O retorno da utopia

Em 1984 ou por aí, a editora Abril adquiriu os direitos de publicação da DC Comics no Brasil. Por sorte ou por azar, foi nesse ponto, aos nove anos de idade, que passei a ler as histórias da DC, sem compromisso. Ao longo dos últimos dois anos, percebi que o que então saía pela Abril era uma variedade de material publicado originalmente de 1970 a 1982, provavelmente ainda inédito por aqui desde o finado tempo da EBAL. Aparentemente, o descomunal descompasso em relação à publicação original deu à editora paulista a vantagem de poder melhor selecionar as histórias e personagens que traria ao público nacional.

De todo modo, a maioria dos leitores eram crianças. Não havia Internet, e a Nova Ordem Mundial estava ainda por iniciar. Portanto, os leitores não tinham fácil acesso (como hoje temos) a saber o que de mais recente a DC estava publicando, nem conseguíamos pôr as mãos (como hoje conseguimos) em material importado. Diante disso, não havia a necessidade (como hoje há) de a editora brasileira perseguir de perto o material que saía na América, contanto que as histórias fossem boas.
Nos anos seguintes, dei-me conta de que as histórias da DC (assim como as da Marvel) tinham uma continuidade (e hoje têm mais ainda). Trata-se de uma única, gigante, entrelaçada história, com meandros e influências mútuas entre os títulos, personagens de um título aparecendo em outro e uma consistência interna difícil de se atingir quando tantos Autores escrevem simultaneamente. (Na verdade, a falta de uma consistência suficiente foi um dos argumentos editoriais que conduziram à Crise nas infinitas Terras em 1985. Mas não quero entrar nisso agora.) Foi minha primeira exposição a um universo compartilhado que se iniciara em 1938, com Action Comics #1, a estréia do Super-homem, alegadamente a primeira história de super-herói.

De certo modo, quem começa a ler DC e Marvel sempre pega o bonde andando. Sempre existem histórias mais antigas, que a gente não leu. Alan Moore descreveu muito bem essa situação em sua introdução ao encadernado Saga of the Swamp Thing: “aqui, as histórias não acabam — não do modo como um filme acaba ou um livro acaba. Oh, a ameaça atual pode ser evitada ou vencida, mas haverá outra coisa dentro de um mês, pode ter certeza. O personagem continuará indefinidamente até que vendas fracas ou algum outro fator dite o cancelamento de sua revista. Mesmo então, o protagonista despossuído provavelmente encontrará espaço suficiente nas histórias de outros personagens para evitar o limbo total. A história raramente acaba, mesmo quando os títulos que a trazem cospem sangue e caem mortos a seus pés. Nem, a menos que você seja suficientemente sortudo para identificar uma série de sucesso quando estréia ou suficientemente rico para comprar as edições atrasadas depois, a história um dia começa. Qualquer pessoa que pegue uma revista em quadrinhos pela primeira vez pode estar certa de se encontrar no meio de um contínuo que pode ter começado antes do nascimento do leitor e que bem possivelmente continuará muito após sua morte.” Seu avô já lia Super-homem, como seus netos também lerão.
A ignorância desse passado traz a mim a frustração de estar perdendo alguma coisa e me levou a formar uma utopia: a de que, um dia, eu haveria de ler tudo que a DC publicara desde 1938, preferivelmente em ordem. Com isso, teria acesso a todo o histórico dos personagens. Poderia entender suas origens, poderes e relações entre si, e todas as referências (que freqüentemente apareciam) a histórias passadas. Estamos falando de centenas de edições anuais, perfazendo dezenas de milhares de edições no total. Apesar do que diz o bom-senso, não é impossível cumprir tal tarefa. De fato, ao tempo da Crise, a DC contratou gente para fazer justamente isso e tomar notas. Já faz mais de vinte anos, mas, se fosse hoje, a diferença seria mormente quantitativa; eu só precisaria de mais tempo.

Pouco depois da Crise, parei de ler DC. Parei, mas não desisti. O velho projeto continuou, dormente porém vivo. Aí, mais ou menos em 2003, a Panini começou a publicar DC no Brasil. De início, fui atraído pelos desenhos e comprei pouca coisa. Depois, fiquei intrigado com a história trágica da ascensão e queda de Hal Jordan (qualquer dia escrevo sobre ela) e com as histórias do Flash envolvendo o Hipertempo. Isso me trouxe de volta a ler DC e, gradual mas rapidamente, passei a comprar tudo que saía.

Só que eu tinha que recuperar o tempo perdido. Danei a catar todas as histórias relevantes do período 1985-2003, que havia perdido. Virei pesquisador da História das histórias da DC, absorvido pelo estudo de sua evolução, de como os quadrinhos retratam a mentalidade de sua época, de como diferentes Autores interpretam diferentemente seus personagens. O velho bjetivo de ler tudo passou a estar subordinado a uma motivação mais abrangente. Minha mente é provocada a discutir se vale a pena persegui-lo e se é viável.
Para atingir a meta de ler todas as histórias da DC, os principais problemas são três: (1) absoluta falta de tempo, já que tenho que trabalhar; (2) absoluta falta de dinheiro, já que o material é vasto; (3) crônica dificuldade de se enumerar quais são todas as edições publicadas até hoje, para saber o que ler. Afinal, não parece existir uma lista definitiva de tudo que já foi publicado pela DC ou pelas editoras que ela foi comprando pelo caminho.

Esse último problema tem sido rapidamente suavizado pela Internet. Os fãs de quadrinhos são numerosos e dedicados, e você se surpreenderia com o tamanho e a complexidade das bases de dados que são capazes de montar (só para exemplificar, dê uma olhada em DarkMark’s Comics Indexing Domain!, The Unofficial Guide to the DC Universe, Mike’s Amazing World of DC Comics, DC Cosmic Teams!, Flash: Those Who Ride the Lightning, SequArt Research & Literacy Organization e Superman Homepage). Até eu tenho minha pequena tabela, incluindo somente o material que adquiri mas ultrapassando 3200 linhas. Atendendo aos anseios dos românticos que idealizaram a Grande Rede, todos esses esforçados e criativos pesquisadores têm disponibilizado o resultado de seu trabalho, dando visibilidade a grandiosas obras de referência que, de outro modo, permaneceriam obscuras, conhecidas somente pelos vizinhos e amigos íntimos. A meu ver, o maior proveito da Internet é, justamente, pôr em contato as pessoas que têm interesses comuns, permitir a troca de informação entre elas e, com isso, multiplicar os frutos do sempre ingrato trabalho de quem garimpa esse tipo de material. E isso é feito gratuitamente, a benefício de pessoas como eu, que vivemos caçando listagens e glosas.

Naturalmente, o problema de preço é aumentado pelo fato de que edições antigas, em geral raras, custam uma fortuna. A mera importação do material também faz pensar duas vezes no que vale a pena comprar. Sob esses aspectos e também contribuindo para a rastreabilidade das histórias (assim abordando o terceiro problema), nos últimos anos a DC tem ajudado a vida do leitor ao publicar grandes compilações sob o título comum de Archives: The Batman Archives, The Superman Archives etc. Trata-se de seleções abrangentes de histórias, mormente dos anos 30 e 40 — o que a literatura especializada chama de Era de Ouro dos Quadrinhos, encerrada na DC em 1955. Infelizmente, a série Archives desafia o poder aquisitivo do leitor.

Após dezenas de títulos lançados nos Estados Unidos, Archives foram sucedidos por uma nova série onde as edições têm quinhentas páginas ou mais, também colecionando histórias antigas: Showcase Presents. O primeiro título a ser publicado em português saiu pela Panini no segundo semestre de 2007. O original Showcase Presents: Justice League of America tem o título brasileiro de Arquivo DC no. 1: Liga da Justiça da América.

Agora, a editora americana está iniciando uma nova solução. A série Chronicles pretende publicar todas as histórias dos personagens abordados, em impressão colorida mas a um preço acessível. O primeiro lançamento foi The Batman Chronicles vol. 1, que saiu em 05/09/2007 como Batman: Crônicas vol. 1. O título inclui todas as histórias do Batman, em ordem cronológica, desde Detective Comics #27, de maio de 1939, e abrangendo até mesmo as tiras de jornal. Nos Estados Unidos, a série já chegou ao volume 3 e tem a companhia de The Superman Chronicles.

Conforme comentei em outra ocasião, no momento em que comecei a ler histórias do início da Era de Prata (1956-1985), percebi-as ingênuas e fraquinhas. Quer dizer: a utopia só tem graça enquanto está lá no horizonte. Muitas vezes, quando vislumbramos uma amostra do sonho, sua verdadeira face acaba se revelando sem graça, e vemos que nossa idealização era apenas isso, sem correspondente no mundo real. Então, meu propósito de ler toda a produção da DC já não tem mais o mesmo brilho. Apesar de mais possível hoje do que já foi um dia, contraditoriamente o desejo menos.

Mesmo assim, adquiri e li Batman: Crônicas vol. 1, mesmo que a título de item de colecionador (que reluto em admitir que sou. Continuamente minto para mim mesmo: “só compro para ler, não para colecionar”, como se). A bem da verdade, o motivo da compra é outro. Sinto um compromisso diante do garoto que um dia pretendeu ler tudo da DC em ordem. Antes, eu tinha argumento para não atender àquele sonho. Agora que estão me oferecendo uma forma viável de começar a cumprir a promessa, de forma ordenada e segura, não posso omitir-me.

Qualquer coisa, é só disfarçar, dizer que estou lendo pelo “valor histórico”…

Monstro do Pântano: amor e morte. Resenha.

Meu problema é o seguinte. Às vezes, eu leio alguma história em quadrinhos, algum livro, ou vejo um filme que é uma genuína obra de arte, que me empolga e que quero dividir com alguém. O problema é que não tenho com quem. Posso contar para minha namorada, e ela vai ficar feliz em ver minha emoção, mas ela mesma tem que ler outras coisas, não tem tempo para as que li — e, se tivesse, estaria apenas seguindo minha trilha, não a dela, própria, escolhendo suas próprias leituras. Se eu contar para outra pessoa, vou ter que mostrar por que aquilo é interessante, por que me empolgou, explicar as referências, contar o estilo do Autor… Tanto para mim quanto para quem me escuta, isso nunca é a mesma coisa que ler, minha explicação nunca é suficiente, e isso é frustrante. É óbvio que o leitor só vai ter acesso, mesmo, se ler a obra em primeira mão. Pior do que isso é o fato de que aquilo que gosto de ler NUNCA interessa às pessoas com quem convivo todos os dias. Então, não tenho realmente a quem transmitir, com quem COMPARTILHAR o que leio ou vejo. Já reparei que isso acontece a vários belogueiros e acho que é por isso que eles acabaram criando seus belogues.

Veja meu caso agora, por exemplo. Há pouco tempo, li uma compilação do Monstro do Pântano, Swamp Thing: Love and Death, que é o segundo volume reunindo as histórias da segunda série do personagem e abrange o período de setembro de 1984 a março de 1985.

Permita-me um prólogo. Nos anos 50, a DC começou a publicar dois títulos de terror chamados House of Secrets e House of Mystery. Nos anos 70, esses títulos tornaram-se clássicos. Em cada uma das duas revistas, um dos dois irmãos Caim e Abel era o apresentador (bem à maneira de Rod Serling em Além da Imaginação e Night Gallery e do zelador-cadáver de Tales from the Crypt). Pois bem: House of Secrets #92 (julho de 1971) trouxe uma história passada no início do século XX, na qual um homem era assassinado e enterrado no pântano, transformando-se em um ser vegetal corpulento, mudo e melancólico, condenado a vagar entre a folhagem sem esperança de recuperar sua humanidade. O sucesso dessa história levou à estréia do título Swamp Thing em 1972.

Nesta série, ambientada no presente do leitor, o Monstro do Pântano tem uma origem trágica: Alec Holland, um jovem e brilhante botânico que trabalha em uma fórmula regeneradora de tecidos vegetais, é assassinado com uma bomba em seu laboratório químico e, em chamas, atira-se no pântano da Louisiana. Conforme a narrativa assim publicada, vê-se que as substâncias do laboratório, que o cobriram durante o incêndio, tiveram um efeito horrendo: ele retorna da água parada como uma criatura humanóide porém vegetal, em uma transformação que põe em dúvida se não seria melhor ter morrido. Típica origem de heróis de quadrinhos da Era de Prata. Ao longo das histórias, ele tenta recuperar sua humanidade.

Teoricamente, a primeira história (em HoM #92) servira como episódio piloto não intencional para a nova série, onde os eventos originais se repetiam e o Leitor era apresentado a um novo personagem nesta revista de terror da DC. Após o cancelamento da série em 1976, a DC ressuscitou-a em 1982 como The Saga of the Swamp Thing, cujo número 20 (de 1984) foi o primeiro escrito por Alan Moore.

Quando Moore assumiu o título do Monstro do Pântano, a revista não deixou de ser de terror, mas acontece que o Autor é genial. As histórias são de uma riqueza, de uma profundidade. Na Web, é fácil encontrar elogios ao clima criado por esse escriba, e a narrativa dele realmente é rica nas descrições, os desenhos são expressivos, mas isso não é tudo.

Em The Saga of the Swamp Thing #21 (fevereiro de 1984), lemos a segunda história escrita por Moore, intitulada “The Anatomy Lesson” e iniciadora da primeira compilação já publicada desta segunda série (The Saga of the Swamp Thing, sem subtítulo). Ali descobrimos que o Monstro nunca foi humano: quando o corpo de Alec Holland mergulhou no pântano, ele efetivamente morreu, mas sua mente foi preservada pela ação da fórmula regenerativa, incorporando-se a um tecido vegetal que imita a forma humana e crê ser o próprio Holland.

Na segunda compilação desta série, que ora comento, a primeira história é “The Burial” (The Saga of the Swamp Thing #28, de setembro de 1984). Ela confirma que o Monstro guarda a mente de Alec Holland, mas também que ele mesmo não é Holland, pois vemos o Monstro levar nos braços os restos mortais daquele que o gerou. Somente Moore conseguiria construir a macabra cena de um homem enterrando a si mesmo na terceira pessoa e inseri-la em um universo fantástico de modo a redefinir seu personagem. “The Burial” tem a importância de levar o Monstro a reconhecer sua natureza e a aceitar que nunca foi humano. Já o compararam a Hamlet pelo momento em que encara sua própria caveira e reflete sobre onde está sua humanidade.

Em outra das histórias, “Down Amongst the Dead Men” (Swamp Thing Annual #2, de janeiro de 1985), o Monstro visita o Céu e o Inferno. Pela primeira vez (que eu saiba), confirma-se que personagens como o Vingador Fantasma, o Desafiador e Etrigan habitam o mesmo universo DC. Mais tarde, em 1989, o tipo de histórias onde eles costumam aparecer seria segregado sob o selo Vertigo, sem deixar de integrar aquele universo. Com esta história, percebi que Moore foi o introdutor da idéia de legitimá-los e reuni-los como parte de uma visão única, um aspecto do mesmo universo multifacetado, o que é quase óbvio para o decenauta de hoje mas era inovador na época.

Encontrei somente uma inconsistência em “Down Amongst the Dead Men”: o Vingador Fantasma, fazendo o papel de Virgílio, acompanha o Monstro no Céu e alega não poder fazê-lo no Inferno. Na verdade, conforme veríamos adiante pela mão do próprio Moore (Secret Origins #10, de janeiro de 1987) e, depois, de Neil Gaiman (The Books of Magic #1, de dezembro de 1990), é no Céu que ele não pode entrar. Pois bem, é no Céu que o Monstro do Pântano encontra Alec Holland, o homem do qual ele surgiu, reafirmando que são criaturas distintas e que o primeiro não traz a alma do segundo.

De todo modo, é ou não é genial isto? O Autor explica o Inferno pela boca do demônio Etrigan: “pensa você que Deus construiu este lugar, desejando mal ao homem, e não luxúrias descontroladas ou espadas desembainhadas? Não Deus, meu amigo. A verdade é ainda mais
odiosa: estes salões foram escavados por homens enquanto ainda respiravam. Deus não é um pai ou severo policial distribuindo mimos ou punições a todos. Cada alma sobe ou desce por seu próprio capricho. Ele lamenta, mas não pode prevenir sua queda. Sofremos como escolhemos. Nada está faltando. Todos os tormentos são merecidos…”

A história seguinte, “Pog” (The Saga of the Swamp Thing #32, de janeiro de 1985), é um golpe baixo de Moore. É uma das histórias em quadrinhos mais sensíveis e pungentes que já li. O Autor constrói um clima de simpatia pelos personagens, retratados como bichinhos bunitinhos, mas o final é triste sem nenhuma surpresa. O ponto de vista é o de um visitante alienígena, e o Monstro do Pântano é apenas um personagem incidental — como, aliás, em quase todas as histórias da compilação. Apesar de teoricamente ser o protagonista, na prática ele atua apenas como um observador, e a ação ocorre pelas mãos de outros personagens. Semelhante a um episódio da série Clássica de Jornada nas Estrelas, “Pog” começa e termina com uma leitura do diário do capitão e acompanha a exploração de um planeta que parece aprazível mas que guarda segredos perigosos. Tem até um personagem semelhante a McCoy, que esconde sua profunda compaixão por trás de resmungos e pessimismo.

Depois de “Pog”, The Saga of the Swamp Thing #33 (fevereiro de 1985) inova mais uma vez com “Abandoned Houses”. Nesta história, a personagem Abby Cable, amante do Monstro, está sonhando. Seu sonho leva-a a uma fronteira brumosa onde Caim e Abel (em suas primeiras aparições desde o encerramento das duas séries) oferecem a ela a escolha entre um segredo e um mistério na respectiva casa. Ela opta pela Casa dos Segredos, onde descobre que o Monstro do Pântano das revistas Swamp Thing (1972-1976) e The Saga of the Swamp Thing (1982-então) é apenas mais um em uma longa linhagem de Monstros do Pântano, um dos quais havia sido o infeliz protagonista de HoM #92. A revelação vem com uma reprodução das páginas daquela revista de catorze anos antes. Com isso, Alan Moore unificou o Universo DC, trazendo para dentro dele uma história que, doutro modo, teria sido considerado apenas um esboço a esquecer. A prática é semelhante a trazer o Capitão Pike de volta para dentro do cânone de Jornada nas Estrelas com os episódios “The Menagerie”.

Em 1989, Neil Gaiman aproveitaria Caim e Abel em caráter permanente em sua série Sandman, mostrando-os como súditos do Perpétuo Sonho no Sonhar. Tendo sido o primeiro homicida e a primeira vítima, eles estão condenados a reviver sua história eternamente, nesse reino onde histórias são a justificativa de toda existência. Na verdade, Moore plantou uma semente com Swamp Thing, Gaiman cultivou-a com Sandman e os dois, embora sem cooperarem, criaram o ensejo para a DC reunir suas soturnas histórias de temática adultaTM no selo Vertigo. Note que tudo começou com o genial Alan Moore.

Um detalhe do maior interesse é a reação do enciumado Caim a Abel quando este pergunta se o primeiro se importa. “Importar-me? Por que eu deveria me importar? Acaso sou responsável por você?” Verifique o Gênesis, capítulo 4, versículo 9.

Na última página da história, primeiro painel, há outro detalhe. A jovem Abby acorda de seu sonho tormentoso, já dele não se lembra, e vemos, na parede atrás de sua cama, a reprodução de um quadro. Apesar da pouca definição, quem procura consegue ver que o quadro mostra um demônio risonho sentado sobre o peito de uma jovem que, apesar de dormir, tem o semblante aflito. É O Íncubo, de Füssli, representante do período romântico, um clássico que simboliza os terrores noturnos do inconsciente. Mais adiante na série, uma referência mais ostensiva seria feita ao mesmo quadro, mas sua aparição em “Abandoned Houses” tem um vínculo mais forte ao contexto.

A última história de Love and Death chama-se “Rite of Spring” e saiu originalmente em The Saga of the Swamp Thing #34 (março de 1985). Aqui se aborda um problema prático: como uma mulher e uma planta podem consumar uma união? Abby está apaixonada pelo Monstro do Pântano e ele por ela, mas não há compatibilidade funcional que os satisfaça. Ora, uma união física não é o verdadeiro fundamento da comunhão dos espíritos. Provando isso, o Monstro gera de seu corpo um tubérculo, que Abby consome. Ao fazê-lo, ela abre as portas da percepção, entrando em uma viagem de alucinações que, na verdade, são seu acesso a ver o mundo como o Monstro o vê. E o mundo transparece belo, unificado, coerente, múltiplo em sensações que a limitada mente humana não alcança. Essencialmente, a história representa como o maior presente de quem ama pode ser alucinógeno e fazer todo sentido, ensinando novas compreensões da beleza do mundo e realidade maior. A vigésima página chega a disfarçar uma inconfundível representação do órgão sexual feminino como se fora um florão simbólico, de textura vegetal.

A atuação de Alan Moore estendeu-se por cerca de cinqüenta edições de Swamp Thing (nome que a série retomou em março de 1986), tendo sido reunida em seis compilações. Dessas, tive acesso a cinco e recomendo todas. Os conceitos inovadores trazidos na primeira e na segunda compilação foram desenvolvidos adiante, mas Love and Death ainda é o volume que mais me marcou dos que li até agora. No volume seguinte, Swamp Thing: the Curse, somos apresentados ao cínico e admirável mago John Constantine (cuja estréia se deu em The Saga of the Swamp Thing #37), personagem com uma legião de fãs que o tem mantido em publicação até hoje.