Taquente

Uma pessoa contou-me que sua professora tinha um filho de quatro anos. A história a seguir foi transmitida a mim pela primeira após ter sido narrada a ela pela segunda. Não importa se a história é verídica ou não, porque o ensinamento que extraí dela é válido independentemente dessa veracidade.

Toda vez que a professora acaba de fritar pastel, adverte seu filho de que “tá quente”. Por causa disso, quando o garoto está com vontade de comer pastel, ele pede “mãe, faz taquente?”.

Primeiro você acha engraçadinho e se lembra do Marcelo marmelo martelo, da Ruth Rocha. Depois pensa um pouco mais.

Olha só: em nenhum momento a mãe apontou o pastel e disse “isto é um taquente”, que seria o modo mais ostensivo de se adquirir vocabulário. Tampouco disse ao menino, “Fulano, faz favor, me dá um taquente”, que é o modo mais comum como todos nós costumamos adquirir vocabulário nessa idade: (1) ela me pediu um taquente, (2) ela apontou o objeto frito em forma de meia-lua, (3) logo, o objeto frito é um taquente.

Não, em verdade o que aconteceu foi que, repetidas vezes, a professora soltou a palavra “taquente” em um cenário bem definido, sempre o mesmo cenário básico. Havia pastéis em todas as repetições de tal cenário. Então, o garoto associou a palavra “taquente” àquele cenário e, necessariamente, à presença de pastéis, mas isso não quer dizer, necessariamente, que ele chame o pastel de taquente. De fato, essa palavra veio associada a uma experiência muito mais complexa: a pia da cozinha coberta de discos amarelos com plástico embaixo, o barulho da banha crepitando, o calor do fogão, o cheiro, a toalha de papel embebida em gordura, o queijo se esticando depois da mordida (não gosto de pastel de carne), a mão melada. Considero muito limitado atribuir o nome “taquente” apenas ao pastel. Na óptica do menino, “fazer taquente” é gerar toda essa situação. Só que a mãe não sabe: entendeu (corretamente) que é “fazer pastel”, e isso lhe basta, assim como seu filho vai se lembrar, daqui a trinta anos, que pedia para fazer taquente e que isso significava pedir para fazer pastel.

Então, algumas lições você extrai de imediato, ou, pelo menos, eu as extraí.

1. De modo amplo, as pessoas entendem o que você diz e isso é suficiente para a comunicação, para se gerar o resultado desejado (nesse caso, a mãe atender ao pedido e fazer pastel) — mas isso não quer dizer, em absoluto, que tenham entendido a mesma coisa que você quis dizer.

2. A aquisição de vocabulário é bastante dependente de contexto.

3. Cada palavra significa determinado significado, que está no dicionário. Acontece que, para cada ser humano, existe um mundo de conceitos e experiências pessoais, construídos historicamente, e são essas idéias que compõem o significado da palavra. Portanto, o significado é diferente para cada pessoa. Felizmente, os elementos primordiais são, na maioria das vezes, comuns a todo o mundo, e assim conseguimos nos entender. Mas nunca estamos (eu escrevendo ou falando e você lendo ou ouvindo) referindo-nos exatamente à mesma coisa. Uma característica que as instituições têm (a escola, a caserna, a Igreja) é justamente procurar uniformizar, tanto quanto possível, o vocabulário de seus integrantes, fazendo-os entender a mesma coisa do modo o mais parecido possível um com o dos outros, de modo a tornar irrelevantes ou indistintas as diferenças de percepção da palavra.

Mas é assim mesmo, não é? Novamente, esse é o problema da tradução de que tratei abaixo. Cada palavra tem tanta história por trás, história construída por seus falantes nativos, que uma completa e perfeita tradução é impossível. Pois se é impossível até entre aqueles falantes originais, que não concordam sobre o significado e nem percebem isso!