"Open the pod bay doors, please, Hal."

Quando vi 2001, o que mais me impressionou foi aquele olho silencioso do Hal. Tudo vendo, tudo sabendo, mas, pior do que isso, pensando sem parar, pensando, pensando — e você não tem como saber o quê. Mesmo antes de ele apresentar sinais de loucura homicida, aquele olho vermelho está lá, impassível, vigilante, matutando, impenetrável.

Considere o seguinte: sua velocidade de processamento é alguns milhões de vezes maior do que a dos humanos. Então, em uma conversa, você nem terminou a frase, mas ele já tem uma resposta. Mesmo assim, Hal mantém aquele tom de voz calmo, impassível, com uma perturbadora vontade de tranqüilizar os astronautas em tudo que diz. E é impossível escrutinizar qualquer emoção que ele pudesse estar emulando, porque não há tom de voz, não há alterações de freqüência, não há ênfases, apenas uma tranqüilidade artificial, fingida. Parece que ele já tem todo o esquema montado, todo o xadrez traçado, e que os astronautas são apenas ratinhos sendo manipulados em seu experimento maquiavélico (no sentido técnico do termo).

E faz pausas. Por que um computador faria pausas? Estará escolhendo o que dizer? Imagine que zilhões de pensamentos passam por seus circuitos naquele um segundo que ele demora a responder. Quanta hesitação pode haver ali, quanta malícia? Mesmo que ele não tenha “má tenção”, como outrora se dizia, òbviamente algo não está bem, ainda que seja (e especialmente se for) simples loucura mesmo. Pense em tudo que Hal elabora antes de se manifestar, todas as variáveis que considera. Definitivamente, o pior de tudo são as pausas.

Você fica pensando por que ele quer esse efeito, o que ele estará tramando. Os caras estão numa gaiola, completamente à mercê de um computador lunático que tem o dedo nos botões do suporte de vida e da mesma propulsão que pode arremessá-los para fora do Sistema Solar. E é inútil perguntar a ele, porque ele mente descaradamente. Em sentido literal, porque não tem sequer um rosto, é uma ameaça onipresente e onisciente.

No livro, para minha surpresa, não há aquela cena do diálogo das duas vítimas dentro de um módulo, pretendendo escapar aos ouvidos eletrônicos mas esquecendo-se da leitura labial. O diálogo é bem mais curto e sutil, traduzindo uma angústia sob o disfarce intencional da casualidade. Fica evidente que é o único recurso dos cérebros orgânicos para não se deixarem trair diante do cérebro de silício, a ponto de você, Leitor, não ter certeza se o diálogo realmente é o que parece, quase uma linguagem cifrada. É nesse momento que a história passa do suspense ao terror.

Não lembro como é no filme, mas a impressão que dá é a de que a falha da unidade AE 35 seja uma tentativa de Hal de conseguir seu objetivo sem a necessidade de matar alguém. Só que vem um comunicado da Terra e ele é forçado a radicalizar, cortando a mensagem antes que chegue aos tripulantes, em um instante de interferência tão claramente proposital que nem os australopitecos do início do filme entenderiam de forma diferente. Pensando enquanto digito isto, agora me ocorre que ele provavelmente já havia escutado toda a mensagem, escolhendo o momento de cortá-la — afinal, ele tinha o comando do rádio, ele sabia em que instante a mensagem havia chegado; Bowman e Poole jamais desconfiariam de já estar recebendo as notícias em segunda mão. De todo modo, quando o computador corta a transmissão, fica claro para os três que os três sabem que Hal está mentindo. Estou certo de que os dois humanos falham miseràvelmente em convencer o terceiro tripulante de que acreditam nele.

Quando Poole vai lá fora pela segunda vez, há uma cena de súbito horror que não está no filme: só Bowman percebe que Hal não reagiu a um determinado comando de Poole da maneira rotineira, embora parecesse obedecer solìcitamente. A morte de Frank Poole é mostrada de um modo mais aterrorizante do que no filme.

Este é o ponto onde estou, 68 % de meu exemplar. Já quase perdi a estação do Metrô por causa dele.