Tomar sua vida nas suas mãos dá trabalho

Existe mais de uma forma de se interpretar esse título. Minha preferida é a mesma que dou ao capítulo 3 do Gênesis e à saída suicida de David Bowman de dentro da Discovery em 2001: prefiro ser senhor de minha própria vida, embora comendo o pão do suor do meu rosto. Na verdade, o que aparece como lado ruim pode até ser algo bom, porque não só você garante que o resultado seja adequado a seu desejo como, também, pode extrair prazer da própria atividade de plantar, colher e amassar o pão.

Essa mensagem saiu completamente de minha intenção original, principalmente por causa do título que escolhi, que digitei antes dela e que, por isso, estimulou meu pensamento a pensar em outras coisas, como se não tivesse sido eu mesmo a escrever!

O original era o seguinte: tempo demais da vida é gasto em manutenção. Lavando a louça, escovando os dentes, atualizando as listas (quem as mantém, como é o caso de alguns belogueiros) ou o livro-caixa, guardando coisas nos seus lugares etc. Mesmo quem delega algumas tarefas (p.ex. passar as roupas) não escapa de todas. Resulta que boa parte do tempo da vida se escoa em atividades que não são aquelas que consideramos produtivas, interessantes, que vão gerar resultados de longo prazo.

Você discordará, dirá que a manutenção é necessária inclusive e especialmente a longo prazo. É verdade, mas veja que seus resultados não apenas não são visíveis assim (motivo eterno de suspiro para todos que trabalham com manutenção) como, em alguns casos, só a última vez é que conta. Se arrumo minhas camisas hoje, deixo desarrumadas amanhã e torno a arrumar no dia seguinte, no longo prazo foi só a última intervenção que serviu de alguma coisa. O máximo que se pode fazer é manter arrumado de modo a se reduzir o trabalho futuro da própria manutenção.

Frustrante, não?, que boa parte do que se faz seja apenas instrumental às atividades verdadeiramente produtivas, enriquecedoras, pelas quais você fica feliz em estar vivo.

Imagino que, se analisarmos nossas reclamações do cotidiano, descobriremos isto: que aquilo de que mais nos queixamos (mesmo que apenas internamente) como sendo coisas trabalhosas são justamente as tarefas que temos de repetir ciclicamente sem proveito evidente a longo prazo. “Pô, eu já tinha lavado essa camisa, vou ter que lavar de novo um mês depois.”