Papo de reacionário

Em retrospecto, é possível que eu pareça contradizer-me nesta mensagem de 5 de outubro, especificamente no parágrafo sobre a evolução da língua. Poderão argüir que eu esteja querendo ir contra o curso natural dessa evolução. Portanto, explicito-me.

O “curso natural de evolução da língua” não existe sozinho. Ele é fruto do falar de milhões de pessoas, que, coletivamente, diàriamente, moldam-na conforme suas pequenas escolhas, que, juntas, reúnem-se em um conjunto “médio” amorfo do qual se pode dizer: isto é a língua. A contribuição de cada um conta, dependendo de todos os fatores que influenciam esse cada um: idade, sexo, formação acadêmica (ou falta dela), gostos, inclinação sexual, situação financeira, caráter (ou falta dele) e tudo mais. Estou perfeitamente ciente de que esse somatório de bordas indefinidas possa formar-se de um modo bastante diferente do modo como eu gostaria.

É só que, se a língua é influenciada por todo o mundo, então a participação de cada um conta tanto quanto a do próximo (a propósito, encontre a tradução mal feita nesta frase). Nem isso é totalmente verdade, porque há pessoas que influenciam decisivamente sua língua, como os grandes poetas e oradores, mas, enfim, siga o raciocínio. Ora, se todas as contribuições contam, então a minha também conta. Posso escolher entre (1) meramente repetir o que ouço e (2) refletir, decidir e falar cuidadosa e ativamente aquilo que julgo conveniente na língua, aquilo que concordo que deva haver na língua ou ser a língua, suprimindo aquilo que não. Se eu adotar essa segunda opção (e você já percebeu que adoto), ela pode ser conservadora, pode ser progressista, pode ser a que eu quiser, e será tão válida e correta quanto a de qualquer representante da geração Pepsi (the choice of the new generation, pardon the pun). Então, minha pequena participação será puxando deliberadamente no sentido para onde aponta meu sistema de preferências, o que, neste caso específico, é o conservadorismo. A respeito de algumas das mudanças que ainda não aconteceram, estou atuando no sentido de não acontecerem mesmo, tão legitimamente quanto atua todo o mundo no outro sentido.

Nada disso nega um fato a que me rendo: quem define a língua globalmente, a língua que podemos afirmar com segurança ser a portuguesa, não sou eu sozinho, mas todos. Quando ela mudar, não vai ser a minha vontade isolada que vai fazer desmudar e, se eu quiser continuar falando português, vou ter que seguir o resultado da mudança. Não me iludo quanto a isso; quando todos estiverem escrevendo açim, terei q ser +1. Soh q por enqto so uma minoria (alias, como de habito, a + jovem) esta escrevendo sistematicamente açim.

É que tem gente que não reconhece que as forças conservadoras também existam e sejam válidas, preferindo acreditar que somente as forças transformadoras estejam corretas. Se fosse assim, minhas decisões estariam na contramão dos acertos, como pode ser que de fato estejam. Coerentes com essa posição, tais pessoas não admitem que alguém resista ao que enxergam como “evolução natural”.

Todo discurso de que alguma coisa seja natural é, no fundo, um discurso ideológico: é alguém querendo te vender que determinado fenômeno social só possa ser de determinado jeito — que, dirá, é o jeito “natural” — porque assim lhe convém.

Mas, olha, eu nem sou radical nesta matéria. Prova disso é que eu misturei segunda com terceira pessoa do singular várias vezes aí em cima e aposto que você nem notou.

É claro, tudo que eu disse acima, como, aliás, tudo que eu digo, sempre, pode estar errado.