Monstro do Pântano: amor e morte. Resenha.

Meu problema é o seguinte. Às vezes, eu leio alguma história em quadrinhos, algum livro, ou vejo um filme que é uma genuína obra de arte, que me empolga e que quero dividir com alguém. O problema é que não tenho com quem. Posso contar para minha namorada, e ela vai ficar feliz em ver minha emoção, mas ela mesma tem que ler outras coisas, não tem tempo para as que li — e, se tivesse, estaria apenas seguindo minha trilha, não a dela, própria, escolhendo suas próprias leituras. Se eu contar para outra pessoa, vou ter que mostrar por que aquilo é interessante, por que me empolgou, explicar as referências, contar o estilo do Autor… Tanto para mim quanto para quem me escuta, isso nunca é a mesma coisa que ler, minha explicação nunca é suficiente, e isso é frustrante. É óbvio que o leitor só vai ter acesso, mesmo, se ler a obra em primeira mão. Pior do que isso é o fato de que aquilo que gosto de ler NUNCA interessa às pessoas com quem convivo todos os dias. Então, não tenho realmente a quem transmitir, com quem COMPARTILHAR o que leio ou vejo. Já reparei que isso acontece a vários belogueiros e acho que é por isso que eles acabaram criando seus belogues.

Veja meu caso agora, por exemplo. Há pouco tempo, li uma compilação do Monstro do Pântano, Swamp Thing: Love and Death, que é o segundo volume reunindo as histórias da segunda série do personagem e abrange o período de setembro de 1984 a março de 1985.

Permita-me um prólogo. Nos anos 50, a DC começou a publicar dois títulos de terror chamados House of Secrets e House of Mystery. Nos anos 70, esses títulos tornaram-se clássicos. Em cada uma das duas revistas, um dos dois irmãos Caim e Abel era o apresentador (bem à maneira de Rod Serling em Além da Imaginação e Night Gallery e do zelador-cadáver de Tales from the Crypt). Pois bem: House of Secrets #92 (julho de 1971) trouxe uma história passada no início do século XX, na qual um homem era assassinado e enterrado no pântano, transformando-se em um ser vegetal corpulento, mudo e melancólico, condenado a vagar entre a folhagem sem esperança de recuperar sua humanidade. O sucesso dessa história levou à estréia do título Swamp Thing em 1972.

Nesta série, ambientada no presente do leitor, o Monstro do Pântano tem uma origem trágica: Alec Holland, um jovem e brilhante botânico que trabalha em uma fórmula regeneradora de tecidos vegetais, é assassinado com uma bomba em seu laboratório químico e, em chamas, atira-se no pântano da Louisiana. Conforme a narrativa assim publicada, vê-se que as substâncias do laboratório, que o cobriram durante o incêndio, tiveram um efeito horrendo: ele retorna da água parada como uma criatura humanóide porém vegetal, em uma transformação que põe em dúvida se não seria melhor ter morrido. Típica origem de heróis de quadrinhos da Era de Prata. Ao longo das histórias, ele tenta recuperar sua humanidade.

Teoricamente, a primeira história (em HoM #92) servira como episódio piloto não intencional para a nova série, onde os eventos originais se repetiam e o Leitor era apresentado a um novo personagem nesta revista de terror da DC. Após o cancelamento da série em 1976, a DC ressuscitou-a em 1982 como The Saga of the Swamp Thing, cujo número 20 (de 1984) foi o primeiro escrito por Alan Moore.

Quando Moore assumiu o título do Monstro do Pântano, a revista não deixou de ser de terror, mas acontece que o Autor é genial. As histórias são de uma riqueza, de uma profundidade. Na Web, é fácil encontrar elogios ao clima criado por esse escriba, e a narrativa dele realmente é rica nas descrições, os desenhos são expressivos, mas isso não é tudo.

Em The Saga of the Swamp Thing #21 (fevereiro de 1984), lemos a segunda história escrita por Moore, intitulada “The Anatomy Lesson” e iniciadora da primeira compilação já publicada desta segunda série (The Saga of the Swamp Thing, sem subtítulo). Ali descobrimos que o Monstro nunca foi humano: quando o corpo de Alec Holland mergulhou no pântano, ele efetivamente morreu, mas sua mente foi preservada pela ação da fórmula regenerativa, incorporando-se a um tecido vegetal que imita a forma humana e crê ser o próprio Holland.

Na segunda compilação desta série, que ora comento, a primeira história é “The Burial” (The Saga of the Swamp Thing #28, de setembro de 1984). Ela confirma que o Monstro guarda a mente de Alec Holland, mas também que ele mesmo não é Holland, pois vemos o Monstro levar nos braços os restos mortais daquele que o gerou. Somente Moore conseguiria construir a macabra cena de um homem enterrando a si mesmo na terceira pessoa e inseri-la em um universo fantástico de modo a redefinir seu personagem. “The Burial” tem a importância de levar o Monstro a reconhecer sua natureza e a aceitar que nunca foi humano. Já o compararam a Hamlet pelo momento em que encara sua própria caveira e reflete sobre onde está sua humanidade.

Em outra das histórias, “Down Amongst the Dead Men” (Swamp Thing Annual #2, de janeiro de 1985), o Monstro visita o Céu e o Inferno. Pela primeira vez (que eu saiba), confirma-se que personagens como o Vingador Fantasma, o Desafiador e Etrigan habitam o mesmo universo DC. Mais tarde, em 1989, o tipo de histórias onde eles costumam aparecer seria segregado sob o selo Vertigo, sem deixar de integrar aquele universo. Com esta história, percebi que Moore foi o introdutor da idéia de legitimá-los e reuni-los como parte de uma visão única, um aspecto do mesmo universo multifacetado, o que é quase óbvio para o decenauta de hoje mas era inovador na época.

Encontrei somente uma inconsistência em “Down Amongst the Dead Men”: o Vingador Fantasma, fazendo o papel de Virgílio, acompanha o Monstro no Céu e alega não poder fazê-lo no Inferno. Na verdade, conforme veríamos adiante pela mão do próprio Moore (Secret Origins #10, de janeiro de 1987) e, depois, de Neil Gaiman (The Books of Magic #1, de dezembro de 1990), é no Céu que ele não pode entrar. Pois bem, é no Céu que o Monstro do Pântano encontra Alec Holland, o homem do qual ele surgiu, reafirmando que são criaturas distintas e que o primeiro não traz a alma do segundo.

De todo modo, é ou não é genial isto? O Autor explica o Inferno pela boca do demônio Etrigan: “pensa você que Deus construiu este lugar, desejando mal ao homem, e não luxúrias descontroladas ou espadas desembainhadas? Não Deus, meu amigo. A verdade é ainda mais
odiosa: estes salões foram escavados por homens enquanto ainda respiravam. Deus não é um pai ou severo policial distribuindo mimos ou punições a todos. Cada alma sobe ou desce por seu próprio capricho. Ele lamenta, mas não pode prevenir sua queda. Sofremos como escolhemos. Nada está faltando. Todos os tormentos são merecidos…”

A história seguinte, “Pog” (The Saga of the Swamp Thing #32, de janeiro de 1985), é um golpe baixo de Moore. É uma das histórias em quadrinhos mais sensíveis e pungentes que já li. O Autor constrói um clima de simpatia pelos personagens, retratados como bichinhos bunitinhos, mas o final é triste sem nenhuma surpresa. O ponto de vista é o de um visitante alienígena, e o Monstro do Pântano é apenas um personagem incidental — como, aliás, em quase todas as histórias da compilação. Apesar de teoricamente ser o protagonista, na prática ele atua apenas como um observador, e a ação ocorre pelas mãos de outros personagens. Semelhante a um episódio da série Clássica de Jornada nas Estrelas, “Pog” começa e termina com uma leitura do diário do capitão e acompanha a exploração de um planeta que parece aprazível mas que guarda segredos perigosos. Tem até um personagem semelhante a McCoy, que esconde sua profunda compaixão por trás de resmungos e pessimismo.

Depois de “Pog”, The Saga of the Swamp Thing #33 (fevereiro de 1985) inova mais uma vez com “Abandoned Houses”. Nesta história, a personagem Abby Cable, amante do Monstro, está sonhando. Seu sonho leva-a a uma fronteira brumosa onde Caim e Abel (em suas primeiras aparições desde o encerramento das duas séries) oferecem a ela a escolha entre um segredo e um mistério na respectiva casa. Ela opta pela Casa dos Segredos, onde descobre que o Monstro do Pântano das revistas Swamp Thing (1972-1976) e The Saga of the Swamp Thing (1982-então) é apenas mais um em uma longa linhagem de Monstros do Pântano, um dos quais havia sido o infeliz protagonista de HoM #92. A revelação vem com uma reprodução das páginas daquela revista de catorze anos antes. Com isso, Alan Moore unificou o Universo DC, trazendo para dentro dele uma história que, doutro modo, teria sido considerado apenas um esboço a esquecer. A prática é semelhante a trazer o Capitão Pike de volta para dentro do cânone de Jornada nas Estrelas com os episódios “The Menagerie”.

Em 1989, Neil Gaiman aproveitaria Caim e Abel em caráter permanente em sua série Sandman, mostrando-os como súditos do Perpétuo Sonho no Sonhar. Tendo sido o primeiro homicida e a primeira vítima, eles estão condenados a reviver sua história eternamente, nesse reino onde histórias são a justificativa de toda existência. Na verdade, Moore plantou uma semente com Swamp Thing, Gaiman cultivou-a com Sandman e os dois, embora sem cooperarem, criaram o ensejo para a DC reunir suas soturnas histórias de temática adultaTM no selo Vertigo. Note que tudo começou com o genial Alan Moore.

Um detalhe do maior interesse é a reação do enciumado Caim a Abel quando este pergunta se o primeiro se importa. “Importar-me? Por que eu deveria me importar? Acaso sou responsável por você?” Verifique o Gênesis, capítulo 4, versículo 9.

Na última página da história, primeiro painel, há outro detalhe. A jovem Abby acorda de seu sonho tormentoso, já dele não se lembra, e vemos, na parede atrás de sua cama, a reprodução de um quadro. Apesar da pouca definição, quem procura consegue ver que o quadro mostra um demônio risonho sentado sobre o peito de uma jovem que, apesar de dormir, tem o semblante aflito. É O Íncubo, de Füssli, representante do período romântico, um clássico que simboliza os terrores noturnos do inconsciente. Mais adiante na série, uma referência mais ostensiva seria feita ao mesmo quadro, mas sua aparição em “Abandoned Houses” tem um vínculo mais forte ao contexto.

A última história de Love and Death chama-se “Rite of Spring” e saiu originalmente em The Saga of the Swamp Thing #34 (março de 1985). Aqui se aborda um problema prático: como uma mulher e uma planta podem consumar uma união? Abby está apaixonada pelo Monstro do Pântano e ele por ela, mas não há compatibilidade funcional que os satisfaça. Ora, uma união física não é o verdadeiro fundamento da comunhão dos espíritos. Provando isso, o Monstro gera de seu corpo um tubérculo, que Abby consome. Ao fazê-lo, ela abre as portas da percepção, entrando em uma viagem de alucinações que, na verdade, são seu acesso a ver o mundo como o Monstro o vê. E o mundo transparece belo, unificado, coerente, múltiplo em sensações que a limitada mente humana não alcança. Essencialmente, a história representa como o maior presente de quem ama pode ser alucinógeno e fazer todo sentido, ensinando novas compreensões da beleza do mundo e realidade maior. A vigésima página chega a disfarçar uma inconfundível representação do órgão sexual feminino como se fora um florão simbólico, de textura vegetal.

A atuação de Alan Moore estendeu-se por cerca de cinqüenta edições de Swamp Thing (nome que a série retomou em março de 1986), tendo sido reunida em seis compilações. Dessas, tive acesso a cinco e recomendo todas. Os conceitos inovadores trazidos na primeira e na segunda compilação foram desenvolvidos adiante, mas Love and Death ainda é o volume que mais me marcou dos que li até agora. No volume seguinte, Swamp Thing: the Curse, somos apresentados ao cínico e admirável mago John Constantine (cuja estréia se deu em The Saga of the Swamp Thing #37), personagem com uma legião de fãs que o tem mantido em publicação até hoje.