Especialistas, dez por um reau

Aí o avião da Gol desapareceu, depois foi achado na selva e, agora, a caixa-preta.

Uma coisa que me impressionou desde o sumiço, e que acontece toda vez em que há uma tragédia dessas (explosão da Challenger, desabamento do WTC), é a multiplicação dos especialistas. Vai todo o mundo para a televisão, expondo as causas possíveis da queda. Sùbitamente, todos são especialistas em segurança de vôo. Em todos os bares, em todos os encontros sociais, no táxi e na barbearia, todos são instantâneos e profundos conhecedores da mecânica das aeronaves, dos procedimentos do controle de vôo, dos radares, rotas, comunicações, do quanto os aviões são novos, bem equipados, suscetíveis, de quem errou etc.

Eu não sei. Não trabalho nem perto da aviação, não tenho qualquer instrução formal na área, mas venho lendo sobre o tema regularmente há cerca de 28 anos. Comecei a formar uma vaga idéia do tamanho de minha ignorância no assunto. Não chega a ser mostra de humildade, mas de temor (outros chamariam de prudência), uma relutância em atribuir causas e culpas à queda do Boeing. Então, socràticamente me calo.

Mas fico impressionado com a autoridade com que elaboram alguns jornalistas sobre, p.ex., o “tiqués” — foi assim que a moça da Grobo se referiu ao TCAS (Traffic Collision Avoidance System). Pessoas que *nunca* haviam sido apresentadas a certos dispositivos começam a afirmar certeza sobre seu funcionamento. É o tipo de gente que se impõe pela firmeza do discurso, mas, à *primeira* pergunta que você fizer, vão tirar o corpo fora, “ah, isso eu não sei”. Quer dizer, não sabem nada, nunca souberam! É tudo aparência! Em síntese: “Foi o TCAS, com certeza.” “Mas o que é TCAS?” “Ah, isso eu não sei.” Sim, muita certeza eles têm.

Quando ouvi a notícia, pela primeira vez, de que dois aviões se haviam chocado, duas expressões vieram à minha mente: RVSM e TCAS. Sobre a primeira, fiquei pensando no quanto têm razão aqueles críticos da afobação capitalista com que se tem tratado o tráfego aéreo. Sobre a segunda, veio-me a mesma noção fundamental que vale para tudo que é criado pelo homem: as máquinas são tão boas quanto seus operadores. Não adianta querer confiar aos mecanismos aquilo que, fundamentalmente, são decisões humanas. Basta que o botão esteja na posição off que toda a sua tecnologia se torna inútil.