Mais psicologia e mais C.S.I.

E já que a mensagem abaixo trata de C.S.I. e psicologia, tenho outra boa para comentar. Estou bem atrasado em assistir à série. O penúltimo episódio que vi é da sexta temporada e chama-se “Pirates of the Third Reich”.

*** ATENÇÃO: VOU CONTAR O FINAL DO EPISÓDIO. VOCÊ FOI AVISADO. ***

Este é o terceiro episódio com Lady Heather, uma personagem sempre muito bem-vinda (todos os episódios com ela são ótimos, particularmente por causa da interação entre ela e Grissom). Na última cena, Lady Heather está chicoteando o culpado quando Grissom a encontra. Em prantos, ela levanta o chicote uma última vez, e Grissom segura-o pela ponta oposta. Vai puxando o chicote para si, prendendo-o enquanto procura convencê-la a parar. Ora, ao fazer isso, ele também está prendendo-a enquanto ela não largar o instrumento.

Mas veja só que interessante representação desses personagens. Os dois têm uma ligação já demonstrada anteriormente na série, sempre em contextos onde violência e sexo se confundem, ambos sob tensão infligida, cada um sobre o outro. Agora, estão materialmente ligados por uma linha tensa, aliás um objeto que traduz uma idéia de violência mas que também costuma ser usado como símbolo sexual. Portanto, a cena é totalmente simbólica.

Uma tarde com Rorschach

Alguns meses atrás, fiz um teste de Rorschach. Você sabe, aquele com os borrões simétricos: você olha e diz ao psicólogo o que está vendo. Aliás, foi nesse mesmo teste que a piscicóloga disse “largata”.

Um dos borrões tinha genitais femininos. Perguntei à psicóloga se, diante de uma obscenidade, eu dizendo que era isso que via, a que isso levaria? e ela respondeu, eu tomaria nota. Bem, sob o risco de ser rotulado de tarado, disse que era isso que estava vendo. Mais tarde, à noite, fui ao Google e encontrei uma página com o gabarito do teste: de acordo com ele, se eu não visse genitais femininos naquela figura, aí eu seria considerado anormal. Da mesma forma a figura onde vi dois ursos fazendo um high five: pelo gabarito (complementado por outra página, cujo URL me foge), eu deveria mesmo ter visto duas figuras gordas (palhaços, na verdade) encontrando-se.

Mas o que vim comentar é outra coisa. Há uma figura onde vi uma das torres de Las Vegas. Isso está influenciado pelo fato de que gosto muito de assistir a C.S.I., e a série sempre começa com uma vista aérea da cidade, seus espigões ao sol, hotéis, obeliscos e miniatura da torre Eiffel assando, o deserto ao fundo. Então, eu vejo uma forma longilínea vertical, eu digo que é uma das torres de Las Vegas. Certo?

Bem, o gabarito diz que aquela porção do desenho é um símbolo fálico e que é isso que uma pessoa normal tem que ver. Bem, foi o que vi, não foi? Torres e obeliscos são símbolos fálicos, são manifestações artísticas com uma noção de pretenderem impor-se, de projetarem-se. O que acontece é que, através do teste, percebi nìtidamente o que não percebera até ali: o quanto Las Vegas está imbuída de uma simbologia que é a própria materialização representativa do sonho americano. Toda aquela idéia de avançar para Oeste, conquistar o terreno, expor ao mundo a pujança, a capacidade e a disposição, toda essa necessidade que os americanos têm de mostrar como são machos alfa, conquistadores valorosos e intrépidos empreendedores. É interessante como um teste psicológico que eu fiz mostra um bocado sobre a psique dos outros.

Quantos Caios Mários vale um Batman?

Esta aqui aconteceu na tarde de 18 de julho de 2006, mas só agora tive tempo de vir digitar.

Saindo do Cinemark, aonde acabara de assistir a Superman Returns, eu andava por Botafogo. Passei pela Voluntários na altura do metrô. Ali há uma banca-sebo, onde um cartaz prontamente chamou minha atenção: “livros de Direito – R$ 1,00”. Always on the lookout por uma promoção, fui ver que livros eram esses. Havia vários volumes do Caio Mário, do Sílvio Rodrigues (são Autores respeitados de Direito civil, e os livros em questão fazem parte de coleções que são cursos inteiros da matéria), Mirabete e Damásio (esses dois são de Penal), todos em excelente estado embora pegando sol e poeira do lado de fora (colecionadores de livros sabem o mal que isso faz). Um Caio Mário novo está custando algo como R$ 73. Esses volumes de Civil eram pré-Código de 2002 e, portanto, desatualizados. Mas são livros que explicam o significado de vários termos e as definições e naturezas de vários institutos, de modo que continuam valendo apesar da alteração legislativa. Portanto, o preço era uma excelente pechincha.

Saí da banca com sete volumes e fui caminhando, debaixo de um sol inclemente, até o Rio Sul, onde almocei em excelente companhia e de onde fui embora de ônibus.

Agora, considere o seguinte. Gastei R$ 7,00 em sete volumes de valorizados Autores de Direito civil. Por apenas R$ 6,90, eu compro uma revista novinha do Batman, ou do Super-Homem, ou da Liga da Justiça, que é muito mais leve de se carregar e mais atualizada, também.

Portanto, uma revistinha do Batman vale sete volumes do Caio Mário.

Conversinha com operadora de celular

A conversa narrada abaixo é verdadeira, aconteceu em 12/02/2007. Substituí todos os nomes por expressões entre colchetes.

— É da [operadora de celular]. Você atende?

Sempre atendo quando é de lá. Porque podem estar querendo me comunicar que, na percepção deles, haja alguma irregularidade, que eu esteja devendo (embora não esteja), que a fatura vá atrasar neste mês etc. Se houver mesmo um soluço desses, não quero ficar sem saber; depois eles sempre poderiam alegar, em juízo, que haviam me avisado ou tentado me avisar. É preciso tirar-lhes essa vantagem. Então, atendo sempre.

— Boa táride, Sr [censurado]?
— Sou eu.
— Sr [censurado], aqui é [Fulano], da [operadora], tudo bem?
— E aí, beleza?
— Tudo bem. Sr [censurado], eu icitou ligândo puriquê o Sr foi icicolhido como nosso cliente preferencial

Acho que TODOS os clientes deles são “escolhidos como clientes preferenciais”. Na hipótese mais exclusiva, devem ser, no mínimo, todos os que pagam em dia. Mas acho que são todos todos mesmo.

… como nosso cliente preferencial para pariticipar do [operadora] Clube [bandeira de cartão de crédito], onde o Sr, Sr [censurado], utilizando o caritâo, o Sr acumula pontos, podendo torocar esses pontos pôri telefones celulares da [operadora] ou pôri pacotes de minutos.

Tenho certeza de que é mentira. Sempre é mentira. Quando eu fosse resgatar esses pontos, eles viriam com as letrinhas pequenas, dizendo que meu contrato não permite, ou que não nessas condições, ou que só se tivesse usado tantos minutos excedentes, ou só se não tivesse usado nenhum minuto excedente, ou que eu tinha que me cadastrar antes, ou que eu tinha que solicitar antes, ou que teria um débito a mais na fatura… Mesmo que não, os pacotes de minutos também têm sempre um catch: diriam que a legislação mudou, ou que meu plano não permite, ou que meu limite não cobre, ou que meu plano é antigo, ou que meu plano é novo, ou que eu tenho um mês para usar um milhão de minutos, ou que perderia os minutos de crédito que já tenho… Se estão tendo que me ligar para me oferecer qualquer coisa, é porque é ruim para mim e bom para eles. Se fosse bom para mim, escondiam.

… ou pôri pacotes de minutos. O Sr continuaresidindo norio de Janeiro?

Repare que o moço não perguntou se eu queria ou não aceitar a promoção. Presumiu que sim e já estava preenchendo o formulário. Eu é que tinha que dizer que não queria e, se não estivesse atento às sutilezas da conversa, já estaria concordando! Pode isso?

— Continuo, mas não quero.
— E isso seria puriquê o Sr já tem outro caritâo?

Eu ia até dar uma desculpa qualquer para não ter que ficar entrando em detalhes sobre minha vida, que é minha e privada e ele não tem nada com ela. Foi só no meio da resposta a seguir que me dei conta: eu NÃO TENHO que dar satisfações da minha vida, minhas razões são minhas e minhas apenas.

— Não, seria porque… Peraí!

Esse “peraí” foi para mim mesmo, não para ele.

… Peraí! Eu não tenho que dizer por que não quero. Eu não quero.
— Mas, Sr [censurado], seria para eu fazer um comparativo.
— Considere feito. Se alguém lhe perguntar, pode dizer que fez.
— Mas, no caso

Já reparou como essas pessoas adoram dizer “no caso”? Eu já estou de saco cheio de quem diz “no caso”. É óbvio que é no caso! Ele está falando deste meu caso, não de outro! Essa expressão está sobrando!

— Mas, no caso, eu nâo fice.
— Pois então diga que não. Mas não precisa fazer comparativo.

Ficou meio segundo em silêncio do outro lado.

— A [operadora] agradece a gentileza e deseja ao Sr uma boa táride.
— Boa tarde.