Caixa de sabão do Sr Atoz

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Quem cair nesta aqui é porque MERECE

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Sabe o Nigerian scam? Pois então. Muita gente já caiu, né. Muita gente. Nesta era de absoluto analfabetismo digital, muita gente continua grosseiramente pedestre em sutileza e malícia, e ainda achando que é malandro. Então, o povo continua caindo no Nigerian scam.

O golpe é simplíssimo e meu sobrinho de quatro anos já não cai nele. Funciona assim: você recebe um email em um inglês tosco, supermal escrito, de uma pessoa que começa já sabendo que o email é inesperado para você. Prossegue explicando que encontrou você após uma desesperada busca por alguém honesto e confiável e que você tem o perfil desejado. Pede completo sigilo e conta que, em seu país da África ocidental (é sempre por lá: às vezes Nigéria, às vezes Burkina Faso, às vezes Gana… o país varia), determinada pessoa caiu vítima da guerra civil (ou de bandidos, ou de acidente de avião – a circunstância é sempre trágica). Que essa vítima tinha acumulado uma fortuna gigantesca, sempre algo acima de alguns milhões de dólares. Que ninguém apareceu para reclamar o dinheiro, que o dinheiro está seguro mas sem dono em algum banco. Que essa pessoa é gerente do banco (ou de outro modo tem acesso ao dinheiro), mas não consegue sacar o dinheiro sem algumas mirabolâncias e precisa da ajuda de alguém de fora.

É aí que você entra. O estranho oferece a você um percentual vultoso (algo entre 10 e 20%) para usar a SUA conta bancária para transitar o dinheiro para fora de seu país. Às vezes, vem a garantia de que a operação toda é perfeitamente legal, mas que a ditadura, se souber, vai matar ou confiscar ou algo otherwise bem ruim. Em geral, essa garantia não vem. Frequentemente, o que vem é uma história triste, onde o estranho alega ser filho do dono da grana, às vezes até príncipe real, e que é vítima da guerra civil, já tendo perdido a família.

Enfim, a história é ótima para convencer quem já quer ser convencido mesmo, quem já tem a moral fraca e está só atrás de uma desculpa para, sendo pego com a mão no pote, poder dizer que também foi enganado. É óbvio que seria só uma desculpa, porque, conforme também já está óbvio para o gentil Leitor, o golpe está apelando para o senso de malandragem de quem só quer sidarbem. O receptor do email sabe muito bem, e percebe muito bem, que, se o dinheiro existir mesmo, só pode ter origem ilegal, e que está sendo transferido a suas mãos de maneira mais ilegal ainda.

Mas é óbvio que não existe dinheiro. O email termina pedindo seus detalhes (endereço, telefone, conta de banco) e dizendo que revelará mais após sua resposta. Insiste no pedido de sigilo.

O que ele não diz é que, quando você manifestar interesse, ele vai pedir uma grana adiantada para molhar a mão das autoridades, depois mais grana para pagar uns tributos de última hora, depois mais grana para facilitar o escoamento através do banco, depois mais grana… Captou? Como você vai receber mais de um milhão de dólares, não se importa em adiantar alguns milhares para as despesas, não é verdade? E assim a sua conta bancária vai sendo depletada, para usar uma expressão bem apropriada aqui.

Pois é. Já recebi diversas variações do Nigerian scam, cada qual mais óbvia do que a outra. Então, foi dando muita risada que acabei de receber este email:

UNITED NATIONS COMPENSATION COMMISSION, IN AFFILIATION WITH THE KOELNER
BANK DE

Our Ref: WB/NF/UNCC/KB027

ATTN:Sir/Madam,

How are you today? Hope all is well with you and family?, You may not
understand why this mail came to you.

We have been having a meeting for the passed 7 months which ended 2 days
ago with the secretary to the UNITED NATIONS. This email is to all the
people that have been scammed in any part of the world.

The UNITED NATIONS have agreed to compensate them with the sum of
US$500,000.00.
.
This includes every foreign contractors that may have not received their
contract sum, and people that have had an unfinished transaction or
international businesses that failed due to Government problems etc.

We found your name in our list and that is why we are contacting you, This
have been agreed upon and have been signed Therefore, we are happy to
inform you that an arrangement has perfectly been concluded to effect your
payment as soon as possible in our bid to be transparent.

However, it is our pleasure to inform you that your ATM Card Number; 5490
9957 6302 4525 has been approved and upgraded in your favor. Meanwhile,
your Secret Pin Number will be available as soon as you confirm to us the
receipt of your ATM CARD.

The ATM Card Value is $500,000.00 USD Only. You are advised that a maximum
withdrawal value of US$10,000.00 is permitted daily.

And we are duly inter-switched and you can make withdrawal in any location
of the ATM Center of your choice/nearest to you any where in the world.

We have also concluded delivery arrangement with our accredited courier
service Company to oversee the delivery of the ATM Card to you without any
further delay.

So you are hereby advice to forward to this office Director ATM SWIFT CARD
Department. Therefore, you should send him your full Name and Telephone
number/your correct mailing address where you want him to send the ATM to
you.

Contact Dr.Henry Cole, immediately for your ATM SWIFT CARD:

Person to Contact Dr.Henry Cole.

Email : dr.henrycole@mail.mn

Thanks and God bless you and your family.

Hoping to hear from you as soon as you receive your ATM Card.

Making the world a better place

Regards,

Mr. Ban Ki-moon.

Secretary General (UNITED NATIONS)

Viu só essa? É o metagolpe! É o golpe que consiste em dizer que vai indenizá-lo pelo golpe! “Ah, finalmente alguém se sensibilizou com minha perda! Alguém vai me indenizar! O maná vai cair do céu para mim!” Para esse imbecil incorrigível, que vai cair no golpe DE NOVO, não adianta nem dizer “não existe almoço de graça, ANIMAL!”

A perguntinha que fica é: se, lá no começo, ele dizia que tinha negociado com o secretário-geral da UN, como é que, no final, assina como o próprio?

EOF

Pessoa jurídica comete estelionato?

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Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).

Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu  havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.

Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.

Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?

Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível

(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)

e que só depois das 23:30 h.

Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.

Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.

Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.

E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?

É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.

Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.

Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.

Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.

Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:

– Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.

– Trabalho.

– E você não sabe quanto eu pago à Oi.

– Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.

– Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.

Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.

… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.

(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.

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