Já é de maior

Hoje, adivinha quem faz aniversário? Hm? Hm?

Acertou quem disse “a Constituição da República”. Êêêêêêê! 

Em uma nota de rodapé, também hoje saiu na capa de um tablóide que uma vidente foi à Ana Maria Braga provar que previra a queda do Boeing da Gol.

Como já disse um amigo meu: essa gente tem uma dificuldade séria de vocabulário. “Prever” é quando você fica sabendo *antes*, não *depois*.

E aqueles belogues, continuo pesquisando, continuam falando de política (brasileira, americana, européia) em primeiro lugar, sempre defendendo o Estado policial, a ditadura da direita, e atacando sem trégua o Estado total, a ditadura da esquerda. Continuo censurando essa atitude. Como sempre, resmungos de quem se julga superior a tudo isso, o que, conforme já apontado por um deles (não lembro quem), é um traço comum a belogueiros e leitores ávidos em geral, identificador de inteligência acima da média mas abaixo do mínimo necessário.

Agora, como sói acontecer em matéria de belogues quando não tratam de política, sou levado a concordar com suas visões libertárias. Aliás, esse é o termo que o Alex Castro escolheu para rotular a si mesmo, ele que não gosta de rótulos. Este texto dele sobre línguas é uma pérola e conseguiu coadunar-se precisamente na minha visão sobre o assunto. A história do chofer eu já conhecia, e já faz anos que evito anglicismos, galicismos e afins. Escolhi alinhar-me às forças conservadoras da língua que ele menciona, mas essa foi *minha* escolha política, uma decisão renovada a cada texto, cada fala, cada frase, cadafalso, com a qual pretendo dar minha pequena contribuição para que o português não desapareça tão rápido. Há muito tempo decidi que vou evitar termos estrangeiros quando forem evitáveis, quando houver um termo em português, deixando para adotar estrangeirismos quando realmente não houver alternativa, por algumas razões simples: foi a língua que aprendi, é a língua que me parece coerente eu usar (não, eu não errei o uso dos pronomes nem a concordância; leia de novo devagar), e é a língua em que, teoricamente, qualquer um a meu redor deverá ser capaz de entender tudo que eu disser se for nela que eu me expressar.

É claro que isso tem um limite, e estou ciente de que a evolução é necessária e inexorável. Afinal, que é o português, que são o espanhol, o italiano, o francês senão um latim mal falado e contaminado pela língua dos nativos? E que é o latim, senão a língua embrutecida dos incultos e belicosos habitantes do Lácio, corrupção da que veio antes e que não sei qual era? Então, talvez pecando pelo excesso de relativismo, quase afirmo que o português não existe, que o português falado no Brasil (contaminado de termos indígenas e outros que não existem em Portugal, como o anglicismo forró) não existe, que nenhuma língua existe, a língua é a língua de cada um, um tantinho diferente da dos circundantes, nunca a mesma, igual, homogênea. Tomei para mim esta versão do português, com o mínimo de contaminações, nem por isso querendo “defender o português”. Esta é a minha versão de uma língua, escolha pessoal que a ninguém imponho. Em concordância com o artigo que estimulou esta mensagem, lembro que uma língua tem o vigor de sua cultura, mantendo-se espontaneamente, por si mesma, infensa a invasões de sua identidade enquanto sua nação assim se mantiver. Se o português brasileiro afinal se revela necessitado de ajuda, é que não teve esse vigor; se precisa de que as pessoas o defendam, é que a própria cultura brasileira não se está sustentando sòzinha. Nesse caso, é somente por suas próprias falhas que cai do céu em chamas, e não merece qualquer caridade. Assim, vou me expressando, tanto quanto posso, no português que reputo puro, o mais parecido que consigo com nossas raízes greco-latinas; mas, se eu mesmo não tenho muito sucesso ou já não me entendem, é mais falha da língua do que minha.