Biografia do Sr Atoz: dos sete aos treze

Quando eu era mais miúdo, meu principal passatempo era a leitura. Na verdade, ainda é, mas estamos falando do período em que eu estava no primeiro grau, hoje dito “ensino fundamental”. Naquele tempo, eu tinha dezenas de livros, depois promovidas a centenas.

Às vezes eu ia brincar na casa dos amigos, ou ia a festas de aniversário — vocês conhecem o esquema. Acontece que eu estudava em um colégio onde todos os garotos provinham de famílias mais ricas do que a minha. Então, ao entrar na casa deles, eu via uma enorme oportunidade: se eu tinha tantos livros, e se os pais deles eram tão mais ricos do que o meu, eu imaginava que eles tivessem inúmeros livros, todos enormes, ilustrados, sobre todo tipo de assunto, quiçá em outras línguas. Livros importados, caríssimos, livros que meu pai não podia pagar e que eu, compreensivo, nem lhe pedia, mas cobiçava nas livrarias. Eu tinha que explorar essas bibliotecas domésticas, absorver quanto pudesse, admirar e apreciar. Para mim, essa era a parte mais valiosa das visitas, muito mais do que os carrinhos ou o vidiuguêime. Por isso, eu sempre pedia para ver os livros deles.

Meus anfitriões sempre tinham a mesma reação. Primeiro, estranhavam: “livros?” Depois, querendo receber-me tão bem, faziam o melhor que podiam: levavam-me até seu quarto, onde, sobre uma prateleira no canto, eu encontrava exatamente os mesmos livros que já conhecia da escola. Os mesmos livros de Português e Matemática, os mesmos paradidáticos daquele ano. Com sorte, os do ano anterior ainda estavam lá, e um ou dois que a escola não tivesse exigido mas que, muitas vezes, eu também tinha. Naturalmente, meus colegas ficavam intrigados: por que eu quereria ver os livros deles, se os meus eram os mesmos?

Não menos naturalmente, eu ficava decepcionado e perplexo. Como criança tem pouco tato, perguntava, só esses? A isso, vários respondiam ainda mais intrigados mas com a mesma boa vontade: coçavam a cabeça, meio perdidos, e comentavam, “é… eu acho que o meu pai tem uns livros aí”. Muitas vezes, os apartamentos tinham uma pequena biblioteca, aonde me levavam: sisudos livros de Medicina ou Direito e coleções de clássicos da Literatura. Em outras ocasiões, levavam-me ao quarto de empregada, onde uma prateleira, fora de alcance, abrigava empoeiradas enciclopédias de capa monótona no lugar mais distante da luz possível. Ou onde os livros estavam disciplinadamente arrumados em caixas de papelão, prontos para a próxima mudança da família.

Isso me dava uma frustração danada. E também me intrigava muito: como podiam não ter livros? Era só isso mesmo? Será que não estavam escondendo nada de mim, julgando que eu fosse destruir seus pertences? Mas eu tratava os livros alheios como relíquias de culto, jamais seria capaz de profaná-los…

Além disso, os livros de meus colegas estavam sempre em perfeito estado. As bordas não tinham qualquer amassado, as capas nenhum risco, os cantos das páginas não estavam virados pelo uso. Você poderia jurar que os livros estavam tão intocados como se estivessem na livraria, a ponto de as folhas ainda guardarem aquela compactação que só é possível quando nunca foram abertas. Quando eu abria os livros colados, as lombadas chegavam a estalar, indicando que eu era o primeiro leitor a desvirginá-los, o que me dava o ambíguo sentimento de estar invadindo território alheio, ainda que com permissão.

Já os meus livros, você pode imaginar, eram o oposto disso: amassados, com as pontas viradas para cima, as lombadas cheias daquelas rugas de abertura freqüente, com ocasionais manchas de meus dedos sujos de caramelo. Aviões de guerra número 34 ainda tem a mancha de meu sangue deixada por um mosquito infeliz, colhido por distração minha. Então, eu ficava me sentindo culpado, achando que não tratava meus livros tão bem quanto meus colegas. Pois veja — dizia-me –, veja como conseguem ler todos e ainda guardá-los tão bem a ponto de as folhas se colarem novamente.

Mal sabia eu, não é mesmo? Foi só após a maioridade que me dei conta da verdade, ao me deparar com pessoas normais e descobrir que ninguém sabia *nada* sobre os romanos e egípcios, os bichos e as máquinas, ou que língua se fala na Jamaica, ou que o Hindenburg era recheado de hidrogênio, ou que enxofre no combustível causa chuva ácida, ou que Cervantes foi quem escreveu Dom Quixote, ou sei lá o quê. Não, eu também não sei nada de nada, mas sei aquilo que a escola me ensinou, sei o que vi em todos aqueles livros, e considerava inadmissível que não tivessem aquele mínimo essencial, sem o qual não se vive. Eu também não entendia como era possível que pessoas educadas, pessoas que haviam ido à escola, continuassem dizendo “por causa que” ou “pra mim fazer”.

E foi então, somente então, que entendi que essas pessoas eram os meus colegas já crescidos, e que sua infância havia sido bem diferente da minha. Sim, sou lento. Talvez seja mais apropriado dizer que eu seja iludido.

Esta mensagem é minha pequena homenagem à Bárbara, à Letícia e à pequena notável cuja privacidade prefiro preservar. Continuemos carpindo, minhas caras, que o dia é longo e não vai dar tempo de ler todos os livros.

P.S. Acho que tenho resmungado muito. Belogues são para isso mesmo, para o que chamam de desabafo mas que não passa de resmungo. Só que acho que estou reclamando demais dos outros. Então, vamos fazer o seguinte: qualquer hora eu venho aqui e conto o que aprendi recentemente sobre os celtas. É muito mais interessante.