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Pessoa jurídica comete estelionato?
Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).
Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.
Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.
Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?
Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível
(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)
e que só depois das 23:30 h.
Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.
Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.
Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.
E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?
É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.
Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.
Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.
Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.
Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:
– Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.
– Trabalho.
– E você não sabe quanto eu pago à Oi.
– Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.
– Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.
Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.
… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.
(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.
O spam nosso de cada dia
Os caras realmente acham que eu vou cair. Mas o mais incrível não é isso. O mais incrível é que tem gente que realmente cai. Bem diz o ditado: “fools and their money are soon parted”.
Quer saber? Quem clicar, é bem feito. A Internet não é para as salsinhas. Se o analfabeto funcional não tem capacidade de amarrar sapato, escovar dente ou pontuar frase (não necessariamente nessa ordem), então não tinha nada que se meter na Internet, e está certíssimo que seu computador seja infectado.
Veja só o que recebi hoje.
ABRASPAS
Procedimento Investigatorio Nº 2009.00.17126-3
Prezado usuario,
Com ajuda de seu CPF e junto com seu provedor de e-mail, viemos por meio deste lhe informar que o seu CPF esta sendo usado em varias compras On-Line fraudulentas, por favor, clique no link abaixo e veja em quais locais foram feitas as compras e os valores. Caso voce nao seja o(a) responsavel, pedimos que nos preencha o formulario afim de que possamos tomar as atitudes necessarias por tais compras.
Formulario:
(cortei o URL)
FECHASPAS
O URL era ministeriopublico ponto ORG ponto br. Passando o mouse em cima, você vê que o linque vai para um saite obscuro com final ponto net.
Então, vem cá. Qual é meu CPF? Hein? O texto não diz, o que significa que é um texto genérico, que vale para qualquer um. Tudo bem, porque eu NUNCA tenho que informar CPF em compras online. E como é que meu provedor de email (o Yahoo!) vai informar que meu CPF está sendo usado em compras online, se meu provedor de email NÃO SABE meu CPF? Aliás, como assim o Yahoo! colaborou com o MP? A sede é fora do Brasil!
E tem aquela questãozinha básica: nossos analfabetos nunca foram à escola e, se tivessem ido, a escola não lhes teria ensinado que o Ministério Público não é defensor de seu CPF nem sucedâneo de operadora de cartão de crédito. Se tem uma coisa que o órgão não vai fazer, é investigar por você e trazer um retorno, mostrando onde houve a fraude, apresentando formulário e dizendo que vai fazer tudo por você — de um modo tal que você não precisa se mexer, não precisa levantar da poltrona, basta clicar e ele fará tudo por você, patricinha entitled (BAxt, foi mal o furto da expressão).
Aliás, isso é jeito de o MP se manifestar? “Tomar as atitudes necessarias”? Vamos abstrair do fato de o texto estar todo sem acento. “Tomar atitude”? Isso é jeito de procurador escrever? Pobre é quem diz que o presidente tem que tomar uma atitude. Atitude, pra mim, é marca de cachaça. Ou, como diria o Catarro Verde (linque aí ao lado), atitude de c* é r*la.
E que “atitude” é essa? Hein? Procedimento investigatório? Ação penal? O texto não diz. Eu vou clicar para o MP fazer o que é necessário, só não sei o que é, mas deixe, que eles são responsáveis; eles que saibam as consequências, eu não.
Ah, sim, antes que eu esqueça: alguma vez algum órgão público mandou EMAIL para você? A mim nunca! Quando o Estado quer falar comigo, sempre manda correio físico. Assim é obrigado a fazer.
Essa fraude, como tantas, está se aproveitando da preguiça alheia. É tão fácil, né? Você só clica e deixa que outros façam o trabalho todo por você. Veja bem, supostamente é a sua vida, então você mesmo teria que tomar as providências (aliás, Providência é outra marca de cachaça), mas não: tem quem faça, então pra quê? Muito melhor do que ir à delegacia, tirar segunda via, mandar carta para a operadora do cartão, perder uma tarde na fila, ter que faltar ao trabalho… Fique no ar condicionado mesmo… NOT!
Reclame à vontade, mas acho que esse golpe é justo. De vez em quando recebo uma variação dele: já recebi do “Ministério Público da Justiça”, já recebi do Tribunal Superior Eleitoral falando em problema com CPF… Até hoje não caí, mas, se cair, terá sido justo. (Se bem que não vai adiantar nada, porque não digito senha de banco no computador.)
Apideite: os saites do MPU e da Rede Nacional de Pesquisa têm advertências sobre essa exata fraude, com esse exato texto. E, buscando no Google pelo número do “procedimento”, dei-me conta de que o mesmo número já aparecia na versão antiga, emitida pelo (inexistente) “Ministério Público da Justiça”.
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