editora enviou-me a proposta de renovação, eu podendo parcelar em quatro ou seis vezes, sem desconto para pagamento à vista.

Já que não tinha desconto, escolhi manter meu dinheiro rendendo juros no banco por mais tempo até o fim do pagamento, em vez de entregá-lo todo à editora e deixá-lo rendendo juros COM ELA. Afinal, a prestação do serviço da Duetto (entregar doze edições da revista) seria parcelada — faria todo o sentido que a minha contraprestação (pagar pelas doze edições) também fosse.

Só que eu pedi para parcelar em seis vezes de R$ 19,83 no cartão de crédito. Seis vezes, marque bem. Foi aí que meus problemas começaram.

Comprei a nova assinatura em 20 de abril, e a operadora do cartão tomou ciência em 22 de abril. A fatura para vencimento em maio já estava fechada, de modo que a primeira cobrança, lançada em 22/04, venceu em junho.

Então faça aí a conta: seis prestações, a primeira vencendo em junho; então, as demais venceriam em julho, agosto, setembro, outubro e novembro. Certo?

A prestação seguinte foi lançada em 24/05 (ou seja, um mês depois da anterior) e venceu normalmente em julho. Em agosto não veio cobrança. Aí, em setembro, apareceu uma parcela com lançamento em 21/07 e descrita como “01/05”. A de outubro, também lançada em 21/07, veio como “02/05”.

Mas peraí. A parcela de setembro não era a primeira, era a terceira. A de outubro era a quarta. A continuar assim, eu acabaria pagando a quinta (“03/05”), a sexta (“04/05”) e uma sétima (“05/05”).

O que que eu podia ter feito em outubro? Podia ter ligado para a operadora do cartão e dito que a descrição das parcelas estava errada. E eu, que vivo defendendo a pró-atividade proatividade, não fiz isso. Verdade que não tinha o dever de fazê-lo. Verdade que, até dezembro, eu ainda estava pagando o que devia; e que não necessàriamente deveria presumir que estivesse por vir uma sétima e indevida parcela. Vamos tomar o cuidado de não culpar a vítima. Eu vivo dizendo que você tem que tomar sua vida nas suas mãos em vez de contar com, ou esperar, que os outros façam certo, mas isso não dá à Duetto ou à operadora do cartão o direito de me cobrar a mais.

Bom. Até que veio a cobrança de janeiro (a sétima). Não adianta eu simplesmente não pagar. Se eu não pagar integralmente uma fatura, estou criando um problema ainda maior, porque a operadora vai começar a cobrar juros, vai bloquear meu cartão, e eu vou acabar tendo que me aborrecer por muito mais do que uma simples parcela de R$ 19,83. Eles têm, sim, o poder de ferrar com a minha vida sem nem saberem que eu sequer existo (e sem se importarem com isso, o que é bem mais divertido de se fazer com seres desprezíveis do que dar a eles tanta importância a ponto de fazer questão de prejudicá-los). Se eu tenho um problema de cobrança a mais, tenho que resolvê-lo independentemente do pagamento: a operadora não tem como diminuir o valor da fatura já emitida. Se concordar com minha eventual alegação de que a cobrança não seja devida, o que ela vai fazer vai ser estornar o valor em outra fatura, independentemente do pagamento desta que está comigo.

Você, especialista em Direito do consumidor, a esta altura deve estar pensando em mil direitos que eu tenho, pensando que o consumidor é forte, que hoje em dia a lei nos protege, que é só eu não pagar, que posso mover ação por dano moral, que seria bom me negativarem no SPC para eu ganhar uma indenização polpuda… Mas tudo isso dá muito trabalho. Antes de se discutir o Direito, há uma questão prática, meramente econômica, que é: será que eu quero me aborrecer com a discussão? Observe que, antes de tudo isso ser uma relação jurídica, é uma relação de poder. O poder é desigual, e eles já começam ganhando. Mesmo que eu vença no final, o custo da vitória é muito alto. Uma das coisas fundamentais que a gente aprende sobre Direito é que ele existe justamente para que o Estado compense a desigualdade de forças e obrigue a parte forte a devolver o que tomou da parte fraca, que não conseguiria recuperar o que foi tomado. Então, antes de existir a relação de direito, existe a relação de poder; e aliás é por causa desta que existe aquela.

Mesmo assim, antes do vencimento da fatura de janeiro, telefonei para a editora Duetto, que não tem um zero-oitocentos e que só atende em horário comercial. Expliquei o caso, mas a editora me relatou que havia recebido um só pagamento, no valor cheio correto, lá em abril; que, daí por diante, o parcelamento havia sido repassado à operadora do cartão de crédito; e que, conforme seus registros, desde abril eu não devia mais nada à editora.

Faz sentido (afinal, é assim mesmo que funciona o financiamento por cartão de crédito), mas você pode observar que aí começa o pingue-pongue, muito comum em relações envolvendo mais de uma pessoa, onde cada uma diz que o problema foi com a outra e que você tem que procurar essa outra. “Se vira aí com ele, eu não tenho nada com isso.” Tenho certeza de que você já passou por uma dessas na vida. De certo modo, a Duetto até tinha razão. Se ela não me entregasse algum exemplar da SciAm BR, minha reclamação seria com ela. Só que, se alguma cobrança vem errada, eu tenho que reclamar com quem me cobra mesmo, que é a operadora; e elas que se entendessem depois (não dá razão à operadora o fato de ela, cobrando-me errado, dizer que eu tenho que me entender com a editora). Talvez nesse ponto eu tenha mesmo errado, não sei. Mas continuo sendo a vítima; o fato de eu não ter reclamado cedo NÃO DÁ à operadora o direito de me cobrar a mais.

Hoje, telefonei à operadora do cartão. No primeiro telefonema, a atendente disse, na minha cara remotamente, que não tinha acesso a nenhuma fatura mais antiga do que seis meses atrás; que, portanto, não podia averiguar nada do que eu dizia; que eu tinha que ter reclamado quando veio a primeira cobrança (!); e que agora não estornariam mais nada. Olhe como terminou o diálogo:

– Quer dizer, o que você está me dizendo, bàsicamente, é que eu perdi? ‘Cê tá me dando um perdeu, é isso?

– … Sim, é isso.

– Caraca. Que belo atendimento esse, hein!

(tu tu tu…)

Claro que fiquei uma fera com a atitude sonsa e mais a desligada na cara. A pressão subiu, meus olhos ficaram verdes, depois minha pele ficou verde, comecei a ficar musculoso, minha camisa rasgou, e meu calção roxo foi dilatando junto comigo.

Fiquei perdido, irracional, ia dar-me por vencido. Senti-me sòzinho diante de uma força invencível. Mas não é essa minha ética. Aprendi com o Capetão Kirk a nunca desistir, nem em face da própria morte: enquanto eu estiver vivo, há esperança de solução. Ou, como disse outro Capitão, Quincy Taggart, “never give up – never surrender”.

No segundo telefonema, comecei a explicar o problema e o atendente desligou na minha cara antes que eu terminasse. Nem fiquei com tanta raiva, porque, com o tempo, essas centrais de atendimento têm o dom de ir sugando sua energia vital. Você vai ficando fraco e cansado, e cai na poeira no meio da maratona. Os abutres vêm jantar em seu cadáver, os corvos comem seus olhos e a equipe do Grissom te encontra dias depois.

No terceiro telefonema, a moça teve mais paciência e disposição. Ouviu tudo, digitou, esperou enquanto eu ia buscar documentos para lhe dizer datas. Mas, afinal, também “não pôde fazer nada”, por supostamente não ter o poder de corrigir falhas cometidas mais de noventa dias antes. Meu “prazo” começara a contar em 21/07, quando fôra feito o primeiro lançamento errado, de modo que, faça a conta, eu devia ter telefonado até 18/10.

Na Faculdade de Direito, a gente aprende que “o direito não socorre os que dormem”, ou seja, você tem que se manter ligado e atuante para não perder o que é seu. Sempre achei esse princípio uma bruta duma sacanagem, porque equivale a dizer que tudo que é meu está à disposição dos outros para virem pegar, em um total desequilíbrio onde não me dão nada em troca, e, se eu quiser que ainda seja meu, tenho que lutar! Quer dizer, eu trabalho de escravo para dar aos outros o que tenho, ou, no mínimo, saio no prejuízo.

Entendo a necessidade de uma tal regra, que é o fundamento da prescrição e serve para dar segurança às situações consolidadas no tempo. O lance é que o prazo que a operadora admitiu para meu direito foi exíguo! E mais: ela não foi clara nem unívoca quando manteve a data de 21/07 nos lançamentos das prestações seguintes; ou seja, eu não tinha razão para afirmar, com certeza, que meu direito estivesse sendo violado.

De acordo com a operadora do cartão, eu ainda tinha uma solução: reclamar junto à editora, que havia recebido a mais. Pingue-pongue, alguém? Aliás, não é pingue-pongue não: lembra uma brincadeira, sem graça pra caramba, que os garotos mais velhos faziam com você na escola, chamada “bobinho”? Pois é. Bobinho. É disso que Duetto e operadora estão brincando comigo.

Olha só. Não sei quem foi que errou. Tanto pode ter sido a editora, informando erradamente que ainda faltavam cinco parcelas, como pode ter sido a operadora do cartão. Mas não me interessa; não quero identificar culpados, que isso não é incumbência nem problema meu; quero é meu dinheiro. De todo modo, o primeiro telefonema à editora, que não tem zero-oitocentos, custou-me cerca de nove reais. A operadora do cartão também não tem zero-oitocentos, de modo que esses três telefonemas também não foram de graça. Se eu telefonar de novo à Duetto, vou acabar tendo gasto no mínimo R$ 18 (e provàvelmente mais) para reaver R$ 19,83. Òbviamente, isso não é sensato do ponto de vista econômico.

Por isso não vou ligar à Duetto não. Tentei dar uma de esperto aceitando o parcelamento, sem perceber que estava caindo numa armadilha, e já perdi R$ 19,83 mais os telefonemas (que, juntos, devem ter superado R$ 9) e muito tempo e aborrecimento. Qualquer coisa que eu faça vai aumentar meu prejuízo. O que tenho que fazer agora é limitar minhas perdas, igual aos apostadores da bolsa de valores que sofrem prejuízo e têm que se livrar das ações podres antes que o preço caia mais ainda.

“Por que você não entra na Justiça?” Por causa de trinta reais? Fala sério. Eu já soube de juiz que se recusou a deferir o pedido porque o valor era irrisório, confirmando que as empresas podem tomar quanto quiserem dos clientes contanto que seja “irrisório” (irrisório pro tal juiz, que certamente ganhava vinte vezes o salário líquido do infeliz que confiou no sistema). Mesmo que meu pedido fosse deferido, olha quanto tempo e dinheiro eu ainda gastaria em transporte até o fórum, xerox dos documentos, impressão da petição inicial… Tudo isso parece pouco, mas já supera o valor a pedir. Um táxi até o fórum pode custar R$ 15. E isso se fosse pleitear sem advogado, o que me faria consumir ainda MAIS tempo. Com advogado, ainda teria que pagar os honorários, sem ser ressarcido pela parte contrária.

Então, como sempre, o sistema venceu. Especìficamente, as empresas venceram. Elas fazem muito isso, né: boa parte do lucro vem desses “errinhos”, onde vão comendo alguns reais de cada vez, às vezes centavos, às vezes dezenas de reais… No somatório, é um bocado de dinheiro. Elas sabem que a gente não vai reagir, sabem que nós fazemos a conta e percebemos que a tentativa de ressarcimento dá mais prejuízo. Para elas é um excelente negócio. Sabem que já começam ganhando e contam com isso.

Quanto a mim, já tive outras dificuldades com a Duetto. Primeiro, comuniquei mudança de endereço por correio eletrônico. Aí, pararam de entregar a revista. Depois de três meses sem receber, fui averiguar por quê. É que tinham o endereço errado. PQP! Eu ESCREVI o endereço; em princípio, estava certo, não? Presume-se que eu saiba meu endereço! Então, era só copiar-colar! Mas não. Quando não é pra copiar-colar, esse povo copia-e-cola, sem olhar o que está fazendo; mas, quando É pra copiar-colar, não fazem isso — e erram.

Depois, comprei deles um DVD, que só chegou depois que telefonei, quase um mês depois de pagar, dizendo que não queria só pagar por ele; queria recebê-lo também. Foi só aí que enviaram.

Agora me acontece essa que narrei: pague catorze edições e leve doze. Então agora chega: não hei de renovar a assinatura. Depois que esta expirar em abril, cada vez que sair SciAm BR, vou ficar sabendo pela banca. Se não me interessar, não compro — diferente do que acontece na assinatura, quando a editora já recebe o pagamento antes, mesmo que a edição do mês não venha a me interessar. Não dá, é muito desgastante isso. A revista pode ser boa, mas o preço que pago pela assinatura está muito alto.

Agora levanta a mão quem acha que é bem-feito. o/

EOF

Uma coisa que me irrita

with

… no ambiente de trabalho: de vez em quando, alguém é cobrado. “Já fez tal coisa?” E responde que não: “estou esperando que Fulano faça tal outra coisa”.

Muito cômodo, não é mesmo? O carinha não faz o que lhe cabe, nem o serviço anda, porque ele está dependendo da atuação de outra pessoa, sobre a qual não tem nenhum poder de exigir resultado.

Fico p$%o da vida com isso. É uma intencional falta de iniciativa, pràticamente uma sabotagem. O sujeito simplesmente senta em cima da tarefa, quase que esquece o assunto até ser novamente provocado, ou melhor, tangido sob vara. Pombas, sempre tem outro jeito! Sempre dá pra telefonar perguntando se o tal Fulano precisa de ajuda, ir fazendo outra coisa paralela enquanto aquela etapa não sai… (caminho crítico, alguém?). Aliás, em geral, quando a resposta de Fulano está demorando muito, pode ir atrás que você vai descobrir que Fulano nem estava sabendo que a bola estava na quadra dele. Às vezes, a mensagem nem chegou a ele; outras vezes, ele não entendeu a mensagem… Cabe a você, interessado (quer dizer: supostamente interessado, porque, quando o que se tem é preguiça, é óbvio que não há ninguém interessado), mas eu dizia, cabe ao interessado procurar Fulano, ir dando andamento ao processo, e tudo mais.

Meu pai costuma dizer, com razão, que quem “faz a sua parte” na verdade não faz. Porque só acaba quando termina: enquanto ainda houver alguma coisa para fazer, qualquer coisa, sua atuação ainda é necessária. Mesmo que a próxima etapa não seja sua, mesmo que ela dependa de outra pessoa em quem você não manda, mesmo que supostamente a “sua parte” já tenha acabado — mesmo em todas essas circunstâncias, se o serviço ainda não estiver concluído, então você ainda tem que atuar. Se o final é algo que você tem que atingir, então, enquanto você não chegou a ele, é você quem tem que atuar. Se é você quem vai ter que apresentar resultado no final, não vai adiantar dizer que “fez a sua parte” ou que “foi Fulano quem atrasou”: foi você quem não entregou resultado, e Fulano não vai ser cobrado nem tem interesse nele. A “sua parte” não é aquele pedacinho onde você consegue atuar sòzinho ou fàcilmente; ela é TUDO.

Em suma: tem que haver menos princípio da inércia e mais Geraldo Vandré.

P.S. É claro que, na época da avaliação de equipe e da concessão de aumentos remuneratórios, os preguiçosos vão reclamar que não foram contemplados, que “trabalharam muito” e não estão sendo reconhecidos… Só que “trabalhar muito”, para mim, não é ficar sentado à mesa oito horas por dia, jogando Paciência no computador refazendo tarefas porque ficaram mal feitas na primeira vez. Para mim, “trabalhar muito” é entregar os resultados esperados ou mais.

EOF

Teria sido mais barato telefonar para Marte

deixe um comentário »

Em 2008, comprei dois telefones celulares de minha operadora. O vendedor disse que os dois estavam desbloqueados. Ingênuo ou burro, não pensei em testar se era verdade.

Em 9 de julho de 2010, cheguei a Heathrow sabendo que, se fosse usar meu celular em roaming, pagaria uma fortuna. Então, ali mesmo, diante da esteira de bagagem, fui à máquina que vende chips (“SIM cards”) e comprei um da Lebara. Assim, como quem compra Coca-Cola, só que era chip de celular, entende? Igual àqui, no Brasil.

É claro que, quando troquei o chip de minha operadora pelo da Lebara, o celular acusou que estava bloqueado. A partir daí, apesar de ter levado uns vinte minutos entre o desembarque e o recolhimento de bagagem (incluído aí o controle de passaporte), ainda fiquei umas duas horas discutindo com a “assistência ao cliente” da operadora, pedindo para desbloquearem meu telefone remotamente.

O de minha esposa até desbloquearam. O meu, não: dependia de pedirem o código à Nokia, com prazo de resposta de cinco dias úteis. Pedi-lhes que enviassem o código por SMS ao celular de minha esposa, que é da mesma operadora. Enviaram ao teu?

Ao dela também não.

O único motivo de eu não dizer qual é minha operadora é que, se eu fizer isso, dita Murphy que serei processado por difamação. De todo modo, as quatro operadoras que temos no Rio de Janeiro te tratam do mesmo jeito; então, você pode mudar de uma para outra, que não faz a menor diferença.

Mas daí. Quando vi que o desbloqueio não ia sair na hora, resolvi telefonar para minha mãe, só para dizer que tinha chegado. Ontem veio a conta: R$ 8,91 pelos 18 segundos que durou a ligação. Isso dá R$ 29,70 por minuto.

Com o chip da Lebara, eu telefonei DA INGLATERRA PARA O BRASIL pagando 4p por minuto. Pelo câmbio do dia em que comprei créditos, isso dá R$ 0,1058 por minuto. Ou seja, custou 281 VEZES MAIS BARATO.

Deixe-me repetir isso. Com o dinheiro que eu gasto para falar UM MINUTO da Inglaterra  para o Brasil, no roaming da operadora do Brasil, eu falo QUATRO HORAS E MEIA com o chip da operadora inglesa. Só posso chegar à conclusão de que minha operadora pensa que a Inglaterra fica em Marte, sei lá. Dizque ligação interplanetária só fica mais barata quando os dois lados da linha estão do mesmo lado em relação ao Sol. Não sei, dizem.

Além disso, temos uma amiga alemã que tem uma amiga espanhola. Pois ouvi da espanhola que ela tem um contrato de combo (telefone, Internet e TV, sabe como é) do mais simples — com 12 MEGAbits por segundo. Vamos presumir que, lá como aqui, a operadora só entregue um sétimo do valor contratado. Mesmo assim, esse um sétimo é DOZE vezes maior do que o plano mais simples que minha operadora de Internet me oferece. E não venha me dizer que “não tenho mais porque não quero”. Eu pedi mais, mas o moço que veio instalar mostrou-me, com medidor de ruído, que a linha não comporta mais do que 1 mega. Então, eles estornaram a cobrança dos 2 mega e fiquei com um só mesmo.

Verdade que eu posso estar errado, posso ter sido enrolado — tudo pode ser, não sou especialista. Mas está claro para você que nós somos uns índios? Está claro que nossos planos são dos mais caros que existem entre Vênus e Júpiter e que ainda temos que comer muito feijão para sonharmos com inclusões digitais e o raio que o parta?

Depois disso, volto para o Galeão na noite de 24 de julho e descubro que há um descontrole total no desembarque. A calçada está tomada de empregados de cooperativas que ficam, agressivamente, impedindo a aproximação de veículos de fora e, de modo até hostil, quase forçando os passageiros para dentro das mandíbulas de seus motoristas. Uma ambulância estava estacionada, sem emergência nem luzes acesas, em vaga de táxi especial. Nenhum empregado da Infraero à vista.

Então, que temos? Um aeroporto com intermodalidade quase nula (só umas poucas linhas de ônibus, uma delas a que segue para a zona Sul e que não tem horário), sem trem, sem metrô, com uma bandalheira que se apoderou do ponto de táxi; denúncias de cambistas ilegais disfarçados de carregadores de mala; ausência quase completa de comércio; um free shop (o de quem sai do País) que mais parece uma piada de mau gosto; uma minúscula área de coleta de bagagens que, ademais, está caindo aos pedaços; ambientes sem iluminação; várias áreas comerciais vazias; ausência de sinalização em língua estrangeira correta; e pessoal do comércio e serviços incapaz de falar um português correto, quanto mais inglês…

Mas nada tema: teremos Jogos Olímpicos em 2016 e Copa do Mundo em 2014. Com esse nível de preparo e de serviços, tenho certeza de que tudo vai dar certo.

EOF

Escrito por sratoz

04/08/2010 em 22:07

Laboratório da evolução, 2010

deixe um comentário »

Diz a teoria da evolução que, quando as condições ambientais mudam, as espécies mais adaptadas vão sobreviver, enquanto as outras vão se extinguir. (Aliás, é com base nisso que Richard Dawkins tenta levantar seu astral dizendo que você necessariamente descende de uma linhagem de vencedores.)

Antigamente, o metrô do Rio de Janeiro era simples. Na linha 1, as estações terminais eram Botafogo e Saenz Peña. Qualquer trem que você pegasse em uma dessas estações iria te levar, necessariamente, a todas as demais, inclusive Estácio.

Mesmo assim, todo dia alguma desdentada me perguntava, “moço, qual é o trem que vai pro Estácio?” Meu ódio fervia por causa do óbvio, até o dia em que minha colega Maria Luiza, engenheira hidráulica que é exemplo de profissionalismo e discrição e que pega trem lá pra não sei onde, esclareceu-me que, na Central do Brasil, você tem que saber em qual trem está embarcando, porque não tem uma linha só; e essa gente está acostumada é com isso. Vá lá. Entretanto, continuo com ódio, porque, diabos, basta olhar em volta. Tem mapa, tem sinalização, tem tudo.

Mas, enfim, aqueles tempos eram simples. Só tinha um tipo de trem na linha 1, e o único lugar onde as faxineiras mudavam de linha era no Estácio. Simples, simples, simples, e, mesmo assim, toda vez eu tinha que responder.

Os tempos mudaram e com eles veio uma confusão do catso. Depois da obra entregue este ano (note bem que eu não disse “terminada este ano”), o metrô passou a ter trens circulando na linha 1 sem serem exatamente da linha 1. O trem da linha 1, mesmo, circula com um painel de LEDs vermelhos, avisando que é o trem da linha 1. Aí vem um trem lá de Deusmelivre, ocupando os mesmos trilhos da linha 1, mas só circulando na linha 1 entre Central e Botafogo. Os LEDs desse trem são verdes, indicando que é um trem da linha 2. Além disso, acabou a conexão no Estácio, e os pobres têm várias opções de estação para mudarem de um trem para outro: todas entre Central e Botafogo.

Exceto que não exatamente. Porque à noite, nos fins de semana, nos feriados, nos dias que terminam em “-feira”, e nos horários entre 6 da manhã e 18 horas, ou bàsicamente quando eles querem, o Metrô Rio costuma suspender esse esquema e voltar ao esquema antigo. Apagam os LEDs dos trens da linha 1 (porque òbviamente só podem ser da linha 1, certo?, pra que os LEDs?), e volta a necessidade de fazer conexão no Estácio. Então fica assim: tem dia que duas linhas ocupam os trilhos da linha 1; tem dia que a linha 2 sai da linha 1, passa pela Central mas daí vai direto a São Cristóvão sem passar pelo Estácio; e tem dia que, para passar da linha 1 para a linha 2, tem que descer no Estácio tal como antigamente. E às vezes eles não avisam. Ou seja, um bundalelê do ca**lho, onde ninguém se entende e onde, mais de uma vez, já vi os seguranças inúteis, mal orientados, dando informação errada pro passageiro.

Hoje, por exemplo, resolvi pegar o metrô no final do expediente, como não fazia havia meses, achando que estaria menos cheio por ser dia enforcado (ontem foi Corpus Christi, amanhã é sábado) e porque agora, supostamente, acabou a megatransferência dos pobres do Estácio, de modo que eles estariam todos no outro trem. Ledo engano. Foi eu passar meu cartão pré-pago maldito, rodar a catraca, e ouvir o infeliz do PA avisando que, hoje, “excepcionalmente” (“rá rá rá”, riu-se o Doutor Plausível), a conexão voltou a ser necessária no Estácio. Lá fui eu ter que esperar um trem menos entupido para dividir meus seis centímetros quadrados com a metade da população mais odiada pelo Deputado Justo Veríssimo.

E foi aí que me dei conta de uma coisa. Já faz vários meses que não vejo mais as lavadeiras perguntadeiras. Nada daquelas aflições com lenço na cabeça e Folha universal na mão, perguntando qual é o trem que vai pro Estácio. Considerando a mudança súbita das condições ambientais nos meses precedentes, e sabendo da reduzida capacidade que algumas pessoas têm de se adaptarem a mudanças, estou entendendo que essa espécie tenha sido extinta.

EOF

Isto merecia ser retuitado

deixe um comentário »

… mas, como isto aqui não é o Twitter, vou pôr o linque:

http://sniperserra.tumblr.com/

A dica eu peguei no SENSACIONAL Porra, Mauricio!, que tenho acompanhado no Twitter e é imperdível.

***
E tem esta notícia no saite do Globo On: “Babuínos na África do Sul estão incorporando hábitos humanos e já tentam até usar celular”. Daqui a um tempo ela terá saído do ar, assim como os comentários. Então, permita-me preservar dois deles para a posteridade (ou, pelo menos, por um tempinho a mais):

Babuíno falando no celular? Dê uma volta no centro da cidade e você vai ver um monte.

Eles vão treinar os babuínos para atendimento em call centers.

De fato.

EOF

Escrito por sratoz

07/05/2010 em 01:06

O fantasma de São Diogo

deixe um comentário »

Até o século XIX, havia no Rio de Janeiro um prolongamento da baía da Guanabara, chamado Saco de São Diogo. Os registros divergem, mas, pelo que entendi, o Saco ocupava a região onde, hoje, ficam parte da região portuária, a estação Leopoldina, a avenida Francisco Bicalho, o Trevo das Forças Armadas, e pedaços da Cidade Nova. Um debate sobre sua extensão aqui.

Durante o século XIX, aquela área foi toda aterrada. Naturalmente, nem por isso se tornou muito mais alta. Ali chegam o Rio Comprido, o rio Joana, o rio Maracanã, o Trapicheiro e outros cursos d’água que drenam o terreno de nossa cidade desde o tempo da última glaciação. O canal do Mangue é prova de que, por ali, um bocado de água ainda corre para o trecho de baía junto à rodoviária Novo Rio. O Saco de São Diogo foi-se, mas sua macro-influência na hidrografia do Rio permanece, feito um fantasma que se recusa a ser derrotado.

Quanto à Praça da Bandeira, històricamente sempre foi alagada. O terreno ali é desconfortavelmente baixo, era dominado por um manguezal e estava ìntimamente ligado ao Saco de São Diogo, com toda a sujeição às marés que caracteriza esse tipo de situação. O traçado topográfico variava fortemente conforme o Saco estivesse mais ou menos cheio de água e, mesmo que hoje haja uma praça por cima, os rios ainda passam ali por baixo. Mesmo hoje, se chover forte durante a maré alta, a desembocadura dos rios fica mais baixa do que o nível do mar, a água não tem pra onde ir e é alagamento na certa.

Acho que isso explica por que é que, em tempo de chuvas como a desta semana, não convém ficar muito perto de São Cristóvão e Maracanã. Agora há pouco, eu estava assistindo ao Jornal Nacional online, e tem o vídeo de um ônibus em frente ao CEFET, com água na altura da janela!

E diz a previsão do INPE que vai continuar chovendo nesta quarta-feira e além…

Na cobertura jornalística do G1, tem um meteorologista dizendo que “não é possível associar [a chuvarada desgraçada dos últimos dois dias], que classificou de ‘atípico’, com o aquecimento global, mas também não se pode descartar sua influência”. Em outras palavras, o homem não sabe o que diz. Mas deixe-me acrescentar alguma coisa, eu, que não sou especialista em p**ra nenhuma. Primeiro, concordo que seria ignorante e leviano associar uma específica chuva, em uma específica semana, a um fenômeno mundial de longo prazo, como é o aquecimento global. Não dá pra fazer esse vínculo, como alguns palpiteiros poderão tentar amadorìsticamente. Em matéria meteorológica, existe um zilhão de fatores envolvidos, e não é a primeira vez que chove forte no Rio.

Mas, segundo a mesma reportagem, a causa da chuva forte seria o calor brabo dos últimos dois meses, que provocou uma umidade incomum no ar sobre a cidade. Com a chegada de uma frente fria, caiu o mundo em cima da gente. Ora, com base nisso, arrisco-me a identificar uma tendência para o futuro sim, por mais que eu prefira estar errado: com o aquecimento global, mais vezes veremos o ar ficar úmido além do que era habitual durante o século XX. As chuvas torrenciais, que aconteciam a cada vinte anos, vão passar a acontecer a cada quinze, dez, cinco, dois anos; já não vai ser algo incomum, mas perfeitamente previsível. Com a chuva, virão a falta de luz, o caos nos transportes, isso tudo.

Então taí. Como Esposa estava comentando comigo ontem: vai acabar esta nossa mamata de ter tudo fácil, eletricidade, telefone, água potável. Vamos ter que conviver com escassez sim, e a vida de nossos filhos não vai ter os luxos da nossa. Quero dizer, para quem é rico assim como para quem é pobre, o padrão de vida vai cair e as agendas vão ter que considerar mais contingências do que as nossas. Tudo vai mudar em nossa civilização. E não descarto a falta de comida.

EOF

Um aguaceiro olímpico

deixe um comentário »

Você já sabe o que eu vou dizer, né? É um absurdo, UM ABSURDO que uma cidade, qualquer cidade, pare por causa de uma simples chuva de algumas horas. Mais ainda uma cidade que pretende sediar jogos olímpicos e copa do mundo. Não é possível que a infra-estrutura (tem hífen?) pare de funcionar, e não haja hospitais, nem planos de contingência, nem mais transporte público. Eu soube que, no apagão do início do ano, tinha hospital que não tinha gerador e gente morreu por causa disso. Não é possível que seja tudo no improviso, não é possível descobrirmos isso só quando falta luz. TÁ TUDO ERRADO.

Ontem à noite, várias localidades ficaram inundadas no Rio de Janeiro, todo o trânsito parou, os ônibus pararam de circular, bombeiros militares tiravam gente de seus carros na Praça da Bandeira, minha rua ficou sem luz (a única na Tijuca, aparentemente), o Metrô parou de funcionar durante um intervalo de tempo. Hoje de manhã, quase ninguém no meu local de trabalho, a luz só voltou quase às dez da manhã, e a Defesa Civil pede que ninguém saia de casa. Nos hospitais e quartéis dos bombeiros, os plantonistas dobraram, e eu não me surpreenderia se alguém me dissesse que os jornalistas na tevê são os mesmos de ontem à noite, que não conseguiram ir pra casa e cujos substitutos não chegaram. Nos quartéis do Exército, tenho certeza de que todo o mundo também teve que dobrar o serviço, mas para esses estou pouco me f*dendo e estou até rindo, já paguei o que devia à força, já fiz ronda de madrugada, fiquei de serviço debaixo de chuva no réveillon do milênio.

Ninguém fez nada para resolver nada, e aí me incluo; a crítica vale também para mim mesmo. Eu não sabia se meu síndico havia tentado contato com a Light para trazer a luz — como se o caminhão da Light fosse conseguir chegar a nossa rua no meio do dilúvio –, então tentei contato. Descobri todas as linhas da empresa ocupadas, e tome ouvir musiquinha. Dessa vez, não posso culpá-los.

Enquanto isso, meu telefone fixo é um fax Panasonic que só funciona se estiver ligado na tomada, de modo que fiquei também sem telefone. Passei a contar com o celular, cuja bateria já não estava no máximo e, portanto, tinha que ser usada com parcimônia. Esposa lembrou que temos dois no-breaks (o do computador e o da TV), ambos com carga, e perguntou se poderíamos carregar os celulares neles. Suponho que sim, mas é aquilo: você só tem meia hora de carga — use-a sàbiamente! Aí, lembrei que, dois dias antes, eu havia carregado a bateria da máquina fotográfica. Quer dizer, ainda tinha essa carga com que contar. Me senti o próprio Magáiver*, restabelecendo a luz da rua só com a bateria de lítio de 2,4 Wh da Sony.

E como é que eu soube que a luz tinha voltado? O infeliz do meu vizinho já tinha botado o rádio no máximo. O mesmo e repetitivo disco, over and over again.

* A formulação correta da frase seria “Senti-me o próprio McGyver”, mas não teria o mesmo gosto.

EOF

Escrito por sratoz

06/04/2010 em 12:05

Relação sinal/ruído em queda

deixe um comentário »

Na minha infância (mais ou menos na época em que estavam construindo as pirâmides do Egito), o português dos jornais e revistas tinha um padrão de qualidade que era referência até na escola. A quem não tinha o hábito de ler livros, aconselhava-se que, pelo menos, procurasse manter sua proficiência lendo periódicos. Empìricamente, sempre constatei que a publicidade seguia a mesma regra: era extremamente raro encontrar erro de português em anúncio — qualquer tipo de anúncio.

Agora, você abre os jornais online e não encontra uma linha que não tenha nenhum erro de concordância, onde não falte nem sobre nenhuma palavra e onde se tenha certeza de que o estagiário-redator não tenha matado a aula de pronomes relativos. São textos que, na minha escola, teriam sido classificados abaixo do subcrítico (é com hífen?), com os mesmos nomes sendo grafados de duas ou três maneiras diferentes na mesma frase. Não raro, existem sequências que contradizem a chamada ou sequer fazem sentido.

Aí, chegamos ao maldito spam. Todo dia recebo aquelas mensagens pedindo que eu atualize meu módulo de segurança em algum banco onde não tenho conta. Sabe como é, “clique aqui para instalar um cavalo-de-troia na sua máquina e liberar acesso a suas senhas”. Uma das formas de se identificar esse tipo de mensagem é que sempre vem num português pavoroso, começando frase com minúscula, cheio de erros de ortografia, concordância nenhuma etc. e tal.

Só que, agora, com o agravamento da tragédia escolar nacional, mesmo as mensagens legítimas vêm povoadas de erros crassos. Então, não dá mais pra separar o trigo do joio. Qualquer dia, vou receber algum aviso importante mas identificá-lo como spam (no que provàvelmente acertarei, sem contradição mas cheio de doublethink).

Nessa inversão contemporânea de valores, pelo menos já consegui identificar algumas regras do neoportuguês, a saber:

- Toda vez em que o português correto proíbe o “a” craseado, o neoportuguês exige-o. Quando o português o exige, o neoportuguês proíbe-o. Por exemplo: a frase

A partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa às 8 h. — A Gerência.

, quando vertida para neoportuguês, fica assim:

À partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa as 8 h. — À Gerência.

- Toda vez que o português correto exige a forma “há” do verbo haver, o neoportuguês transforma-o em “a” isolado ou em “à”, craseado, à escolha de quem escreve. Assim, a frase

Há muitos anos não vou à escola.

é transformada em

À muitos anos não vou a escola.

- Toda vez que o português correto usa a construção “nada a ver”, o neoportuguês transforma-a em “nada haver” ou “nada a haver”.

- Toda vez que um verbo vem antes de seu sujeito, o neoportuguês exige que o verbo fique no singular, mesmo que o sujeito esteja no plural:

Chegou as novas regras de concordância!

- Toda vez que um verbo vem antes do sujeito e está na voz passiva, o neoportuguês exige que o verbo auxiliar e o particípio permaneçam sem qualquer concordância com esse sujeito:

Foi dado várias ordens para desocupar a praça.

E assim sucessivamente. Se você descobrir alguma regra do neoportuguês que não esteja aqui, por favor me informe. Preciso aprender essa nova língua urgentemente, para poder manter uma vida negocial saudável.

EOF

Pessoa jurídica comete estelionato?

deixe um comentário »

Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).

Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu  havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.

Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.

Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?

Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível

(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)

e que só depois das 23:30 h.

Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.

Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.

Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.

E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?

É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.

Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.

Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.

Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.

Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:

– Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.

– Trabalho.

– E você não sabe quanto eu pago à Oi.

– Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.

– Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.

Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.

… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.

(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.

Passei! Passei no teste!

with

Por décadas, os nerds fomos rejeitados. Quando eu estava no Exército, havia um coronel que me chamava de nerd. Acho que, em certa medida, ele estava me ofendendo, ou era sua própria noção distorcida do que seria um tipo de humor não ofensivo, mas, em igual medida, eu na verdade me orgulhava. Porque nós, nerds, sempre nos achamos superiores, certo?

O problema é que, hoje, ser nerd é maneiro. Então, todos os não-nerds ficam dizendo que são também. Não adianta negar nem explicar, porque eles nem sequer SABEM o que é ser um nerd, e de boa fé estão achando que são. Deixe-me dar-lhes a dica: se você deixou de entender uma porção significativa das piadas de Big Bang Theory e só riu dos nerds da série ”porque eles são engraçados”, ou porque são diferentes de você, então você não é um nerd. Muitas vezes, Sheldon não está só fazendo piada com os nerds, mas com você, que não é.

Nerds acham graça na maior parte das piadas de http://xkcd.com/. Nerds acham graça em todas as piadas (que tenham graça) de http://www.phdcomics.com/.

No ano passado, vi-me jantando com uma amiga atriz logo depois de sairmos do teatro onde ela fazia a madre superiora nA Noviça Rebelde. Junto vieram três de seus amigos do teatro, atores ou sei lá, e uma das sem-noção desse grupo começou a me perguntar o que é um nerd. A sério. Tinha ouvido a palavra mas não sabia o que era. Depois que expliquei, a desconectada criatura teve a desfaçatez, a ousadia, o desplante de me dizer que então era uma nerd.

Não, jovem, não é. Para entender a mente nerd, leia o Cardoso. Especialmente aqui. Não posso escrever melhor do que ele. Não se chega a nerd por vontade ou esforço pessoal. Se você precisa se esforçar, então automàticamente é impossível que se torne um nerd.

É frustrante. A vida inteira, ser um nerd era estar na de fora. Agora que os nerds conquistaram o mundo, agora que estamos por cima e ganhamos mais dinheiro (bom… menos eu), agora que é legal ser nerd, todo o mundo quer dizer que é nerd também! Porra, assim não dá! Os caras querem ter o bolo *e* comê-lo?!?! Só querem ganhar sempre sem trabalharem nunca?!

Ser nerd não é uma espécie de clubinho onde você entra só porque se diz sócio. Você nem sequer entra; você tem que já nascer dentro, ou melhor, um dia se descobrir dentro. E essa gente toda está querendo entrar, usurpar indevidamente.

Alguns de vocês podem estar acompanhando minha lenta e longa atualização das 500 respostas ao teste de nerdidade. Só que o teste é muito específico e datado. A época é claramente o início dos anos 90, e o viés das respostas fica muito alterado.

MAAAS acabo de descobrir uma versão atualizada do teste:

http://nerdtests.com/ft_nt2.php?score

É óbvio que o fiz imediatamente. E passei!

Taqui meu resultado. Foi alcançado, entre outras perguntas, sendo capaz de fornecer uma tabela periódica, um mapa-múndi, um mapa do mundo antigo e um exemplar da Ilíada, cada um em menos de quinze segundos. Quem se acha um nerd, saiba: pois eu sou um Cool High Nerd.

(Não consigo fazer upload da figura, mas foda-se. Sou um Cool High Nerd, não preciso provar nada.)

Meu resultado (1)
Meu resultado (1)
Meu resultado (2)
Meu resultado (2)

Consolidado (com base na versão feita minutos antes dessa que está acima):

Meu resultado (consolidado)
Meu resultado (consolidado)

 

EOF

Tomara que os maias tenham acertado a previsão

deixe um comentário »

Hoje eu estava olhando as reações dos belogues à vitória do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016.

(Ué, não era isso? Bom, mas já deve ter gente por aí achando que é. “O Brasil ganhou os Jogos Olímpicos de 2016.” Assim, por antecipação.)

É muito engraçado. Váááários belogues e comentários com atitude ambivalente. De um lado, condenam os negativistas, os derrotistas, e ufanam-se com a grande vitória que afaga nossa auto-estima (“auto-estima” agora é sem hífen? Pesquisaí). Que o Rio é tão bom quanto Oslo e que Liechtenstein tem problemas urbanos iguaizinhos aos nossos. De outro lado, admitem que “vai ser a maior roubalheira”, “não resolve nossos problemas”, “cabe a nós a fiscalização” etc.

Como sempre, não sei de nada. Mas o metrô vai até a Barra. Então, o sujeito vai sair lááá da Pavuna, vai dar a maioooor volta, vai passar pelo Centro, vai até a Barra. O que eu não entendi é como é que vou fazer para descer na Carioca. Sim, porque, quando você achava que não tinha como aumentar o grau de compactação, vêm os guardas com chicotes que dão choque e te fazem perceber que, se ficar na ponta do pé, até dá pra respirar. “Atenção! Todo o mundo bidimensional aê! Aperta mais! Você aí! Molda na parede! Isso!”

(Eu já contei de quando não consegui mover a cabeça no metrô? É angustiante. Não podia girar a cabeça para os lados. Não há nem que temer o batedor de carteiras, porque ele também não consegue mexer a mão. Em condições assim, nem precisava de vagão das mulheres.)

E não venham me dizer que estou amargo. Agora somos internacionalizados. Eu estou é demi-sec.

EOF

Escrito por sratoz

05/10/2009 em 23:04

As guerras inquilínicas

com 3 comentários

Alguns dias atrás, a BAxt fez algumas ponderações sobre o tratamento que os ricos fazem questão de dar aos pobres: aqui e aqui.

Minha Senhora estava chegando ao prédio onde moramos. Havia um morador segurando a porta do elevador, mas, quando ela chegou, o sujeito disse que ela podia subir e ficou no térreo, conversando com o vigia noturno. Ela embarcou sòzinha (no que fico muito feliz: menos um possível ataque de estuprador nesta cidade maravilhosa).

No dia seguinte, quando ela saía cedo para o trabalho, o vigia disse a ela que o morador lhe havia perguntado se ela era proprietária ou inquilina. Explicou: “é que tem proprietário que não sobe no elevador com inquilino”.

Então, agora, sou eu que baixo a seguinte regra: não subo no elevador com quem não sobe com inquilino.

***
Hoje é dia 8 de setembro. Se tiver algum trekker desnaturado lendo isto, lembro a ele o que esqueceu: hoje é o 43o. aniversário de Jornada nas Estrelas. Parabéns pra todos nós.

EOF

Escrito por sratoz

08/09/2009 em 09:33

Manifesto anti-houveram

com 4 comentários

Não aguento mais (agora sem trema) me deparar com “houveram”.

Casos em que “houveram” está certo: “eles houveram de ouvir tudo que foi dito” (“eles tiveram que ouvir tudo que foi dito”).

Todos os outros casos estão errados. Não tem essa de “houveram vários acidentes”, nem de “houveram muitos casos de gripe suína”. Infelizmente, em todos os casos em que tenho encontrado a palavra “houveram” nos últimos, sei lá, quinze anos, o uso está errado. QUANDO O VERBO “HAVER” TEM O SIGNIFICADO DE “EXISTIR” OU “ACONTECER”, NÃO É PRA PASSÁ-LO PARA O PLURAL. NUNCA.

Por favor, parem com essa agressão ao português. Se vocês ouvirem alguém usando “houveram” desse modo errado (e podem ter certeza de que é o único modo como vão ouvir), por favor, apertem o botão de ejeção do infeliz.

Obrigado.

***
Em uma nota não relacionada, quero saber por que é que há um helicóptero Super Puma da Força Aérea fazendo círculos em cima da Tijuca a esta hora da manhã de uma segunda-feira.

EOF

Compre o CD e leve 100 kg de papel

deixe um comentário »

Esta história aconteceu a uma bibliotecária que conheço. Ela tem uma coleção completa da enciclopédia Barsa, que é maravilhosa mas ocupa vinte volumes daquele tamanho. Como o espaço em casa é pouco, ela procurou a Barsa em CD, para substituir mesmo. Foi a uma feira sobre bibliotecas, onde encontrou a vendedora.

Pois acontece que existe. De acordo com a vendedora, o CD vem de brinde na compra de uma Barsa completa em vinte volumes.

Mas, vem cá — pergunta a Bibliotecária Sem Espaço em Casa –, não dá pra eu levar só o CD? Diz a vendedora que não: você só leva o CD se comprar tudo mesmo, o que, aliás, custa um número de quatro algarismos.

E aí vem a pérola: a vendedora explicou que a editora tem o propósito de estimular as crianças à leitura e é por isso que não vende o CD separadamente.

Arrã. Estimular as crianças à leitura. As crianças vão ler uma ENCICLOPÉDIA, ainda mais uma sisuda feito a Barsa, que tem letra miúda e pouca figura, e vão passar a gostar de ler.

Aliás, pára. Antes de a criança ser afastada da leitura pela Barsa, primeiro ela teria que PEGAR a Barsa pra ler, o que já não vai acontecer. Aliás, antes de pegar a Barsa pra ler, os pais teriam que comprar pra ela, o que não aconteceria NEM se só custasse um reau. Vinte volumes? Sem figura?

Aí: temos uma novidade no linguajar da editora. “Encalhe de exemplares que ninguém mais compra” virou “estímulo à leitura”.

TNC todo o mundo.

Charlatanismo rampante

deixe um comentário »

Vi o linque. Desconfiei que fosse charlatanismo, então cliquei para ver qual era a novel forma de enganar o público.

Vim parar aqui. Parece a história de sucesso de uma dona-de-casa americana típica, que teria conseguido perder 21 kg sem regime nem ginástica.

Só comendo açaí.

Ela começa dizendo não ser uma celebridade, mas minha desconfiança começou a se transformar em certeza quando vi que o texto ficava promovendo a Oprah e o Dr. Oz, usando a credibilidade de figuras que vendem MUITA credibilidade às donas-de-casa americanas e falando das maravilhas de uma frutinha que, para eles, é exótica. Santo de casa não faz milagre; portanto, para muitas americanas, seria garantido que a frutinha da Amazônia traria a receita extraterrestre para resolver todos os problemas de emagrecimento. Uma espécie de velho da montanha, só que em cápsulas.

Prosseguindo na descrição, detectei a lorota da “parede de gordura velha grudada no intestino”. É um velho truque dos charlatas do emagrecimento: eles te fazem engolir uma cápsula que, na verdade, contém uma espécie de massinha, dizendo que é remédio para purgar as gorduras velhas, toxinas, venenos etc. Dentro do seu corpo, a massinha absorve água, molda-se ao intestino e multiplica enormemente seu volume. Você acaba ca*ando esse negócio e acha que é mesmo uma substância que estava dentro de você fazia anos e que só agora está sendo expulsa, pelo “remédio”.

Pensei em entrar na caixa de comentários e denunciar a mentira do açaí. Foi aí que vi os comentários desabilitados. E a nota de copyright de uma empresa, não de uma pessoa física. E um linque para o belogue de Rachael Ray — esta, sim, celebridade no padrão Oprah. E também notei que o “belogue” só tinha esta entrada, de 2008, e mais nada.

Entrei no “belogue de Rachael Ray”. Idêntico, também tinha só esta entrada, texto igual, arranjo visual igual, mesmas cores, exceto que o texto não se dizia escrito por “Jenny Thompson”, mas por “Alyssa Johnson from Duque De Caxias, 21″.

Uma soccer mom americana de Duque de Caxias??? Ah, sim: aos 21 anos ela tem um filho de TREZE??? O que estão pondo na comida dessas meninas hoje em dia?

Bom. O último comprimido de anfetamina A gota d’água foi este detalhezinho no canto superior esquerdo: “Note: expiring on Fri, Aug. 14, 2009″. Estou digitando isto na sexta, 14 de agosto. Se você está lendo em outro dia, veja lá se a oferta não expira no dia em que está lendo, ou no dia seguinte.

Não sei. Certos websites, dá vontade de chamar a polícia. Exceto que não é crime, nem eu sei em que Estado publicaram.

Apidêite: testei. Agora Alyssa é de Niterói, mas ainda tem 21 anos e é casada há quinze. Já que agora é sábado, 15, a oferta vai só até domingo, 16. Aí: é muito Polishop, né não? “Mas espere! Você ainda leva este descascador de banana, inteiramente grátis!”

Visitas recentes:
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_us/us_wrong_way_crash
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_mi_ea/ml_iran_election
http://www.youtube.com/watch?v=Shti4brylgw&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=YVIHn5GdWhI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=0Kgusd1rN6E&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=S61zLcMFp1A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=WRfDsSnLtE4&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=eCCMEIv8ZVk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=ApM_f-jBlP0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=DFwTEZVEe9s&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=GGoSCX9V4fo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=HmIkH1-ehKc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=xz8fOZxIdVg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Q6l1rwQJjYg&feature=related (USS Forrestal, part 1)
http://www.youtube.com/watch?v=_MVXRng2VCc&NR=1 (part 2)
http://www.youtube.com/watch?v=UuTq6d51JfY&feature=related (part 3)
http://www.youtube.com/watch?v=hvZH7wtzY_Q&NR=1 (pt 4)
http://www.youtube.com/watch?v=iK7RGpSlJ7Y&NR=1 (pt 5)
http://www.youtube.com/watch?v=vYAWrkvyYdc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=SAhWU19etQM&feature=related (Tu-22M3)
http://www.patricksaviation.com/videos/Caribougnal/1694/ (Rio, 1967)
http://www.patricksaviation.com/videos/Guest/503/ (A-4 da MB)
http://mundofox.com.br?bcpid=5830441001&bctid=8364530001 (Family Guy) (uma das continuações diz que estão levando o prisioneiro para o bloco 1138, referência ao primeiro filme de George Lucas, THX 1138)
http://www.camigoestonorway.blogspot.com/

http://xkcd.com/123/ — sugestão da Pacamanca. E o mais engraçado é que o diálogo está 100% correto do ponto de vista da Física. Realmente, as forças centrífugas não existem nos referenciais inerciais, mas apenas nos referenciais em rotação, tal como explicado pelo vilão. Muito bom.

EOF

Sintomas de um mercado editorial incipiente

with

De vez em quando eu resmungo que este é um povo de pouca instrução, pouco dado à leitura. Pelo que leio por aí, parece que estou sendo injusto quanto a essa segunda parte, porque BAxt e pacamanca já me convenceram de que a aversão à leitura dever ter algo de universal.

De todo modo, é um povo pouco instruído, sim. O tratamento que os livros recebem no Brasil é quase o de algo proibido. De fato, alguns anos atrás, um amigo de meu irmão ficou espantadíssimo quando, visitando-nos em nossa casa, surpreendeu-me lendo durante as férias, como se eu fosse maluco de estar desperdiçando meu tempo com uma tarefa que só deveria cumprir se fosse obrigado.

Então, eu passava agora há pouco em frente à livraria Eldorado da Tijuca, quando uma capa chamou minha atenção. Vários homens jovens, com traje de vôo, sentados na asa de um avião inglês da II Guerra Mundial, em uma fotografia em preto e branco típica da época (incidentalmente, dá pra dizer que o avião é inglês pela forma do motor que aparece no canto). O livro era Há muito o que contar… aqui, de A.L. Kennedy. Fiquei imaginando que fossem histórias de aviação durante a guerra, tema que sempre me atrai. Como não gosto de comprar um livro só pela capa, fui pesquisar por aí.

Primeiro, procurei A.L. Kennedy na Amazon. Encontrei Day, que tem a seguinte descrição:

Kennedy’s contemplative, stylized sixth novel (after Paradise) follows former Royal Air Force tail gunner Alfred Day as he relives his experiences in a WWII German prison camp. It’s 1949, and (…) He volunteers as an extra on the set of a war documentary, (…) The film set experience grows darker as Alfred begins reliving his time in the prison camp (…)

A capa era diferente da que eu tinha visto. Para confirmar que o livro fosse o mesmo, fui ao saite da Saraiva, a conferir a descrição. Olhe só o que encontrei:

A historia de um homem que foi piloto de um bombardeiro da Força Aérea Britânica durante a segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, em 1949, ele participa como figurante num filme em que revive sua experiência de prisioneiro de guerra.

Está notando algo diferente? No original, ele era tail gunner: artilheiro de cauda, aquele cara que vai dentro de uma jaulinha no rabo do avião, dando tiro nos alemães que vêm atacar por trás. No comentário brasileiro, ele se tornou piloto.

Relevando o ataque à ortografia (“historia” sem acento) e a impropriedade dos nomes (“Força Aérea Britânica”, em vez de “Real Força Aérea” ou de “Força Aérea britânica”, como se o “Britânica” fizesse parte do nome, o que não faz; e “segunda Guerra Mundial”, com o “segunda” iniciado por minúscula), resta o fato de que a resenha brasileira está, muito provàvelmente, errada quanto aos fatos. Quer dizer, não sei qual das duas, mas, se eu tivesse que apostar dinheiro, diria que a errada é a brasileira.

(No mínimo, porque é menor: meu Word contou 126 palavras, contra as 315 das duas resenhas da Amazon combinadas. Não vou contar o fato de que a Amazon deixa os leitores comentarem a obra, que seria covardia. Oito pessoas deixaram lá suas observações, muito mais úteis (e algumas mais extensas) do que as resenhas editoriais e, aliás, confirmando que Day era tail gunner. Aliás de novo, é por essa e inúmeras outras razões que eu adoro a Amazon: ela sempre dá vasta informação sobre o produto, permitindo que você saiba exatamente o que esperar dele, qual é a edição, o que chamou a atenção dos leitores etc. Você não toma nenhuma decisão no escuro. Já deixei de comprar inúmeros livros que compraria de outro modo, só com base nas resenhas deixadas lá.)

Você poderá argumentar que isso não faça diferença e que o livro terá valor, ou não, independentemente da posição que Day ocupava a bordo. Só que, se a idéia é expor o produto para que eu escolha se o quero, então tudo conta para meu julgamento. Sinceramente, eu, Atoz, dou mais valor à história do tail gunner do que à de um piloto, por duas simples razões. Uma, que as perspectivas são completamente diferentes: o piloto é um oficial, comandante da tripulação, responsável por erros e acertos e com poder de decisão sobre para onde leva o avião, enquanto o artilheiro de cauda não é um oficial, fica impotente para comandar qualquer coisa além de sua metralhadora, opera em um espaço bem mais confinado, e submete-se aos mesmos riscos do piloto mais o de levar um tiro na cara, que o piloto, em regra, não. São pontos de vista bem diferentes. Outra, que o ponto de vista do piloto está narrado em dezenas de livros e revistas sobre a guerra, mas o do artilheiro é bem mais difícil de se encontrar, e valorizo-o mais por isso.

Então, como você pode ver, o consumidor incauto, que não pesquisa em outros saites ou não fala inglês, é levado pela Saraiva a uma impressão errada sobre o livro. Além do mais, existe uma norma básica, né: o que não se pode é errar; se não sabe, então não escreva nada. Não vai cair a mão se, na dúvida, o livreiro escrever “tripulante” em vez de “piloto”.

Naturalmente, tudo isso decorre da displicência de quem não teve cuidado suficiente antes de resenhar Há muito o que contar… aqui. Imputo essa negligência ao espírito geral, reinante no Brasil, de se equiparar livro a mercadoria de camelô. É aquela noção de fazer tudo sem cuidado, porque tanto faz. Duvido que isso acontecesse em um país que desse valor à leitura.

EOF

Prezado Cliente

com 5 comentários

Agora é assim: eu entro na estação do Metrô de manhã. É aquele mundo de gente caminhando no mesmo sentido, todos apressados e com cara de idiota (eu não sou exceção). Só pela multidão em movimento, Metropolis-style (Fritz Lang, não Siegel & Shuster), já dá pra antecipar que, dentro do vagão, vai estar todo o mundo socado (no mau sentido mesmo).

Aí, dos alto-falantes vem uma voz descarnada de mulher, toda entusiástica. A pontuação, por esquisita que seja, é realmente a que eles usam: “Prezado Cliente! O Metrô Rio, agradece, a preferência, e deseja, um bom, dia!” Segue-se uma voz masculina: “Prezado, Cliente!, aguarde o desembarque dos demais passageiros antes de embarcar?! Evite, acidentes. (…)”

Só pode ser molecagem, né? Só pode ser espírito de porco. Primeiro, a hipocrisia sarcástica e debochada da moça pseudo-educada. Depois, o paternalismo da gravação que me trata feito criança.

A lamentável culminação disso é que não tenho sequer a quem mandar tomar no

APIDÊITE posterior ao primeiro comentário abaixo: eu tinha esquecido outra gravaçãozinha irritante. É assim: “Prezado Cliente: o Metrô Rio destina carros exclusivos para às mulheres [sic na crase] nos dias úteis, entre seis, e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde, e oito da noite. Respeitar a lei, é uma questão, de Cida Dania. Carro das Mulheres: respeito é bom e elas merecem.”

Olha só: cidadania é ter direitos políticos, poder votar e ser votado. Faveladinho usando computador não é cidadania, é demagogia e salsinhação do Orkut. Então, respeitar a lei não é questão de cidadania, não; é apenas uma forma inteligente de evitar as bordunadas dos brutamontes do Metrô, que ficam em frente ao vagão das mulheres, torcendo para aparecer um desavisado e descer-lhe a mamona. Não tem nada a ver com direitos políticos. E mais: respeitar a lei não é sequer questão de educação ou de caráter; é simplesmente um dever que você ou cumpre, ou vai pra cadeia, ou paga multa, ou a sanção que for. Algumas pessoas, querendo manter um discurso falacioso, vêm com essa de que cumprir a lei é questão de educação, como se a gente tivesse outra escolha. Não tem. Quem está no território do Estado tem que cumprir a lei do Estado, mesmo que não goste, mesmo que seja contra.

E como assim, “elas merecem”? Por que a ênfase? Por que a discriminação? Só elas é que merecem? Homem não merece?

Vou dizer a vocês, de fora do Rio (e também a quem está no Rio mas porventura não conhece a ratio legis): o motivo de existir um vagão destinado somente a mulheres é que, supostamente, tinha homem passando a mão na bunda das mulheres na hora do rush. Então, o simples fato de eu entrar no vagão não é, em si mesmo, alguma ofensa à dignidade feminina. Não se trata de algum território de propriedade das mulheres, tal que, entrando, eu estaria ofendendo-as, desrespeitando algo que fosse delas. Não. Apenas o Estado do Rio não quer que eu entre no vagão — eu estaria desrespeitando o Estado, que me proibiu de entrar. Não é o vagão nem são as mulheres, é o ato.

Outro dia, ouvi de uma moça no elevador: um rapaz, pilotando cadeira de rodas, entrou no vagão feminino por engano. Quando viu onde estava, a porta já tinha fechado. Foi imediatamente escorraçado por uma senhora. Ora, pombas, qual é o mal que pode fazer um moço em cadeira de rodas contra a bunda das circunstantes? Quem tá perto dele não tá olhando pra ele mesmo? Alguém vai dar esse mole? Mas, òbviamente, a imbecil julgava ter o especial direito de, sei lá, ter mais espaço.

O vagão das mulheres não é um direito das mulheres; é uma proibição aos homens. Antes que me venham com essa de que “mas o direito de um termina onde começa o do outro” ou de que, sempre que alguém tem um direito, é que alguém tem uma obrigação, deixa eu te dizer: existe um negócio chamado crime formal. Não, eu não estou dizendo que entrar no vagão das mulheres seja crime, estou apenas fazendo uma comparação. No crime formal, só de o sujeito praticar a ação, ele já merece punição, mesmo que não haja consequência (agora sem trema). Então, mesmo que não haja vítima, ele já incorreu em uma conduta proibida.

Poderão dizer, ah, mas a vítima é a sociedade. Bem, certamente. Só que, aí, é TODA a sociedade, inclusive eu e os demais homens, e não apenas as mulheres do vagão. Então não é isso.

Taí, viu? Comecei reclamando das gravações ofensivas e terminei no vagão das mulheres. Então, me deixa sair antes de levar p**rada.

EOF

Escrito por sratoz

10/07/2009 em 08:58

O Olho Viu

deixe um comentário »

Esta não dá pra não passar adiante.

O baruno, colega de minha irmã, edita o fotologue O Olho Que Tudo Vê. Em geral, são placas com erros grosseiros de português ou falhas gritantes de lógica, do tipo “leve um e pague dois”. Ele fotografa e mostra pra todo o mundo.

Infelizmente, hoje à tarde, eu não tinha câmera (nem meu celular a tinha) na estação de metrô da Carioca. Então, vou ter que narrar. Acompanhe.

Tem u’as máquinas de vender livro, iguais às que vendem chocolate e biscoitinho. Tem a máquina da esquerda, a máquina da direita, e os livros presos lá dentro, querendo sair.

Na máquina da esquerda, os livros têm códigos: 011, 012, 013 etc. Na vitrine da máquina, um papel havia sido colado com durex: “acrescente um zero na frente dos códigos dos livros desta máquina”. Pensei: ué, já não tem o zero? Então são dois zeros? Seriam 0011, 0012, 0013… Bom, pode ser. Quem define os códigos são eles.

Na máquina da direita, os livros têm códigos: 21, 22, 23…

Entende o que aconteceu? O idiota colocou o aviso na máquina errada.

É disso que falo, é a isso que me refiro quando escrevo sobre os Intreináveis. Não adianta. Enquanto continuar contratando mão-de-obra desqualificada, desleixada, desidiosa, analfabeta, negligente e indolente, é isso que vai continuar acontecendo.

E isso é por toda parte. Canso de verificar semelhantes exemplos várias vezes por dia. Gente que não está nem aí e ainda espera receber salário por isso.

***
A esse respeito, hoje cunhei outra máxima: CONTROL-CÊ-CONTROL-VÊ É PRA SER USADO COMO SUBSTITUTO DA DIGITAÇÃO — NÃO DO PENSAMENTO! Na faina diária, farto-me de encontrar exemplos em que pessoas simplesmente copiam um texto inteiro sem fazer revisão e, em consequência, sai tudo errado. Já quando eu copio um texto inteiro, geralmente o texto é meu mesmo e eu reviso ele todinho. O copia-cola é pra ser usado como substituto do tedioso trabalho de digitar tudo de novo, mas não é pra substituir o olhar atento de revisor. O usuário não deve — NÃO PODE — presumir que ”ah, é tudo igual” e nem olhar o que está fazendo.

Argh, que, se o mundo fosse gerido por mim, tava todo o mundo na rua. Não ia ter emprego pra ninguém, e a indústria ia parar. Ainda bem que não sou eu que respondo.

EOF

Intreináveis insidiosos

com 2 comentários

Minha irmã voltou de Curitiba anteontem. Conta-me dos percalços da volta.

Primeiro, chegou cedo ao aeroporto para fazer um voo direto ao Santos-Dumont, partindo às 11:05 h. A moça-do-checkin disse-lhe que seu voo sairia 10 e pouco, teria escala em Campinas e chegaria ao Galeão. Apesar da insistência de minha irmã, a moça-do-checkin teimou que o voo dela tinha sido cancelado e que minha irmã teria que vir no voo das 10 e pouco. Já dentro da área de embarque, minha irmã procurou um moço-do-balcão da companhia aérea, esclareceu o mal-entendido e ouviu dele que seu voo original, direto, partindo às 11:05 h e chegando ao Galeão, estava confirmado.

Que houvera no balcão de checkin?

Bem, não sei. O que importa é que se consertou o voo. O moço-do-balcão perguntou se ela tinha bagagem despachada. Tinha. Então, ele foi pro rádio e mandou retificar.

Chegando ao Rio, minha irmã não encontrou sua bagagem. Procurou o moço-das-reclamações. O moço-das-reclamações perguntou como era a mala e, diante da resposta, também foi para o rádio: “Fulano! Eu já falei mil vezes, vou falar pela última vez: é pra descarregar a bagagem não identificada! Põe na esteira um!” A esteira 1 começou a andar e a mala de minha irmã apareceu.

Você reparou? “Bagagem não identificada.” Sabe o que isso significa? Que, lá no aeroporto internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, alguém teve o trabalho de tirar a etiqueta errada, mas não o de apor alguma correta. Entendo a dificuldade logística de se trazer a mala de volta para dentro do prédio e de se reemitir uma etiqueta que batesse com o cartão de embarque, mas, pombas, etiqueta NENHUMA???

Apideite: tem mais uma, que só lembrei depois. Todos já a bordo, o piloto anuncia que o destino é Santos-Dumont e uma passageira se assusta: peraí, Santos-Dumont? Eu estou indo para Congonhas! Este avião não vai para Congonhas? Diante da negativa, saiu apressada.

Aí você vê: òbviamente, a criatura se enfiou em qualquer portão de embarque sem conferir o que dizia a tela; e ninguém deu a mínima para o cartão dela. Bem sei disso, porque já reparei que difìcilmente as moças que recolhem cartão de embarque chegam a ler o que está escrito. Ou seja, ninguém está nem aí. Ah, quer saber? A primeira pessoa a prestar atenção tinha que ser a passageira. Merecia ir para o Santos-Dumont! [/apideite]

Já demonstrei aqui que o Brasil está caindo vítima dos Intreináveis. A empresa em questão é mais uma refém da falta de qualificação de pessoal da Grande Nação Brasileira. Se, antes, só os encontrávamos atrás do balcão do KFC e do Bob’s, agora eles parecem penetrar alguns domínios mais arriscados da economia brasileira, como são as atividades de terra dos aeroportos. Em breve, a segurança dos voos estará nas mãos deles (ou talvez já esteja). Não é animador? Fico pensando naqueles filmes de invasão alienígena, onde o herói descobre que está cercado, que todo o mundo em volta é inimigo e que não há a quem pedir socorro. São aqueles conquistadores silenciosos, que, quando você percebe, já tomaram tudo. Mais ou menos como os chineses na SAARA.

O que me deixa mais admirado não é a bagagem chegar sem etiqueta. É terem deixado ENTRAR NO AVIÃO sem etiqueta. Se isso acontecesse em Heathrow, ou em algum lugar igualmente pouco civilizado, fico pensando se não mandariam todo o mundo descer do avião, esquadrão antibombas e o escambau, e se não iria lá aquele robozinho sobre esteiras, levantando a mala de minha irmã até um canto remoto da pista, para explodi-la em segurança.

Intreináveis.

O porquê

com 3 comentários

Eu odeio porque me importo.

EOF

Escrito por sratoz

21/05/2009 em 13:40

Na categoria Frustrações urbanas

“I’m sorry, Dave, I’m afraid I can’t do that.”

with

Ano passado, comprei um computador Dell. Dele escrevi isto aqui. Olha, não tenho grandes queixas. Ele funciona direitinho, é suficientemente rápido, até agora nada deu defeito, consigo instalar tudo sem complicações. Já que tem que ser o maldito Vista, então que venha de fábrica: não tive nenhum dos problemas que as pessoas relatam pela Web.

Mas tem uma coisa bem chata. Se eu tentar acessar os diretórios Documents and Settings, System Volume Information ou uns outros que tem no HD, ele me dá uma das mensagens mais simpáticas que um sistema pode te mostrar: Acesso negado.

PQP. O computador é meu, comprado da maneira mais legal e legítima, nenhuma pirataria envolvida, e EU não tenho acesso aos MEUS DADOS que estão gravados no MEU computador!!! Sei lá, vai ver que a Dell ou a Micro$oft deve achar que, se EU tiver acesso aos MEUS dados, vou lhes causar algum grande prejuízo, vou roubar toda a sua propriedade intelectual… Ou, então, que eu sou uma daquelas salsinhas (TM Cardoso) que vai apagar algum arquivo fundamental e depois culpar o fabricante… O computador é MEU, eu deveria ser livre para mexer onde quisesse nele… “Ah, mas aí viola a garantia.” F*da-se a garantia, o risco é meu, eu decido se ainda vou querer técnico de graça depois de fazer uma cagada.

O que a parceria entre Micro$oft e Dell está me dizendo é que considera que seus clientes não sejam pessoas adultas e responsáveis, que precisem ser levados pela mão e que sejam essas fornecedoras quem pode decidir o que EU posso fazer com o MEU computador e o que não posso. Como se computador fosse arma de fogo, sei lá.

Aí, vou descobrir que tenho que hackear meu próprio computador. Tenho certeza de que consigo, deve ser só dar uns comandos e tal, só que não estou a fim da dor de cabeça, de ter que — calafrios terríveis: — entrar no registro do Windows

Lobotomia espacial

Lobotomia espacial

e depois ficar dando tela azul uma em cima da outra por ter editado o lugar errado… Além disso, na hora em que eu começar a mexer, os comandos secretos do Windows — que agora, para funcionar, receber atualizações etc., tem que estar permanentemente em contato com a nave-mãe no Oregon (é no Oregon?), enviando e recebendo pings sem eu saber, hackers oficializados de uma figa –, os comandos secretos vão acionar uma luz vermelha na sala de controle da Micro$oft, daquelas que giram e ficam gritando, AHWHOOGA, AHWHOOGA, … e vai sair uma equipe SWAT que vem aqui na minha casa, descer do helicóptero de rapel e me levar pra Guantánamo por violação dos termos de uso…

Outro é o notebook da Digníssima, aliás também Dell, legal etc. A maldita engenhoca foi comprada no Brasil. Aí, eu fui a Neviorque e trouxe um DVD sobre Beethoven (o compositor, não o cachorro), legítimo, não pirata, comprado em loja, etc. Aí ele travou: “este computador só toca zona 4. Seu DVD é zona 1. Você já mudou de zona quatro vezes. Quer mudar de zona de novo?” Ficamos com um ligeiro temor: vai que eu digo sim e ele tem um máximo de mudanças possíveis. Vai que, mais tarde, a gente precise do DVD de verdade, para alguma coisa de trabalho, sei lá, e ele diga que passou do máximo e não pode mudar de novo. Na dúvida, a gente preferiu não aceitar. Vamos deixar para ver no DVD player Panasonic que eu hackeei em 2007.

Pode isso? Eu ponho MEU DVD para rodar no MEU computador, sem violação do direito de ninguém, e o fabricante me vem com a gracinha de que não posso assistir porque comprei meu computador numa parte do mundo diferente daquela onde comprei o DVD, como se isso fosse proibido! “Arrá, você tentou assistir a um DVD americano em um computador brasileiro, não pode, é crime, bem feito, ficou sem computador.” Que mal há nisso? Que que eu fiz de imoral, de ilícito, de errado? Eles presumem que eu esteja pirateando, é isso? O que eles estão protegendo com isso?

Uma das criações mais nefastas que já houve no campo das comunicações foi esse zoneamento do mundo. Não há, não adianta, não há justificativa plausível para uma sacanagem global dessas. E não adianta dizer que é contra a pirataria. Essa p*rra não é eficaz, só aborrece, ninguém sai ganhando com ela. É só mais um jeito de me fazer ter trabalho, ter que sair catando tutoriais e executáveis pela Web, em saites obscuros que, aí sim, periga me passarem um vírus. Quer dizer: é a maldita indústria “legal” me empurrando pro abismo da ilegalidade.

A alternativa é eu procurar o concorrente: sair baixando tudo dos torrents e comprando no camelô da Carioca, que grita bem alto, “DVD jogos Corél! CD-rum, uínduófice Corél! Filmesjogos DVDiêê!” É isso que eles querem? Se eu comprar com esses caras, violando todas as proteções legais, tenho certeza de que não vou ter esse tipo de problema, já vem tudo desbloqueado.

Cambada de fidaputa.

***

Recém-lidos:

When Worlds Collide: Spock Confronts the Ultimate Challenge, de Paul Pope e K/O, publicado na Wired 17.05, 2009/04/24;

The Adventures of Superman #430 (julho de 1987), “Homeward Bound”, e #431 (agosto de 1987), “They Call Him — Doctor Stratos”, Action Comics #590 (julho de 1987), “Better Dying Through Chemistry”, e #591 (agosto de 1987), “Past Imperfect”, Legion of Super-Heroes #37 (agosto de 1987), “A Twist in Time”, 21 páginas selecionadas de 27, e #38 (setembro de 1987), “The Greatest Hero of Them All”, com isso terminando Superman: the Man of Steel: Volume Four, de John Byrne e outros; e Superman #9 (setembro de 1987), “Metropolis 900 Mi”, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008).

Recém-visitados:
http://www.nowheregirl.com (história em quadrinhos bem legal sobre solidão e diferenças);

http://www.factorfictionpress.co.uk/girly/ (mais histórias em quadrinhos);
http://www.mylifeinacube.com/ (tirinhas sobre a vida no escritório);
http://filthymac.apostos.com/ (Filthy McNasty);
http://thebrowser.com/
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ (Reinaldo Azevedo);
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/
http://ebompraquemgosta.wordpress.com/
http://www.youtube.com/watch?v=rmkLlVzUBn4 (A wolf likes pork) — stopmotion genial;
http://www.youtube.com/watch?v=TX1sgZVGBUwTop Gun feito em casa, ótima falta do que fazer, dica do Cardoso;
http://www.salsinhas.com/
http://www.morroida.com.br/
http://www.nerdblogueiro.com/
http://www.youtube.com/watch?v=_qQX-jayixQ (Penn and Teller Sleight of Hand, acho que dica do Alexandre Maron mas já não sei mais se foi)
http://www.interney.net/blogs/alexprimo/

EOF

Escrito por sratoz

27/04/2009 em 01:23

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.