Tema comum: violência

Em 2001, o livro, Arthur Clarke propõe um exercício de imaginação: suponha que você fosse um computador ciente da própria identidade, com uma mente treinada e que nunca dormiu. Confrontado com a possibilidade de desligamento, qual seria sua reação? Através das especulações de Bowman, ele traz duas respostas. Uma é o pânico. Hal estaria demonstrando pânico ao tentar argumentar com Dave (o que, aliás, parece-me patente no filme). Outra é que o pânico se torna compreensível quando percebemos que Hal não sabia o que era ser desligado, já que nunca o fora. Seu medo era o medo da morte. Então, ele estava agindo em uma autodefesa fundada em um temor genuíno, não fingido.

Lembrei-me disso porque estou ouvindo Perfect Sense, parte I, do Rogério das Águas, que, ao menos nesta versão ao vivo (não sei como é a original), vem com uma gravação do Hal, “stop, Dave. I can feel my mind… going… there is no question about it…”, completa com a respiração do astronauta. Toda vez que ouço, choca-me.

Anúncios

Estou mentindo, disse a máquina — e deu GPF

Há pouco, o noticiário falava nas conquistas das mulheres no mercado de trabalho. Um analista comentava que, no Brasil, vinha-se avançando contra o preconceito.

Então, proponho uma perguntinha. Não precisa responder agora. Se um sujeito diz que não contrata mulheres porque não gosta de contratar mulheres, isso é preconceito? Se ele adota essa política fundado tão-sòmente em seu gosto, pode-se dizer que seja preconceituoso? Considere que a afirmação seja genuína: ele não tem nada contra as mulheres, não vê nada de errado, apenas não gosta de contratá-las. Isso é preconceito?

Estenda isso a qualquer grupo. Se alguém diz que não gosta de negros, ou que não gosta de judeus, ou de homossexuais, de anões, de malabaristas, de motoristas, de brancos, de heterossexuais — isso é preconceito? É importante observar que a afirmação é de não gostar, não contendo qualquer juízo de valor, sobre o grupo em questão ser bom, ruim, bonito, feio, inteligente ou burro. A pessoa que afirma está, em princípio, expressando uma verdade: ela realmente não gosta, e nada afirma sobre esse grupo do qual não gosta.

Você pode considerar que sim, que isso é ser preconceituoso. Mas, então, qual é o preconceito? Qual é a opinião que está sendo emitida pré-conceito, antes do conceito, sem se ter chegado a um conceito? A opinião que está sendo afirmada é uma opinião sobre si mesmo: avalia a si mesmo e, como resultado dessa avaliação, conclui que não gosta de alguma coisa, de alguém ou de alguéns. É essa a conclusão que está sob crítica. Argumenta-se que esteja errada, que não corresponda aos fatos. Portanto — conclui-se — os fatos negam aquela afirmação. Portanto, não é fato que o sujeito não-goste, mas que goste, sim, dos alguéns. Mas espere: assim como gosta daquele grupo, o raciocínio vale para todos, especialmente para aqueles de que ostensivamente declara gostar, e segue-se que gosta dos demais também. A lógica dita que o sujeito goste de todo o mundo, não podendo deixar de gostar de algum grupo. Então, se afirma que não gosta de negros ou de judeus, necessariamente é porque gosta de negros, de judeus, de brancos, amarelos, pardos, cinzas, azuis, goyin, heterossexuais, bissexuais, pansexuais, Sergueis e marcianos.

Pode-se dizer que o preconceito esteja em não-gostar do grupo inteiro, que o sujeito não chegou a conhecer todas as pessoas do grupo e que está sendo preconceituoso ao ter certeza de não-gostar de todos quando, na verdade, ainda não viu todos para saber. O preconceito está em pegar o que sabe (sabe que não gosta do que viu) e generalizar para algo que não sabe (não sabe se realmente não-gostará de todos). O preconceito está em afirmar que não-gostará antes mesmo de ver.

Sob essa óptica, o mesmo vale para tudo. “Não gosto de peças de teatro” — mas não vi todas, pode ser que haja uma de que venha a gostar. “Não gosto de girassóis amarelos” — mas não vi todos, pode haver um girassol amarelo que me atraia (tema para pesquisa: van Gogh). O preconceito está em generalizar, em adotar uma regra, fechando-se a possibilidades não percebidas.

Aí temos outro problema. Não podemos generalizar nunca? Nunca mesmo? Nem uma vezinha só? Não. Toda generalização é preconceituosa. Peraí, toda generalização? É. Toda. Inclusive essa? Não, essa não, só as outras. Então, nem toda generalização é preconceituosa, porque essa não é.

Na própria carne

Então. Um minuto atrás, eu estava ouvindo — ainda estou — o In the Flesh, do Rogério das Águas, que ganhei de presente (e o melhor de tudo: fui eu que escolhi. Coisa boa, esses vales-presentes da Saraiva). Estava tocando The Happiest Days of Our Lives. No The Wall, quando chega nos versos “But in our town it was well known (…)”, o vocalista é o mesmo, dá só um efeito sonoro, uma espécie assim de eco. Mas, no In the Flesh, são as três cantoras que fazem as vozes, sem o Rogério e de modo bem agressivo, mais alto do que no original. Fica muito bom, mas o melhor é que é súbito, pelo menos para mim, que não sabia.