A inevitável traição

Pra quem disse que não ia escrever com freqüência, eu estou aparecendo demais por aqui.

No saite pessoal do Alex Castro, existe um artigo interessantíssimo sobre a dificuldade, de fato a impossibilidade, de se traduzir. Ali está implícito que o objeto da tradução seja literário. Quando se traduz um texto de Engenharia ou Química, muitas vezes essa dificuldade é bastante atenuada ou nem surge. Existe, é verdade, mas perde-se muito menos do original ou, até, não se perde.

Agora, quando a tradução é de obra de arte (escrita ou audiovisual), realmente ele está certo. A obra audiovisual é mais do que seu texto, é mais do que a imagem, é a entonação do ator, é se ele fala alto ou baixo, é a escolha de voz que o diretor fez. Na verdade, a obra traduzida é outra obra. A legislação brasileira efetivamente a trata como obra derivada: não é a obra original, mas outra, muito parecida.

Isso não é necessariamente ruim: qualquer um que tenha ouvido o primeiro Homer Simpson brasileiro (dublado por Valdir Santana, desculpem a grafia) e o americano vai preferir o brasileiro. O mesmo vale para algumas exceções que ainda hei de lembrar. Só que tem uma coisa: não é o *mesmo* Homer Simpson, é outro. É outra obra. Se você quiser o original, tem que ver o original. Pode até ser que o traduzido corresponda melhor ao que o Autor quis, quem sabe?, mas, mesmo assim, a obra é a obra é a obra. É aquela.

Na Literatura, existe outra ponderação. Eu estava ao telefone há pouco (aliás, foi essa conversa que me motivou a vir escrever, captar da memória o que consigo de meu praticamente monólogo), pontificando como parecem fazer os belogueiros, e cheguei ao seguinte. O Alex Castro bem demonstrou, tão incontestável quanto possível, que Cervantes só no original. Mostrou: no espanhol d’antanho, em português contemporâneo, em inglês tacanho.

Pois argumento mais. Veja o que fiz com você no parágrafo acima:
…d’antanho, …contemporâneo, …tacanho. Então, a Literatura tem esta dependência da forma, do SOM DA LÍNGUA. Eu não quis só dizer o significado que disse, também quis a aliteração. Se verter isso pro inglês, esse tanto já estará perdido.

Na Literatura, forma e significado são indissociáveis. É mais do que não ter uma sem a outra: uma só existe porque a outra é a outra. Tenta ler Tolkien traduzido. Oh, sim, a história é a mesma, factualmente — ou será que é? A história tem, inclusive, o ritmo que as palavras lhe imprimem, desculpem o trocadilho. As palavras rolam com a métrica que o Autor lhes deu. Ora, a métrica vem da língua, é o que é possível fazer com as opções que aquela língua oferece, e a língua é o que é por causa de tudo que lhe aconteceu, a religião daquele povo, as guerras e crises que atravessou, a economia que conduziu, sua visão de seu próprio significado no mundo. Falando em Tolkien, compare o *som* de um elfo falando com o de um anão. Compare um klingon, ou um alemão, com um francês. Se você quiser realmente compreender a completa mensagem, absorver o que o Autor destilou para você, vai ter que conhecer a história que existe por trás daquela pessoa, que influencia até a freqüência com que os fonemas fazem música ou dissonância no seu ouvido. No mínimo, viver a realidade que ele vive, freqüentar os mesmos lugares, comer a comida que ele come.

Deixem-me dar um exemplo concreto, além daquele do ovo da galinha e da pele do urso. Hoje em dia, no Brasil, a empresa Gol é percebida como oferecendo passagens aéreas mais baratas do que as da concorrência, certo? A forma como ela consegue isso são várias pequenas medidas, entre as quais a que o passageiro mais percebe é a simplicidade da refeição servida a bordo: uma barrinha de cereal (que, recentemente, mudou para aquelas barrinhas de goiabinha da Bauducco) e um pacote de amendoim (que mudou para um pacotico de cream crackers, também da Bauducco). Ora, já li em mais de uma revista de aviação brasileira que “a Gol é barata, mas eu não agüento mais barrinha”.

Naturalmente, quem está lendo entende, implicitamente, que o dono da opinião está se referindo a isso que eu disse no parágrafo acima. Agora, considere que você não viaja de avião, nem nunca alguém lhe contou que a Gol serve barrinha. Se você lê essa frase acima, assim como está, sem explicações, o que você vai entender? A que barrinha você acha que o Autor está se referindo? Barrinha de chocolate? Barra da calça da aeromoça? Barra de reboque do trem de pouso? Barra de rolagem do monitor de quem compra a passagem?

Então já falei da forma em si mesma, da forma que o poeta martela para soar bem e que se perde na tradução, e já falei do problema intrínseco da linguagem. Por todas essas razões, sim, pretendo, sempre que possível, ler tudo no original. Infelizmente, não entendo lhufas de russo, italiano ou alemão, de modo que alguns Autores, hoje, para mim, estão do outro lado do arame farpado. Mas em inglês, em francês e espanhol até, que não falo, a compensação sempre vale o esforço. Para ter contato com as idéias, a tradução vale; para ter certeza de ter entendido as idéias e para ter contato com toda a mesma arte que saiu da mente do Autor, só o original.

Fora que você escapa dos erros de tradução grosseiros mesmo, como naquele conto da excelente coletânea Máquinas que pensam (nunca paguei tão barato num sebo), editada pela L&PM, onde a linha DEW foi traduzida assim: “linha de CONDENSAÇÃO”, toda em maiúsculas. Contexto: o personagem é um general da Força Aérea americana (sim, eu disse “general”, não disse “brigadeiro”. Qualquer dia explico) lidando com a possibilidade de mísseis soviéticos vindo pela rota polar, captados pela linha de radares de alerta antecipado distante.

Como se pode ver, o tradutor tem que entender o que está no texto. Dew é orvalho, condensação, mas, no contexto, que tal eu contar a você que é a sigla da rede de radares de Distant Early Warning? Essa rede existe e realmente leva esse nome, “DEW line”.

E olha que eu não disse que o problema não existe em tradução de texto técnico. Meu, até manual de manutenção de equipamento passa por isso. É só que não é tão grave.