Não com um dilúvio, mas em chamas

Com grande atraso, estive lendo uma reportagem na AIR International de julho de 2005, sobre os quase quarenta anos de bombas nucleares táticas mantidas pela Real Força Aérea.

A gente, que vive no pós-Guerra Fria, acaba não tendo uma dimensão de como era o mundo. Pois as superpotências mantinham bombas atômicas em vários lugares. A gente fica com a impressão de que tudo eram mísseis, que seriam lançados dos EUA para atingirem a União Soviética e vice-versa, mas isso foi só no final. Até (mais ou menos) 1962, o meio de entrega eram bombardeiros tripulados, que teriam que sobrevoar o inimigo e despejar sua carga mortal. Então, muito tempo era gasto em reconhecimento de rotas e defesas, planejamento e muito treinamento. Os pilotos eram regularmente enviados em exercícios pelo mundo, treinando penetrações em território hostil. Radares eram dispostos, mísseis antiaéreos espalhados, e todos os modelos novos de aviões eram criados visando a atacar ou a defender contra um ataque nuclear. Muitos milhões, na verdade bilhões, de dólares, libras e rublos foram gastos nesses procedimentos, comprando equipamento mais moderno, fazendo manutenção e gastando combustível sem remorso nem pudor.

E isso era o lado estratégico, dedicado a destruir cidades e indústrias. Havia também o lado tático: pequenos aviões, cujos pilotos eram treinados a atingir alvos menores como navios e colunas de tanques. Pensando nesses, havia bombas nucleares cada vez menores, para que pudessem transportá-las, cargas de profundidade nucleares contra submarinos (por um tempo consideradas o “meio mais eficaz” de eliminá-los), e até artilharia de campanha com granadas nucleares.

Mas a gente, às vezes, ainda não tem mesmo uma idéia muito clara de nada disso. Então, baste dizer que inúmeros pilotos ficavam em alerta mesmo em momentos sem crise mundial, vestidos e equipados dentro de aviões abastecidos, prontos para decolar quando viesse a ordem. Era o regime de QRA (alerta de reação rápida): revezavam-se em plantões permanentes, havendo sempre alguns pilotos nessas condições, sentados nos cockpits, esperando a ordem que, para nossa ventura, nunca veio. “Ao silvo de apito”, tinham quinze minutos para estarem no ar, a caminho de Kiev ou de algum outro lugar infeliz, tendo decolado de bases aéreas situadas em lugares tão variados como Diego García, Kadena (no Japão), Alasca ou França, todos ao mesmo tempo.

Houve um período de alguns anos durante o qual os Estados Unidos mantiveram vários B-52 no ar, simultaneamente, contìnuamente, 24/7, prontos para seguirem rumo à Sibéria, com bombas reais nas barrigas. Foi por causa deles que se desenvolveram as técnicas de reabastecimento no ar: os aviões-tanques eram dedicados exclusivamente aos bombardeiros, e foi só em anos bem mais recentes que os caças passaram a usá-los também. Essa prática só parou quando houve alguns acidentes e, até hoje, existe pelo menos uma bomba H no fundo do oceano Atlântico, ao largo das Canárias.

Foi uma época em que se cunharam termos como “saturação de defesas”, “primeiro ataque” (no sentido de não haver um segundo, da parte de ninguém) e o hoje famoso ground zero. Não percebíamos, mas estávamos a isto aqui (aperta os dedos para mostrar) de acabarmos em um inverno nuclear, banhados em calor escaldante, radiação dos resíduos atmosféricos e frio infernal, nessa ordem.

Nos anos 80, vários livros foram publicados com base em cenários plausíveis de como nossa última guerra começaria e se desenrolaria. Eram hipóteses construídas pelos generais e estrategistas, com forte fundo pragmático e estudadas em ambientes acadêmicos militares. Invariàvelmente, o conflito começava ou nos Bálcãs ou no Oriente Médio, com uma das superpotências intervindo em um conflito local e, rapidamente, a escalada levando a mesma superpotência ou a outra ao emprego de um engenho nuclear tático. Daí a um ataque retaliativo em massa ao território do outro seria questão de horas.

É curioso como os últimos doze anos têm demonstrado o acerto dessas previsões, pelo menos (e felizmente apenas) a parte de como o conflito começa.

Pois bem. Eu estava para escrever isso desde ontem. Com os recentes desdobramentos no Kosovo, não pude deixar de vir complementar dizendo o seguinte: apesar de todo esse risco a que nos submetemos, conseguimos ficar os últimos 62 anos sem que ninguém jogasse uma bomba atômica de propósito na cabeça dos outros.

Agora, do jeito como as coisas vão, parece que tem gente querendo estragar esse histórico. Porque é assim que começa.