Memphis Belle: filme de ação e lição de História

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Ontem revi este filme angloamericano de 1990 (link para o IMDB), que mostra a guerra aérea sobre a Europa em 1943. É um filme bastante didático para quem não tem íntimo conhecimento daquele específico período da II Guerra Mundial, e um espetáculo para os fãs de História da aviação militar.

Para começar, por alguma razão que não alcanço, meu exemplar é uma edição minimalista em DVD. O formato de tela é 4:3, não há quaisquer extras, e o filme contém falhas e granulação que fazem pensar se não é mera transposição do VHS. O texto da capa traseira e os nomes dos capítulos são traduções literais que perdem o sentido em português. Claramente uma edição descuidada e apressada.

As técnicas de filmagem indicam a idade da obra. A montagem dos aviões sobre o céu acaba aparecendo, especialmente quando o editor de vídeo transforma os cinco aviões usados para a filmagem em dezenas de aviões se perdendo na distância. É o que havia em 1990, pouco tempo antes do uso intenso de efeitos digitais no cinema.

Apesar das limitações, o filme é primoroso. O contexto está reproduzido fielmente, ainda que os cineastas tenham tomado algumas liberdades em relação aos eventos reais. 1943 foi o primeiro ano da campanha pesada de bombardeio da Alemanha conduzida todos os dias pela USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, mais tarde transformada na Força Aérea dos Estados Unidos) e todas as noites pela RAF (Real Força Aérea, da Inglaterra).

Decolando de bases na Inglaterra, os inúmeros esquadrões da 8a. Força Aérea da USAAF (a “Oitava”), compostos cada um por 24 bombardeiros B-17, atravessavam o Mar do Norte e aventuravam-se sobre território inimigo, para dentro de França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Tchecoslováquia. Naturalmente, os alvos mais valiosos e defendidos estavam na Alemanha. Os Aliados estavam empenhados em bombardear as fábricas que sustentavam a máquina de guerra alemã, de modo a sufocar a capacidade do inimigo conforme a doutrina desenvolvida nos anos 30.

Aliás, foi em 1935 que voou o primeiro Boeing B-17. Desde o início este modelo foi chamado de Fortaleza Voadora porque fôra projetado para voar tão alto que ficaria imune ao alcance dos caças e da Flak (artilharia antiaérea). Já em 1943, a antiaérea e os caças eram bastante capazes de atingir esses bombardeiros. Para se defenderem ao menos dos caças, as B-17 passaram a ser dotadas de inúmeras metralhadoras em volta da fuselagem, e também se descobriu que sua extrema robustez permitia que continuassem voando apesar de impressionantes danos causados pelo fogo inimigo. Com o tempo, formou-se o equívoco (comum ainda hoje) de pensar que o nome Fortaleza Voadora tivesse vindo dessa capacidade de autodefesa e de sua construção resistente. Seguem exemplos:

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De fato, Memphis Belle enfatiza bastante as características e vulnerabilidades das B-17. Naquele tempo, as tripulações formavam vínculos de carinho e gratidão com seus aviões, que suportavam severo fogo inimigo e ainda assim as traziam de volta em segurança. Era costume que cada avião individual tivesse seu próprio nome, pintado no nariz, muitas vezes com uma figura decorativa. Este filme retrata a ocasião histórica em que a tripulação da B-17 batizada de Memphis Belle foi a primeira a completar 25 missões.

Na época, a USAAF seguia a política de que, após 25 voos de combate, os tripulantes podiam voltar para casa e descansar antes de entrarem novamente em combate. O marco atingido pela Memphis Belle foi objeto de um documentário comemorativo, exibido nos cinemas americanos em 1944 como propaganda de guerra.

Já este filme de 1990 é uma história de ficção, mas representa acuradamente a rotina daquelas longas jornadas a bordo das B-17. Nele acompanhamos a 25a. missão da Memphis Belle, até seu alvo na Alemanha e de volta, na companhia de Windy City, C-Cup, Mother and Country e outras 356 aeronaves iguais a elas. Os personagens são fictícios, mas são o espelho de uma tripulação real.

Memphis Belle também é uma lição de como se conta uma história didàticamente, introduzindo os conceitos à audiência de modo gradual e explicando-os pelos diálogos, que não passam a impressão de uma aula, tão comum em outros filmes. A história começa ao entardecer, quando os ocupantes de uma base aérea acompanham a chegada de um esquadrão na volta de mais um difícil bombardeio, os aviões semidestruídos, sendo contados pelos companheiros em terra com a expectativa angustiada de que todos tenham retornado. Em seguida, os tripulantes da Memphis Belle são apresentados à audiência um a um, fazendo ver como são jovens, inexperientes, arrancados de uma vida simples e sùbitamente lançados a este ambiente tecnológico e assustador onde devem cumprir missões que contrariam todo senso de autopreservação em nome do esforço maior da guerra.

À noite, um baile comemora o primeiro aniversário do grupo (cada quatro esquadrões formavam um grupo). Na manhã seguinte, vêm as instruções para a missão, a espera ansiosa pelo momento da decolagem, e então o esquadrão se enfileira e decola. Seguem-se momentos de tédio e tensão até a entrada em território dominado pela Alemanha, seguidos pela tentativa dos ágeis caças de defesa alemães de derrubar os bombardeiros enquanto os atiradores se defendem freneticamente e os pilotos não podem fazer manobras evasivas, sob o risco de se chocarem contra os aviões vizinhos. Então, já na corrida final de bombardeio, vem a densa barragem de artilharia antiaérea, mas os bombardeiros devem continuar voando em linha reta até o objetivo e assim permanecem como alvos fáceis, para aflição de todos a bordo. Apesar de robustas, muitas B-17 eram atingidas em cheio pelas defesas de caças e canhões alemães, e percentuais tão altos como 20% delas acabavam não voltando.

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Era um cenário sombrio, em que a vida de um jovem tripulante podia acabar em segundos. Essa lúgubre lembrança faz-se ostensiva de vários modos por toda a duração do filme.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

Naturalmente, Memphis Belle traz a carga patriótica esperada de um filme sobre a II Guerra Mundial. Mas, diferente dos filmes dos anos 40-50, não retrata seus personagens como perfeitos. Os tripulantes demonstram medos, inseguranças e egoísmos, e são capazes de mentir e contar farol. Infelizmente, a história chega a exagerar quando mostra irregularidades a bordo (o navegador, que se embebeda na véspera e passa a missão toda de ressaca; o co-piloto, que descumpre as normas e vai buscar emoção como atirador de cauda no calor do combate; o atirador que cola um cartaz de mau gosto nas costas do colega). Na vida real, os tripulantes estariam concentrados em suas tarefas e jamais cometeriam essas indisciplinas.

Pode-se ainda apontar um anacronismo. No filme, as instruções de pré-voo mostram que, em torno do alvo (uma fábrica), existem uma escola, um hospital e várias casas. Ao chegar à zona do alvo, o piloto recusa-se a liberar sua carga mortífera se não puder ter absoluta certeza de que só atingirá a fábrica, evitando bombardear os civis inocentes, e por isso retorna e executa uma segunda passagem (sob os protestos da tripulação, que, com razão, vê nisso uma prática suicida). Acontece que, em 1943, não havia esse tipo de pudor, que só viria a se tornar regra na década de 90. Ainda que houvesse essa preocupação, teria sido impossível satisfazê-la, pois o nível de precisão necessário a se atingir um único edifício de uma altitude de 16 mil pés só foi obtido com a tecnologia dos anos 70. Durante a II Guerra Mundial, a regra era que centenas de bombardeiros despejassem seus milhares de bombas com a esperança de que algumas atingiriam o alvo, mas sabendo-se que os ventos, a distância entre os aviões e a imprecisão natural do processo espalhariam a maior parte desses artefatos em áreas de centenas de milhares de metros quadrados.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Outro absurdo que só acontece nos filmes: um dos tripulantes, ferido, perde muito sangue e chega a ter uma parada cardíaca. Entretanto, quando o bombardeiro finalmente consegue pousar, a equipe de resgate gentilmente espera que se organize uma fotografia da heróica tripulação antes de levá-lo em uma ambulância!

Apesar das liberdades dramáticas, o filme se mostra razoavelmente fiel à realidade nos aspectos aeronáuticos. Em 1943, a versão de B-17 que estava em uso na Oitava era a B-17F, dotada de dez tripulantes e dez metralhadoras. No nariz, situava-se o bombardeador, que precisava enxergar o alvo para definir o momento da liberação das bombas e, até chegar lá, operava uma metralhadora atirando à direita; atrás dele, o navegador, com outra metralhadora atirando à esquerda. Ambos ficavam abaixo do cockpit, onde iam piloto, co-piloto e mecânico de bordo (que também operava duas metralhadoras no dorso). O compartimento de bombas ficava logo atrás do cockpit, e atrás vinham, na sequência, operador de rádio, atirador ventral (com duas metralhadoras), atirador de boreste (com uma), atirador de bombordo (com outra), e atirador de cauda (com outras duas metralhadoras). Boa parte do filme transcorre a bordo do avião, de modo que podemos ver os papeis desempenhados e a interação entre esses tripulantes. (Parêntese: o atirador ventral é interpretado por um imberbe Sean Astin, onze anos antes de ajudar o Senhor Frodo a destruir o Um Anel.)

Para a produção do filme, foram usadas cinco B-17. Algumas eram da versão B-17G, equipada com metralhadoras sob o nariz, que, portanto, tiveram que ser removidas para a filmagem, em um downgrade que lhes deu a aparência da versão B-17F. A pintura dos aviões também é representativa do ano em que se passa o filme.

Em maio de 1943, as B-17 eram escoltadas por caças P-47, que as defendiam contra os caças alemães. Infelizmente, os P-47 tinham alcance limitado e eram forçados a retornar antes que as B-17 chegassem até seus alvos, devolvendo-as à própria sorte justamente onde elas mais estavam expostas. O filme mostra o conforto dos aeronautas ao verem a chegada dos caças de escolta (“little friends”) e seu lamento ao vê-los se afastarem. Entretanto, comete uma imprecisão: nessas cenas, os caças que vemos são P-51 Mustangs, especìficamente da versão P-51D, que só veio a ser usada a partir do fim de 1943. A grande diferença do P-51D é que ele tinha alcance para escoltar os bombardeiros até Berlim, de modo que, a partir de sua introdução, uma proporção maior das B-17 passou a ser capaz de chegar a seus alvos e retornar em segurança, favorecendo dramaticamente as estatísticas dos Aliados.

Já os caças alemães são de dois modelos: Messerschmitt 109 e Focke-Wulf 190. Como não havia nenhum 109 em condições de voo para a filmagem, os produtores usaram aviões do modelo HA.1112 Buchón. O HA.1112 era um 109 fabricado na Espanha no pós-guerra, que pode ser facilmente diferenciado do modelo original pela enorme carenagem sob o motor (tanto que o nome espanhol se traduz como “barrigão”).

Duas aeronaves foram usadas para representar Memphis Belle neste filme, e uma delas foi a B-17G Sally B. Esta é uma B-17 que permanece voando até hoje, apresentando-se regularmente em shows aéreos.

Sally B em 2005

Sally B em 2005

Terminada a filmagem, Sally B teve repintados seu nome e sua pin-up a bombordo, mas manteve o nome e a pintura de Memphis Belle a boreste, como referência a sua participação no filme. Em 1998, mediante a módica quantia de duas libras, o autor deste texto teve a oportunidade de fotografá-la por dentro na antiga base aérea de Duxford, que é seu lar, onde funciona o Museu Imperial da Guerra e onde foi rodada parte do filme (embora as cenas com a torre de controle tenham sido filmadas na base aérea de Binbrook, também inativa). Em 2008, reencontrei Sally B no show aéreo Flying Legends, novamente em Duxford, mas ela estava apenas exposta, faltando-lhe o motor número 1, que estava em manutenção. Em compensação, vi voando Pink Lady, que voou no papel de Mother and Country no filme.

Sally B, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Sally B em 2008, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Em 2010, em novo reencontro no Flying Legends, pude ver Sally B voando, mantendo vivo o legado das bravas tripulações que sacrificaram suas vidas nos céus da Europa Ocidental para que hoje meu Leitor pudesse ler estas linhas a salvo dos odiosos coturnos do regime nazista.

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Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

EOF

Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

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Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

Citações, 26/11/2016

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. Trad. por Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade.

Página 66:
“‘Guilherme!’ exclamou. ‘Meu irmão querido!’ Levantou-se com esforço e veio ao encontro de meu mestre, abraçando-o e beijando-o na boca. ‘Guilherme!’ repetiu, e os olhos se lhe umedeceram de pranto. ‘Quanto tempo! Mas eu te reconheço ainda! Quanto tempo, quantas vicissitudes! Quantas provas o Senhor nos tem imposto!’ Chorou. Guilherme retribuiu o abraço, evidentemente comovido.”

P. 83:
“‘Nada que seja pretextuoso é santo, Guilherme, sabes que te quero bem. Sabes que confio muito em ti. Castiga a tua inteligência, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor, joga fora os teus livros.’
“‘Guardarei apenas o teu’, sorriu Guilherme. Ubertino sorriu também e ameaçou-o com o dedo: ‘Inglês tonto. E não caçoes muito dos teus semelhantes. Ou melhor, os que não podes amar, teme-os. E cuidado com a abadia. Este lugar não me agrada.’
“‘Quero justamente conhecê-lo melhor’, disse Guilherme despedindo-se. ‘Vamos, Adso.’
‘Eu estou te dizendo que não é bom, e tu dizes que queres conhecê-lo. Ah!’, disse Ubertino sacudindo a cabeça.

P. 84:
“‘(…) Não construas um castelo de suspeitas sobre uma palavra.’
“’Nunca o farei’, respondeu Guilherme. “(…) Porém gosto de ouvir também as palavras, e depois fico pensando nelas.’”

P. 158:
“‘(…) Quem ri não acredita naquilo de que está rindo, mas tampouco o odeia. E portanto rir do mal significa não estar disposto a combatê-lo e rir do bem significa desconhecer a força com a qual o bem se difunde a si próprio. (…)’”

Quem chia não consome

Hoje, ao anoitecer, entrei na sorveteria Itália. Enquanto eu estava lá dentro, entrou também uma velha, que passou a dialogar com a vendedora.

– Tem [sorvete de] iogurte com quê?

– Só com frutas vermelhas.

– Mas eu quero de iogurte com limão siciliano. Não tem?

– Não, Senhora, só de iogurte com frutas vermelhas.

– Mas não tinha na semana passada, hoje também não tem… Vocês não pedem?

– A gente até pediria, Senhora, mas o problema é que a loja é pequena. Não tem espaço.

– Olha o espaço ali!

– Mas, Senhora…

– Já entendi. Vocês é que não querem. Eu vim aqui só pra isso, então é bom já saber logo; assim eu não volto mais aqui.

E saiu resmungando e gritando, mas aí já não entendi mais.

Olha só. Na forma, a velha errou feio. No mérito, a velha até teria razão, mas na verdade não tinha, e perdeu a pouca que poderia ter. Vou explicar.

A frase “o cliente sempre tem razão” não é pra ser entendida literalmente. Na verdade, é até uma frase meio canalha. Ela significa, em essência, que o vendedor tem que descobrir o que o cliente quer e dispor-se a vender esse mesmo produto. Quem define o negócio é a demanda, então o vendedor tem que ouvir essa demanda e comportar-se de acordo, para que o cliente queira lhe dar dinheiro. “Ouvir a demanda” significa descobrir o que o mercado quer comprar. A pesquisa de mercado é um dos conhecimentos valiosos para um empreendimento, e é por não atentarem a isso que muitas empresas iniciantes falham apesar de terem produtos geniais: produtos que, porém, ninguém quer.

Então, “o cliente tem razão” por definição: quem define o produto é ele. Ele entra no restaurante, diz que quer o prato assim e assado, e o restaurante passa a ter esse prato no cardápio. Mas o “cliente” da frase é, de certo modo, o conjunto dos clientes, da média razoável dos clientes: aquilo que, acontecendo repetidas vezes, trará lucro ao estabelecimento. Se for um pedido louco, custoso ou impossível de atender, se o prato não tiver saída, o cliente pode não ter razão.

O sorvete de iogurte com limão siciliano (doravante ILS para encurtar) é azedo. Eu sei, porque eu gosto, mas eu sei muito bem que a maioria das pessoas não gosta. Aliás, o povo nem pede sorvete de iogurte nenhum; a Itália tem que ficar fazendo promoção e festival dos sorvetes de iogurte pra ver se sensibiliza o povo e empurra sua produção pra fora! Em matéria de sorvete, o povo é conservador: morango, chocolate e creme. Ninguém pede, como eu peço, tangerina, manga com gengibre, tapioca, menta, chocolate meio amargo com amendoim, ABÓBORA COM COCO (um de meus preferidos; doravante ACC para encurtar).

Ora, se o sorveteiro quer vender, ele tem que fabricar aquilo que o povo compra. É uma questão estatística: ele tem que olhar os trinta espaços da sorveteria e fabricar os trinta sorvetes que mais vendem. Não adianta fazer ILS se ficar mofando na geladeira sem ninguém tomar; não só tem o custo de fabricação, mas também estará deixando de vender daquilo que vende, abrindo mão de receita. Seria insensato fabricar ILS por causa de um cliente só. É por isso que o ACC fica ANOS sumido.

As pessoas têm que lembrar que todo empresário só exerce o comércio para ganhar dinheiro, e não para satisfazer o ego delas. Uma coisa é o objeto social: aquilo que a pessoa jurídica faz. Cada empresa tem o seu objeto social; o da Itália é fabricar e vender sorvete. Outra coisa é o objetIVO social, que, no caso de uma empresa, é SEMPRE ganhar dinheiro. Fico meio frustrado de não ter ACC, mas tenho que entender o lado do lojista: não é nada contra mim; é uma decisão prática dele. E mais: estatìsticamente, ele também está certo. Ao privilegiar morango, chocolate e creme, ele maximiza o número de egos satisfeitos, fazendo o sacrifício necessário de deixar de atender a uma minoria de egos. Certamente não seria justo nem democrático se ele atendesse a uma minoria e forçasse a maioria a, querendo sorvete, só ter ILS ou ACC para escolher.

Mas a velha está muito errada. Ela parece ter a pretensão de gerir a loja, de dizer o que é que a sorveteria tem que fazer. Quando diz “olha o espaço ali”, ela afirma que o espaço está disponível para atender à prioridade dela. Com isso, olvida os fatos de que (1) é a Itália quem define como aquele espaço será ocupado, não a velha; (2) sabe lá se o espaço está realmente livre? Dali a dez minutos seria ocupado! O que garante que vá ficar livre por dias e dias e dias? Então, (3) parece livre, mas, ao ser ocupado, será ocupado por algo diferente do que ela espera. NÃO É ELA A GESTORA DA LOJA.

Uma conclusão que se extrai daí é que seja uma velha mandona (como em geral são as velhas — não confunda com as senhoras nem com as velhinhas, que são espécies bem diferentes). Como toda gente mandona, ela sofre de um tipo bem especial de psicose, que é supor que seu ego seja mais importante que o de outras pessoas e, portanto, concluir que o mundo exista para servi-la.

Afinal a velha foi embora ameaçando não mais voltar. De um lado penso, “blefe”: quem fala não faz. Ela vai voltar, inclusive porque se diverte demais fazendo isso. Se ela não reclamar na sorveteria, que graça tem a vida para ela? É claro que vai voltar! É isso que é importante para ela; seu vício é esse. Se houvesse ILS, aí sim ela se frustraria, por não ter do que reclamar, e iria encontrar outra coisa, e ia querer outro sabor que ali não houvesse. Mas, de outro lado, penso, “não volte mesmo; a vendedora agradece”.

Mas não só a vendedora agradece. Pensa bem: esse tipo de cliente não interessa à sorveteria. Esse tipo de cliente não compra, não se contenta com os sabores que há (e são muitos), só cria tumulto e má impressão na loja. Se a velha SÓ aceitaria ILS, então ela não é a cliente que a sorveteria Itália quer, porque é uma cliente muito limitada, que é caro atender. É uma cliente que quer um sabor de sorvete só pra ela — o sabor DELA — e que, com isso, impede a sorveteria de ganhar mais dinheiro com um sabor mais popular; certamente a velha não se disporia a comprar toda a produção de ILS, né? Ia ficar lá uma caixa inteira, que ela queria para satisfazer ao ego dela — nada a ver com sua real preferência ao paladar; a questão toda se resume a mostrar quem manda –, mas pela qual não pagaria.

Então, uma cliente dessa não convém. Como costuma argumentar o @cardoso, quem chia não consome, é um cliente que na verdade não interessa e que NUNCA estará satisfeito. Pode parar de tentar agradar, porque você não vai conseguir.

E não é assim em tudo na vida?

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Uma atroz dúvida jurídica

Lanche. S.m. 1. Refeição leve que se faz entre o almoço e a janta. 2. P.ext. Qualquer refeição leve. 3. Paulistês. Sanduíche.

Há alguns dias, chegou-me, pelo Twitter, a notícia de que o ex-deputado Eduardo Cunha havia sido preso “enquanto comia um lanche”. Quem me deu a notícia foi um usuário paulista.

Atenção ao verbo. Não é “fazia um lanche”, mas “comia um lanche”.

É claro que, imediatamente, veio-me a dúvida óbvia (a única que deveria preocupar a mente de qualquer leitor dessa notícia com tamanha gravidade): era “lanche” no sentido de “refeição leve” ou “lanche” no sentido de “sanduíche”? A um carioca não vem esse pensamento, porque, para nós, “lanche” nunca significa literalmente “sanduíche” (embora frequentemente o lanche, refeição leve, possa até consistir em um sanduíche). Mas o emissor da mensagem era paulista. Minha dúvida estava mais que justificada.

Apesar de se referir ao ato de comer, e não ao de fazer, paradoxalmente o texto teria sido mais claro se tivesse dito “fazia um lanche”. Afinal, nem à Velhinha de Taubaté ocorreria a hipótese de que o verbo “fazer” fosse literal nesse caso; só poderia estar sendo usado no sentido figurado, de “comer”. Mas, como ninguém aplica tal sentido figurado quando o objeto do verbo é um sanduíche (ou seja: ninguém diz que vai “fazer” um sanduíche no sentido de “comê-lo”), não haveria dúvida: o sentido seria de “comer uma refeição leve”.

Mas não foi essa a escolha de quem escreveu. Como o verbo era literal, “comer”, vieram-me inevitáveis pontos de interrogação.

Felizmente, alguns minutos depois, vim a saber que o “lanche” consistia em um pão com manteiga.

Ora! Ninguém considera um pão com manteiga como parte da categoria dos sanduíches! Sanduíche se faz com alguma coisa que você comeria sòzinha: carne, frango, sorvete, prego de aço — qualquer coisa que você comeria sem pão mas que está escolhendo comer dentro do pão. Se a coisa depende de pão para ser comida — caso da manteiga, da margarina ou do requeijão –, aí você não chama de “sanduíche”; você apenas diz que é “pão com (…)”.

Assim ficou esclarecido o mistério: sendo pão com manteiga, não se tratava de um sanduíche. Não sendo sanduíche, um legítimo herdeiro dos Bandeirantes não chamaria o pão com manteiga de “lanche” com esse sentido. Portanto, òbviamente, só podia ser um “lanche” no sentido de “refeição leve”.

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É claro que outros aspectos jurídicos merecem discussão. O primeiro diz respeito à informação — verdadeira ou falsa — de que os policiais não esperaram que o ex-deputado acabasse de comer para prendê-lo. Ora, se o pão estava ali e não foi comido, logo ficaria duro, apesar da manteiga, e se tornaria imprestável para consumo. O que traz a pergunta: onde fica a sustentabilidade? Então agora se monta um sanduíche para ninguém comer? Será que o País está tão rico que estamos nos dando ao luxo de jogar comida fora? O mínimo que algum policial deveria ter feito seria ter comido o final que restava do sanduíche pão com manteiga, de modo que este cumprisse sua função social.

Pode-se arguir, ainda, que esse ato equivaleria a um confisco, expropriando o preso de seu patrimônio (no caso, o dito final de pão), quando tudo que o Estado poderia suprimir seria sua liberdade. Mas argumento eu: melhor um confisco pelo Estado do que pelo particular. O que você acha que a padaria (ou supermercado, sei lá) ia fazer quando visse o meio pão dando mole, sem consumo, em cima do balcão?

Em uma outra questão igualmente jurídica, mas de muito menor importância, levanta-se a tese de que os policiais poderiam, ao menos, ter esperado que o preso acabasse de consumir sua refeição leve seu lanche. Divirjo. A ordem de prisão é para cumprimento imediato; pudessem os policiais cumpri-la instantaneamente, com teletransporte, deveriam fazê-lo. Então, retardar o cumprimento da ordem seria uma procrastinação ilegal, uma omissão do dever. Mais: se Cunha consumisse o pão até o fim, estaria exercendo liberdade, e a ordem judicial foi justamente para fazer cessar o exercício da liberdade. Então, cuneus panem edere non potest.

EOF

Trago quatro trechos alheios

… de obras diferentes.

O primeiro é de Umberto Eco, em O nome da rosa, conforme tradução de Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade, editora Nova Fronteira, 1983, p. 45.

” ‘Compreendo’, disse Guilherme. Eu já tivera meios de notar que, quando se exprimia daquele modo tão solícito e educado, de costume calava, de maneira honesta, o seu dissenso ou sua perplexidade.”

Conheço quem me deu o mesmo exemplo. Atento, procuro praticar; ainda falho miseràvelmente, mas insisto.

O segundo é do artigo Supersônicos: a primeira turma no F-103 no Brasil, de Reinaldo Peixe Lima, publicado na Revista força aérea no. 41 (dez.2005 – fev. 2006), p. 31-35. Na página 34,

“(…) o AT-26 Xavante, com a sua camuflagem verde, voando sobre os verdes mares cearenses, era praticamente invisível, (…)”

“Eu vi o que você fez”, disse Castro Alves.

O terceiro é do artigo Mistral I: o dia em que a FAB armou a arapuca…, de Carlos Lorch, da mesma edição da RFA acima, p. 36-41. Na página 36, o Autor relata um evento de 1997, quando a Armée de l’Air trouxe seus Mirages 2000 para treinarem em Natal, em exercícios de combate simulado com os Mirages III (“F-103”) do Esquadrão Jaguar da FAB.

“(…) bem, na verdade não dava para esperar muito dos nossos Mirage. Eram aeronaves de outra geração, o esquadrão estava treinado para conduzir interceptações vetoradas. Sabe como é …coisa de outra época. Nada que não fosse varrido pela fantástica relação peso/potência, pelos radares RDI e mísseis Super R.530 e Magic II dos Mirage 2000 da nova geração. Estava quase me perguntando se não teria sido melhor deixar os F-103 lá em Anápolis…

“Mas o que eu imaginava não foi bem o que ocorreu. Logo no início da Operação, enquanto fazia fotografias no pátio de estacionamento das aeronaves, comecei a notar um estranho padrão de comportamento nas tripulações que retornavam do vôo. Principalmente nas francesas. Ao descerem de seus Mirage 2000, os pilotos começaram a agir de forma estranha. Coçavam a cabeça, discutiam com seus alas já ali, na rampa. Gesticulavam e partiam rápido para o debriefing com cara de poucos amigos. Esse padrão se repetiu no dia seguinte e já então permeava no ar uma sensação esquisita. Os pilotos e os mecânicos de nossos Mirage, por sua vez, mal conseguiam esconder uma satisfação coletiva que de pronto tomou conta da base. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo, mas era algo fora do comum. De algu’a maneira, os Jaguares, com seus aviões de outros tempos, estavam dando uma escovada em nossos incrédulos visitantes. Havia rumores e explanações desencontradas. Muita vibração de um lado, e um misto de surpresa e indignação do outro.

“Eu não sabia o que havia acontecido. Só sabia que os havíamos superado, e isso já era o bastante…”

O quarto trecho vem da mesma reportagem de C. Lorch. Na página 37, as palavras são do Major-Aviador José Eduardo Portella Almeida:

“… os franceses nos ofereceram voar na nacele [eu tinha pra mim que o nome certo fosse ‘carlinga’] traseira dos dois M2000 biplaces que haviam trazido, o que foi disputado por todos os pilotos brasileiros. Nós também tínhamos trazido dois MIII biplaces e nenhum francês tinha pedido para voar de ‘saco’. O exercício durou uma semana. Lá pela quinta-feira, começamos a fase operacional, os vôos em que aplicaríamos a tática. O posicionamento tático era o seguinte: dois MIII simulariam estar defendendo Natal e dois M2000, vindos do oceano, tentariam romper a patrulha (…). Na quinta-feira, se não me engano, ganhamos todos os combates. Em um deles, contra o Comandante dos franceses (…), os dois M2000 foram abatidos nos dois engajamentos. No debriefing, o Comandante gritava, em francês, com seu ala, inconformado com a ‘derrota’ a que ele tinha sido submetido, a seu ver por causa de falhas do ala. Ele fez questão de assistir ao filme em que ele manobrava na frente do MIII, lançando flares, em vão. Naquele dia, os franceses se trancaram na sala de briefing reservada a eles e ficaram até altas horas, fazendo não sabemos o que (todos os dias nós ficávamos fazendo nossa reunião do pôr-do-sol e eles saíam para a cidade logo após o último vôo. Na quinta-feira, nós saímos antes). No dia seguinte (sexta), havia dois franceses na porta da nossa sala de briefing pedindo para voar conosco, na nacele traseira do MIII…”

É como diziam no Exército: “treinamento difícil, guerra fácil”.

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