As primeiras histórias do homem que avoa

Prosseguindo na realização da utopia, estou lendo Superman: crônicas: volume um, na mesma linha do então já comentado Batman: crônicas. São as quinze primeiras histórias do Super-homem, em ordem cronológica, todas de 1938-1939.

Ali se vê que Clarque Quente já usava cueca para fora da calça, embora não voasse (só saltasse bem alto e longe) e, às vezes, usasse disfarces para se passar por outrem.

A maioria das histórias não tinha nome quando originalmente lançadas. Uma delas é a de Action Comics #5 (outubro de 1938), que foi denominada “The Big Scoop” (“O Grande Furo de Reportagem”) ao ser reproduzida em Superman Archives vol. 1 e “Superman and the Dam” (“Super-homem e a represa”) neste Chronicles. Esta história mostra o kryptoniano desentortando uma ponte ferroviária para o trem não descarrilar e, em seguida, segurando uma barragem para que a inundação não atinja uma cidade próxima. Quando ele não consegue conter a fúria devastadora das águas, o carro de Lois Lane (que estava indo justamente cobrir esse evento) é atingido e submerso, e ela fica inconsciente dentro da bolha de ar. Nosso herói chega a tempo de resgatá-la até a superfície e desviar o curso da torrente, evitando danos maiores.

Você notou a semelhança? Com algumas adaptações, esses acontecimentos fazem parte do clímax de Superman: o filme, de 1978. As diferenças foram (1) que SH deitou sobre um intervalo nos trilhos da ponte para que o trem passasse por cima dele e não saísse da linha e (2) que o carro da mocinha foi colhido por uma fenda aberta por um terremoto, em vez de pela água. De resto é igual.

Anúncios

Perdi a razão de viver

No Brasil, os quadrinhos da DC Comics são publicados da seguinte forma: cada edição original americana é traduzida junto com duas ou três outras e essas três ou quatro são publicadas em uma só edição brasileira. Assim, por exemplo, Superman/Batman #31 (jan/2007), Aquaman #45 (nov/2006), Green Arrow #66 (nov/2006) e Green Lantern Corps #5 (dez/2006) saem juntas em Superman & Batman no. 29 (nov/2007) no Brasil.

Faz alguns anos que venho sonhando em fazer uma gigantesca base de dados que relacione as edições brasileiras às americanas e vice-versa. Assim, cada entrada para uma edição brasileira mostraria quais as revistas originais que a compõem, e cada americana teria mencionada de qual edição brasileira faz parte. Isso sem falar no detalhamento de título da história, escritor, editor, desenhista e colorista etc.

Alguns websites fazem um excelente trabalho nesse sentido. Um dos melhores que vi até agora foi o Inutiologia, de Lucio Luiz. Já eu, modéstia à parte, orgulho-me de minha tabela com mais de 3800 linhas (e crescendo) que relaciona o conteúdo de todos os quadrinhos que tenho, com meses originais de publicação e seus correspondentes no Brasil. Uma tremenda ferramenta, que começou em Word e logo migrou para Excel, sempre com o propósito único de me permitir ler tudo na ordem (dentro da utopia que já comentei aqui).

Agora, é o seguinte. Encontrei dois saites. Um tem toda a informação que você procura sobre as edições originais: reprodução da capa, semana exata de publicação, e título e equipe criativa de cada história. Chama-se Mike’s Amazing World of DC Comics e merece o nome.

O outro saite é brasileiro e faz exatamente o que eu tanto queria fazer. E eu crente que era o primeiro a pensar nisso. Bem, pelo menos eles encararam a tarefa, e devo dizer que com ótimo resultado (já foi útil à minha tabela ao me expor o conteúdo de Superman no. 1 da EBAL, de 1947). Chama-se Guia dos Quadrinhos e acaba de tornar minha vida inútil. Preciso urgentemente de uma nova razão de viver.

(Não estou me queixando. Na verdade, eu queria que alguém fizesse aquilo que não tenho tempo de fazer, porque a idéia é valiosa demais para permanecer não executada.)

Você entuba

O YouTube realmente é uma tremenda máquina de marketing viral. Uma pessoa indica um vídeo a outra, que indica a outra, e em poucos dias milhares já assistiram. Hoje, indico cinco vídeos para você.

1. Dambusters à la Star Wars
Um dos episódios bastante documentados e conhecidos da II Guerra Mundial foi o ataque às represas do Ruhr. O Engenheiro Barnes Wallis, idolatrado pelos ingleses, concebeu uma bomba que seria capaz de destruir os paredões de concreto dessas represas alemãs, desse modo interrompendo o fornecimento de energia hidrelétrica das aciarias e fábricas da região. A Real Força Aérea criou o Esquadrão 617 “Dambusters” especialmente para essa missão, adaptando vários bombardeiros Lancaster Mk I e incumbindo Guy Gibson do comando dessa tarefa secreta, arriscada e considerada importante.

Um dos inconvenientes da bomba é que, para um lançamento de sucesso, a aeronave tinha que vir voando baixo e reto sobre a represa e sob o fogo da antiaérea. O ponto de liberação tinha que ser exato e podia ser encontrado pelo bombardeador através de uma mira rudimentar e de um par de holofotes, apontados da barriga do avião para a água, que, se formassem o desenho de um oito, indicavam a altura correta.

A missão foi um sucesso e levou à criação do filme The Dam Busters, que, em 1954, pretendeu reproduzir os eventos com a maior fidelidade possível. O filme é um clássico de guerra. Na semana passada, descobri que foi no clímax do filme que Jorge Lucas se baseou para criar a igualmente clássica cena do ataque rebelde à Estrela da Morte no primeiro Star Wars. Ao que consta, até os diálogos são iguais, e isso explica por que um X-wing tinha que vir de cada vez e demorar a fazer pontaria para dar seu único tiro.

A propósito, The Dam Busters é o filme em preto e branco a que o personagem Pink Floyd está assistindo ao longo de The Wall, de 1982.

Então, juntando as cenas do filme original com a trilha de som de Star Wars, um fã criou isto.

2. Outro criou isto.

3. Star Trekking Across the Universe — esse vídeo era muito popular no início dos anos 90, mas assista por sua conta e risco.

4. Aqui, o que acontece quando a Enterprise-D enfrenta a mesma Estrela da Morte.

5. E, por último, Jesus Christ — the Musical.

Os vários usos da salinha do café

Acabei de voltar do almoço e fui me servir do cafèzinho. Pois foi assim que descobri que a faxineira se esconde na salinha do café. Tava lá, sentada, olhando p’ra parede.

Biografia do Sr Atoz: dos sete aos treze

Quando eu era mais miúdo, meu principal passatempo era a leitura. Na verdade, ainda é, mas estamos falando do período em que eu estava no primeiro grau, hoje dito “ensino fundamental”. Naquele tempo, eu tinha dezenas de livros, depois promovidas a centenas.

Às vezes eu ia brincar na casa dos amigos, ou ia a festas de aniversário — vocês conhecem o esquema. Acontece que eu estudava em um colégio onde todos os garotos provinham de famílias mais ricas do que a minha. Então, ao entrar na casa deles, eu via uma enorme oportunidade: se eu tinha tantos livros, e se os pais deles eram tão mais ricos do que o meu, eu imaginava que eles tivessem inúmeros livros, todos enormes, ilustrados, sobre todo tipo de assunto, quiçá em outras línguas. Livros importados, caríssimos, livros que meu pai não podia pagar e que eu, compreensivo, nem lhe pedia, mas cobiçava nas livrarias. Eu tinha que explorar essas bibliotecas domésticas, absorver quanto pudesse, admirar e apreciar. Para mim, essa era a parte mais valiosa das visitas, muito mais do que os carrinhos ou o vidiuguêime. Por isso, eu sempre pedia para ver os livros deles.

Meus anfitriões sempre tinham a mesma reação. Primeiro, estranhavam: “livros?” Depois, querendo receber-me tão bem, faziam o melhor que podiam: levavam-me até seu quarto, onde, sobre uma prateleira no canto, eu encontrava exatamente os mesmos livros que já conhecia da escola. Os mesmos livros de Português e Matemática, os mesmos paradidáticos daquele ano. Com sorte, os do ano anterior ainda estavam lá, e um ou dois que a escola não tivesse exigido mas que, muitas vezes, eu também tinha. Naturalmente, meus colegas ficavam intrigados: por que eu quereria ver os livros deles, se os meus eram os mesmos?

Não menos naturalmente, eu ficava decepcionado e perplexo. Como criança tem pouco tato, perguntava, só esses? A isso, vários respondiam ainda mais intrigados mas com a mesma boa vontade: coçavam a cabeça, meio perdidos, e comentavam, “é… eu acho que o meu pai tem uns livros aí”. Muitas vezes, os apartamentos tinham uma pequena biblioteca, aonde me levavam: sisudos livros de Medicina ou Direito e coleções de clássicos da Literatura. Em outras ocasiões, levavam-me ao quarto de empregada, onde uma prateleira, fora de alcance, abrigava empoeiradas enciclopédias de capa monótona no lugar mais distante da luz possível. Ou onde os livros estavam disciplinadamente arrumados em caixas de papelão, prontos para a próxima mudança da família.

Isso me dava uma frustração danada. E também me intrigava muito: como podiam não ter livros? Era só isso mesmo? Será que não estavam escondendo nada de mim, julgando que eu fosse destruir seus pertences? Mas eu tratava os livros alheios como relíquias de culto, jamais seria capaz de profaná-los…

Além disso, os livros de meus colegas estavam sempre em perfeito estado. As bordas não tinham qualquer amassado, as capas nenhum risco, os cantos das páginas não estavam virados pelo uso. Você poderia jurar que os livros estavam tão intocados como se estivessem na livraria, a ponto de as folhas ainda guardarem aquela compactação que só é possível quando nunca foram abertas. Quando eu abria os livros colados, as lombadas chegavam a estalar, indicando que eu era o primeiro leitor a desvirginá-los, o que me dava o ambíguo sentimento de estar invadindo território alheio, ainda que com permissão.

Já os meus livros, você pode imaginar, eram o oposto disso: amassados, com as pontas viradas para cima, as lombadas cheias daquelas rugas de abertura freqüente, com ocasionais manchas de meus dedos sujos de caramelo. Aviões de guerra número 34 ainda tem a mancha de meu sangue deixada por um mosquito infeliz, colhido por distração minha. Então, eu ficava me sentindo culpado, achando que não tratava meus livros tão bem quanto meus colegas. Pois veja — dizia-me –, veja como conseguem ler todos e ainda guardá-los tão bem a ponto de as folhas se colarem novamente.

Mal sabia eu, não é mesmo? Foi só após a maioridade que me dei conta da verdade, ao me deparar com pessoas normais e descobrir que ninguém sabia *nada* sobre os romanos e egípcios, os bichos e as máquinas, ou que língua se fala na Jamaica, ou que o Hindenburg era recheado de hidrogênio, ou que enxofre no combustível causa chuva ácida, ou que Cervantes foi quem escreveu Dom Quixote, ou sei lá o quê. Não, eu também não sei nada de nada, mas sei aquilo que a escola me ensinou, sei o que vi em todos aqueles livros, e considerava inadmissível que não tivessem aquele mínimo essencial, sem o qual não se vive. Eu também não entendia como era possível que pessoas educadas, pessoas que haviam ido à escola, continuassem dizendo “por causa que” ou “pra mim fazer”.

E foi então, somente então, que entendi que essas pessoas eram os meus colegas já crescidos, e que sua infância havia sido bem diferente da minha. Sim, sou lento. Talvez seja mais apropriado dizer que eu seja iludido.

Esta mensagem é minha pequena homenagem à Bárbara, à Letícia e à pequena notável cuja privacidade prefiro preservar. Continuemos carpindo, minhas caras, que o dia é longo e não vai dar tempo de ler todos os livros.

P.S. Acho que tenho resmungado muito. Belogues são para isso mesmo, para o que chamam de desabafo mas que não passa de resmungo. Só que acho que estou reclamando demais dos outros. Então, vamos fazer o seguinte: qualquer hora eu venho aqui e conto o que aprendi recentemente sobre os celtas. É muito mais interessante.

Alforria

No último dia 11, estive no palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil (a mesma do filme com a Arlette de Cascadura). Fui, pela última vez, cumprir com meu cívico dever militar.

Muita gente não sabe, mas todo brasileiro que já serviu tem que, nos cinco anos após sua baixa, procurar a sede da Região Militar e se apresentar, dizer que está vivo e onde mora. Esse foi meu quinto ano.

Pois bem. Pela terceira vez consecutiva (teve dois anos em que faltei por não conhecer a lei, mas paguei a multa e estou regular), o sargento que me atendeu perguntou se eu servi mesmo. Pelo terceiro ano, pediu-me para preencher a ficha que já deveriam ter pronta. Pela terceira vez, disse que o quartel onde servi não lhes comunicou nada. Pela terceira vez, disse que vão ter que mandar um ofício para lá.

Aliás, é engraçado. Se, nos dois anos anteriores, eu preenchi aquela fichinha, pergunto onde é que a enfiam para eu sempre ter que preencher tudo de novo. Veja bem, não estou dizendo que os militares sejam mais desorganizados do que a média das pessoas. São apenas tão organizados quanto a média das pessoas; faça você as contas para ver quanto é isso.

Nos minutos em que eu preenchi a ficha, percebi que o chefe do setor era um coronel. Isso foi um tremendo apigreide, porque, nos dois anos anteriores, era um segundo-tenente. Aí você fica pensando, ou é falta de pessoal ou é excesso. Mas patético mesmo foi ver que ele estava tão ocupado com o que fazia que, quando entrou um soldado para consertar o condicionador de ar, o Sr. Coronel se agarrou à oportunidade de quebrar o tédio. Ficou concentradíssimo no ofício do visitante e logo disparou: “é a ventoinha, né?” (Alguém por favor explique a ele que condicionador de ar não tem ventoinha. Tem ventilador, mas ventoinha não.)

Essas duas situações lembram-me a carta que recebi há um ano ou dois. Um outro coronel enviou-me uma pesquisa pelo correio. O Exército estava preocupado com a evasão de seus engenheiros e ele me perguntava o porquê de minha saída. Só que a carta vinha num envelope datado de 7 DE DEZEMBRO (aliás a date that will live in infamy), pedindo-me para responder até 4 DE DEZEMBRO. Como eu ainda não aprendi a pilotar DeLoreans com capacitores de fluxo, respondi por email dizendo, em síntese, o seguinte: sua carta é um perfeito exemplo de por que saí, e não é necessário explicar mais nada.

Você acredita que o cara me escreveu de volta pedindo desculpas e insistindo para que eu respondesse? Mas agora só volto quando o Brasil entrar em guerra com a Argentina.

Interrupção nos serviços do jornal

O jornal O Globo On de hoje, terça, 18/07, traz notícia de uma interrupção nos serviços do Metrô Rio.

Primeiro, diz que os trens que vinham de outros pontos, como PRAÇA XV, também foram afetados. Ora, não há estação do metrô na praça XV. Há, isto sim, na Praça Onze. Roga-se ao jornal que verifique se ao menos faz sentido o que diz. Correção é fundamental para a credibilidade.

Depois, diz que os passageiros que passaram mal foram atendidos no hospital Souza Aguiar. “Todos já foram liberados e passam bem, garantiu a concessionária.”

Que raio de jornalismo conformista é esse que simplesmente repete o que diz a parte mais interessada em mentir? Não estou dizendo que o Metrô mentiu, mas que o autodenominado jornalista não foi atrás dos fatos nem foi ouvir o outro lado. Limitou-se a reproduzir as declarações do Metrô, sem verificá-las. Foi para isso que estudou durante quatro anos? É esse o papel social do jornalista?

Alguns jornalistas gostam de divulgar a importância de sua atuação contra os abusos do Poder Público. Gostam de se arrogar em fiscais da sociedade. Quis custodies ipsos custodes? De onde vejo, quem escreveu a matéria está longe de honrar essa tradição.