Caixa de sabão do Sr Atoz

Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

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“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

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I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

Minha inevitável pseudorresenha de Interestelar

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Então seja bem-vindo a mais uma pseudorresenha do Senhor Atoz. Você sabe como é: eu vou ao cinema, eu venho aqui e conto.

Mais uma vez, não farei uma resenha. Já tem gente fazendo isso de montão por aí (nem pesquisei desta vez para saber se é verdade, mas sempre é verdade). Baste ver que há toda uma edição da Slate dedicada ao filme, inclusive com as minúcias científicas. Baste ver que o Bad Astronomer, Phil Plait, tem todo um mea culpa sobre o ponto específico de buracos negros com rotação.

Meu público-alvo são as pessoas que já viram Interestelar. Em respeito às que não viram, tomarei o cuidado de esconder o texto que revelaria conteúdo. Então, você já sabe como funciona: para ler o trecho escondido, você tem que selecioná-lo com o mouse, porque o escrevi com fonte branca.

Primeiro, vamos à parte não secreta.

– Em nenhum momento o filme diz quando se passa. Temos sugestões de que seja no futuro próximo, nas poucas décadas adiante de nós, mas nada categórico. Não há referência a NENHUM ano. A camioneta do personagem é um modelo recente, e o interior da casa dele poderia ser hoje, mas isso não quer dizer nada, porque, naquela região dos Estados Unidos, os anos passam e nada muda. Hoje vemos camionetas que estão rodando há quarenta anos; o interior das casas, exceto por um eletrodoméstico ou outro, conserva a mesma estética de cem anos atrás. Então, essa atemporalidade pode ser usada para a frente também, e não sabemos se o filme se passa em 2014, 2024, 2064 ou 2114. O tema de insustentabilidade é premente hoje, quando já sentimos os efeitos do aquecimento global nas colheitas e na falta de água, e é certamente por isso que é tão fácil nos identificarmos com os personagens.

– A trilha sonora é de Hans Zimmer. Naturalmente bem feita, como sempre. A mesma melodia é ouvida diversas vezes, ora devagar ao piano nas cenas de mais reflexão, ora acelerada no violoncelo nas cenas tensas. Dá pra reconhecer. Agora, tive a forte impressão de que as passagens ao piano têm uma semelhança intencional com a introdução de Space Oddity, de David Bowie.

– Matthew McConaughey melhorou muito como ator. Lá na época de Contato (1997), ele era só mais um descamisado (sabe como é: os galãs que só aparecem nos filmes para tirarem a camisa em algum momento). Agora ele atua e convence.

– Na estante de livros do personagem, alguns exemplares chamam atenção e certamente não estão lá por acaso: The Stand, de Stephen King, que versa sobre a resistência à extinção da humanidade; biografia de Lindbergh, pioneiro da aviação; e pelo menos um livro de Conan Doyle, mestre da dedução científica através de seu personagem Sherlock Holmes.

– Nos anos 60, 70 e 80, os filmes de espaço costumavam mostrar os interiores das naves como se estivessem décadas ou mesmo séculos no futuro. Era sempre aquela atmosfera limpíssima, estéril, mas também confortável. Pense em Mercenários das Galáxias (se você não via Sessão da Tarde, azar o seu), O Abismo Negro, Galactica, Buck Rogers ou mesmo o primeiro filme de cinema de Jornada nas Estrelas. Pense em Voyager: Rumo às Estrelas, da Disney (e não o confunda com Star Trek: Voyager, que é outro animal). Já dos anos 90 em diante, instalou-se uma tendência que a mim é bem-vinda: os filmes de espaço costumam mostrar o interior das naves, e a tecnologia toda, como se fossem exatamente os atuais, exceto que um pouquinho de nada mais avançados, como se estivessem apenas dez ou vinte anos no futuro. Veja Space Odyssey, da BBC; Gravidade; até mesmo Armageddon. Isso tem a relevante consequência de ter que explicar menos, porque o público (ou ao menos parte dele) já viu astronautas no telejornal, já viu o interior da Estação Espacial Internacional em notícias e documentários, já sabe o que esperar. Quando se fala em naves e astronautas, já sabemos mais ou menos que aparências as estruturas e seus interiores devem ter, já sabemos que cara têm os painéis, comandos e trajes. Em Interestelar, podemos ver detalhes da superfície da nave, e lá estão todos os tijolinhos que nos acostumamos a ver nos ônibus espaciais, o preto-e-branco de seu revestimento, os bocais de seus motores, os aneis de vedação etc. A estética é conhecida. Então, quando o contador de histórias quer nos dizer “nave espacial”, ou “astronauta”, ou “interior de uma estação”, o que ele nos mostra é isso que temos visto nos filmes, e já sabemos do que ele está falando, e nada mais tem que ser explicado, permitindo que ele se concentre na HISTÓRIA. Afinal de contas, é isso que interessa; um filme é bom ou ruim conforme bem ou mal conte sua história. Se você tirar o foco do cenário, estará tirando isso do caminho, e o enorme benefício é que a história pode ser contada com menos obstáculos. O filme pode andar na sua própria velocidade. E é isso que acontece em Interestelar.

– Vi nos créditos: produtor executivo e consultor de Ciência, Kip Thorne. Quem se amarra em Astrofísica sabe que Thorne é uma das grandes celebridades da Astronomia neste entorno do Milênio. Contemporâneo do planetarista Carl Sagan, Thorne é uma das maiores autoridades na especulativa Física dos buracos negros. De acordo com Phil Plait, ele fez toda a matemática para concluir que fossem válidos certos pontos mostrados no filme — justamente os que os nerds desafiariam — e até mesmo publicou The Science of Interstellar. Talvez eu leia…

– Não sei de onde vieram os nomes CASE e TARS, mas KIPP é claramente uma referência a Kip Thorne.

Agora, a parte escondida.

– O filme é longo. Com 160 minutos, ele é desnecessàriamente longo. Dá pra ver por quê: ele gasta uma boa meia hora na visita inútil ao planeta do Dr. Mann, gasta um tempo enorme na tentativa de homicídio e de sequestro de uma nave, e nas longas cenas de ação: em luta com Mann, tentando alcançá-lo e depois tentando acoplar o módulo de descida à nave. O que eu faria? Cortaria, sem pena, toda a passagem com o Dr. Mann e boa parte do conflito familiar entre Tom e Murphy Cooper. Só serviram para tornar o filme mais pesado.

– Um milhão de referências a 2001, intencionais ou não. Então a NASA encontrou uma anomalia em órbita de Saturno? Ora, 2001 (o livro, não o filme) tinha um monolito em órbita de Saturno. Então não temos Hal, mas temos KIPP: uma inteligência artificial que tudo controla, que conversa conosco — só não tem aquela maligna luzinha vermelha, mas eles até abordam isso diretamente. E aí o astronauta mergulha numa singularidade e tem uma viagem de luzes psicodélicas… Rapaz, eu estava vendo a hora que Cooper ia cair em um quarto de hotel, encontrar comida azul e encarar um monolito. Faltou pouco. E então o astronauta, dentro da singularidade, conversa com a inteligência artificial, que colheu dados… Isso não está em 2001, mas está nos livros que lhe dão continuidade; a saber, 2010, 2061 e 3001.

– Robôs que, apesar de terem uma personalidade, põem a segurança em primeiro lugar e, de resto, não têm escolha senão obedecer aos humanos? ASIMOV! Primeira e Segunda Leis da Robótica, que aparecem em todos os livros de robôs de Isaac Asimov e que são citadas a toda hora por todos os seus leitores que hoje fazem filmes de saifai.

– Aliás: o TARS, quando está simplesmente em pé, não é DIREITINHO o Monolito? 2001, múltiplo check.

– Não adianta, eu tenho mesmo o coração mole para voos espaciais. Uma das cenas que mais mexeram comigo, que mais me emocionaram, não foi nenhuma das cenas projetadas para isso. Ao contrário, foi uma cena feita mais para nos deixar boquiabertos mas, ao mesmo tempo, passando uma forte ideia de profissionalismo e objetividade, sem muito espaço para outra coisa a não ser a missão. É claro que estou falando da decolagem. No cinema IMAX, o som ficou tão alto, tudo que se ouvia eram os rugidos dos motores, o equipamento sacudindo e a música no último volume. Aquele close, com a câmera parada e o foguete subindo na frente dela enquanto caem partículas de tinta congelada, é intencionalmente evocativo das decolagens do Projeto Apolo. É ISSO que mexe comigo.

– Sensacional a representação do buraco de minhoca com forma esférica. Sensacional a explicação. Claramente influência de Kip Thorne.

– Aliás, pensando um pouco mais sobre o buraco de minhoca, foi depois que me ocorreu: em todas as descrições que os livros fazem do buraco, uma nave permanece em seu próprio espaço e seus ocupantes nem perceberiam que estão passando por ele. Para eles, o espaço parece normal. Veja no desenho — qualquer desenho — que acompanha uma dessas explicações; basta googlar: se você está no espaço 2D (como em todo desenho), você continua andando no espaço 2D até ver que, sem ter se dado conta, foi parar do outro lado. E mais: não existe essa história de furar o papel com o lápis e “atravessar”. Nos desenhos se vê que o contorno é suave, que a nave não “pula” de um lado para o outro, porque, justamente na passagem, o espaço é perfeitamente contínuo, não tem borda afiada. A formiga do exemplo não pula para fora do papel, não se lança no vazio para o outro lado; ela meramente continua andando até ficar de cabeça para baixo do outro lado.

Buraco de minhoca simplificado em espaço 2D

Formigas suicidas tentaram, mas não encontraram a beirada.

Por incrível que pareça, ESTA é uma representação muito mais realista do efeito do buraco em 3D, embora ainda peque por representá-lo em 2D.

Então, no filme, não veríamos os personagens “saltando para fora do espaço”. Eles olhariam para o buraco, veriam uma projeção 2D do buraco (a qual teria meramente a aparência de uma janela), da mesma forma como tudo que vemos está em 2D no nosso olho, e veriam o que tem do outro lado, tal como quem olha por uma janela. Atravessando o buraco como quem passa por uma janela, eles estariam o tempo todo em um espaço 3D, sem nenhuma lei da Física que lhes parecesse diferente, só que, ao olhar em volta, reconheceriam estar em um lugar diferente do lugar de antes da travessia. Em outras palavras: a viagem pelo buraco de minhoca só seria perceptível para quem estivesse prestando atenção, por causa da mudança do cenário em volta. Não haveria nada daquele efeito dramático, das acelerações, das maluquices sensoriais, nada disso. Porque a nave que atravessa o buraco não sai do espaço 3D, não entra em um espaço 5D nem coisa parecida.

– Se um planeta orbitasse um buraco negro tão de perto, ele estaria sujeito a um permanente banho de raios X, resultante da aceleração da matéria no disco de acreção. Você reparou na intensidade luminosa ali perto? Então. Os raios X são ainda mais abundantes, você só os não está vendo; de acordo com Plait, a luz no filme era até pouca. Portanto, se você fosse morar no Planeta de Miller ou no Planeta de Mann, você tomaria doses maciças de raios X a cada segundo. Deviam chamá-los de Planetas do Câncer. Só o tempo que os astronautas passaram nas proximidades do horizonte de eventos já seria suficiente para evaporar a eles e à nave, não sem antes você conseguir ver seus esqueletos na mais espetacular ferramenta de diagnóstico médico que o universo já teve o trabalho de acumular.

– E mais: supostamente há três planetas habitáveis orbitando um buraco negro, certo? OK, um deles é um mar inóspito, outro tem paisagens geladas e atmosfera de amônia, mas, em princípio, até dá para caminhar na superfície, não é isso? Muito bem. Só que, para você não morrer congelado a zero kelvin na superfície de um planeta que congelaria o AR à sua volta, é necessário que esse planeta receba bastante calor. Calor que viria, por exemplo, DA ESTRELA QUE ELE ORBITA. No nosso caso, a Terra só não é uma vastidão de gelo porque o Sol a mantém aquecida. Se, em vez de uma estrela, seu planeta orbita um buraco negro, então o calor que você recebe não é suficiente nem para você ter uma atmosfera, muito menos água líquida, céu claro ou, no caso extremo, habitabilidade. Portanto, só de ver que a “estrela” é um buraco negro, as esperanças para os três mundos acabariam ali.

– Faltou explicarem um pouco melhor este lance de que cada hora no Planeta de Miller corresponde a sete anos longe dele. Eles até pincelaram o motivo (distorção do espaçotempo na proximidade do buraco negro), mas o povo que assiste pode ficar um tanto confuso. É verdade que foram fartamente explícitos em dizer que é tudo por causa da relatividade, e até disseram que Cooper não teve tempo de explicá-la à filha de dez anos (leia-se: não vamos explicar a vocês que assistem; procurem um livro), mas, ainda assim, eu teria comentado.

– Quando Cooper e Brand retornam para Romilly e ele envelheceu 23 anos, você notou duas coisas? Uma são os modos dele: o gestual, o caminhar e os maneirismos de uma pessoa de mais idade. Ele já não era novinho quando a nave decolou, então certamente havia se tornado um senhor próximo da aposentadoria. A segunda coisa são as mãos dele: bem na postura de quem tem artrite, em forte sinal da idade. Parabéns à equipe e ao ator por isso.

– Eu não sei você, mas para mim foi uma total surpresa a aparição de Matt Damon. Não do personagem, mas do ator. Isso está fartamente comentado aqui (javisei: spoilers). Não é a primeira vez que ele faz isso: quem viu EuroTrip teve a oportunidade de se surpreender da mesma forma. Deve ser uma espécie de diversão para ele. Se bem que, em retrospecto, “Mann” soa como “Matt Damon” falado rápido, muito rápido, deixando apenas os dois fonemas iniciais e o último.

– Planeta de Mann = superfície interminável de gelo acumulado, com quilômetros de altura. Portanto: planeta de Mann = Islândia. Isso é óbvio. Quando os créditos reconhecem que o filme foi rodado lá, e listam todos aqueles nomes como “Gunnar” e “Olaf”, todos terminando com “…fsson” e “…dottir”, não há surpresa nenhuma. Quem viu Prometheus saberia.

– Astronauta mandando computador abrir a escotilha, não conseguindo e tentando entrar na marra? 2001, check.

– Explosão no espaço: silenciosa. Pronto, nerds, estão felizes? Pronto, taí. Tal como em Gravidade, vimos uma explosão e o som não se propagou no espaço.

– Quando a Endurance (ou o que restou dela) está completando a manobra de estilingue em torno de Gargântua, TARS comenta que, de acordo com a Terceira Lei de Newton, para ganhar velocidade você tem que deixar alguma coisa para trás. Algumas pessoas riram no cinema, porém a Terceira Lei de Newton é exatamente isso. Ele não estava brincando. Na verdade, a descrição foi um pouco imprecisa, porque não basta deixar massa para trás; é preciso que a massa tenha uma velocidade negativa em relação à sua. Se TARS for apenas abandonado, ele vai continuar acompanhando a nave até que, de acordo com a Segunda Lei, ela sofra alguma aceleração que ele não. Isso acaba acontecendo, mas, infelizmente, não chegamos a ver a Terceira Lei em ação.

– Ambiente artificial criado no fim do filme pelas criaturas avançadas para que os humanos consigam se comunicar? 2001 e Contato, check.

– Outra influência que não passou despercebida foi a de Star Wars: quando, nas últimas cenas, Cooper recruta a ajuda de TARS e sub-reptìciamente furta uma nave monoposta para encontrar Brand no planeta de Edmund, observe que seu embarque espelha aquela cena do Episódio V onde Luke se afasta de seus amigos para ir encontrar Yoda. Sua entrada no cockpit, mais o fato de que a inteligência artificial se acomoda no espaço apertado atrás dele (R2-D2 no X-Wing), mostram claramente de onde partiu a ideia original, mesmo que o diretor não tenha feito de propósito.

– Por último: os fãs de saifai, assim como outras mentes difíceis de se iludir, já devem ter percebido uma falha lógica gritante, extremamente comum neste tipo de filme, mas que mesmo assim continuam fazendo. Se os sinais de Cooper viajaram para trás no tempo e chegaram à adolescência de sua filha, isso só aconteceu porque os humanos-do-futuro criaram esse hipercubo com aparência de tridimensionalidade, de onde ele poderia enviar os sinais, certo? Bem. Mas esses humanos-do-futuro só são possíveis porque a missão deu certo, e a missão só deu certo porque Cooper encontrou a base secreta da NASA, e Cooper só encontrou a base secreta porque sua filha lhe trouxe os dados revelados pelo fantasma, e os dados só foram revelados pelo fantasma porque o fantasma teve um ambiente do qual enviá-los, e ele só teve esse ambiente porque os humanos-do-futuro lho forneceram. Ou seja, os humanos-do-futuro só se tornaram possíveis porque agiram. É um paradoxo temporal de predestinação, mais suave e mais sutil do que o outro, agressivo e gritante, da contradição que surge quando você volta no tempo e mata seu avô. Ainda assim, um paradoxo, e o filme sofre essa falha lógica insuportável, que rompe a relação de causalidade. Feito o loop temporal, nada deu causa ao sucesso da missão, ou ela só deu certo porque só poderia dar certo… Nunca houve dúvida sobre o sucesso da missão? (Desculpe, anos demais vendo filmes e séries de saifai.)

No geral, Interestelar teve o cuidado de não ser um espetáculo de efeitos visuais. Ao contrário: os efeitos, quando existem, são para promover a história, não para ficar no caminho dela. São uma forma de suprir uma expectativa no momento em que aparecem e então permitir que nos concentremos no que os atores fazem. Mas o filme é muito longo.

Para ler a resenha de Phil Plait, que recomendo enfàticamente, apenas clique aqui.

EOF

Written by sratoz

23/11/2014 at 23:25

Conforme sabemos

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Hoje falarei da palavra “conforme”.

“Conforme” pode ser usada como conjunção. Então, você diz “faça conforme lhe ensinei”. Veja que, sendo uma conjunção, “conforme” tem o poder de vincular uma oração a outra. Isso é fácil de identificar: toda oração gira em torno de um verbo, toda oração tem um verbo, todo verbo está em sua oração. Então, no exemplo acima, existe uma oração principal, que, aliás, só tem seu verbo (“faça”) e mais nada; e existe uma oração subordinada, que é “conforme lhe ensinei”, orbitando à volta do verbo “ensinei”. A palavra “conforme” é uma conjunção, pendurando uma oração à outra.

“Conforme” pode ser usada como advérbio. Por exemplo, “Fulano dança conforme a música”. Embora seja um advérbio, a palavra “conforme” não é usada sòzinha; ela faz parte de um conjunto, que é uma locução adverbial. Uma locução adverbial desempenha o mesmo papel de um advérbio, com a diferença de que são várias palavras atuando como uma só. Advérbios e locuções adverbiais costumam ter a mesma função sintática, que é a de adjunto adverbial. Ou seja, estão meramente ajudando a especificar o que se quer dizer com determinado verbo. No exemplo, “conforme a música” equivale a um advérbio só, como, por exemplo, “assim”: “Fulano dança assim”.

Quando “conforme” é usada como advérbio, observe que não precisa de preposição. Podemos dizer “conforme a música”, “conforme o combinado”, “conforme o exemplo”, “conforme o decreto”, “conforme a lei” etc. Em todos esses casos, observe que “a música” e “o combinado” são palavras que não vêm precedidas de preposição. Por isso, “a música” fica com sòmente esse um “a”, que é o artigo definido antes da palavra “música”. Sendo um só “a”, não caberia falar em crase, porque a crase só aparece quando dois “a” estão juntos.

Os vários usos da palavra “conforme” são essencialmente muito parecidos, e difìcilmente pensamos em classificações gramaticais quando a usamos, de modo que não costumamos reconhecer que está sendo usada ora como conjunção, ora como advérbio. Tenho certeza de que o Leitor nunca deve ter reparado que os usos de “conforme” na qualidade de conjunção e na qualidade de advérbio são diferentes, porque sempre veiculam a mesma ideia afinal de contas.

Agora, um uso menos frequente da palavra “conforme” é como adjetivo. Nestes casos, novamente “conforme” está traduzindo a mesma ideia (ou quase a mesma ideia), de modo que é difícil perceber que é um adjetivo. Mas acontece e há uma forma de identificar.

Quando “conforme” é um adjetivo, ela é usada como atributo de algo ou alguém; afinal, é isso que são os adjetivos. Então, você diz que “tal coisa é conforme a outra coisa”. Observe que há uma sutileza aí: quando é adjetivo, “conforme” costuma ser sucedida de uma expressão que vai completar seu sentido, que é o complemento nominal. O complemento nominal sempre é usado quando um adjetivo fica meio solto no ar, com seu sentido muito abstrato, sem ligação com nada. O complemento vem dar sentido ao adjetivo. Então, um exemplo do qual gosto muito é o dos tanques de combustível do tipo CFT do caça F-15C. “CFT” significa “conformal fuel tanks”, ou “tanques de combustível conformais”. Eles vão presos à fuselagem da aeronave de modo tal que o formato deles segue exatamente o formato da fuselagem. Veja na foto.

Tanque de combustível sendo empurrado

Tanque de combustível sendo empurrado para ser acoplado à fuselagem, embaixo da asa deste F-15D. No avião ao fundo, acima da cabeça do empurrador, vê-se outro tanque, já acoplado.

 

Fotografia mostrando o CFT quando o F-15E está em voo

Quando este F-15E é visto de frente, nota-se que o CFT se molda perfeitamente, como se fizesse parte da aeronave.

 

Em consequência, pode-se dizer que os tanques são conformes ao formato da fuselagem. Repare: “AO formato”. Não é “conforme O formato”, porque, agora, existe uma preposição aí. Da mesma forma, se usarmos “a fuselagem”, a frase dirá que os tanques são “conformes à fuselagem”: agora existem duas palavras “a”, sendo uma a preposição e a outra, o artigo definido antes de “fuselagem”; daí a crase.

Então, a presença da preposição (denunciada ora em “ao”, ora em “à”) indica que “conforme” é um adjetivo. Há outras situações onde “conforme” é adjetivo e nas quais não há complemento nominal, mas essas situações parecem até arcaicas, porque a gente não usa muito. Um exemplo clássico é este: “a escritura foi lida e achada conforme”. E a frase acaba aí. Conforme o quê? Pois é, nada. Conforme, ponto. Está implícito que seja conforme à vontade de alguém, ou ao que foi combinado. Note que “a escritura” é o sujeito da oração, “foi” é verbo de ligação, “lida” é um núcleo do predicativo do sujeito, “achada” é outro núcleo do predicativo do sujeito (aquilo que se diz que o sujeito seja), e “conforme” é complemento nominal de “achada” (porque teria que ser “achada alguma coisa”, senão não faz sentido; quando “achar” tem sentido de opinião, é preciso dizer que opinião é essa: então a palavra “conforme” está vindo responder justamente a essa pergunta).

Todo este artigo só foi escrito por isto: quero mostrar que existem casos em que “conforme” vem sucedida da preposição “a”. Essa preposição é a única forma de verificar que “conforme” é adjetivo. Veja, por exemplo, estas duas frases.

Fizeram o documento conforme o combinado.

Fizeram o documento conforme ao combinado.

As duas frases estão corretas. Na primeira, “conforme” é advérbio e indica como foi que fizeram o documento: de tal e qual maneira; de maneira adequada ao que fôra combinado. “Conforme o combinado” é adjunto adverbial, pendurado no verbo “fizeram”. Já na segunda frase, “conforme” é adjetivo. Fizeram o documento, e como podemos descrevê-lo? Podemos dizer que é um documento conforme ao combinado. Nesse caso, “o documento” é objeto do verbo “fizeram”, e a expressão “conforme” é predicativo do objeto: está descrevendo algum atributo do objeto. Claro que “ao combinado” entra como complemento nominal desse predicativo.

A ideia deste texto partiu da leitura de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Estava lendo a ADPF 54 e, no acórdão que encerrou o processo, página 33, vi que o Ministro Marco Aurélio escreveu: “… os referidos enunciados sejam interpretados conforme à Constituição”. Ora, “interpretados” é um adjetivo, de modo que o que lhe vai pendurado, “conforme”, é um advérbio. Nesse caso, mais apropriado seria dizer “conforme a Constituição”, com apenas um “a” (que é o artigo) e, portanto, sem crase. Não quero, com isso, dizer que o Ministro errou, porque o mesmo Ministro, noutras vezes, deixa de usar a crase; e, noutras vezes ainda, usa-a corretamente. Não estranhe quando encontrar a expressão “interpretação conforme à Constituição”, com crase, porque, nesse caso, “conforme” será um adjetivo, vinculado ao substantivo “interpretação” como se espera. Então, “interpretar conforme a Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de advérbio e “interpretação conforme à Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de adjetivo.

Já se eu disser “deve-se dar interpretação conforme a/à Constituição”, qual é o certo? DEPENDE. Se “conforme” estiver sendo usada na qualidade de advérbio, vinculada a “dar”, então a frase deve ficar sem crase. Se como adjetivo, vinculada a “interpretação”, então a frase deve levar crase. O Leitor saberá se o Autor quis usar “conforme” com uma ou outra intenção conforme haja uma crase ou não. Logo, não é para ficar pré-julgando que a frase esteja correta ou errada só porque tem ou deixa de ter crase: permita que o Autor escolha e você saberá que emprego ele quis dar às palavras.

A lição que fica — e que não me passaram na escola, mas que estou transmitindo a você — é que não podemos ler um texto com a pretensão de sabermos mais do que o Autor. Se existir uma forma pela qual o Autor esteja certo em sua gramática, então em princípio ele está certo, e cabe a nós decifrar o que ele queria dizer de acordo com as regras, decodificar de acordo com o código que temos, que são as normas do português e nosso conhecimento de funções sintáticas. Na verdade, a análise sintática é uma ferramenta muito útil para entendermos o papel de cada palavra na frase e, assim, podermos saber o que quer dizer o quê.

Um dos erros muito comuns dos professores de português é quererem que só exista uma forma de dizer determinados conteúdos, ou quererem que determinadas palavras só possam vir em determinada ordem, ou que determinadas frases só possam ser construídas de determinado jeito. Aí, quando uma frase tem uma vírgula ou uma crase ou um plural onde não esperam, dizem que a frase está errada, sem procurar algum significado que pudesse estar expresso corretamente daquela forma. O certo é tomar a frase pelo valor de face, tal como está, e nela encontrar as indicações do papel de cada palavra. Desse modo, podemos descobrir que o que parece verbo pode ser sujeito, que o que parece adjunto adverbial é predicativo, e assim muitas outras coisas.

(É claro que, às vezes, o Autor está errado mesmo, e a gramática da frase está errada. Mas não é para partir dessa ideia como premissa só porque a frase parece errada.)

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Written by sratoz

22/11/2014 at 20:33

Pequenos pontos prateados

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Nos últimos meses, sempre que estou ao computador em casa, ligo no FlightRadar24. Centralizo na minha posição geográfica e fico acompanhando os voos que passam pela área, decolando ou pousando no Galeão, no Santos-Dumont, em Guarulhos. Na tela, cada avião é indicado por um símbolo, que vem acompanhado de estatísticas: que modelo de avião é esse (com a exata variante conforme a companhia aérea: não basta que seja um 737 nem basta que seja um 737-800; vemos que é um 737-8EH), que companhia aérea, indo de onde para onde, quais os horários programado e real de decolagem, programado e estimado de pouso, com quanto de viagem já percorrido, a que altitude atual, rumo atual, velocidade e razão de subida. Vemos o percurso feito até aqui, a rota programada, o número do voo, o registro da aeronave, e até qual é o radar que a está rastreando.

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

É muito comum, especialmente no fim de semana, ver algum voo que esteja vindo sem escalas de Istambul, ou de Joanesburgo, ou de algum lugar igualmente distante, sempre entre 35 e 40 mil pés, rumo a Guarulhos. Aí vou à janela e vejo a aeronave, parecendo estar tão mais baixo, ou vejo seu rastro discreto de condensação. Também é muito comum ver um Airbus vindo da Europa a caminho de Ezeiza ou de Guarulhos, sobrevoando o mar a várias milhas da costa, e parece tão pertinho, parece que sobrevoa o Leblon. Quando o dia está muito claro, vejo que há um voo da TAM no rumo Vitória a 40.000 pés, passando pertinho de mim; procuro-o no céu mas nada vejo: tão alto, é ofuscado pelo sol do fim de tarde.

Várias são as decolagens que vejo da TAM, da Gol, da Avianca, partindo do Santos-Dumont, quebrando a bombordo e então bruscamente se voltando para o Sudoeste enquanto ràpidamente ganham altura: curtos saltos até Congonhas, fàcilmente visíveis de minha janela nas tardes claras. Várias são as decolagens do Galeão, virando logo após para sobrevoarem a Mantiqueira, e então o Sudeste de Minas, e Bahia, e Europa.

Certa vez vi um Hawker 800 fazendo órbitas loucas a várias altitudes, desenhando sucessivos oitos no céu afastado do Galeão, sem ir a lugar nenhum: era um EU-93 do Grupo Especial de Inspeção em Voo, calibrando o radar do aeroporto. De outras vezes, vi modelos da Embraer, seus transponders emitindo o número de série da aeronave, decolando de São José dos Campos, dando várias voltas sobre Campos do Jordão à mais alta altitude e voltando para São José: voos de teste da fábrica, os aviões prontos para entrega, seus pilotos fazendo o último check para satisfação do cliente.

Nas noites de fim de semana, quase de madrugada, o 747 do voo Lufthansa 501 decola do Galeão no sentido Caxias, faz a volta para bombordo, passa sobre São Cristóvão e Centro do Rio, e então escuto seus inconfundíveis quatro motores, estridentes na saída de gases mas também rugindo como um trovão, acelerando, acelerando suas centenas de toneladas enquanto sobe, rápido e certo. Olho pela janela e consigo ver suas luzes a 11.000 pés, parecendo tão baixo e tão lento, já desaparecendo por trás do prédio vizinho. Em minutos a tela o mostra sobre Macaé, ganhando o rumo de Frankfurt.

Nessas mesmas noites, quando tudo está silencioso e o céu está claro de nuvens, escuto um trovejar distante, contínuo, e olho no FlightRadar: um Airbus da TAM decola agora para Nova Iorque, a saída de gases de seus motores voltada para cá. Embora eu esteja a 12 km da pista e haja tantos prédios no caminho, consigo nìtidamente escutar esses motores, que alçam trezentos passageiros, sua bagagem e todo o querosene necessário para um destino a 10.000 quilômetros daqui, a potência máxima sendo exigida para levantar tanto peso do chão, a decolagem lenta, a subida esforçada, o som vindo em linha reta até mim quando a aceleração joga a todos contra suas poltronas.

Vejo voos partindo da Europa continental, rumando para o Norte para chegarem a Los Angeles ou Vancouver. Vejo voos vindo da China ou do Japão, atravessando a Sibéria para chegarem a Londres. Vejo um corredor congestionado da Europa Oriental, passando pelo Mar Negro, Turquia e Golfo Pérsico, até Dubai. Vejo doze Airbus A380 no ar simultaneamente, o maior avião do mundo, agora já quase banalizado pelas rápidas entregas a Air France, British, Singapore, Emirates e Lufthansa. Vejo 25 aviões decolando na mesma noite do Brasil aos Estados Unidos, 7500 brasileiros e americanos indo passar férias, fazer cursos, voltar para casa, assumir novos empregos. Vejo dezenas de aviões entre Argentina e Centro-Oeste do Brasil, indo ou voltando da Europa e dos Estados Unidos, trazendo presentes e compras pela UPS ou pela FedEx ao grande terminal de carga de Campinas. Vejo voos panorâmicos no Sul da Flórida, pilotos treinando sua proficiência enquanto apreciam a paisagem.

Todos os pontos prateados que vejo em meu céu e todos os pequenos símbolos que vejo em minha tela, nenhum deles é para mim uma abstração. Quando vejo uma decolagem, ainda que para a curta viagem SDU-CGH, vejo ali centenas de pessoas com seus sonhos, centenas de pessoas acomodando-se para dormir pela longa e cansativa viagem até a Europa, centenas de homens e mulheres de negócios planejando o que farão ao chegarem a Buenos Aires. Vejo as comissárias começando a servir o jantar, vejo os pilotos recebendo e cumprindo instruções da torre. Vejo casais a caminho da lua-de-mel, jovens a caminho do intercâmbio, executivos preocupados com planilhas, turistas de grana apertada ansiosos pelas férias sonhadas por anos. Cada ponto, alto no céu, quase invisível, para mim são duzentos, trezentos viajantes cansados já em procedimento de descida, viajantes dispostos indo não sei para onde, seus futuros sendo escritos neste momento, novos destinos surgindo em suas vidas, circunstancialmente sobrevoando a minha enquanto simpatizo e compreendo suas experiências, e só me resta lhes desejar:

Boa Viagem.

Written by sratoz

12/10/2014 at 17:18

Esquadrão 360 desativado

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“À meia-noite de 31 de outubro, o esquadrão mais jovem da Real Força Aérea, o Esquadrão 360, da base RAF Wyton, Cambridgeshire, foi oficialmente desativado. Ironicamente, apesar de ser o esquadrão mais jovem, a unidade operava um dos tipos mais antigos que servem na RAF, o English Electric Canberra, e incluía a aeronave operacional mais velha das forças armadas do Reino Unido, o Canberra T.17 WD955, que está em serviço há 43 anos. Uma unidade conjunta da Real Força Aérea e da Real Marinha, o 360 exercia a função de treinamento em contramedidas eletrônicas, que será assumida pela Flight Refuelling Ltd em junho de 1995 com equipamento de ECM em casulos nos pontos rígidos sob as asas de seus Falcon 20. Seis dos oito Canberras T.17/T.17A remanescentes da unidade serão sucateados, dois foram oferecidos a leilões e os poucos PR.7 e T.4 não especializados serão transferidos ao Esquadrão 39 (1 PRU), em Marham.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Written by sratoz

29/07/2014 at 12:24

Urupema

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“Urupema” é o nome de um planador da EMBRAER, distribuído pela Força Aérea para uso dos aeroclubes do Brasil.

O nome é tìpicamente indígena e eu sempre acreditei que viesse de alguma ave. Sabe como é: por todo o mundo, os aviões frequentemente ganham nomes de pássaro, como no caso das diversas variações sobre os nomes “Hawk” e “Eagle” nos Estados Unidos e na Inglaterra, “Halcón” no Chile e na Espanha, “Gavião” e “Tucano” no Brasil, essas coisas.

Até que abri o Aurélio para procurar outra palavra e meu olho bateu em “urupema”: “espécie de peneira de fibra vegetal…”

Entendi na hora o porquê de se usar esse nome para um planador e pensei, “sacanagem!”

Tradicionalmente, o treinamento de pilotos militares tem três fases: primário, básico e avançado. O primário começa em planadores, que têm a aerodinâmica mais simples, sem as complicações trazidas por um motor. Só depois de dominar a essência dos comandos é que o aluno progride para um avião.

Em inglês, o treinamento primário, primary training, também é chamado sabe como? Screening: “peneiramento”!

… Porque é uma peneira mesmo: você joga um montão de candidatos, mas a maioria não passa dos primeiros voos. Só uma minoria chega ao treinamento básico (onde, aliás, a filtragem continua). Em inglês, o candidato rejeitado é chamado de wash-out ou washout: quando você joga na peneira, ficam retidos e você os joga fora na lavagem.

Então, o Urupema foi destinado, desde a origem, a filtrar os candidatos a pilotos… e isso está no próprio nome. Realmente, está bem escolhido. Veja que não devo ter sido o único a pensar que fosse o nome de um pássaro, com todas as seriemas, anunguaçus, araras, urutaus e outros nomes em tupi-guarani que ainda adejam por aí (quando não estão extintos). Para o entusiasmado e iludido mequetrefe que se mete a pilotar, é melhor que se convença disso, melhor do que vir a saber que está voando em um EMB-400 Peneira…

EMB-400 em voo

Peneira

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Written by sratoz

20/04/2014 at 23:06

Na categoria Aviação

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