Como passei meu feriado de 21 de abril

Ontem, fui comemorar a morte de Tiradentes junto com outras 400k pessoas em Botafogo. Sim, fui assistir à corrida aérea.

O metrô estava entupido na ida. Não tanto quanto nos dias de semana, quando vou trabalhar, mas percebi que a maioria das pessoas ali nunca tinha estado no metrô, o que compõe o problema. Uma molecada insuportável ficava gritando sem parar. Quando alguém tentava entrar, eles berravam “não! Não! Não!…” Muito ruim.

A pista de alta velocidade, que leva ao aterro do Flamengo, estava fechada nos dois sentidos, o que muito nos ajudou, e havia fartura de Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal. Muita gente desinformada só sabia que ia ter um “evento aéreo”, de modo que ficaram na pista interna — de onde não se consegue ver a água nem os portões por onde os aviões passariam, porque a ciclovia fica a uns dois metros de altura e bloqueia a vista. Minha irmã disse que ainda ouviu alguém dizer que não entendia por que tanta gente olhava em direção à água, “show aéreo é no céu!”. Não esta corrida.

Para minha felicidade, a maior parte dos desinformados achou que o evento seria na praia de Botafogo, e ficou perto da extremidade esquerda da praia (para quem olha para a enseada), liberando mais área no lugar de melhor visualização, que eram as pedras em frente ao posto BR, mais à esquerda. Eu escolhera o lugar com base na vista aérea publicada pela revista Freqüência livre, com superposição do circuito à fotografia, e em um reconhecimento de área duas semanas antes.

Quando digo “lugar de melhor visualização”, leia-se: melhor entre nós, mortais. Nos edifícios da avenida Rui Barbosa, o povo estava todo nas janelas. À distância, eu também via: no morro do Pasmado, gente na encosta, bem abaixo do mirante; no morro da Urca, assim de gente na beirada; no Botafogo Escada Shopping, cabeçada de gente no terraço.

A apresentação começou com um atraso de apenas uns dez minutos. Pouco antes, percebi dois F-5 de Santa Cruz voando juntos lá atrás do morro da Urca e Pão de Açúcar, bem longe, e comentei, “o que aqueles dois F-5 estão fazendo ali?”. Logo depois, os dois vieram juntos, dentre o espaço entre Rio Sul e morro de São João, e deram três rasantes em alta velocidade subsônica. Aquele silêncio na aproximação, sem assobio, e o estrondo. Infelizmente, não foram a supersônico. Também, se fossem, os moradores das circunvizinhanças iam todos aparecer na terça-feira na base aérea, com a nota fiscal do vidraceiro na mão… Litisconsórcio multitudinário…

Dez pilotos participaram da eliminatória. Cada um ficava circulando atrás do morro da Urca e, autorizado, vinha entre esse morro e o Cara de Cão, mergulhando e ganhando velocidade. O início sempre era muito veloz justamente por causa do mergulho inicial e era primeiro silencioso, depois muito barulhento. Do ponto onde eu estava, era o momento mais chamativo. Faziam o circuito duas vezes, o que eu podia ver muito bem exceto pelo meio oito cubano, que eles faziam atrás da árvore à minha direita. Em alguns casos, eu podia ver o ponto mais alto desse quase looping, mas, na maioria das vezes, só os pegava no final do mergulho.

O que mais me impressionou no circuito foi o 360 que cada um fez bem no meio da enseada: uma curva feita na horizontal, com atitude em rolamento de 90 graus. Havia uma pequena perda de altitude, compensada pelo nariz ligeiramente apontado para o alto, mas os caras quase encostavam na água.

Cada piloto, ao terminar o percurso, saía do circuito e fazia uma estripulia personalizada. Alguns fizeram folhas-secas (não sei escrever “lancevaque”) bem em cima da gente. Um subiu na vertical até o avião parar e desceu fazendo um tunneau. Dois fizeram seus tunneaux subindo na vertical, outros fizeram-nos bem longos e rápidos na horizontal. Comentários que ouvi durante as apresentações: “esse aí é um ponto zero”, “tem que jogar muito videogame pra fazer isso”, “esse aí abasteceu com Red Bull”. Alguém disse “esse aí tá cheio de uísque”, ao que o colega corrigiu, “uísque com Red Bull”. — “Ah, claro”. Depois do tunneau mais longo, “esse cara deve tá todo vomitado dentro do cockpit“. Os poucos que não fizeram acrobacias nesse final foram vaiados: “uuuuu”, “voa nada!”, “redbicha!”.

Depois das dez seqüências da eliminatória, um piloto fez acrobacias fora do circuito. Parecia ter sido desqualificado na véspera — do contrário, por que não participava da corrida? Alguém disse ao meu lado, “se esse cara fosse bom mermo, tava competindo”. Isso aí.

Depois, uma gaivota passou batendo as asas em baixíssima velocidade, desfilando à nossa frente, bem perto. Foi ovacionada. O pessoal acompanhou e torceu para que ela apanhasse um peixe, e seu mergulho recebeu aplausos.

Depois das 15 horas, houve um longo intervalo durante o qual dois Tucaninhos da Fumaça ficaram enrolando, fazendo nada enquanto circulavam bem alto, atrás e na frente do morro da Urca. Infelizmente, no momento em que eles começaram sua apresentação, tive um contratempo e não pude dar mais atenção às exibições. Mas ainda consegui ver que eram os Tucanos 1 e 2 da Fumaça, como sempre com aquelas luzes acesas nas asas, que dão um atrativo especial. Fiquei sabendo que voaram em espelho e que fizeram uma espécie de tunneau espelhado, um avião de barriga para o outro, girando simultaneamente.

Depois disso vieram as quartas-de-final, as semifinais e a final. Pelo que fiquei sabendo, os caras voaram mais rápido ainda, especialmente na final. Não sei quanto é o limite de aceleração imposto pelos organizadores da prova, mas li na revista que tem aviãozinho ali que agüenta 14g. Só para vocês terem uma idéia, o limite estrutural divulgado dos aviões de combate mais avançados não costuma passar de 12. Vi na televisão que o vencedor ultrapassou 9g.

Para ir embora, tentamos pegar um táxi em frente à Fundação Getúlio Vargas, mas o quê. O trânsito estava um inferno, todos os táxis passavam cheios. Tentamos caminhar até o metrô. Era TANTA gente que ninguém conseguia DESCER A ESCADA, e a segurança havia fechado a entrada da São Clemente igual a porta de boate, só entrava um de cada vez. Embora o evento tenha terminado umas 17 horas, às 19 o trânsito ainda estava uma loicura em Botafogo, Copacabana e até no elevado Paulo de Frontin.

Recomendo. Tenho um ano para conseguir algum amigo que more na Rui Barbosa acima da altura das árvores, que no ano que vem não quero ficar no chão.