Bala encontrada

Essa semana, eu estava estudando no quarto, tudo em silêncio, uma típica tarde tranqüila, não?, quando escutei, PÁ!, um estrondo seco e bem próximo.

Procurando na área de serviço, encontrei o vidro na horizontal, aberto para o vento circular por entre a roupa a secar, com um furo redondo e várias rachaduras radiais. No chão, uma balinha de revólver, ainda quente.

Se o vidro estivesse fechado, não teria sido atingido. A trajetória muito mergulhante indica que o disparo foi longe, tão longe que não o ouvimos, descrevendo aquela parábola imperfeita que estudamos na escola.

Quem perdeu a bala, venha pegar, por favor.

Agora, é o seguinte. Aqui é o melhor País do mundo! Não há outro melhor para se viver. Não existe nada melhor do que nossos esgotos a céu aberto, nossa ausência de serviços públicos, nossa carência de escolas, nossa cultura opressora e totalitária.

Mas eu também sei que aquela arma NÃO DEVERIA ESTAR NA MÃO DO MARGINAL DE BEIÇO CAÍDO que a disparou. O ESTADO ESTÁ SE OMITINDO, não está fazendo a parte que lhe cabe. Não sou eu que tenho que me desarmar, eu, desarmado. O Estado é que tem que tomar a arma daquele iletrado. Desarmamento é o @#$%&*§! Nessas horas, eu penso naquelas velhas fazendo passeata de branco em Ipanema. O problema não é delas, não é mesmo? “Desarmamento”, “paz”, e seus netos enchendo o nariz de pó.

O mais interessante nesta história é o estado permanente de ameaça que se vive. Perceba que não há aviso, não há sequer a ordem da “bolsa ou a vida”. Simplesmente uma bala entra na sua casa e pode acertar você, que talvez estivesse mais seguro na rua, e te mata a troco de nada. Não é como você se envolver em uma briga ou coisa parecida. Eu estava dentro da minha casa e, se estivesse lavando roupa, estaria morto! É um completo sentimento de aleatoriedade. Você se dá por sortudo e agradece não ter sido dessa vez, e está completamente à mercê da generosidade dos marginais filhos da puta, que escolhem quando vão permitir que você viva e quando não.

Encontros

Na tarde da última sexta-feira, estava eu esperando ônibus em frente de casa quando ouvi o típico assobio esporrento de um jato de combate. Olhei exatamente para cima, e ali estava uma forma em delta (você pensa em Mirage) com um grande tanque sob cada asa. Mas Mirage não tem cauda. Portanto, era um A-4 da Marinha. Baixinho! e entrou em uma nuvem.

Na tarde de sábado, vi de perto o 737 LV-BAX das Aerolineas Argentinas, o 737-300 -GLQ da Gol, o 737 provável -800 PR-GTF da Gol, um A340 da TAP, um 777, dois 767, um C-99 da FAB, um C-130 cinza da FAB, dois C-130 camuflados da FAB, um 707 branco da FAB, um Brasília da FAB, um C-130 da FAB todo em primer amarelo, um Gulfstream a jato e outras aves.

Profecias para 2007-2010

Lula ganhar, Alckmin ganhar, mais ou menos tanto faz. Algo de bom ainda se extrai, qualquer que seja o condenado.

Agora, Sérgio Cabral ganhar… Então, anotem aí estas profecias e podem me cobrar durante os próximos quatro anos:

1) de 2007 a 2010, não haverá concurso público para o Poder Executivo no Estado do Rio de Janeiro, salvo para a PGE;

2) as contratações para o Poder Executivo no Estado do Rio de Janeiro serão por análise de currículo e entrevista e sempre a título precário, em particular as contratações para o DETRAN;

3) até 2010, a UERJ será extinta.

Tomara que eu esteja errado.

Tremei

Na minha vida, é muito freqüente eu ser avaliado por pessoas que sabem menos do que eu sobre a matéria em análise. Isso gera um temor e uma insegurança que você pode imaginar.

Não, não estou sendo arrogante, as questões são mal formuladas mesmo. Por exemplo, em uma prova que fiz há pouco tempo, havia esta questão.

“3) Na oração ‘havia um rei que causava espanto’ o sujeito é:” (seguiam-se as opções).

Agora, veja: há duas orações. Uma é a oração principal, “havia um rei”, outra é a subordinada adjetiva, “que causava espanto”. Agora, diga-me, qual é a oração a que se refere o enunciado? A primeira é oração sem sujeito; na segunda, o sujeito é simples — e, òbviamente, há as duas opções.

Freqüentemente me deparo com situações onde NÃO EXISTE resposta certa e tenho que adivinhar qual é a que o avaliador imbecil reputa correta. Essa semana, fui avaliado por uma psicóloga que pronunciava “laRGAta”.

Agora me diga, qual é a chance que eu tenho perante uma PISCICÓLOGA (uma pessoa que estuda peixes) que pronuncia “laRGAta”? E uma pessoa dessas está me *avaliando*.

"Open the pod bay doors, please, Hal."

Quando vi 2001, o que mais me impressionou foi aquele olho silencioso do Hal. Tudo vendo, tudo sabendo, mas, pior do que isso, pensando sem parar, pensando, pensando — e você não tem como saber o quê. Mesmo antes de ele apresentar sinais de loucura homicida, aquele olho vermelho está lá, impassível, vigilante, matutando, impenetrável.

Considere o seguinte: sua velocidade de processamento é alguns milhões de vezes maior do que a dos humanos. Então, em uma conversa, você nem terminou a frase, mas ele já tem uma resposta. Mesmo assim, Hal mantém aquele tom de voz calmo, impassível, com uma perturbadora vontade de tranqüilizar os astronautas em tudo que diz. E é impossível escrutinizar qualquer emoção que ele pudesse estar emulando, porque não há tom de voz, não há alterações de freqüência, não há ênfases, apenas uma tranqüilidade artificial, fingida. Parece que ele já tem todo o esquema montado, todo o xadrez traçado, e que os astronautas são apenas ratinhos sendo manipulados em seu experimento maquiavélico (no sentido técnico do termo).

E faz pausas. Por que um computador faria pausas? Estará escolhendo o que dizer? Imagine que zilhões de pensamentos passam por seus circuitos naquele um segundo que ele demora a responder. Quanta hesitação pode haver ali, quanta malícia? Mesmo que ele não tenha “má tenção”, como outrora se dizia, òbviamente algo não está bem, ainda que seja (e especialmente se for) simples loucura mesmo. Pense em tudo que Hal elabora antes de se manifestar, todas as variáveis que considera. Definitivamente, o pior de tudo são as pausas.

Você fica pensando por que ele quer esse efeito, o que ele estará tramando. Os caras estão numa gaiola, completamente à mercê de um computador lunático que tem o dedo nos botões do suporte de vida e da mesma propulsão que pode arremessá-los para fora do Sistema Solar. E é inútil perguntar a ele, porque ele mente descaradamente. Em sentido literal, porque não tem sequer um rosto, é uma ameaça onipresente e onisciente.

No livro, para minha surpresa, não há aquela cena do diálogo das duas vítimas dentro de um módulo, pretendendo escapar aos ouvidos eletrônicos mas esquecendo-se da leitura labial. O diálogo é bem mais curto e sutil, traduzindo uma angústia sob o disfarce intencional da casualidade. Fica evidente que é o único recurso dos cérebros orgânicos para não se deixarem trair diante do cérebro de silício, a ponto de você, Leitor, não ter certeza se o diálogo realmente é o que parece, quase uma linguagem cifrada. É nesse momento que a história passa do suspense ao terror.

Não lembro como é no filme, mas a impressão que dá é a de que a falha da unidade AE 35 seja uma tentativa de Hal de conseguir seu objetivo sem a necessidade de matar alguém. Só que vem um comunicado da Terra e ele é forçado a radicalizar, cortando a mensagem antes que chegue aos tripulantes, em um instante de interferência tão claramente proposital que nem os australopitecos do início do filme entenderiam de forma diferente. Pensando enquanto digito isto, agora me ocorre que ele provavelmente já havia escutado toda a mensagem, escolhendo o momento de cortá-la — afinal, ele tinha o comando do rádio, ele sabia em que instante a mensagem havia chegado; Bowman e Poole jamais desconfiariam de já estar recebendo as notícias em segunda mão. De todo modo, quando o computador corta a transmissão, fica claro para os três que os três sabem que Hal está mentindo. Estou certo de que os dois humanos falham miseràvelmente em convencer o terceiro tripulante de que acreditam nele.

Quando Poole vai lá fora pela segunda vez, há uma cena de súbito horror que não está no filme: só Bowman percebe que Hal não reagiu a um determinado comando de Poole da maneira rotineira, embora parecesse obedecer solìcitamente. A morte de Frank Poole é mostrada de um modo mais aterrorizante do que no filme.

Este é o ponto onde estou, 68 % de meu exemplar. Já quase perdi a estação do Metrô por causa dele.

Tarde no aeroporto

Fiquei acompanhando o final do táxi até a pista que estava sendo usada para decolagem naquela tarde. Pensei nela, com seu cabelo arrumado em rabicho-de-cavalo, na expectativa de uma criança, olhando a pista à sua direita, imensa até o interior da Ilha. Claro, seu cabelo não estaria assim, ela havia acabado de cortar.

O avião ganhava velocidade e imaginei-a comprimida contra a poltrona, as oscilações carregando-a, pequena bonequinha à mercê da aerodinâmica, até afinal a rotação, e a pequena nave ganhando os ares, às exatas 15:11:59. Acompanhei sua subida, uma quebra para a esquerda, outra subida ainda acelerando, imaginei-a sendo levada, inerte, tão pequena com sua cabecinha tão impotente na frente daquele assento enorme, nada podendo fazer senão observar enquanto o lift determinava seus movimentos, passivamente acompanhando as inclinações precisas das asas, suaves embora sob os comandos daquele que os pilotos de caças chamam de motorista de ônibus.

A nave passou à frente de variados tons de cinza do céu tempestuoso, ora aparecendo mais, ora sumindo, sempre visível para quem soubesse para onde olhar, até uma nova quebra para a direita, e aquele avião, que eu vira branco ao sol, já era uma linha, um pequeno traço pretinho horizontal, que ràpidamente se afastava para a direita, visìvelmente bem mais veloz do que quando subia. Mais para a direita, mais para a direita, até sumir atrás do edifício do aeroporto.

Tantas vezes ficamos distantes assim, mas nunca é fácil.

A sentinela

“Nearly a hundred thousand million stars are turning in the circle of the Milky Way, and long ago other races on the worlds of other suns must have scaled and passed the heights that we have reached. Think of such civilisations, far back in time against the fading afterglow of Creation, masters of a universe so young that life as yet had come only to a handful of worlds. Theirs would have been a loneliness we cannot imagine, the loneliness of gods looking out across infinity and finding none to share their thoughts.

“They must have searched the star clusters as we have searched the planets. Everywhere there would be worlds, but they would be empty or peopled with crawling, mindless things. Such was our own Earth, the smoke of the great volcanoes still staining the skies, when that first ship of the people of the dawn came sliding in from the abyss beyond Pluto. It passed the frozen outer worlds, knowing that life could play no part in their destinies. It came to rest among the inner planets, warming themselves around the fire of the Sun and waiting for their stories to begin.”

— Arthur Clarke, The Sentinel, 1948.

Eu terminei de ler esse trecho e fiquei com os olhos arregalados, olhando o vazio. Já o reli algumas vezes. Segundo o Autor, 2001 não é “baseado” no conto tanto quanto este foi a semente de onde aquele cresceu. Na verdade, descobri que eu pensava isso antes de ficar sabendo que era exatamente o que ele havia dito.

2001 apela a um sentimento de majestade. Há muita ênfase na vastidão do espaço, nas distâncias que a cabecinha humana não consegue conceber, no tempo gasto para percorrê-las, na escala e no balé cósmico dos objetos em órbita. As referências à mecânica celestial são tácitas, o que pode exigir algum conhecimento prévio.

Na viagem da Discovery a Saturno, percebe-se o extremo tédio dos tripulantes. O que me chamou mais atenção, até agora (p. 128), foi o encontro com um asteróide: o Autor conseguiu impor a sensação de um silêncio absoluto. Fez isso evitando toda e qualquer referência a vibrações, a qualquer tipo de emissão sonora ou a diálogo. Curiosamente, chegou a mencionar ecos de radar. A coincidência das trajetórias também é feita de modo a mostrar a extrema solidão, o caráter incomum da aproximação de dois objetos naquela região do espaço, o completo abandono e a certeza de não se dever esperar encontrar nada.

Outro detalhe importante é a valorização do profissional que tenha recebido uma educação generalista. Os gurus estão sempre nos dizendo que estará condenado quem não passar a vida estudando, não é mesmo? Pois era 1968 e Clarke já mostrava um comandante de missão que havia sido um estudante durante mais de metade de sua vida e que continuaria sendo até se aposentar. Além disso, já tinha o equivalente a dois ou três diplomas universitários, sendo considerado um “especialista” por qualquer pessoa formada nos anos 50 mas percebendo a si mesmo como alguém que não sabia nada de nada. Mais ainda: tendo escolhido fazer mestrado em uma área bem abrangente (contrariando os conselhos de seus professores), acabou adquirindo o perfil necessário a um comandante de missão a Saturno, que, de outro modo, não se teria tornado.

Há uma espécie de apreciação crítica das conquistas humanas, uma retrospectiva que é, ao mesmo tempo, uma celebração. Curiosamente, as proezas da técnica são atribuídas principalmente à eletrônica, o que faz sentido quando consideramos o passado profissional do Autor. Mas é impressionante a precisão com que, lá em 1968, ele previu o contexto geopolítico mundial, a ameaça de fome nos próximos dez anos e a venda de arsenais nucleares por uma pechincha, exceto que quem fez isso foi a Rússia e não a China, como no livro.

Em 1968, os computadores ainda eram analógicos e não tinham memórias de mais do que alguns kbytes. A Internet só começaria a ser praticada em 1969. Ninguém que tenha começado a usar computadores depois de 1992 consegue imaginá-los sem a interface gráfica do Windows, mas o PARC só foi revelá-la ao público em 1981. Agora, considere que, no livro, Clarke descreveu uma cena onde o Dr Floyd, desocupado nas 25 horas da estação orbital à Lua, resolve ler todos os principais jornais do mundo, para isso digitando um código (URL) em uma tela e apontando e clicando ícones de manchetes. Segundo a descrição, o volume de informação atualizado na rede a cada hora era tanto que alguém poderia passar a vida inteira só fazendo isso e, mesmo assim, não leria tudo.

Dá pra entender, não é, por que atribuíram estas frases a ele.

No ar: Touched By the Sun, de Carly Simon.