Alforria

No último dia 11, estive no palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil (a mesma do filme com a Arlette de Cascadura). Fui, pela última vez, cumprir com meu cívico dever militar.

Muita gente não sabe, mas todo brasileiro que já serviu tem que, nos cinco anos após sua baixa, procurar a sede da Região Militar e se apresentar, dizer que está vivo e onde mora. Esse foi meu quinto ano.

Pois bem. Pela terceira vez consecutiva (teve dois anos em que faltei por não conhecer a lei, mas paguei a multa e estou regular), o sargento que me atendeu perguntou se eu servi mesmo. Pelo terceiro ano, pediu-me para preencher a ficha que já deveriam ter pronta. Pela terceira vez, disse que o quartel onde servi não lhes comunicou nada. Pela terceira vez, disse que vão ter que mandar um ofício para lá.

Aliás, é engraçado. Se, nos dois anos anteriores, eu preenchi aquela fichinha, pergunto onde é que a enfiam para eu sempre ter que preencher tudo de novo. Veja bem, não estou dizendo que os militares sejam mais desorganizados do que a média das pessoas. São apenas tão organizados quanto a média das pessoas; faça você as contas para ver quanto é isso.

Nos minutos em que eu preenchi a ficha, percebi que o chefe do setor era um coronel. Isso foi um tremendo apigreide, porque, nos dois anos anteriores, era um segundo-tenente. Aí você fica pensando, ou é falta de pessoal ou é excesso. Mas patético mesmo foi ver que ele estava tão ocupado com o que fazia que, quando entrou um soldado para consertar o condicionador de ar, o Sr. Coronel se agarrou à oportunidade de quebrar o tédio. Ficou concentradíssimo no ofício do visitante e logo disparou: “é a ventoinha, né?” (Alguém por favor explique a ele que condicionador de ar não tem ventoinha. Tem ventilador, mas ventoinha não.)

Essas duas situações lembram-me a carta que recebi há um ano ou dois. Um outro coronel enviou-me uma pesquisa pelo correio. O Exército estava preocupado com a evasão de seus engenheiros e ele me perguntava o porquê de minha saída. Só que a carta vinha num envelope datado de 7 DE DEZEMBRO (aliás a date that will live in infamy), pedindo-me para responder até 4 DE DEZEMBRO. Como eu ainda não aprendi a pilotar DeLoreans com capacitores de fluxo, respondi por email dizendo, em síntese, o seguinte: sua carta é um perfeito exemplo de por que saí, e não é necessário explicar mais nada.

Você acredita que o cara me escreveu de volta pedindo desculpas e insistindo para que eu respondesse? Mas agora só volto quando o Brasil entrar em guerra com a Argentina.