Conversas furtadas

O título deste post é uma referência a este belogue. Quando estou empacotado no metrô, mal podendo me mexer entre braços e bolsas, não tenho o que ler nem em que me concentrar. Então, perdoem-me se acabo ouvindo a conversa alheia (de todo modo, não deviam falar tão alto).

Algumas semanas atrás, ouvi um camarada explicar a outro que nem sempre houve Internet. Mais que isso: o ouvinte parecia não saber, então o falante explicava, que o Google não nasceu junto com a Internet e que, alguns anos atrás, havia vários outros mecanismos de busca, hoje desconhecidos.

Essa conversa me chocou levemente por várias razões. Uma delas é a mais óbvia, que a memória do mundo é curta e a juventude realmente nasceu ontem. Ainda me lembro de quando o Yahoo! era um mecanismo de busca dos mais importantes e de quando o Altavista se tornou o mais popular. Lembro que havia vários saites disputando a preferência dos internautas: Lycos, Hotbot, Askjeeves… Já um indício de que estou ficando senil é que não lembro qual era meu mecanismo favorito antes de o Altavista ganhar essa importância.

Na época em que a Internet se comercializou (1996), os mecanismos de busca não eram equipados com spiders nem crawlers, e ainda me lembro de quando cadastrei a página do JETCOM no Yahoo! — porque era assim que você ganhava visibilidade nesses buscadores.

Mas outra razão que me chocou está fora da Rede. Quando fiz primeiro e segundo graus, não havia Internet. Então, a gente ia à biblioteca da escola (tive muita sorte de estudar em um colégio que tinha uma biblioteca enorme à disposição dos alunos), ou usava os livros que tinha em casa, buscava o conhecimento em livros, revistas e enciclopédias e fazia resumos do que havia lido. Não havia “controlcê-controlvê”; então, até mesmo quem, desonestamente, copiava ipsis litteris também estava aprendendo.

Já hoje, o que vemos? O jovem tem que pesquisar um assunto. Então, ele vai lá no Google, joga a palavra-chave e copia o primeiro saite que aparece, não se dando ao trabalho de sequer ler. Como todo velho resmungão, cabe-me reprovar o procedimento dos mais novos e dizer que a juventude está perdida.

A terceira lição que me fica é sobre mim mesmo. Foi só em 2003 que passei a usar a Internet como principal meio de pesquisa, o que mostra meu retardo em aderir às novas tecnologias. Em compensação, assim que isso aconteceu, pràticamente tudo eu procuro na Internet primeiro, e só vou à literatura quando realmente preciso verificar alguma coisa mais importante. A primeira coisa que faço é ir ao Google e jogar o conjunto adequado de palavras-chaves: não só a primeira e mais óbvia mas, também, mais uma ou duas para contextualizar.

(De certo modo, buscar produtivamente no Google é uma arte: você tem que saber o que jogar para ter um retorno rápido e correspondente ao que procura. Para isso, o ideal é jogar palavras que (1) com certeza têm que aparecer em qualquer texto que trate do assunto e (2) com certeza não vão aparecer em textos que não tratem do assunto. A próxima coisa é pegar a relação de saites que vem como resposta, dizer logo de cara quais servem e quais não servem, e já escolher o saite onde o sucesso é mais provável, tudo isso antes mesmo de entrar em qualquer um deles.)

Hoje em dia, quando alguém tem acesso à Internet mas mesmo assim vem me perguntar alguma coisa, fico escandalizado que essa pessoa não tenha pensado, antes de tudo, em fazer uma busca no Google ou até na Wikipedia. (Bom, na verdade, muitas vezes pensaram sim. É só que é bem mais fácil gastar o meu esforço do que o próprio. O que mais se vê é gente fazendo perguntas que já estão na FAQ ou que a primeira googlada já mostra em meio segundo.)

Homo electronicus

Semana passada, o filósofo e eu recebemos o mesmo email de uma determinada pessoa. Ele perguntou se eu já o havia lido e eu disse que não, porque estava com medo. É que, em todos os contatos anteriores, a emissora da mensagem nos escrevia cobrando, exigindo e até ameaçando. Aí ele riu, dizendo (a reprodução é idêntica): “as pessoas criam fantasmas de si mesmas”.

Isso me lembrou um tema que aparece, só en passant, na minha monografia sobre ameaças à privacidade na Internet: o corpo eletrônico. Funciona da seguinte forma: nossas vidas são bastante complexas. Temos atividades profissionais, gostos, contratos e contatos. Minhas manifestações internéticas são apenas uma parte do conjunto de tudo que faço. Inevitàvelmente, essas manifestações revelam um aspecto de mim, só que é apenas *um* aspecto; sou muito mais do que isso. Certamente, aquilo que revelo é coerente com a pessoa que sou, mas não é toda essa pessoa. De certo modo, Atoz — a porção de mim que aparece através da Internet — é uma porção de mim, mas não sou eu.

Entretanto, Atoz é a única porção de mim que você está vendo. Você não tem como distingui-lo de mim, porque o único acesso que tem a mim é por este meio virtual, e, para você, Atoz se identifica comigo. Para todos os fins práticos, para você não há diferença e Atoz efetivamente sou eu.

Então, Atoz é uma projeção de mim, um personagem que uso para me comunicar através da Rede. Ele pode ser mais inteligente, mais resmungão e mais generoso do que eu, e isso não será fingimento de minha parte: assim terei escolhido construir esse personagem, sem má fé. Assim terei escolhido ser na Internet.

Decorre daí, necessariamente, que Atoz é incompleto. É um fantasma, uma casca com pouco conteúdo, como se eu fosse um quebra-cabeças de milhares de peças e Atoz fosse apenas uma meia dúzia delas.

Em contrapartida e da mesma forma, se Atoz diz (ou não diz) alguma coisa, ele pode provocar uma reação em seu Leitor, que pode ofendê-lo ou elogiá-lo. Nesse caso, deverei entender que a ofensa ou elogio está sendo dirigido não a mim, mas a Atoz, que é quem emitiu a mensagem. Certamente o emissor original fui eu, mas, então, a ofensa ou o elogio é dirigido apenas a uma parte de mim, não a todo eu. Não a mim, mas àquela figura virtual, criada, que a comunidade de internautas toma como sendo eu.

Se Atoz é ofendido, pode ser que a comunidade dos internautas perceba isso. Pode ter até havido crime de difamação contra mim. Em alguns desses casos, a comunidade que toma ciência não inclui pessoas de meu convívio profissional ou familiar. O efeito terá ficado circunscrito à Internet e, algumas vezes, na vida física, poderei apresentar-me dissociado de Atoz — nesses casos, na prática, minha honra só terá sido atingida na medida em que a de Atoz foi atingida. Na vida física, pode não ter sido atingida em absoluto, o que poderá levar a uma atenuação da pena de crime contra a honra com base no artigo 59 do Código Penal. Para remediar uma eventual injúria extremada, poderei até mudar de identidade eletrônica, criando novo endereço de email e cadastrando-me com novos logins nos fóruns e listas.

É claro que nada disso autoriza alguém a me ofender. Nem deve desencorajar os elogios! :)

Próclises

Doravante é oficial:
1) não vou mais fazer ênclises obrigatórias quando estiver na cara que as próclises soem muito melhores;
2) não vou mais usar subjuntivos obrigatórios quando estiver na cara que os indicativos fiquem melhores;
3) não vou mais virgular advérbios quando estiver na cara que as vírgulas estarão sobrando.

Burrice semi-aberta

Esta saiu no noticiário matinal no início da semana passada: um presidiário foi para a rua, beneficiado pelo indulto de Páscoa. Com isso, teve permissão para passar o domingo com a família. Deveria voltar para a cadeia na segunda-feira, mas preferiu envolver-se em uma briga, fugiu da Polícia, invadiu uma casa e fez uma família de refém. Só os libertaria com a condição de passar do regime fechado para o semi-aberto.

Ouvi o comentário de que, com isso, ele estava mostrando o sujeito perigoso que era e, portanto, justamente provando que não podiam passá-lo para esse regime. Mas a minha observação é muito mais pragmática e maquiavélica: quero saber como é que o sujeito verificaria o atendimento de sua condição para poder soltar os reféns. Porque mudança de regime não é como carro abastecido nem mala de dinheiro, não dá pra você entregar na mão do criminoso para ele ficar satisfeito. É um benefício que só se afere *depois* de o sujeito ter estado preso por pelo menos algumas horas. Então, veja só, é muito fácil: basta o negociador vir e dizer, sua condição foi atendida; eis aqui, ao meu lado, o juiz da Vara de Execuções, que não me deixa mentir. E pronto: o sujeito solta os reféns, vai preso e continua no regime fechado.

Ora bolas.

Recém-lida: Swamp Thing # 74, julho de 1988.

A livraria de Nelson Bond

Meses atrás, comentei com meu colega filósofo uma interessante história de Neil Gaiman, que eu disse a ele que havia sido publicada em Sandman apresenta: tudo o que você sempre quis saber sobre sonhos… mas tinha medo de perguntar (Brain Store, março de 2002). A história mostrava uma biblioteca de livros imaginários, cujo guardião era Lucien, um dos servos de Sandman, o rei dos sonhos. Naturalmente, a biblioteca ficava no Sonhar, aonde você só tem acesso quando dorme. Ao pesquisar para escrever isto aqui, descobri que me havia confundido: a biblioteca efetivamente aparece na edição acima, porém só vemos os títulos dos livros em The Sandman #22, que foi publicada muito antes.

A biblioteca contém obras inéditas de Lewis Carroll, Raymond Chandler e outros. Presumìvelmente, são livros que esses Autores escreveram enquanto dormiam e que você tem oportunidade de conhecer se for procurá-los no Sonhar. A idéia fascina-me, inclusive porque, de vez em quando, costumo sonhar que leio um determinado livro do Tintim que não existe. Não é o inacabado Tintim e o Alfa-arte, e só me lembro de uma cena: o Capitão Haddock causando tumulto em um mercado situado em um país primitivo e montanhoso que não é o Peru (de O templo do Sol) nem o Nepal (de Tintim no Tibete).

Quando contei sobre a biblioteca de livros imaginários, o Filósofo perguntou-me de quando era a história. Respondi-lhe 2001 porque eu tinha a referência errada; a resposta correta é 1990. De todo modo, a réplica de meu pensativo colega foi que Gaiman poderia ter tido conhecimento de um conto publicado em 1941 e reproduzido na coletânea Contos fantásticos no labirinto de Borges, organizada por Bráulio Tavares, onde figuram histórias que, de algum modo, relacionam-se à obra do Autor argentino.

Alguns dias atrás, o Filósofo presenteou-me com uma xerox da história de que falava. Trata-se de A livraria, de Nelson Bond (mas o título desta mensagem de hoje é sem vírgula). Deu pra ler em uma viagem de metrô: é bem curtinho e vou resumi-lo ainda mais (e contar o final, portanto tenha cuidado).

Um escritor sai à rua, frustrado em não conseguir passar do terceiro capítulo de seu novo romance. Entra em uma livraria que havia visto apenas um ano antes. Lá dentro, em um ambiente muito escuro, abafado e recendendo a antigüidade, depara-se com várias obras inéditas de Autores clássicos: Agamenon, de Shakespeare, As novas aventuras de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, etc. O livreiro informa que todos esses livros são obras que só existiram nas mentes de seus Autores e que, por serem perfeitas, jamais poderiam ir para o papel. Em síntese, a livraria só tem obras impossíveis, que existem somente ali. No auge da excitação, o protagonista descobre seu próprio livro, completo e correspondendo exatamente ao que tentava escrever sem sucesso. Tentando evitar o previsível desfecho, foge com o exemplar, mas òbviamente é atropelado.

Na última cena, o escritor fujão está agonizando no asfalto enquanto ouvimos o motorista explicar ao guarda que não teve tempo de frear. Uma testemunha diz que viu o sujeito falando sòzinho em um terreno vazio e sair correndo para a rua. Tentando identificar a vítima, o guarda apanha o livro e descobre que só tem três capítulos, com o resto em branco.

Agora me diga: você ouviu ou não ouviu a familiar musiquinha de Além da Imaginação? Quando terminei, tive a exata sensação de ter lido um episódio da série colorida dos anos 80. Já ao digitar isto, imaginei a série em preto e branco dos anos 50, com aqueles closes dramáticos e aquelas cenas lentas, luzes e sombras bizarras e opressões medonhas. Entram o pianinho e a voz de Rod Serling (dublada, com aquele eco das dublagens da época): “Robert Marston: um homem encurralado por seu destino. Um escritor em busca da perfeição, que descobriu que só poderia ver seu sonho realizado em uma livraria localizada… além da imaginação.”

Recém-lidas:
Swamp Thing #62 (julho de 1987);
Swamp Thing #63 (agosto de 1987);
Swamp Thing #64 (setembro de 1987);
Swamp Thing #71 (abril de 1988);
Swamp Thing #72 (maio de 1988);
Swamp Thing #73 (junho de 1988).

Ainda o mestre

O texto que está aqui embaixo é reprodução do comentário que acabei de fazer aqui.

“Desonesto dizer ‘qual o melhor’ [livro de Arthur Clarke] quando li poucos. Então, vamos definir de que universo estou falando (quais li): 2001, 2010, 2061, 3001, As canções da Terra distante, Childhood’s End, The Sentinel (conto), Encounter in the Dawn (conto) e Disque F para Frankenstein (conto) [– e lembrei-me deste depois: O homem e o espaço, de não-ficção].

“Desses, o de que gostei mais foi 2010, pelas descrições do espaço, pelo sentimento de imensidão desconhecida, de ordem perfeita e de balé cósmico. No espaço, tudo é matematicamente calculável com toda a precisão e a Natureza é tão previsível e, mesmo assim, cheia de mistérios. Para navegar, basta aplicar um foguetinho no momento certo e a gravitação faz todo o resto, por maior que seja sua inércia e por mais que o efeito só se faça sentir meses depois. Gostei também das descrições minuciosas e realistas do ambiente das naves espaciais.

“Mas o que mais me marcou foi As canções da Terra distante, que me trouxe uma preocupação clássica: durante milênios, a humanidade acumulou história, cultura, Ciência e arte. Esse patrimônio é o que temos de mais valioso. Se um dia a Terra se acabar, o que faremos para não perdê-lo? Como selecionar os livros corretos para serem salvos? E isso acontece nas primeiras páginas. O resto do romance é o choque entre os últimos homens nascidos na Terra e os primeiros filhos de uma nave colonizadora do espaço, que tiveram de começar tudo quase do zero e nada sabem de sua herança. É de uma melancolia, de uma tristeza sobre o inevitável, como só vemos (e tanto vemos) na ficção científica em geral e em Clarke em particular.”

Tele-inquisição

Hoje foi assim: o telemarketing apanhou-me em casa e saiu falando sobre o serviço. Interrompi a moça dizendo que não queria. Imediatamente, ela questionou o motivo.

Tive que dizer que a pergunta dela era grosseira e que, com isso, ela estava dizendo que eu era obrigado a contratar o serviço. Não vou discutir filosofia com uma pobre telemarqueteira que pronuncia gratuÍto, mas, ora bolas, ela liga para minha casa, oferece-me o que não pedi e eu é que tenho que explicar por que não quero! Observe bem: a pergunta que ela me fez tem o pressuposto de que a regra, o normal, é eu querer o serviço. Suponho que, se o motivo apresentado para a recusa não for bom o bastante, serei forçado a contratar o serviço por falta de justificativa.

Não contente, a moça pôs-se a discutir comigo, violando uma das regras básicas do bom vendedor: não discutir com o cliente. O vendedor tem que ganhar o cliente na simpatia. Se começa a brigar com o cliente, este vai simplesmente embora, retornando a seu estado neutro original; não vou participar de uma discussão que não pedi e onde nada tenho a ganhar. Ao telefone, então, o poder do cliente é supremo, e fiz questão de exercê-lo: disse à moça que seu problema era fácil de se resolver, “quer ver só? Preste atenção”, e desliguei na cara dela.

Ah, como eu sou recalcado. Mas isso fez um bem…

***
Falando em grosseria, parece até que eu adivinho. Ontem, conversava em casa sobre preferir ficar em pé no Metrô para não ter que ceder lugar. Pois hoje aconteceu na minha frente.

Para quem não é do Rio, lembro que o Metrô tem assentos preferenciais para idosos, grávidas e estropiados em geral. Se um chega, você tem que levantar. Quando entrei no vagão, havia uma mulher (estimados 45-50 anos) ocupando um dos tais assentos. Perdi o começo da discussão, mas, se entendi direito, um idoso (estimados 65-70) pedia a ela que desse lugar ao velhinho (estimados 80) que ela fingira não ver (o fingimento foi ilação minha, não sei se houve a acusação mesmo). A mulher começou a discutir com o cara, dizendo que ele tinha que ter educação, e foi levantando a voz enquanto ele só respondia em voz baixa. Não contente, a mulher usou algumas palavras coloridas para dizer que o idoso 6570 era um aposentado imprestável, burro, grosso (“tá precisando trocar a ferradura”), e continuava a falar alto, e dizia que tinha direito de estar ali porque tinha embarcado na primeira estação.

Olha, quanto a ele ser imprestável, burro ou grosso, só tenho certeza de uma coisa: fui testemunha de crime de injúria qualificada (Código Penal, art 140, caput c/c § 3o.), um a três mais multa. Não que eu fosse à delegacia para depor: só mediante coação, que ninguém é obrigado a ir lá voluntariamente dizer o que viu e eu não ganharia nada gastando meu tempo para dizer que vi os outros cometerem crime. Sim, falta-me todo senso cívico etc. (E não, nessa frase o correto não é “todo o senso cívico”, é sem o artigo mesmo.) Nem por isso mereço ser acusado de ser uma daquelas pessoas que contribuem para a corrupção no País. Uma coisa é não obter vantagem ilícita. Outra coisa bem diferente é assumir a função do Estado policial, apontando dedos onde quem tinha que estar de olho era a vigilância de quem é pago para isso. Mas divirjo.

Voltando à historieta, o detalhe é que ela, a errada, é que ia perdendo a calma e reclamando de falta de educação. Outro detalhe é que a filha dela (estimados 12-14) também estava muito bem sentadinha enquanto os idosos permaneciam de pé.

Enquanto isso, inùtilmente eu tentava me concentrar em Swamp Thing #60.

***
Recém-lidas:
Secret Origins #10 (janeiro de 1987);
Swamp Thing #57 (fevereiro de 1987);
Swamp Thing #58 (março de 1987);
Swamp Thing #59 (abril de 1987);
Swamp Thing #60 (maio de 1987);
Swamp Thing #61 (junho de 1987).