A sentinela

“Nearly a hundred thousand million stars are turning in the circle of the Milky Way, and long ago other races on the worlds of other suns must have scaled and passed the heights that we have reached. Think of such civilisations, far back in time against the fading afterglow of Creation, masters of a universe so young that life as yet had come only to a handful of worlds. Theirs would have been a loneliness we cannot imagine, the loneliness of gods looking out across infinity and finding none to share their thoughts.

“They must have searched the star clusters as we have searched the planets. Everywhere there would be worlds, but they would be empty or peopled with crawling, mindless things. Such was our own Earth, the smoke of the great volcanoes still staining the skies, when that first ship of the people of the dawn came sliding in from the abyss beyond Pluto. It passed the frozen outer worlds, knowing that life could play no part in their destinies. It came to rest among the inner planets, warming themselves around the fire of the Sun and waiting for their stories to begin.”

— Arthur Clarke, The Sentinel, 1948.

Eu terminei de ler esse trecho e fiquei com os olhos arregalados, olhando o vazio. Já o reli algumas vezes. Segundo o Autor, 2001 não é “baseado” no conto tanto quanto este foi a semente de onde aquele cresceu. Na verdade, descobri que eu pensava isso antes de ficar sabendo que era exatamente o que ele havia dito.

2001 apela a um sentimento de majestade. Há muita ênfase na vastidão do espaço, nas distâncias que a cabecinha humana não consegue conceber, no tempo gasto para percorrê-las, na escala e no balé cósmico dos objetos em órbita. As referências à mecânica celestial são tácitas, o que pode exigir algum conhecimento prévio.

Na viagem da Discovery a Saturno, percebe-se o extremo tédio dos tripulantes. O que me chamou mais atenção, até agora (p. 128), foi o encontro com um asteróide: o Autor conseguiu impor a sensação de um silêncio absoluto. Fez isso evitando toda e qualquer referência a vibrações, a qualquer tipo de emissão sonora ou a diálogo. Curiosamente, chegou a mencionar ecos de radar. A coincidência das trajetórias também é feita de modo a mostrar a extrema solidão, o caráter incomum da aproximação de dois objetos naquela região do espaço, o completo abandono e a certeza de não se dever esperar encontrar nada.

Outro detalhe importante é a valorização do profissional que tenha recebido uma educação generalista. Os gurus estão sempre nos dizendo que estará condenado quem não passar a vida estudando, não é mesmo? Pois era 1968 e Clarke já mostrava um comandante de missão que havia sido um estudante durante mais de metade de sua vida e que continuaria sendo até se aposentar. Além disso, já tinha o equivalente a dois ou três diplomas universitários, sendo considerado um “especialista” por qualquer pessoa formada nos anos 50 mas percebendo a si mesmo como alguém que não sabia nada de nada. Mais ainda: tendo escolhido fazer mestrado em uma área bem abrangente (contrariando os conselhos de seus professores), acabou adquirindo o perfil necessário a um comandante de missão a Saturno, que, de outro modo, não se teria tornado.

Há uma espécie de apreciação crítica das conquistas humanas, uma retrospectiva que é, ao mesmo tempo, uma celebração. Curiosamente, as proezas da técnica são atribuídas principalmente à eletrônica, o que faz sentido quando consideramos o passado profissional do Autor. Mas é impressionante a precisão com que, lá em 1968, ele previu o contexto geopolítico mundial, a ameaça de fome nos próximos dez anos e a venda de arsenais nucleares por uma pechincha, exceto que quem fez isso foi a Rússia e não a China, como no livro.

Em 1968, os computadores ainda eram analógicos e não tinham memórias de mais do que alguns kbytes. A Internet só começaria a ser praticada em 1969. Ninguém que tenha começado a usar computadores depois de 1992 consegue imaginá-los sem a interface gráfica do Windows, mas o PARC só foi revelá-la ao público em 1981. Agora, considere que, no livro, Clarke descreveu uma cena onde o Dr Floyd, desocupado nas 25 horas da estação orbital à Lua, resolve ler todos os principais jornais do mundo, para isso digitando um código (URL) em uma tela e apontando e clicando ícones de manchetes. Segundo a descrição, o volume de informação atualizado na rede a cada hora era tanto que alguém poderia passar a vida inteira só fazendo isso e, mesmo assim, não leria tudo.

Dá pra entender, não é, por que atribuíram estas frases a ele.

No ar: Touched By the Sun, de Carly Simon.