A viagem do Senhor Atoz a Houston

No período de 11 a 15 de junho de 2007, a empresa onde trabalho enviou-me a Houston, Texas, para participar de um seminário de logística. Tivemos palestras e visitas. O que vou narrar aqui são alguns dos aspectos da viagem que ocorreram fora das horas de trabalho e que mais chamaram minha atenção.

Como o evento era em Houston, avisei minha querida amiga — chamemo-la pelo pseudônimo vulcano T’Riet —, que mora lá e que eu não via desde 2001. Finalmente poderíamos nos ver de novo e ela poderia apresentar-me a seu marido (chamemo-lo Othon), com quem se casara em 2004. Na época, eles me convidaram, mas não pude comparecer à cerimônia.

Sábado, 9 de junho. Ocupei o assento 31C do Boeing 767-300ER, prefixo N1609, da Delta, no vôo 60 para Atlanta. Isso é no meio do avião, junto ao corredor esquerdo. Um colega ficou junto ao corredor direito. Ficamos ansiosos por o avião fechar logo a porta sem que ninguém ocupasse o meio, o que é muito bom e realmente aconteceu. Mais espaço para nós. Comecei a ler 2010, de Arthur Clarke.

Domingo, 10 de junho. O nascer do sol é sempre bonito, especialmente com nuvens no horizonte e visto de altitude. Consegui ver uma parte do céu na faixa verde do espectro, geralmente muito fugaz e estreita.

O café da manhã da Delta é fraquinho mesmo. Croissant com geléia, uma barra de Nutry, alguns biscoitos, suco de laranja, água e uma banana. Nem quis provar o chafé. Depois da quase-refeição, mais 2010 até a página 33.

O primeiro dia é sempre o do deslumbramento. Depois diminui.

Você não tem noção do TAMANHO do aeroporto Hartsfield-Jackson, de Atlanta. É MUITO GRANDE. São seis terminais, ligados por um trenzinho interno (“The next stop is concourse D. Concourse D, as in ‘David’.” Ou, pra quem é carioca, “next stop, Carioca Estation”, manja?). Enquanto taxiávamos, eu só via avião da Delta, avião da Delta, avião da Delta. Vários da AirTran, mas Delta domina. Turns out Atlanta é o hub da Delta, que, até há uns anos, tinha a maior frota do mundo. E muito movimentado! O terminal CHEIO de gente, americanos andando dum lado pro outro, muito comércio, comida, muita gente com criança e muitos militares das quatro forças armadas (Exército, Marinha, Força Aérea e Fuzileiros), andando de camuflado, alguns deles pára-quedistas (pude ler no braço deles: “Airborne”), quase todos eram praças. Não, não estavam patrulhando nada, não pense que eram a segurança do aeroporto (até porque, lá, essa é uma tarefa civil, só o Brasil é que militariza tudo). Estavam sem qualquer equipamento, alguns visivelmente cansados. Com toda a certeza era gente voltando de alguma missão para casa — cabe lembrar que, lá, diferentemente daqui, um militar pode servir em lugar muito distante de casa embora no mesmo país. Imagino que houvesse gente voltando do Iraque, do Afeganistão ou de meros exercícios.

Mas é mesmo um aeroporto muito movimentado. Se cada terminal tem 36 portões, faça a conta, é muito avião.

Enquanto eu olhava, o movimento era muito intenso! Eram dois, às vezes três aviões decolando simultaneamente, dois descendo ao mesmo tempo, uma loucura. Foi somente assim, testemunhando em primeira mão, que pude entender (e isto foi uma tremenda coincidência) um trecho de um episódio de Futurama a que assisti à noite na mesma semana: Fry visita a “lost city of Atlanta” (não Atlantis), dizendo que, no século XXI, ela era apenas um aeroporto, ao que uma sereia responde que não, “Atlanta was more than just a Delta hub”.

Conexão para Houston no assento 29E do MD-88 de prefixo N985DL. Em Houston, o aeroporto George Bush (o pai) é o hub da Continental. Quer dizer, tinha vôo direto do Rio para lá, mas imagino que pela Delta fosse mais barato. Chamaram-me a atenção os vários Embraer ERJ-135 e -145 nas cores da Continental.
Se, nos Estados Unidos, você tem que ter carro, em Houston isso é ainda mais verdadeiro. Ninguém anda a pé, e só os pobres e turistas despreparados andam de ônibus. A cidade é toda espalhada, tudo é longe de tudo. Só o centro, centro mesmo, tem arranha-céus; o resto são tudo imóveis de um só andar semeados ao longo de inúmeras auto-estradas, não ruas. É tudo freeway, e o que mais se vê são aqueles SUV’s bebedores de Diesel. Talk about global warming.

(Centro de Houston.)
O comércio está organizado em enormes lojas de centenas de metros de frente, ou, então, em malls onde as lojas são parede-com-parede ao longo da fachada; você estaciona em frente à loja e entra nela, mas não há uma galeria interna do mall. São muito comuns as lojas de carros, camionetas e caminhões usados onde se vêem dezenas de cada modelo, variando só a cor. Imagino que cada veículo usado seja bem barato, especialmente naquela terra onde eles têm que compactar os carros velhos de tantos que são.


(O comércio.)
O centro da cidade de Houston é relativamente vazio de pessoas, mesmo no horário do almoço no meio da semana. Acontece que, por baixo dos arranha-céus e seus quarteirões, existe um sistema de túneis. Você entra, por exemplo, na Macy’s, desce uma escala rolante dentro da loja, e vai parar num corredor, conectado a pequenas praças subterrâneas, com lojas, academia de ginástica, locadora de vídeo, vários restaurantes e outros corredores, que se conectam a outros prédios. Uma boa forma de se escapar do sol escaldante.

Por toda parte aonde fui, constatei que Houston é uma cidade limpa, e as lojas e o hotel são perfumados. Um detalhe interessante é que muitos anúncios, avisos, letreiros de informações e de proibições em geral estão em espanhol, assim como alguns avisos em alto-falante também são feitos nessa língua. Observei muitos mexicanos, mas também uma etíope, uma turca e alguns paquistaneses, trabalhando em serviços que requerem pouca qualificação. Também é fácil encontrar comida mexicana, e pratos “à moda do Texas” vêm com pimenta ou guacamole.

Você sabia que a Mulher-Maravilha abriu uma cadeia de restaurantes nos Estados Unidos?

Segunda-feira, 11 de junho. À tarde, após a visita técnica, parte do pessoal ficou em um mall (este, sim, ao modo como conhecemos os “shopping centers“) chamado Greenspoint, ao norte da cidade. Vazio (talvez por causa do horário), descobrimos que todos os seus freqüentadores são negros! As lojas vendem tênis para basquete, soul music, coisas de que o estereótipo do negro americano vai gostar. Pois tinha uma promoção na Victoria’s Secret que a mulherada logo descobriu: dez itens (loções ou hidratantes) por US$ 35, ou cinco por US$ 20. Nessa tarde, todo o mundo saiu de lá com uma bolsinha da VS.

No final do dia, T’Riet veio buscar-me. Jantei em casa dela.

Terça-feira, 12 de junho. Alguns de vocês sabem que, agora, sou um colecionador de quadrinhos da DC Comics. Existem várias edições antigas que persigo. Então, assim que soube que ia viajar, fui ao Google procurar endereços de lojas de quadrinhos em Houston. A mais recomendada por leitores era a Bedrock City Comics, então eu precisava ir lá: 6517 Westheimer. T’Riet não conhece quadrinhos nem tem qualquer interesse por eles, mas, anfitriã querendo fazer-me feliz, levou-me depois de minhas horas de trabalho. Assim, enquanto meus colegas iam a um jogo de baseball, fui caçar revistinhas. Entramos quando faltavam dez minutos para fechar, e fiquei alucinado com a quantidade e variedade de quadrinhos da loja. Freneticamente, pus-me a catar os itens de minha listinha tão rápido quanto conseguia, T’Riet ajudando-me. Em voz alta e inglês, lamentei não ter mais tempo. Aí, o proprietário Mike (ainda não havíamos sido apresentados), vendo o volume de compras e o inusitado de minha situação, pensou rápido e perguntou a um empregado se podia ficar até mais tarde. Não podia. Então Mike me disse que eu podia ficar enquanto ele terminava o que estava fazendo. Saí de lá mais de uma hora depois, tendo explicado a ele como é a publicação licenciada da DC pela Panini no Brasil, que temos um ano de atraso, que Crise infinita ainda está saindo etc. Também dei a ele a cópia mais atual de minha megatabela (cerca de 3200 linhas) para leitura ordenada dos títulos da DC. De um fã para outro, tal como se vê gratuitamente as pessoas disponibilizarem seus árduos trabalhos de pesquisa na Web, peguei meu flashdrive Atoz e espetei no notebook do Mike. Se ele vai ganhar dinheiro com meu arquivo, se meu arquivo vai ser útil no trabalho, se ele vai apagar o arquivo, não me importo; já estou registrado na Biblioteca Nacional como o autor e, se o arquivo tiver alguma utilidade para ele, já estarei feliz.

A primeira foto é metade das novidades do mês. A segunda foto são as edições antigas, em ordem alfabética. A terceira são os encadernados (TP’s, trade paperbacks, para quem é do ramo).
Impressionou-me o conhecimento do Mike: se eu perguntava, “tem Legião dos Super-Heróis # 38?”, ele respondia, “é do final dos anos 80, né? Se tiver, tali”. Se eu procurava edições antigas da Action Comics, ele me dizia, está junto com Superman — mas ele está pensando em dispor AC na ordem alfabética mesmo, porque o público que chega querendo “Superman”, genérico, é a molecada, que nunca procura back issues e sim está atrás das novidades, enquanto quem olha as back issues são os colecionadores, que conhecem muito melhor o produto e que procurariam na ordem alfabética. Não adianta Mike juntar AC com outras do Superman (já que colecionadores não querem “qualquer revista do Superman”, mas sim alguma revista específica).

Na Bedrock, virei criança na loja de doce. Levei dezenas de edições antigas, mais Crisis on Infinite Earths, Absolute Edition, Superman: the Ultimate Guide, Batman e JLA Ultimate Guides, The DC Comics Encyclopedia, guia visual de Star Wars, cinco volumes do Monstro do Pântano por Alan Moore e três do Sandman (com esses fechei a coleção). Com o volume de compras que fiz, Mike me deu um desconto de 10% em cima do valor que deixaria na loja (e, mesmo assim, não deixei pouco), mais dois catálogos de brinde para eu mostrar na Point HQ, sua contraparte que freqüento (e que recomendo). Perguntei a ele se é comum que alguém gaste tanto, ao que ele me disse que há clientes que vêm mensalmente e gastam bem mais, mas que, sim, o que eu fiz é raro (e bem-vindo). Tive que sair de lá com duas caixas de papelão, que ele me cedeu, para carregar esse material todo.

Pode me chamar de recalcado, mas, enquanto encaixotávamos os livros e revistinhas, eu não parava de comemorar o fato de serem todos imunes a impostos no Brasil (q.v. Constituição, artigo 150, VI, d). Eu ficava imaginando a cara de decepção do fiscal da Receita no Galeão, com a sanha de me tributar mas só encontrando material imune…

Depois T’Riet me levou a jantar em um lugar excelente, com boa variedade de hambúrgueres, comida mexicana, tudo. Sempre sonhei fazer uma refeição em uma dessas lanchonetes que a gente vê em filme americano, com a arquitetura dividida em booths. Comi um frango grelhado sensacional, coberto com um generoso molho apimentado de cogumelos (Hobbits gostam de cogumelos) e acompanhado de guacamole, fajitas e um margarita com sabor de tangerina.

Quarta-feira, 13 de junho. Após o expediente, visita à Waldenbooks, uma livraria pequena, perto do hotel. Fiquei fascinado: aqui, livreiro sabe o que vende! O livreiro Greg lamentou comigo não haver Asimov à venda (nem unzinho!), mas indicou-me outros Autores. Como eu procurava a Fundação, ele indicou-me Duna, de Frank Herbert. Também: antes de eu sair do Brasil, uma advogada americana comentara comigo que o marido a presenteara com uma trilogia de História alternativa, onde a II Guerra Mundial é travada com armas de hoje. Ao percorrer a Waldenbooks, deparei-me com Designated Targets, de John Birmingham, mostrando um F-35 com uma suástica na capa. É óbvio que era parte da trilogia! Mais sobre isso adiante. Anotei o que teria de comprar ali.

À noite, coquetel. O Prof Dale Rogers perguntou-me por que não há sitcoms no Brasil, e dei-lhe uma aula sobre como o brasileiro se relaciona com a televisão e sobre como nos falta uma auto-estima associada a uma identidade nacional. Ele ficou fascinado. Por meandros que a conversa tomou e em razão de minha curiosidade, explicou-me como funciona o sistema educacional americano.

Quinta-feira, 14 de junho. Visita ao porto de Houston, um dos maiores do mundo. Fica ao longo de um canal concluído lá por volta de 1917, o Ship Channel, que tem uns 40 km. Ao longo dele, uma porção de refinarias e terminais. A visita foi concluída com um passeio a bordo do M/V Sam Houston (esse barquinho aí da foto), gratuito, aberto a turistas (embora só nosso grupo tivesse feito dessa vez), e onde era proibido tirar foto (mesmo assim houve quem tirasse). Cozinha no porão, almoçamos ***excelente*** camarão Creole (= cremoso à moda da Louisiana, com bastante pimentão e lembrando bobó, o que é natural: a cultura Creole é de origem africana, igual à afrocultura da Bahia). O barco tem janelas grandes, ar condicionado e poltronas luxuosas de couro por dentro, mas é mais interessante ficar no lado de fora, na proa, onde se aproveita melhor o passeio narrado pelo alto-falante.
Também fiquei sabendo que o encouraçado USS Texas está ancorado por ali, como museu.

Por falar em afrocultura. Faz um tempo que venho constatando que, nos Estados Unidos, as diferenciações raciais não se baseiam só em cor de pele. Há uma segregação cultural. Eles parecem acreditar que “negros devem gostar de coisas de negros e brancos, de coisas de brancos”. Isso se manifesta de várias formas, uma delas a linguagem. Pois constatei que o sotaque dos negros, ao menos por ali, é bem aquele sotaque característico que a gente vê nos filmes (geralmente vinculado ao Sul do país, mas valendo também nas metrópoles), esticando a vogal tônica das palavras, diferente do sotaque dos brancos, que, se forem texanos, é mais enrolado. Definitivamente, estou convencido de que o linguajar é usado para demarcar o grupo cultural. Os negros foram-me mais difíceis de entender, eu tinha que pedir que repetissem.

À tarde, fui ao Fry’s Electronics. Fiquei abismado com a variedade de DVD’s de filmes e séries de TV. Saí de lá com coisas que nem sabia existirem: dois documentários sobre o Genesis, The Battle of Britain, Von Richthofen and Brown (filme B de 1971, a que me prendo por razões emocionais: Richard Bach pilotou pelo menos um dos aviõezinhos), a série Monty Python’s Flying Circus inteira, e uma promoção: todos os dez filmes de Star Trek, todos na versão do diretor (ou de colecionador, conforme o caso), por US$ 65! (Depois vi: tá por US$ 82 na Amazon, mais frete.) Depois Othon levou-me à casa deles, onde novamente jantei e assisti ao vídeo do casamento. Novamente lamentei não ter podido ir na época: foi um casamento trekker maneiríssimo, celebrado na ponte da Enterprise-D do Star Trek Experience, em Las Vegas.

Sexta-feira, 15 de junho. Fui a uma Barnes & Noble. Não era nem a maior das várias de Houston, mas era a que melhor conjugava tamanho e distância ao hotel. Fiquei besta de novo. Tem, facilmente, o triplo ou quádruplo da área de uma Saraiva Megastore e estantes mais altas. E o atendimento?! A livreira que me atendeu, supersolícita, conhece o que está vendendo. Perguntei por livros do Carl Sagan, ela perguntou de que gênero (porque tem Astronomia, Evolução, Ciência genérica…). Perguntei por Richard Dawkins, ela perguntou qual; quando eu disse The Blind Watchmaker, ela perguntou se eu também não queria seu mais recente The God Delusion (não quis, já que não tenho referência boa nem ruim sobre ele; está cedo) ou, talvez, o clássico The Selfish Gene (esse eu quis). Um milhão de vezes melhor do que os vendedores de livraria brasileiros, que não conhecem nada do que tem na loja e, aliás, nem sabem se tem. Fiquei lá uma hora e meia e saí com três bolsas carregadas de Pale Blue Dot do Sagan, dois do Dawkins, vários de Rama do Clarke, vários da Fundação de Asimov, dois do Sandman (presente para T’Riet), dicionário de Direito Random Webster, The Wild Blue de Stephen Ambrose, The Hobbit e The Silmarillion (que só depois lembrei estarem em inglês americano, mas espero que isso não me prejudique — de todo modo, é mais barato do que pagar o frete da Amazon.co.uk), o primeiro volume da trilogia Axis of Time (Weapons of Choice — também tinham o segundo, mas estava amassado e eu sabia que encontraria melhor na Waldenbooks)… Todos, conforme eu mais me lembrava e mais me alegrava, imunes a impostos.

T’Riet e Othon vieram me buscar no hotel para assistirmos a Spamalot, a peça de Eric Idle que é versão de Monty Python e o Cálice Sagrado. Era o último dia de apresentação naquela cidade! O povo todo emperiquitado (os distintos senhores de terno, as senhôras de casaco de oncinha), mas Othon de camiseta e eu sem ter tomado banho ainda. A peça está(va) percorrendo todos os EUA há bastante tempo, tendo começado na Broadway em 2005 com direção de Mike Nichols e ganhado três Tonies e alguns outros prêmios. Muito parecida com o filme no roteiro, mas bem diferente na música, que é paródia do teatro da Broadway e também dos agudos esganiçados da Whitney Houston. Estavam lá as cenas do “bring your dead”, da discussão sobre a andorinha transportando o coco, do Cavaleiro Negro, do coelhinho assassino, dos cavaleiros que dizem Ni e da descoberta de que Lancelot é gay.

(Arthur inflige uma mera “flesh wound” ao Cavaleiro Negro. Desculpe o borrão.)

Diferentemente do filme, na peça o Cálice Sagrado é afinal encontrado. Estava escondido na platéia, embaixo de uma cadeira. O ator desceu procurando, parou ao lado da vítima (é por isso que eu e muita gente não vamos a teatro), pôs-lhe a mão no ombro, gritou para o palco que tinha achado o Cálice, depois falou para o cidadão, “yes sir, it’s your lucky day”. Pelo menos não esculacharam o sujeito, já um tanto idoso. De forma bem-humorada, levaram-no ao palco, tiraram foto com ele, deram-lhe um troféu e a peça seguiu para seu final.

Depois, T’Riet e Othon me levaram para jantar em um restaurante italiano/irlandês (sim, é isso mesmo). Comi uma tilápia enorme, com molho de camarão e acompanhada de penne com um molho que era mistura de Alfredo e marinara. Estava de cair pra trás, você devia provar. E para acompanhar: draught bitter Guinness como não tomava desde minha visita a terras de Sua Majestade, em 1998! Eu tinhaquê, entende?

Sábado, 16 de junho. De manhã, visita à Waldenbooks para completar os livros que faltara comprar na B&N. Peguei The Mists of Avalon, perguntei se o volume único era quatro-em-um e, embora a velhinha não soubesse, pelo menos sabia do que eu estava falando (só para constar, afinal era 4-em-1 sim e acabei comprando). Saí dali tendo completado a trilogia Axis of Time (D. Targets, Final Impact), mais levando dois do Hemingway (For Whom the Bell Tolls e A Farewell to Arms), 1984 e Animal Farm. Sempre imunes a impostos.

Entre livros, DVD e promoção da Victoria’s Secret, a mala (que, aliás, T’Riet me deu, porque eu fôra só com bagagem de mão) veio pesando 35 kg e a bagagem de mão, dezesseis.

Quem nos levou ao aeroporto foi o terceiro taxista nigeriano que vi na semana (de seis táxis que peguei). Ainda vou entender o que há. Mas, enfim, depois da chuva torrencial que se abateu sobre partes de Houston no meio da tarde, ficamos no aeroporto a aguardar o avião que nos levaria a Atlanta. O aeroporto George Bush é também muito movimentado; era um tal de subir e descer avião que você não imagina — quase todos da Continental e a maioria Embraer ERJ-135 e -145. Mas teve uma hora que chegou um 747 da KLM. Você não acredita que tanto metal consiga estar no ar, ele parece até mais lento. A pista estava molhada da chuva recente e, quando ele acionou os quatro reversores de empuxo, foi aquela nuvem acompanhando os esporrentos motores e atraindo todos os olhares.


(Embraer ERJ-145 e ERJ-135; e 747 da KLM.)

E fomos ficando angustiados, que nosso avião não chegava e a conexão estava marcada para hora e meia depois do pouso em Atlanta. Saímos com mais de duas horas de atraso. Veja adiante a conseqüência disso.

Os passageiros ainda se acomodavam quando vi ali fora, sem alarde nenhum, um F-16 monoposto da Texas ANG, taxiando. Quisera ter podido vê-lo antes. Acho que isso foi o mais perto que já estive de um F-16!

A bordo do avião de Houston para Atlanta, uma passageira muito simpática estava sentada à minha esquerda. Não lembro quem puxou papo, mas ela me contou ser natural da Georgia. Tentei ser agradável dizendo que era o mesmo estado de nascimento do Dr. McCoy, mas ela não me entendeu. “Bones McCoy”, eu disse, mas não adiantou. Tive que explicar que, muitos anos atrás, houvera uma série de TV chamada Star Trek e que ele era o médico da nave… Ela nunca vira, só ouvira falar. Resulta que é professora de primeira série, canta na igreja batista e ensina “tudo” a crianças de seis anos: Matemática, Inglês, Ciência… Quando fui contar o episódio de Futurama, comentei a parte em que Fry questionava como os atlanteanos haviam virado sereias em apenas dois mil anos se a evolução leva milhões (solução: a cafeína da fábrica, vocês sabem de quê, é que acelera o processo). A isso ela respondeu, com a maior tranqüilidade que a certeza lhe dá, que não acredita (sic) em evolução.

Nesse ponto eu não soube reagir. Só me certifiquei de que ela tivesse entendido a idéia de evolução, mutação e seleção natural. Ela até disse que sim, mas, pensando em retrospecto, está evidente que não. Desisti de qualquer esforço, não era o momento de deflagrar o velho debate (aliás falacioso) de Ciência versus religião. Nem valeria a pena.

Em Atlanta, enquanto taxiava para encostar no portão, o piloto anunciou que os (21 ou mais) brasileiros a bordo deveriam proceder imediatamente ao portão E36, onde nossa conexão esperava. “DO NOT STOP.” Acho que julgaram mais barato atrasar um vôo por uma hora do que pagar diária de hotel em Atlanta para 21 ou mais pessoas. Mas, se nosso terminal de partida para o Brasil era o E, é óbvio que o avião encostou no terminal A. Tive uma oportunidade única de participar da Corrida de Atlanta, carregando 16 kg de bagagem de mão, eu e todo o pessoal. Cheguei completamente ensopado, todos nós agitados, falando alto, esbaforidos, a bordo do 767-300 de prefixo N192DN, carregado de passageiros que deviam estar adorando ter que esperar esse bando de atrasildos desde sei lá que horas. Como requinte final e necessário, é claro que tinha que ter alguém no meu lugar. Eu o escolhera mais de uma semana antes, fiz o checkin a tempo em Houston, mas òbviamente a Delta, demonstrando o maior respeito e consideração pelo passageiro, deu o mesmo assento a um garoto que, estou convicto, não teve uma fração do meu cuidado. Nem perdi tempo discutindo com ele (que é o que o brasileiro médio faria); fui, na mesma hora, procurar um flight attendant, que acabou me arrumando o assento 34C, felizmente ao lado de uma colega muito gente boa.

No vôo de volta, estavam todos eufóricos depois de uma semana estimulante e uma correria para embarcar. Por isso, tinha gente andando e conversando até duas da manhã, hora de Brasília. Uma americana, sentada à minha diagonal, perguntava a um colega qual era a moeda brasileira e qual o câmbio para o dólar. Pensei, essa aí tá lascada. Já o japonês à minha esquerda (oquei, na verdade era americano, perdoe-me, Hiro), esse tinha um mapa e um guia, havia pesquisado e me fez perguntas muito mais inteligentes, sobre lugares a visitar, meios de transporte, custo de vida e bebidas alcoólicas (!). Estava a par da Costa Verde, que sugeri visitasse.

Após o desembarque no Rio, vimos que o improvável havia acontecido: as malas do nosso grupo chegaram junto conosco apesar da barafunda da conexão! Lamentavelmente, o mesmo não podem dizer os sorteados de algum vôo com destino a Brasília, cujas malas ficaram dando voltas na mesma esteira das nossas, a milhares de quilômetros de onde deviam estar. Eu só peço à Infraero, ou a quem quer que seja, que, por piedade, TIRE O SAXOFONISTA que fica desafinando Tom Jobim, Toquinho e João Gilberto como som ambiente para quem, estressado e cansado, está esperando suas malas aparecerem na esteira. Tá certo que a música é uma profissão difícil, ingrata, mal paga; mas, francamente, ali não é o lugar nem a hora. Ele podia fazer par com seu contraparte que fica na porta do metrô da Carioca; quem sabe um ensina ao outro. Ou não.

Por último, a alfândega. Enquanto eu ficava no free shop, a Receita deglutia um vôo que chegara de Miami logo antes do meu. Quando foi minha vez, mal havia fila, e os fiscais me ignoraram! Ninguém sequer me viu; só entreguei o formulário, nada a declarar (nada mesmo: por dois dólares, fiquei dentro da cota, e livro não paga), e sequer tive que apertar o temido verde/vermelho. Eu olhava em volta, mas nenhum fiscal me via! Portanto… fui.