De exibicionistas resmungões

Existem vários belogues que aprecio (alguns de cujos linques, aliás, você encontra à direita em sua tela). Na maioria das vezes, sou levado a concordar com seus resmungos e simpatizar com suas dificuldades diárias, em geral cometidas por terceiros estúpidos.

Aí é que começam meus problemas de percepção. De acordo com a minha, os belogueiros que visito são sempre pessoas mais inteligentes, mais politizadas, mais cultas, mais viajadas, mais atualizadas com jornais, revistas, notícias, Internet, tecnologia, polêmicas da Biologia e escândalos políticos, mais antenadas com a Grande Rede e mais familiarizadas com as novas formas de conectividade do que eu. Resmungam sempre, conhecem o mundo, estão sempre manifestando sua insatisfação com a ignorância e a burrice alheias naquilo que lhes limitam a liberdade, estão sempre identificando bem as causas desses fenômenos, estão sempre lendo algum livro interessante, ouvindo boa música (em geral baixada), acompanhando os seriados da moda, de resto conseguindo fugir de tudo quanto é emburrecimento de massa… O et coetera é longo.

De meu lado, pouco viajo, pouco leio, pouco me exponho, pouco me atualizo, só fico estudando e lendo revistas em quadrinhos. Emocionalmente, isso tende a tornar-me complexado. Intelectualmente, sei que não devo por todas as razões de diversidade. De todo modo, surge uma dúvida: se somos tantos e todos tão inteligentes, se conseguimos tão bem pôr o dedo no que está errado no mundo, como pode a sociedade continuar tão errada?

Esses belogueiros têm gasto boa parte de seus textos em política, e não só por causa das eleições; já o faziam antes. Denunciam as trapalhadas e as faltas de lógica e de consistência dos políticos, em geral aqueles da anteriormente denominada esquerda. Com uma incômoda arrogância, manifestam a obviedade de como são muito mais preparados os políticos da anteriormente denominada direita. Discursam com enorme autoridade sobre como é muito mais indicado o caminho do máximo liberalismo econômico e político e como é infinitamente burro e autoritário qualquer dirigismo estatal (no que estão certos em parte e, infelizmente, a esquerda socializante brasileira não ajuda a mostrá-los errados, com a tendência stalinista que costuma demonstrar). Manifestam um ódio incontrolado contra toda forma de organização governamental.

Não posso dizer que estejam errados. Alimentam o debate político, que é fundamental para uma democracia; quanto mais dele, melhor. Os gregos consideravam que o comparecimento à ágora para discussão fosse um dever cívico. Precisamos de resmungões que se queixem do governo e da oposição diuturnamente, precisamos da fiscalização do eleitor.

Só que, mais uma vez, meu problema é com minha falta de certezas. Não tenho as convicções vigorosas que esses belogueiros não hesitam em defender. Penso, voto, mas não quero fazer da política minha vida, nem creio que qualquer posição política esteja correta ou que algum político realmente tenha desejo de seguir a linha ostensiva de seu partido. Acredito, isto sim, que “a vida esteja em outro lugar”, que independe dos ocupantes de cargos. Da mesma forma, a empolgação que manifestam sobre a tecnologia da informação, as facilidades que advogam de se fazer tudo à distância, não deixam de me indicar que esteja havendo um excesso de dependência voluntária sobre a máquina.

Além disso, essas pessoas estão sempre se queixando do quanto os imbecis procuram limitar sua liberdade de expressão. É verdade, os imbecis estão sempre fazendo isso. Porém, parece-me que se tenha chegado a um metadiscurso permanente: vezes demais, o objeto do texto é justamente o grito de se ter liberdade de expressão, ou de não se ter que gostar de alguma coisa, não se ter que ser politicamente correto, não se ter obrigação de conformidade ao gosto da maioria. Liberdade de expressão para demandar que se tenha liberdade de expressão? Ora, diga logo o que quer e não me aborreça. Então, em vez de gerar conteúdo, gastam linhas e parágrafos com um problema que não existe. Como, aliás, acabei fazendo aqui também.

Finalmente, vocês não acham sintomático que haja tanta gente resmungando? Isto aqui é uma espécie assim de divã. Tanta gente se achando dona da razão, e o belogue é uma forma de expor argumentos sem ter que agüentar contraditas: ninguém vem aqui dizer que estou errado, eu, que sou o autor do texto e senhor de tudo quanto aqui se registra. Recentemente vi um comentário, no jornal de um sujeito que estava lendo sentado a meu lado no veículo (era um jornal paulista com certeza, mas não sei se o Estadão), de que os belogueiros são uma multidão de exibicionisas, expondo sua privacidade em busca dos tais quinze minutos de Andy Warhol. Não deixo de lhe dar um tanto de razão, realmente vimos aqui e apresentamos um tanto de nossos pensamentos e de nosso cotidiano, mas não creio que essa seja a principal motivação dos comentaristas que critico acima. A meu ver, o que (n)os impele é a catarse, a possibilidade de berrar aos quatro ventos e ninguém nos interromper ou censurar. Mas falta autocrítica a essa gente, sempre se julgando correta em tudo.

No ouvido: abertura da trilha sonora de Jornada nas Estrelas VI, de Cliff Eidelman. No cérebro: The Carter Family, de Carly Simon.