Deixai aqui toda esperança

Poucas vezes fui abordado por pessoas-que-acreditam-em-coisas. Nunca gastei muito tempo, nem a conversa se estendeu tanto quanto a do Alex. Mas já decidi: como parte de um experimento, na próxima vez que alguém vier me dizer como salvar minha alma do Inferno, responderei que, veja bem, na verdade eu quero é ir para lá. Vamos ver o que é que me dizem depois disso.

Como a idéia deles é que o não-crente seja punido, imagino uma resposta possível (mas improvável, já que requer muita elaboração): “então, se você fizer ao contrário do que estou dizendo, você estará condenado a ir para o Céu!”

Seria uma boa essa, não? É um jogo no qual, necessariamente, eu saio ganhando. Se perder, vou para o Céu; se ganhar, vou para aonde queria ir. Mas o Inferno é muito mais interessante: lá poderei bater altos papos com Freud (judeu e ateu, portanto está no Inferno), Einstein (judeu e ateu), Marx (ateu e comunista), Darwin (anticriacionista), Newton (que lidou com Ocultismo em seus últimos dias), Sagan (ateu), Asimov (ateu), Copérnico… A lista é longa. Na verdade, todos os pensadores independentes, todos que contrariaram a visão da Igreja e fizeram o conhecimento humano avançar, estão todos lá. Imagine quanto não poderei aprender com eles, bebendo na fonte. Imagine quantas descobertas novas não fizeram, quantas autocríticas, quanta evolução seus próprios pensamentos podem ter tido nas décadas que lá já têm passado!

Além do mais, lá pode fazer sexo, lá não tem que agüentar anjo tocando harpa, nem eu vou me deparar com as velhas carolas intoleráveis que me atazanaram a infância, já que todas fizeram tudinho que a Igreja mandava e, portanto, estarão no Céu. Sim, porque essas velhas carolas puxaram o saco de Deus exatamente como se esperava, vendendo suas almas pelo prêmio eterno.

*Se* o Inferno realmente existir, então eu quero ir pra lá JUSTAMENTE por todos os argumentos que a Igreja traz! Prefiro mil vezes ir pra lá em razão daquilo em que sinceramente acredito, em razão daquilo que realmente fiz, em conseqüência de meus valores sinceros e genuínos, a ir pro Céu em troca de suborno e fingimento de minha parte. Porque o Céu seria o próprio Inferno perante minha consciência. (Se bem que o Inferno não seria o Céu, seria o Inferno mesmo. Do ponto de vista pragmático, maquiavélico, da Realpolitik, não adianta nada esse negócio de “ser sincero”, “perder mas perder orgulhoso”, se você vai é se danar, aliás literalmente. Melhor vender a alma pro Céu.)

Depois, tem esta. Se Deus realmente conhece o coração dos homens, se realmente é capaz de perdoar pecados, então eu duvi-de-ó-dó que Ele fosse jogar QUALQUER UM no Inferno. Sofrimento eterno não combina com a figura. Até porque, suponha que combinasse, que ele realmente fizesse isso: vai punir um cara porque contrariou a visão dele? Isso não é um tanto mesquinho? Que Deus tão limitado teria um tal sistema penal? Sim, porque isso é um regime que pune as divergências de opinião, é um regime que persegue o dissidente político. Desse jeito, se vai me punir porque não rezei pela cartilha dele (literalmente), então, francamente, melhor ficar no Inferno do que viver eternamente sob vigilância e tirania, que são o próprio Inferno. Se vai me condenar pelo pensamento independente, então me deixa ficar no Inferno mesmo, onde todos são aceitos e não há tantas nem tão rígidas regras. Exceto, claro, que o Inferno deve ter menos água, não deve ter direito a banho de sol e visita, nem aos domingos.