A pergunta inevitável

Estimulado pelo Aerolito no. 58, do grande Lito, venho aqui trazer alguns pontos que estou devendo a vocês há um bom tempo.

Quando eu era criança, certa vez visitei Dona Cosette, amiga de minha vó. Vendo que eu me interessava por aviões, Dona Cosette perguntou-me quem havia inventado o avião. Quando respondi que tinham sido os irmãos Wright, ela se indignou; “cooomo? Você não é patriota???”

Dona Cosette estava errada por tantos argumentos que nem sei por onde começar. Mas vejamos.

Primeiro, ela parecia ter a estranha noção de que, se uma pessoa é patriota, ela tem que afirmar a primazia de seu país mesmo quando sabe que está propagando uma mentira. Quer dizer: não importa quem inventou o avião ou se você realmente acredita que tenham sido os irmãos Wright; você está obrigado a contrariar sua crença sincera e afirmar aquilo que, na sua mente, crê que não seja verdade. Pois a verdade não interessa por mais que você a conheça; prevalecem os interesses.

Segundo, ela parecia acreditar que o patriotismo consistisse em, nas menores manifestações, afirmar sempre que seu país seja melhor do que os outros. Em vez de se esforçar por ter saneamento básico, ensino fundamental para todos e balança comercial favorável, você tem que afirmar que seu país é melhor. Isso parecia mais prioritário para Dona Cosette do que efetivamente se esforçar para melhorá-lo. Noções estranhas de patriotismo tinha Dona Cosette. Eu sempre achei que a segunda conduta seria mais patriota do que a primeira, mas, sei lá, vai ver que eu não sou patriota.

Terceiro — eu sei que sua professora de Educação Moral e Cívica vai enfartar se ouvir isto, mas ninguém é obrigado a ser patriota. Está lá na Constituição, artigo 5o., inciso II (meu preferido em todo o ordenamento): se não há lei obrigando você ao que quer que seja (inclusive a ser patriota), você NÃO está obrigado! Você tem que cumprir todas as leis do País, isso tem. Dentro de seu território, o Estado é soberano; você tem que obedecer. Mas não tem que gostar.

Poderíamos perdoar Dona Cosette por ter sido criada em uma época de integralismo, por ter sido jovem durante as duas ditaduras de Getúlio Vargas (a primeira, 1930-1934, e a segunda, 1937-1945), por ter sido regida por governos desenvolvimentistas. No Brasil, o século XX foi bàsicamente um grande exercício nacionalista, de discurso ufanista e engrandecimento do Estado.

Poderíamos, mas eu certamente não vou. Para mim, a partir dessa cobrança, Dona Cosette foi e sempre será apenas uma velha antipática e autoritária. Que, ainda por cima, criava romãs no jardim, certamente para fazer chá. Detesto romã.

De todo modo, se você é fã de aviação (meu caso) ou trabalha com aviação (não é meu caso), é inevitável — inevitável, tal como a morte — que, mais cedo ou mais tarde, algum engraçadinho venha perguntar a você quem inventou o avião. Se você tiver sorte, a pergunta será feita por alguém que realmente quer saber e que reconhece em você alguém que já leu mais sobre o tema e que, portanto, está em melhor condição de responder. Será uma pergunta sincera, de curiosidade, feita com respeito. Infelizmente, esse não é um cenário provável. Eu sempre acabo me deparando mesmo é com gente metida a sabichona que fica querendo me testar, para ver se eu passo no seu pequeno e medíocre teste pessoal. Como se eu lhes devesse alguma coisa. Seguidores de Dona Cosette.

“Quem inventou o avião?” A pergunta não é lá muito inteligente. Se formos observar os inventos a partir do século XIX, ninguém inventou nada sòzinho. Todos os equipamentos que vemos a nossa volta resultam de um somatório de diversas contribuições individuais, que foram se somando gradualmente, por incrementos. O avião, que é o exemplo em discussão aqui, só foi possível depois da invenção do motor de combustão interna — que não foi criado por Santos-Dumont nem pelos Wrights –, e aproveitou o formato de aerofólio que já era usado nos planadores desde o século anterior. Além disso, a experiência de vários pioneiros ia agregando o conhecimento necessário para que outros construtores se informassem e, com base nessas descobertas, pudessem ter a inspiração de criar em cima. E, no entanto, o público em geral continua não sabendo quem foram Clément Ader, Henri Farman, Samuel Langley e Otto Lilienthal (vá pesquisar), sem cujas contribuições dificilmente os Wrights e Santos-Dumont teriam conseguido resultados. Quer dizer: ninguém faz nada sòzinho.

Na verdade, só vejo a pergunta de “quem inventou o avião” ganhar importância no Brasil; fora daqui, esse não é um ponto de discussão. O que parece motivá-la é uma espécie de ufanismo tolo, de querer afirmar ao mundo que existe alguma espécie de corrida e que o Brasil a ganhou. Como se o indivíduo ufanista tivesse feito alguma contribuição; como se tivesse de que se orgulhar. Não fez nada! Está só indo na aba de alguém (no caso, Santos-Dumont, mas poderia ser Ayrton Senna, Daiane Santos, Gustavo Borges ou Sérgio Vieira de Mello) que teve pouco ou nenhum apoio de seu País e que, portanto, conquistou vitórias independentemente dele, ou até apesar dele. É um complexo de vira-lata, resultante de uma baixa auto-estima nacional, onde o sujeito vê seu País desprezado em negociações internacionais, vê-se excluído ao precisar de visto para entrar nos Estados Unidos, vê sua baixa posição nas classificações de IDH ou de corrupção, mas quer ter alguma compensação onde possa afirmar que, apesar de tudo, é o melhor; como se tudo mais que sofre fosse resultado do recalque dos outros em razão de uma suposta derrota (quando, na verdade, o recalcado é ele). Ademais, é um espírito doentio de competição, onde não vale o ditado do Barão de Coubertin (“o importante não é vencer, mas competir”) e se exige vitória em todas as disputas: se não vier a medalha de ouro, o competidor é um fracassado. O prazer está todo em vencer, vencer, vencer, sempre, com exclusão de tudo e de todos. Então, o foco é no mais veloz, no mais forte, em ter sido o primeiro, ter inventado o avião e dizer que existe algum grande complô “dos americanos” para “esconder a verdade”. Sim, certamente os 323 milhões de americanos estão se importando muito com uma primazia do Brasil em inventar o avião (embora pareçam não ligar que o automóvel seja francês, o motor de combustão interna, alemão; e a máquina a vapor, escocesa, assim como o trem). Estão decerto muito empenhados em sufocar uma grande vitória do Brasil!

Enfim. De fato, as melhores evidências que tenho mostram que Alberto Santos-Dumont foi o primeiro a decolar com um avião diante de um grande público, em 12 de novembro de 1906. Mas como? O Dia do Aviador não é 23 de outubro? Bem, sim, porque 23/10 foi quando ele decolou com o 14-Bis, mas sem testemunhas do Aeroclube da França para documentarem o fato. Se você vai argumentar que o primeiro voo foi em 23/10, então, pelo mesmo argumento, tem que aceitar que os irmãos Wright decolaram antes, com poucas testemunhas, em 17 de dezembro de 1903 ou, que seja, em diversas ocasiões ao longo de 1904 e 1905 (tiveram tempo e oportunidades de sobra).

Argumenta-se que o 14-Bis foi o primeiro mais-pesado-que-o-ar a decolar por seus próprios meios: saiu do repouso para o voo controlado sem nenhum auxílio externo, somente com a força de seu motor. Isso contrasta com as decolagens dos irmãos Wright, cujo Wright Flyer I requeria um plano inclinado e uma catapulta para dar um empurrãozinho. A verdade é que os irmãos Wright já não precisavam de plano inclinado em 1904, quando seus voos também eram testemunhados. Então, usar o voo de Santos-Dumont de 23/10/1906 como marco não é tão legítimo quanto usar o voo de Wilbur Wright de 13/08/1904 — o que, também sob esse critério, dá precedência aos irmãos Wright.

Ademais, se argumentarmos que a decolagem sem assistência seja essencial para considerarmos a máquina como um avião legítimo, então será preciso desconsiderar alguns aviões (igualmente americanos) como detentores de feitos históricos: o Bell X-1, primeiro avião supersônico, não decolava sòzinho, como não decolava sòzinho o North American X-15, o avião mais veloz do mundo,  propelido por motores de foguete (Mach 6.72). Ambos eram alçados aos ares sob as asas de bombardeiros e, no entanto, nunca vi ninguém alegar que não fossem aviões de verdade. (Antes que alguém se insurja: o Lockheed SR-71 atingia Mach 3.5, o que o fez o JATO mais rápido, mas não o AVIÃO mais rápido. Há uma diferença.)

As maiores virtudes de Santos-Dumont em relação à aviação acabam ignoradas pelos próprios brasileiros, provàvelmente por não serem nenhuma vitória em alguma corrida que tenham em suas cabeças. Despreza-se a verdadeira contribuição do pequeno mineiro da fazenda Cabangu porque não é nada que dê troféu de primeiro colocado. Porém, há que observar: (1) com o Demoiselle, de 1907, foi Santos-Dumont quem criou a configuração atual dos aviões, com leme e profundores na cauda em lugar de na frente, bem como centro de sustentação atrás do centro de massa. Essa configuração tornou os aviões fundamentalmente estáveis e seguros, liberando o piloto de ficar lutando contra os controles para evitar um desastre. (2) Santos-Dumont adotou ailerons no lugar da impraticável opção dos Wrights, que requeria torção da asa para controle de rolamento. Então, foi ele quem primeiro pôs em prática as técnicas básicas de dirigibilidade que têm estado em uso nos últimos 109 anos da aviação. (3) Finalmente: os irmãos Wright queriam inventar u’a máquina que lhes trouxesse sustento pelo licenciamento das patentes, enquanto Santos-Dumont liberou os planos do Demoiselle para quem quisesse contruir seu próprio exemplar, de graça. Não há nenhum mal em querer ganhar dinheiro com sua invenção (ao contrário: esse é um dos motores do avanço tecnológico), mas o brasileiro, que nascera em família rica de cafeicultores, tinha os sonhos mais nobres de que todo homem, ainda que destituído de posses, pudesse usufruir das maravilhas do voo sem restrições; que cada cidadão do mundo pudesse conhecer a sensação incomparável de se levantar nos ares. Pretendia que o avião fosse uma ferramenta de integração dos povos (em contraste com os Wrights, que viam nas forças armadas seu grande cliente). Dessa virtude de altruísmo do pioneiro os brasileiros difìcilmente vêm a aprender na escola, apesar de ser mais importante para a História da aviação do que a tola disputa de saber quem chegou na frente para cortar a fita.

A Exposição de Motivos, as fontes primárias e o Carnaval

Veja só como são as coisas. Vou agora ensinar a você como se pesquisa.

Estava eu aqui, numa segunda-feira de Carnaval, estudando Direito penal (sim, sim). Prosseguindo naquele meu projeto de ler toda a legislação relevante, um artigo por dia, eu estava lendo a Exposição de Motivos da lei 7209 de 1984 (que trouxe a vigente Parte Geral do Código Penal).

Eu estava lendo a Exposição de Motivos conforme consta em um exemplar impresso em janeiro de 2000 e publicado pela editora Revista dos Tribunais com ISBN-13 978-85-203-1834-8. Na EM, dizia o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de participar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Vamos abstrair desse pronome oblíquo “lhe” depois de vírgula, que a norma culta proíbe. O item 12 está aludindo à dicotomia entre crimes comissivos e crimes omissivos. No primeiro conjunto estão aqueles que a parte (o autor do crime) comete ao praticar um ato proibido. A ação é chamada de “positiva” não por ser boa (não é), mas por ser algo posto, afirmado no mundo por quem comete o crime. No segundo conjunto estão os crimes onde o autor deixa de praticar um ato que tem o dever de praticar; o crime está na omissão, que é indevida: é o que o texto chama de “ação negativa”.

Mas aí estranhei a redação desse item 12. Veja: perto do fim, ele diz “dever de participar o ato”. Ora, “participar o ato”, onde “participar” é transitivo direto, significa “relatar o ato”; significa, talvez, noticiar o ato a uma autoridade policial. Se o Autor do texto quisesse dar ao verbo o significado de “exercer o ato”, ele diria “participar Do ato”, onde “participar” é transitivo INdireto.

Portanto, a redação é um tanto inesperada. Por que alguém teria o dever de participar o ato, de relatar o ato à polícia? Apesar de a Exposição de Motivos (e o anteprojeto da lei 7209) datar de 1983, quando o Brasil estava sob uma ditadura militar, não faria sentido exigir do cidadão o dever de participar um crime à polícia, pois o próprio Código de Processo Penal, então em vigor (e nascido ao tempo de uma ditadura até pior sob esse aspecto, a de Getúlio Vargas, em 1941), explicitamente dizia e diz que o cidadão NÃO tem o dever de coibir crimes.

Desconfiei de um erro de transcrição. Imaginei que, no documento original submetido pelo então Ministro Abi-Ackel, subscritor da Exposição de Motivos, a redação tivesse um D, omitido pela editora em 2000: “participar Do ato”. Esse seria um erro compreensível, a mera supressão de uma letra na transcrição, embora com o efeito danoso de inverter o sentido do texto.

Fui investigar. Embora o trâmite legislativo tenha ocorrido em 1983 e 1984, supus que o website da Câmara dos Deputados contivesse a informação que eu buscava. Saiba meu Leitor: o saite da Câmara é muito bom para se ver, não somente a sucessão de eventos do trâmite legislativo, mas também os documentos produzidos ao longo dele, a respeito de todas as leis após 2001. Para leis anteriores, isto é espantoso, mas também se encontra muito material. Então comecei a buscar o que havia em relação à lei 7209.

Para minha alegria, encontrei um PDF de 669 páginas que é a digitalização de todo o dossier do trâmite legislativo, montado na época. Lá se veem as capas, em papel, com manuscritos diversos; lá se veem inúmeros documentos datilografados, com rabiscos manuscritos e carimbos. Eu procurava, e encontrei, a Exposição de Motivos original, datilografada, assinada pelo ministro, com carimbos de numeração de página, datas postas a mão e furos para encadernação.

Veja só o que descobri. No documento original, o documento que valeu mesmo, diz o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de praticar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Você reparou? PRATICAR o ato. Aí o texto faz muito mais sentido, já que estamos falando de crimes comissivos (“ação positiva”). E é ESSE o texto da Exposição de Motivos — não o texto, supostamente transcrito, que traz meu exemplar da RT. A lição que fica é que sempre devemos nos referir às fontes primárias, porque erros de transcrição podem acontecer. É por isso que o saite do Planalto sempre diz, ao fim de toda transcrição de ato normativo, que “este texto não substitui aquele publicado no Diário Oficial no dia tal”. Claro! Pois a redação oficial é a que está no Diário; em caso de conflito, é ela que vale, e não venha alguém depois alegar que foi induzido em erro pelo Planalto, cujos servidores fizeram inserir essa advertência.

Essa lição os historiadores conhecem bem e por isso tantos procuram a Torre do Tombo, em Portugal, para ver o que é exatamente que dizia o documento original lá do tempo do Pero Vaz de Caminha. O que a gente às vezes não lembra é que, estranhando o texto supostamente transcrito, a gente tem que fazer a mesma coisa com a legislação, com todos os instrumentos que a tecnologia hoje nos dá. Quem diria! Sem ter que ir a Brasília, aqui estou eu, quase 33 anos depois, tendo acesso ao documento original produzido, para entender o conteúdo e o propósito da lei ainda em vigor. A gente às vezes não dá valor a isso, mas é certo que, hoje em dia, os Poderes da República praticam muito mais transparência, e você tem acesso a muito mais informação de seus atos, do que no tempo mesmo em que foram praticados. Em particular, recomendo os websites da Câmara e do Senado para quem quiser pesquisar o conteúdo correto ou o propósito teleológico da maior parte da legislação emitida pela União.

Este caso também ilustra que, antes de qualquer discussão, sempre fazemos bem em irmos à fonte original. Imagine todo o debate que poderia haver — e que se evita — sobre o significado de “participar” quando se vê que não era esse o verbo realmente usado! Ainda mais quando penalistas adoram discutir o tema da participação (co-autoria, partícipes do crime etc.).

E era isso que eu tinha para contar sobre como foi meu Carnaval este ano.

Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

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Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

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Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

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O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

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Se você é fã de exploração espacial, vai adorar Perdido em Marte

ATÉ QUE ENFIM! UM FILME DECENTE PRA NERDS!

Olha só: esta resenha não é spoiler-free. Eu já tinha uma vaga ideia do que acontecia no filme, então farei o mesmo com você se não viu, e talvez seja pior, então esteja avisado.

Perdido em Marte não tem romancinho. Isto aqui é Ridley Scott! Por acaso Alien tem romancinho? Blade Runner tem romancinho? Prometheus tem romancinho? Então! Se você vai ver Perdido em Marte esperando romancinho, pode tirar o foguetinho de órbita (e não o cavalinho da chuva, porque em Marte não chove). Não tem namoradinha chorosa torcendo pela volta do herói. Nada de “o amor é a única grandeza que transcende as cinco dimensões”. Nada disso! Onde Interestelar errou, Perdido em Marte mostra a Ciência como salvação.

Acima de tudo, o filme tem esta mensagem, que há anos espero ver: a solução está na CIÊNCIA. Na persistência do cientista que poderia escolher sentar e chorar sua sorte até morrer, mas prefere usar o cérebro, usar seu conhecimento, anos de estudo e dedicação, pôr tudo isso à máxima prova e salvar a própria vida. Você vê que Watney sobrevive com base em conhecimento básico sobre o crescimento de plantas, sobre Química, sobre fontes de energia. Minha frase favorita no filme é a mesma do grande Astrônomo Neil deGrasse Tyson: “I’m going to have to science the shit out of this”.

Reparem que ele usa instrumentos básicos, como COMPASSO, hackeia o sistema operacional não-Windows direto em linguagem de máquina, e aproveita o combustível não usado para fabricar água, tudo isso porque sabe os fundamentos. Quando precisa de um método de comunicação simples (por causa da pouca largura de banda), ele recorre a código ASCII com conversão hexadecimal. Quando os astronautas enterram a fonte de radioatividade, ele não se torna supersticioso “oh, plutônio é perigoso, não quero chegar nem perto, é proibido mexer porque o dogma da NASA me proibiu”, não! Ele sabe POR QUE é perigoso, ele pondera o risco, ele escolhe recuperar o plutônio.

(Aliás: no meio de tempestades e ventos que derrubam o módulo e arrancam a antena, a bandeirinha amarela de alerta do plutônio ficou em pé direitinho? Tem que explicar melhor isso aí.)

Mas não é só conhecimento científico básico. Fica evidente que Watney, como qualquer astronauta, sabe de cabeça inúmeros detalhes da missão, detalhes que ele decorou de tanto rever, treinar, rever, treinar, rever, treinar e rever de novo. Ele sabe as localizações do Pathfinder e da Ares 4 embora não fosse necessário saber isso para sua missão, e por quê? Porque é um autodidata, um entusiasta, que deve ter devorado tudo que já foi escrito sobre as missões passadas, e vive e respira isso porque é isso que adora. Ele se salvou porque é um nerd! Também se salvou porque, como todo astronauta, ele não entra em pânico: foi treinado para sobreviver, para usar seu cérebro da melhor forma possível, recorrendo a milênios de aprendizado da raça humana e concertando uma interdisciplinaridade que mostra capacidade de planejar e executar. Por exemplo: quando se vê sòzinho, qual é a primeira medida? Primeiros socorros (alô, treinamento). Qual é a segunda? Avaliar a situação, avaliar os requisitos de nutrição, contar a comida, como fazê-la durar, em quanto tempo terá que ter uma plantação, de qual tamanho. Contas, planejamento, e o cuidado de não desperdiçar nenhum recurso. Repare que, depois que ele vai embora sem intenção de voltar, nem por isso destrói qualquer coisa, e ainda fecha a comporta pressurizada atrás de si. Podia ter que voltar, né! Alguém ainda pode precisar no futuro!

É claro que, sendo este o mesmo Ridley Scott que fez Alien e Prometheus, não poderia faltar a autocirurgia a sangue frio. Na extremidade oposta do filme, também vemos o resultado de dois anos de racionamento, uma gravidade menor do que a da Terra e uma dieta paupérrima em proteína (já que Watney só plantou batatas, não vacas): seja por CGI, seja por esforço de Matt Damon, Watney está magro feito Christian Bale em O Operário.

O filme também faz boa homenagem a toda a História do programa espacial. Num momento de humor (para nerds), “nada de ruim adveio de se queimar hidrogênio”. Você logo pensa em todos os acidentes desde o Hindenburg (embora não tenha sido o hidrogênio que causou o desastre) e lembra qual é o principal combustível dos foguetes… No teto do JPL, um modelo da cápsula Mercury. No gabinete do diretor da NASA, um dos mais célebres quadros de Chesley Bonestell, Saturno visto de Titã.

E, com tanta coisa para se gostar, com todo o ritmo que não pára de nos trazer ideias o filme inteiro e não dá descanso, com tantas paisagens marcianas belíssimas que eu não sei de onde tiraram, a cena que mais me emocionou começa quando Watney encontra o pára-quedas da Pathfinder — porque aí eu sabia o que estava para vir — e tem seu clímax quando ele começa a desenterrar o Sojourner. Fiquei emocionado porque, no ato, lembrei-me deste melancólico quadrinho e pensei “tantos anos depois de morto, o robozinho vai servir novamente”. Certamente é tudo de que ele gostaria.

Eu li no Tuíter uma galera achando o filme “chato”. Claro! É gente que não é fã de Ciência, que não entendeu nada do que se passava, que nada sabe de Química, ou de Botânica, ou do frio ou da atmosfera de Marte, ou de Física, ou do retardo ou da dificuldade de comunicação, ou da tragédia que é acelerar uma nave para o estilingue em volta de Marte sem ter como freá-la justo na hora do resgate. O filme não tem explosões (OK, tem quatro que eu me lembre, e três são intencionais), não tem correria, não tem vilão maligno, não tem tiros, não tem violência, então, para eles, “não acontece nada, o filme é parado e chato”. Para quem aprecia Ciência, o filme é movimentado, com uma sucessão de problemas e soluções que atiça a curiosidade. Como não é seu blockbuster habitual para deixar o cérebro na porta do cinema enquanto come pipoca, algumas pessoas se decepcionarão. Mas é bem feito.

E olha que isso é ainda considerando que o Ridley Scott acelerou o tempo. Você vê meses inteiros sendo pulados, porque nada de novo estaria acontecendo. Você vê a comunicação Watney-NASA parecendo ser em tempo real, embora haja um retardo de vários minutos entre emissão e recepção de cada mensagem. E até nisto o tratamento do filme foi cientìficamente correto: eles enfatizam que há essa demora, e aliás o tempo varia de um momento para outro do filme, porque as órbitas podem aproximar e afastar Terra e Marte.

Você nem pode reclamar que o filme seja tão difícil de entender. Quando Rich Purnell propõe a aceleração no perigeu da Ares III, ele está explicando mecânica orbital básica para quem não é nerd. É claro que seus interlocutores no filme não têm a menor necessidade da simplificação simbólica que ele faz, com grampeador e caneta, porque conhecem toda a Física por trás. Aquilo ali foi para benefício do público. Quer ver outro detalhe que você pode não ter percebido? Mesmo ao meio-dia, Marte tem dias mais escuros do que os da Terra. Claro: está 50% mais distante do Sol.

Mesmo assim, eles não ficam martelando Ciência tanto quanto poderiam. Por exemplo: não ficaram explicando por que os astronautas da Ares III Hermes flutuam em “gravidade zero” quando estão no eixo principal da nave nem como conseguem simular gravidade quando ocupam a roda. Tampouco o filme explicou por que eles não precisam descer manualmente os degraus do eixo para a roda, bastando deixar que a “força centrífuga” (com todas as aspas) faça o trabalho. Foi até engraçado no cinema: a Senhora Atoz começou a me perguntar como eles podiam ficar em pé ou sentados (já que é “gravidade zero”), mas aí reparou na rotação da roda e se calou no meio da frase.

É claro que o filme tem momentos previsíveis. Quando a sonda com suprimentos é lançada, o pessoal começa a comemorar, mas, na vida real, a comemoração costuma vir DEPOIS que a queima acabou. Quem acompanha os lançamentos na vida real, desde o tempo do Sputnik I, sabe que MUITA coisa pode dar errado e frequentemente dá. Quantos foguetes explodem na plataforma? Quantos vídeos já não vimos de foguetes saindo do rumo e sendo destruídos remotamente? Por causa de um ridículo anel de vedação congelado, a Challenger se desfez com todomundo dentro! Então, à medida em que vi o foguete subindo, fiquei pensando “e se explodisse agora? Bem plausível explodir agora”. A Senhora Atoz comentou depois do filme: “óbvio que ia explodir. Tem que ter o drama, estava fácil demais, estava tudo dando certo. Tem que ter um evento que limite as alternativas e faça a tripulação ter que dar a volta”.

Da mesma forma, para quem pega as letras das músicas, a trilha sonora faz todo o sentido. I Will Survive é bem óbvia, mas a gente também ouve Hot Stuff diante do isótopo radioativo (no jargão de quem lida com radioatividade, “quente” significa “emissor de radiação”) e “there’s a starman waiting in the stars” quando a Ares III Hermes completa a manobra para retornar a Marte. A gente ouve Waterloo, do ABBA (na ideia de que ele não consegue desistir e afinal voltará para a Terra), logo depois de uma cena que mostra um vinil da banda.

Naturalmente, apesar de todos os acertos, ainda tenho algumas perguntas.

1) Se o nerd Rich Purnell (aliás bem interpretado: o sujeito tem aquele olhar distante do nerd) precisou de um supercomputador para conferir as contas (ele, que é especialista nisso), como é que outros apenas dizem que “já conferiram” e, a bordo da Ares III Hermes, a tripulante afirma, na maior simplicidade, que já as conferiu? Ainda por cima, ela teve que fazer isso no braço e com muito menos dados.

2) Se o MAV da Ares 4 está há meses em pèzinho esperando seus usuários, como é que tem tão pouca poeira e seus sistemas estão funcionando tão confiàvelmente?

3) Aliás, se Marte tem tempestades tão terríveis, como é que aquele MAV ainda está em pé? (Este caso admite suspensão da descrença: no início do filme, a tripulação comenta que uma tempestade do nível daquela é de fato incomum. Então é questão de probabilidade.)

4) Será que foi agradável voltar para a Terra (266 dias aproximadamente) em uma nave que acabou de perder sua atmosfera exceto na ponte de comando? Que tal ver seu espaço confinado ser sùbitamente reduzido a um confinamento ainda pior, sem acesso ao ginásio, aos laboratórios, ao alojamento ou à cozinha? (Apideite em 10/10/2015: Carlos Cardoso respondeu-me essa de modo elegante, fazendo-me ver que naves como a Hermes levariam ar para se pressurizarem mais de uma vez. Eu deveria ter considerado esse ponto.)

Infelizmente, o filme também tem alguns estereótipos. Um é que Purnell, sendo um nerd, é necessàriamente estabanado, tropeça e cai. Outro é que o único astronauta religioso é latino. O terceiro (talvez correto) é que os chineses desenvolvem sua tecnologia em segredo.

E, por falar em religião, taí dois detalhes muito oportunos em um filme que enaltece a Ciência e a persistência: (1) Nada de fé para salvar o astronauta perdido. O que o traz de volta é conhecimento, planejamento, criatividade e trabalho duro, sem NENHUM espaço para orações. Ao contrário: o único crucifixo de Marte é usado como combustível por um sobrevivente que tem que usar todos os recursos à disposição. (2) Além de Martinez, só um personagem reconhecidamente tem uma crença, mas ele não privilegia nenhum deus, acreditando em vários.

Aliás só vi os dois primeiros trailers agora. Rapaz, como manipulam a audiência! Os trailers “mostram” Watney chorando supostamente diante da esposa e do filho (que eram de outro tripulante e estavam em outra cena), mostram uma explosão na Ares III Hermes como se fosse desastrosa (quando era a descompressão de frenagem no fim do filme), mostram a comandante falando em motim como se fosse algo ruim… e contêm algumas tomadas que não entraram no filme (p.ex. o diretor da NASA contemplativo em uma varanda e depois hesitando em responder se Watney pode estar vivo).

Antes que eu termine, cabe um parabéns a Sean Bean: depois de participar do Conselho de Elrond pela segunda vez, neste filme ele não morre! (Mas sua carreira sim.) Outro parabéns a Matt Damon: depois da trilogia Bourne, de Resgate do Soldado Ryan e de Interestelar, de novo ele deu trabalho a um monte de gente para trazê-lo de volta, sendo que, neste filme, diferente do anterior, ele não ficou maluco no espaço.

Por último, as legendas cometeram dois erros (o que está até bom considerando o histórico a que me acostumei):

1) No original, Watney fala que “foi assim que o Laboratório de Propulsão a Jato foi inventado”. Depois disso, várias vezes ao longo do filme, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, “na sigla em inglês” como dizem nossos periódicos) aparece com o nome todinho. Mesmo assim, o tradutor escreveu lá: “foi assim que a propulsão a jato foi inventada”. Não!

2) O nome da chinesa é Tao. O autocorretor da legenda escreveu “Tão”. Não!

E por hoje é isso. Se eu me lembrar de mais coisa, pode deixar que eu incremento este texto.

Apideite do apedeuta em 10/10/2015:

À medida em que os dias passaram, realmente eu fui me lembrando ou raciocinando sobre vários pontos do filme. Você vai encontrar vários websites apontando os mesmos detalhes que eu, mas tudo que está aqui embaixo são percepções que tive sem a ajuda deles.

Você reparou que o filme nunca diz em que ano se passa? Isso foi sábio, porque assim ele não fica datado cedo demais. Um tópico de discussão do Reddit indica 2035, e este video promocional com Neil Tyson, gravado na época da decolagem, mostra que necessàriamente o filme se passa após 2029.

A atmosfera de Marte é muito rarefeita: 0,6% da pressão atmosférica da Terra. Portanto, o vento de Marte seria absolutamente incapaz de provocar a tempestade catastrófica que vimos no começo do filme e certamente incapaz de fazer tombar o MAV. É claro que, com isso, não haveria a premissa que levou ao abandono de Watney. Considerando que tudo mais no filme está bàsicamente correto, podemos perdoar essa falha intencional na medida em que foi um componente necessário da história. Neil Tyson certamente a perdoou.

Pelo mesmo argumento da atmosfera rarefeita, não teríamos visto a cobertura plástica a oscilar no vento depois que Watney a pôs no lugar da comporta explodida. Com a pressurização interna do habitat, a cobertura teria ficado abaulada sem flutuações, e o vento não lhe faria nem cosquinha. Na cena em que os nervos dele estão à flor da pele durante outra tempestade, ele não teria o que temer.

Já um problema a contornar — e que o filme essencialmente ignorou — é que, justamente em razão da atmosfera rarefeita, Watney não estava protegido contra a radiação solar. Na vida real, ele teria passado mais de um ano sendo duramente castigado por raios cósmicos e por todo tipo de comprimento de onda nocivo. Aliás, não sòmente ele, senão toda a tripulação da Ares III. Conforme adianta Phil Plait, se o filme realmente fosse realista, todomundo ali teria morrido de câncer depois de um tempo.

Marte é bàsicamente vermelho visto de longe, mas de perto as cores variam mais; há tons de verde, e o filme aborda isso. Os frequentes redemoinhos aparecem ao fundo toda hora, acrescendo realismo, porque o planeta é assim mesmo. Infelizmente, o pôr-do-sol de Marte é azulado, mas o filme o mostrou vermelho como os da Terra.

Você reparou que os objetos em Marte caem devagar? Quando a comporta de ar explode e capota, e quando Watney descarta componentes do MAV da Ares 4, tudo cai devagar. Isso não é coincidência. De início eu até pensei em câmera lenta como estilo do diretor, mas aí lembrei que a gravidade de Marte é 38% a da Terra. O filme acertou até nisso!

OK, esta percepção não foi minha, mas de Neil Tyson: a prova de que o filme é ficção é que todos os seus tomadores de decisão têm conhecimento científico básico.

No fim, quando Watney vai incerimoniosamente desmontando o MAV e despejando seus componentes sobre o solo de Marte, fiquei pensando: cada um daqueles parafusos, assentos e cabos custou algumas centenas de milhares de dólares para fazer e outros tantos milhões para levar até a superfície de Marte… e agora ele se desfaz de tudo sem o menor pudor.

Aliás, quando um dos astronautas está indo lá pra fora da Hermes, sua colega o adverte para tomar cuidado porque, “in space…”, e não completa a frase. Fãs de scifi sabem que a outra metade da frase seria o lema do maior sucesso de Ridley Scott: “… no one can hear you scream”.

Ao montar a bomba, um dos astronautas conecta seu cabo de ativação a uma saída na parede junto à comporta. Você reparou nas portas USB bem ao lado dessa conexão? A gente não mexe naquilo que está funcionando; no ano 2035 ainda haverá portas USB.

Perdido em Marte não é um filme de ação nem tem um vilão, algo raríssimo nos blockbusters de Hollywood. Você reparou na contagem de corpos deste filme? ZERO! Já viu ALGUM filme de scifi conseguir esse feito? Geralmente, algum herói sacrifica sua vida para salvar os demais — não desta vez!

Outros vídeos promocionais gravados durante a preparação da missão Ares III:

Finalmente, aponto algumas resenhas que encontrei por aí:

Apideite do apedeuta em 11/10/2015:

Tem um ponto que eu pensei assim que vi no filme, mas depois me esqueci de comentar. Quando o Diretor Kapoor intui o percurso que Watney está fazendo, ele corre até a cantina para usar o mapa de Marte que está pendurado na parede. Entendi a necessidade dramática de mostrar a empolgação e as prioridades de um nerd, mas será que ele mesmo não teria, em seu computador, um mapa de Marte muito melhor do que o da cantina? Pense bem. Se o ofício dele é esse, com certeza ele estaria cercado de mapas mais recentes e mais precisos.

Outra que eu pensei na hora e que foi abordada em uma das postagens que referi acima: quando a comandante Lewis vai lá fora puxar Watney para dentro, o arnês dá voltas em torno dos dois. Quando o Dr. Beck começa a dar tração no arnês, o certo é que, primeiro, o arnês fique teso, reto entre ele e o par que flutua lá fora, para só depois começar a puxá-los. Entretanto, o filme errou neste ponto: o arnês começa a puxá-los enquanto ainda está em um formato frouxo, solto em volta da dupla.

Se eu não me lembrar de mais nada, este é o último ponto: considerando que o filme não tem vilão e que Lewis está do mesmo lado do protagonista, creio que tenha sido inevitável que a Hermes tivesse que ir novamente a Marte para buscar Watney. Por quê? Porque, Lewis não sendo uma vilã, ela terá sentido um remorso terrível por deixá-lo vivo no planeta. Na estrutura narrativa tradicional, desse ponto em diante ela precisa de uma oportunidade de se redimir diante de si mesma, ainda que ninguém a esteja culpando. Então, ela precisa pessoalmente resolver isso: na sua óptica, foi ela quem fez mal ao colega (ao dar a ordem de partida sem ele), então ela é quem deve reparar esse mal.

EOF

My inevitable review of Star Trek: Renegades

After nearly two years of nail biting, the pilot episode of Star Trek: Renegades is here. This professional-quality fan production has been anxiously awaited by all of us enthusiasts who have supported great works such as Star Trek: Phase II, Star Trek Continues, Starship Farragut and Axanar, to name only those of higher production values (not that I do not appreciate the likes of other fan series, but the list is too long to fit here).

As always, it feels somewhat awkward to review something that is already covered in depth elsewhere on the Web. Also, it is a bit unfair that we sit back and comment on other people’s work as if we were entitled to a quality set by our own standards when it is not us sweating to make a good film. And Renegades more than matches the criteria by which so-called “official” Star Trek works are judged, canonical or otherwise (Enterprise and J.J., I am looking at you).

Still, some aspects of Star Trek: Renegades came to mind on first watching.

If you look at the Icarus with more than a casual glance, you will see that it has sagital symmetry. That is, the ship’s bottom mirrors the ship’s top along a plane that runs through the waistline. There are two shuttlebays, the nacelles are located right on the symmetry plane and there are four of them. It is thus only a matter of time before upcoming episodes show us the vessel in a classical split (aka “multivector assault mode”) as an improvement on the preceding Enterprise-D’s and Prometheus‘s abilities.

Also, the Icarus‘s design is reminiscent of a continuous line of aggressive-looking ships that started way back in 1991, in Rick Sternbach and Michael Okuda’s ST:TNG Technical Manual. Along the Defiant, the Equinox and the Prometheus, ships have become smaller in size, more angular, more detailed and more heavily armed in relation to their size. The Icarus‘s hull and bridge shape continue the Voyager‘s precedent, and, at the ship’s very front, those two prongs look like they have been borrowed from the Klingon Vor’cha class. In particular, the ship’s overall front and torpedo tubes seem to (at last) be the realization of part of Sternbach’s design for a small fighting ship that was detailed in the ST:DS9 Technical Manual.

None of this should be any wonder, of course, since Sternbach and John Eaves did ship design for Renegades. But will someone please remind me of where I have seen the backs of the Klingon ships’ nacelles before? I am sure I have seen that, but I cannot seem to remember where.

Exploring the Icarus‘s array of technical marvels, we are introduced to a novel communications device that conveys tact as much as realistic image and sound. At first this may seem very nifty and impressive, but one has to bear in mind the advances that Voyager promoted with the EMH and its fake matter. With holodeck technology, it is very easy to imagine a puppet controlled to mimic a real person’s remote behavior, as previewed in Worf and Quark’s bat’leth handling in “Looking for par’Mach in All the Wrong Places” and by today’s performance capture as amply demonstrated by Andy Sirkis (of Gollum fame). Even if it is only forcefields instead of real tangible matter, the holodeck has done this and better in the past. The 3-D imaging in communications was also shown in DS9’s second half (notably in “Doctor Bashir, I Presume” but elsewhere as well; episode names fail me now). Lucien and Zimmermann’s communications escapades would naturally strain today’s bandwidth possibilities (especially if they take them one step beyond as hinted, nudge nudge wink wink). However, if we look back to the Internet’s achievements in this respect since 1996 and extrapolate them to the late 2380s, we may even consider Renegades to aim too low.

Last but not least regarding starships, the “Derelict Ship” (Tuvok’s infiltrator that meets the Icarus midflight) also reminds me of previous ships, but again I cannot quite identify which. Is it the scoutship from Insurrection with the addition of a Bird of Prey’s head? Will someone point it out to me? Thank you in advance.

Moving onwards to the cast, I was very much aware of Walter Koenig and Tim Russ making their comebacks as Chekov and Tuvok, but I intentionally remained ignorant of other cast members and rôles. It was a pleasure to see eyecandy Adrienne Wilkinson (from Star Trek Continues‘s “The White Iris”). My non-Brazilian readers would never know, but she looks like a clone of Brazilian actress Christiane Torloni when she was younger.

Now, Sean Young came as a total surprise to me. I did not realize it was she, though the face seemed familiar. When I saw the credits, my only reaction was that I had lived to see the day when Young would be in Star Trek. She looks beautiful (possibly more so than in the raving 80s) but it is a striking contrast to her early rôles that now she plays a more homely character, kind of “that aunt of yours whose job it is to prevent a space powderkeg from blowing up”. I wonder if it was intentional to have Dr. Lucien repeatedly put on and remove her glasses, reminding you that (1) Star Trek never had any after that infamous transporter chief’s from “The Cage” and Kirk’s Retinax 5 surrogate and (2) that is how Sean Young manages to focus on objects around her these days, so you live with it (not that I am complaining).

Regarding the plot twist on Fixer’s nature, it is a natural continuation of TNG’s Moriarty, the EMH’s achievements and Dr. Zimmermann’s research that an entire person’s brain pattern could be downloaded to the portable emitter, so this does not seem far-fetched, and was in fact a welcome surprise. Of course, the concept opens up new ethical frontiers, as a person could be repeatedly killed and brought back to life (of sorts) only to suit the convenience of those who would not release him from this mortal coil. I assume that, one day, Fixer will realize that he does not age and that he is able to rematerialize where he was not supposed to be able to, much like a Highlander when he finds out that death eludes him. Therefore it is also only a matter of time before an upcoming episode forces a guilt-stricken Lucien to explain to him what he really is made of now.

Speaking of which, the circle will then be complete. In a little-known sci-fi production from 1982, Sean Young played a character who had been assembled from parts made in a laboratory. The character was not a real human but thought she was, until someone came along who revealed to her where her artificial memories came from: the brain pattern of a deceased person who she replaced and gave continuation to. Now it will be her turn to reveal this condition to an artificial person of her own making…

Other notable cast members include the comeback of Icheb, from Star Trek: Voyager, and John Carrigan (Kargh from Star Trek: Phase II) as both a Klingon captain and a Starfleet officer.

Going back to the regular Starfleet crew, another good surprise was to see Captain Parker Lewis Alvarez played by Corin Nemec, whose face I had not seen on a screen since 1994 (yes, I know — I have not yet seen either The Stand or — shame on me — Stargate SG-1). Considering his persistence, his apparent backstory with Lexxa, the blood in his eyes as he battled wits and brawn with the Icarus, and his evident honest-to-goodness, died-in-the-wool loyalty to Starfleet’s mandate, it is obvious that we will see a lot of his chasing the Icarus around (as a matter of personal pride too) until a later episode where he will be forced to a truce and an alliance with the Renegades for the common good against betrayals from up high. Commissioner Gordon would be proud.

Still in Alvarez’s turf, the USS Archer disappoints me a little. In contrast to the Icarus and to the more recent designs from Star Trek: Voyager, the Archer is overly simple in its shape and her saucer is a throwback to the TNG era, with a lack of detailing that does not do justice to Renegades. It is almost as if this simplicity was made to reflect Starfleet’s naïveté before the dark forces manipulating it; as if the ship’s very design was made excessively simple to depict the simplicity of its officers’ mindset. What troubles me, though, is that the design seems ripped off from Bernd Schneider’s original projects from the EAS Fleet Yards or from the Advanced Starship Design Bureau. I cannot quite put my finger on which design, but it would be something like the Andromeda class or maybe a cross between that and some other class from therein.

I was going to comment that Renegades‘s makeup left something to be desired, what with their Nausicaan, Andorian and Syphonians, and that it looked amateurish and monochromatic. Before you agree with this hasty evaluation, though, may I remind you that I saw the episode in 960p resolution (was unable to download it in 1080p). This is twice the definition that Star Trek worked with for many years (576i). Now, if we looked at Renegades with the same definition as those TOS, TNG, DS9 and Voyager episodes, I am sure that we would find its makeup to be more detailed than what the artists achieved in the long-running canon productions. Therefore I withdraw my comment.

I had four gripes about the story. One is already covered by Bernd Schneider’s review, which is yet another villain intent on destroying the Federation in a fit of vengeance, as Shinzon and Nero before him. The other is the contrived dialogue between the Betazoid Ronara and former Borg Icheb. You would assume these two characters to have known each other for a while, since they have been crewmates for who knows how long. Therefore it makes little sense that they show the viewer their abilities in an angry bout of exposition as if they were making their acquaintances there and then. The whole dialogue stands apart from the rest of the episode and has no real relation to any scene or take before of after it. I understand the need to bring the explanations to the viewer in as short a time as possible, but maybe the script could have used some polishing there; for example if they disclosed their abilities to someone else.

The third minor misgiving I have is the casual fashion in which transporters are overused. When the transporter was invented by Gene Roddenberry back in 1964, it was a clever means to speed up screen time by avoiding the need to show the Enterprise landing on planets. Over the course of TOS, even though the transporter was taken for granted as a plot device, it was never brushed aside with a shrug. This was a technology to be treated with respect, which Bones McCoy grumbled about and which could still subject people to accidents of varying degrees of tragedy (“The Enemy Within”, “Mirror, Mirror”, ST:TMP). Then along came TNG, where the transporter became an easy escape to all sorts of trouble (“Up the Long Ladder”, “Rascals”), and the Abramsverse, where it made starships obsolete overnight. Now Renegades uses the transporters over distances of lightyears, and characters beam here and there on a whim to the point of the viewer nearly losing track. If you use it too much, you risk making your stories pointless or, at the very least, doing away with suspense.

(Although, as a fan, I keep paying attention to the clever ways to cheapen production where the transport is involved. When Lexxa beams over into the Icarus, you never see the effect, thereby saving on the CGI, but you hear the noise, so no explanation is needed. Star Trek has been playing this trick since “Where No Man Has Gone Before” and it never wears out.)

The final plot hole to deserve comment keeps popping up in Star Trek and would not need any additional beating if it were not so thrown in our faces: will the next crew please not leave the ship and stay all together waiting to be shot at and captured wholesale? Am I asking for too much? At least this time they took advice from the ill-fated crew of Ridley Scott’s Prometheus and sent some floating probes ahead (and we wonder why they have not done so before, seeing as that floating holocameras existed as far back as the christening of the Enterprise-B).

Last but not least, I disagree with Schneider’s view that there were not enough explanations of the episode’s backstory. Granted, this is a pilot and, as such, needs loads of exposition so the finished product makes sense to the viewer, who is thankful not to feel lost. However, pilots are also meant to tease the viewer’s curiosity. As stories progress, I assume that the backstories will be revealed, showing us why Lexxa is being chased since her childhood, what she did to land her into an Orion prison, what Lucien’s accident was that disgraced her, and what prickles me the most: how Starfleet’s advanced battlebrat Icarus came to be stolen by a bunch of Renegades!

Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.