Tele-inquisição

Hoje foi assim: o telemarketing apanhou-me em casa e saiu falando sobre o serviço. Interrompi a moça dizendo que não queria. Imediatamente, ela questionou o motivo.

Tive que dizer que a pergunta dela era grosseira e que, com isso, ela estava dizendo que eu era obrigado a contratar o serviço. Não vou discutir filosofia com uma pobre telemarqueteira que pronuncia gratuÍto, mas, ora bolas, ela liga para minha casa, oferece-me o que não pedi e eu é que tenho que explicar por que não quero! Observe bem: a pergunta que ela me fez tem o pressuposto de que a regra, o normal, é eu querer o serviço. Suponho que, se o motivo apresentado para a recusa não for bom o bastante, serei forçado a contratar o serviço por falta de justificativa.

Não contente, a moça pôs-se a discutir comigo, violando uma das regras básicas do bom vendedor: não discutir com o cliente. O vendedor tem que ganhar o cliente na simpatia. Se começa a brigar com o cliente, este vai simplesmente embora, retornando a seu estado neutro original; não vou participar de uma discussão que não pedi e onde nada tenho a ganhar. Ao telefone, então, o poder do cliente é supremo, e fiz questão de exercê-lo: disse à moça que seu problema era fácil de se resolver, “quer ver só? Preste atenção”, e desliguei na cara dela.

Ah, como eu sou recalcado. Mas isso fez um bem…

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Falando em grosseria, parece até que eu adivinho. Ontem, conversava em casa sobre preferir ficar em pé no Metrô para não ter que ceder lugar. Pois hoje aconteceu na minha frente.

Para quem não é do Rio, lembro que o Metrô tem assentos preferenciais para idosos, grávidas e estropiados em geral. Se um chega, você tem que levantar. Quando entrei no vagão, havia uma mulher (estimados 45-50 anos) ocupando um dos tais assentos. Perdi o começo da discussão, mas, se entendi direito, um idoso (estimados 65-70) pedia a ela que desse lugar ao velhinho (estimados 80) que ela fingira não ver (o fingimento foi ilação minha, não sei se houve a acusação mesmo). A mulher começou a discutir com o cara, dizendo que ele tinha que ter educação, e foi levantando a voz enquanto ele só respondia em voz baixa. Não contente, a mulher usou algumas palavras coloridas para dizer que o idoso 6570 era um aposentado imprestável, burro, grosso (“tá precisando trocar a ferradura”), e continuava a falar alto, e dizia que tinha direito de estar ali porque tinha embarcado na primeira estação.

Olha, quanto a ele ser imprestável, burro ou grosso, só tenho certeza de uma coisa: fui testemunha de crime de injúria qualificada (Código Penal, art 140, caput c/c § 3o.), um a três mais multa. Não que eu fosse à delegacia para depor: só mediante coação, que ninguém é obrigado a ir lá voluntariamente dizer o que viu e eu não ganharia nada gastando meu tempo para dizer que vi os outros cometerem crime. Sim, falta-me todo senso cívico etc. (E não, nessa frase o correto não é “todo o senso cívico”, é sem o artigo mesmo.) Nem por isso mereço ser acusado de ser uma daquelas pessoas que contribuem para a corrupção no País. Uma coisa é não obter vantagem ilícita. Outra coisa bem diferente é assumir a função do Estado policial, apontando dedos onde quem tinha que estar de olho era a vigilância de quem é pago para isso. Mas divirjo.

Voltando à historieta, o detalhe é que ela, a errada, é que ia perdendo a calma e reclamando de falta de educação. Outro detalhe é que a filha dela (estimados 12-14) também estava muito bem sentadinha enquanto os idosos permaneciam de pé.

Enquanto isso, inùtilmente eu tentava me concentrar em Swamp Thing #60.

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Recém-lidas:
Secret Origins #10 (janeiro de 1987);
Swamp Thing #57 (fevereiro de 1987);
Swamp Thing #58 (março de 1987);
Swamp Thing #59 (abril de 1987);
Swamp Thing #60 (maio de 1987);
Swamp Thing #61 (junho de 1987).