Crise nas múltiplas Terras: as parcerias, volume 2

(As eventuais próclises deste texto são intencionais.)

Para a maioria das pessoas, um passatempo é algo com que se distraírem sem compromisso, algo com que se esvaziar a mente, deixar vagar o pensamento, relaxar. A noção de entretenimento costuma vir associada à de completa ausência de esforço intelectual. Isso é igualmente verdadeiro quando o lazer envolve o consumo de algum objeto cultural (p.ex. televisão).

Normalmente, a leitura de histórias em quadrinhos é um típico exemplo de passatempo. Costuma-se dizer que quadrinhos são uma leitura descartável, sem importância nem conseqüência, em que você não pensa nem se concentra e que, ao final, não retém.

Porém, todo tipo de passatempo (quadrinhos inclusive) tem uma legião de aficionados, de geeks com um interesse especial que realmente entendem daquilo, que gastam seu tempo com aquilo, que se dedicam vorazmente ao tema. O objeto de interesse pode ser uma paixão ou apenas um divertimento, mas o amador leva-o a sério, pesquisa-o, procura informar-se a respeito — não por qualquer interesse profissional, mas porque esse conhecimento o diverte, propicia-lhe horas de prazer, de relaxamento. O amador esquece-se da vida, perde-se naquilo que o diverte e torna-se especialista no assunto.

Qualquer assunto que se escolha arbitrariamente terá uma comunidade de pessoas interessadas. Assim a literatura, o cinema, os esportes, as motocicletas, a aviação, as artes plásticas, a música, a ficção científica — uma busca das mais simplórias no Google será pródiga em exemplos.

Os leitores assíduos de quadrinhos sabemos do que estou falando. É para nós que são voltados saites como o Blog dos Quadrinhos, o Omelete e o Universo HQ. Nós, leitores de quadrinhos, podemos tê-los como uma arte sem grandes pretensões, mas, quando os lemos, muitos de nós apreciam a história, os desenhos, os estilos dos roteiristas e desenhistas. Os mais interessados observamos desenhos e diálogos atentos à técnica dos artistas, comparamos Autores e obras, criticamos escolhas, empolgamo-nos com referências e homenagens, refletimos sobre tendências de mercado, sobre repetições e inovações temáticas, rastreamos a evolução de estilos e de personagens, analisamos a profundidade das histórias (ou falta dela).

Tome o meu caso, por exemplo. Quando leio uma história em quadrinhos, a leitura é múltipla, tal como com qualquer outra forma de literatura. Observo a história em seu contexto, relaciono-a com outras, reparo na visão que cada Autor tem dos personagens em que trabalha. As pessoas que me conhecem sabem que, quando me interesso por alguma coisa, procuro saber mais sobre ela. Isso me diverte, me entretém. É assim com a aviação, com Jornada nas Estrelas, com literatura, ficção científica, com todo tema sobre o qual eu sinta a mais passageira curiosidade — e é assim com quadrinhos, em especial os da DC Comics.

Veja esta situação. Os quadrinhos de super-heróis da Era de Prata (anos 50 e 60) são considerados simples, acríticos, conformando-se à visão de mundo padronizada dos valores tradicionais. Os heróis combatiam os malfeitores, as mulheres não tinham o arrojo que se veria a partir da revolução sexual, e o bem sempre vencia no final. Ninguém morria, os mocinhos eram todos amigos e os crimes eram quase sempre patrimoniais: os vilões estavam sempre furtando algum bem muito valioso. A noção de “justiça” era muito alinhada à do Direito penal mais pedestre: a “injustiça” é o mero cometimento daquilo que é proibido. Os personagens não tinham aquela consciência social nem aquela personalidade distinta que veríamos mais tarde; todos tinham basicamente as mesmas virtudes, boa fé, perspicácia e pró-atividade. Grosso modo, foi só nos anos 70 que começamos a ver o rancor e a paranóia de controle do Batman, a autocobrança e os conflitos de consciência do Super-homem, a perplexidade da Mulher-Maravilha, a insegurança do Flash, a cabeça-durice e rebeldia do Lanterna Verde em face dos Guardiães e o pavio curto do Arqueiro Verde.

Ocorre que faço minha metaleitura até nas obras que menos exigem brainpower. No momento, estou lendo Crisis on Multiple Earths: the Team-Ups, volume 2.

Trata-se de uma compilação de histórias do período de 1965 a 1968. O título é enganoso e parece-me feito para pegar incautos ávidos pelas famosas “crises” da DC, a maioria recente: Crise nas infinitas Terras, Crise de identidade, Crise de consciência, Crise infinita. Na verdade, a referência é distante. O ponto comum entre as histórias — aliás, não relacionadas entre si — é a parceria entre personagens, na maioria contrapartes de universos paralelos: Flash da Terra 1 e Flash da Terra 2 (Joel Ciclone nas traduções anteriores às da Panini), Átomo da Terra 1 (“Eléktron” no Brasil) e Átomo da Terra 2, Lanternas Verdes das Terras 1 e 2. A remissão às crises pode estar na referência direta à multiplicidade de universos dentro do universo DC, mas pára aí.

Uma dessas histórias foi originalmente publicada em Green Lantern #45, de junho de 1966.

ATENÇÃO: ABAIXO SEGUEM SPOILERS DESTA HISTÓRIA.

A Princesa Ramia demora a escolher um marido. Pela lei de seu planeta, se essa omissão se prolongar, ela deve unir-se a um marido escolhido pelo Conselho, que elege o Príncipe Perigo, òbviamente rejeitado por ela. Nos últimos dias para o encerramento do prazo, a princesa resolve varrer o universo à cata de um marido aceitável, mas Perigo vai em seu encalço. Ele tenta obrigá-la a segui-lo de volta ao planeta para o casamento. É nesse momento que os Lanternas Verdes intervêm auxiliados por Doiby Dickles, o sidekick do LV da Terra 2. Eles vencem o Príncipe Perigo, e Ramia casa-se com Doiby. Fim.

A história parece privilegiar o livre arbítrio e o direito da princesa de se casar com quem ela quiser. O vilão é representado como alguém que tenta se impor pela força, oprimindo a pobre mocinha, e que termina justamente derrotado. Mas vem cá, não há nada de meio estranho aí, não? Veja só: não foi o príncipe que decidiu casar-se com a princesa, nem foi arbitrário em sua conduta. Quem o escolheu para marido foi a autoridade legalmente constituída para isso, e ele estava meramente no exercício regular de seu direito. Então, quem estava descumprindo a lei era a Princesa Ramia, e os Lanternas Verdes foram partícipes dessa ilegalidade, aliás se intrometendo em assuntos de Estado de um planeta soberano. Essa é a leitura que faço.

No geral, CoME: tTU v. 2 não é grande coisa. Poderia ter dado melhor fim a meu dinheiro se soubesse que era tão sem importância. Eu já havia lido o volume 1, de modo que não fui enganado pelo título, mas esperava um pouco mais de vigor, alguma justificativa para uma eventual importância histórica das edições compiladas. Creio que não haja. De todo modo, agora que a grana está gasta, estou lendo o livro inteiro; afinal, está bem à mão e atende a minha utopia de um dia ler tudo que a DC já publicou. Se bem que, atualmente, a utopia já esteja bastante atenuada, agora que já vi que tanto do material mais antigo tende a ser maçante a meus olhos de século 21. Mas, lendo em ordem tudo que tenho, como estou, mal posso esperar para alcançar 1994 (Zero hora), 1997 (Futuro relâmpago), 1999 (The Kingdom) e 2006 (Crise infinita).

Na caixa: No Angel, de Dido. De novo. Voz docinha, boa para a chuva fria que caiu o dia todo.