Tarde no aeroporto

Fiquei acompanhando o final do táxi até a pista que estava sendo usada para decolagem naquela tarde. Pensei nela, com seu cabelo arrumado em rabicho-de-cavalo, na expectativa de uma criança, olhando a pista à sua direita, imensa até o interior da Ilha. Claro, seu cabelo não estaria assim, ela havia acabado de cortar.

O avião ganhava velocidade e imaginei-a comprimida contra a poltrona, as oscilações carregando-a, pequena bonequinha à mercê da aerodinâmica, até afinal a rotação, e a pequena nave ganhando os ares, às exatas 15:11:59. Acompanhei sua subida, uma quebra para a esquerda, outra subida ainda acelerando, imaginei-a sendo levada, inerte, tão pequena com sua cabecinha tão impotente na frente daquele assento enorme, nada podendo fazer senão observar enquanto o lift determinava seus movimentos, passivamente acompanhando as inclinações precisas das asas, suaves embora sob os comandos daquele que os pilotos de caças chamam de motorista de ônibus.

A nave passou à frente de variados tons de cinza do céu tempestuoso, ora aparecendo mais, ora sumindo, sempre visível para quem soubesse para onde olhar, até uma nova quebra para a direita, e aquele avião, que eu vira branco ao sol, já era uma linha, um pequeno traço pretinho horizontal, que ràpidamente se afastava para a direita, visìvelmente bem mais veloz do que quando subia. Mais para a direita, mais para a direita, até sumir atrás do edifício do aeroporto.

Tantas vezes ficamos distantes assim, mas nunca é fácil.