A incrível materialização súbita dos eletrodomésticos

No último sábado, estive em uma loja de uma grande cadeia que vende eletrodomésticos. Olhei alguns modelos de máquinas de lavar roupa e chamei a vendedora. O diálogo abaixo realmente aconteceu.

— Aqueles preços ali incluem frete?

— Não.

— Então, quanto é o frete?

— ! (Com cara de espanto e um pouco ofendida:) Não custa nada, é de graça! O (nome da loja) faz questão de entregar o produto no local!

Fico pensando. O preço não inclui frete, e o frete é de graça. Será mesmo possível? A vendedora parece acreditar que um caminhão mágico milagroso sùbitamente aparece e entrega a máquina a custo zero. A loja chama, o Papai Noel vem, põe no trenó e aparece na porta da sua casa, com a pranchetinha, pedindo para você assinar aqui.

Melhor do que isso, só mesmo a vergonha que presenciei em Aracaju na noite de 21/01/2008. No saguão do hotel Ibis, um sujeito de terno discursava para meia dúzia de vítimas em volta da mesa. Ele contava das perspectivas para quem aderisse ao negócio que estava propondo: você paga a mensalidade. Aí, em uma semana, você tem que chamar mais duas pessoas. Cada uma delas, por sua vez, paga para você e chama outras duas. E cada uma outras duas. E assim por diante, até que, por meio de outra matemática milagrosa, em cinco semanas você está ganhando mais de nove mil reais. Aí, conforme seu resultado, você vai sendo promovido a supervisor, ou a membro ouro, diamante, sei lá. E ganha um fim de semana num resorte à beira-mar.

Na verdade, considero o golpe muito justo, porque explora a ganância: a vítima não é nada inocente. Mas é mesmo engraçado como ninguém pensa um minuto. Para um negócio desses se manter, o cara tem que consistentemente encontrar novas vítimas toda semana, fazendo potências de dois até que, pelos meus cálculos grosseiros, em menos de sete meses TODA a população do Brasil (cada velho, homem, mulher, criança e molambo) estará pagando a mensalidade do cara. Parece aquela história da recompensa do cara que inventou o xadrez, a ser paga em grãos de trigo. Por menos do que isso, a Albânia quase faliu nos anos 90: um terço do país entrou em um esquema de pirâmide e perdeu tudo.