A livraria de Nelson Bond

Meses atrás, comentei com meu colega filósofo uma interessante história de Neil Gaiman, que eu disse a ele que havia sido publicada em Sandman apresenta: tudo o que você sempre quis saber sobre sonhos… mas tinha medo de perguntar (Brain Store, março de 2002). A história mostrava uma biblioteca de livros imaginários, cujo guardião era Lucien, um dos servos de Sandman, o rei dos sonhos. Naturalmente, a biblioteca ficava no Sonhar, aonde você só tem acesso quando dorme. Ao pesquisar para escrever isto aqui, descobri que me havia confundido: a biblioteca efetivamente aparece na edição acima, porém só vemos os títulos dos livros em The Sandman #22, que foi publicada muito antes.

A biblioteca contém obras inéditas de Lewis Carroll, Raymond Chandler e outros. Presumìvelmente, são livros que esses Autores escreveram enquanto dormiam e que você tem oportunidade de conhecer se for procurá-los no Sonhar. A idéia fascina-me, inclusive porque, de vez em quando, costumo sonhar que leio um determinado livro do Tintim que não existe. Não é o inacabado Tintim e o Alfa-arte, e só me lembro de uma cena: o Capitão Haddock causando tumulto em um mercado situado em um país primitivo e montanhoso que não é o Peru (de O templo do Sol) nem o Nepal (de Tintim no Tibete).

Quando contei sobre a biblioteca de livros imaginários, o Filósofo perguntou-me de quando era a história. Respondi-lhe 2001 porque eu tinha a referência errada; a resposta correta é 1990. De todo modo, a réplica de meu pensativo colega foi que Gaiman poderia ter tido conhecimento de um conto publicado em 1941 e reproduzido na coletânea Contos fantásticos no labirinto de Borges, organizada por Bráulio Tavares, onde figuram histórias que, de algum modo, relacionam-se à obra do Autor argentino.

Alguns dias atrás, o Filósofo presenteou-me com uma xerox da história de que falava. Trata-se de A livraria, de Nelson Bond (mas o título desta mensagem de hoje é sem vírgula). Deu pra ler em uma viagem de metrô: é bem curtinho e vou resumi-lo ainda mais (e contar o final, portanto tenha cuidado).

Um escritor sai à rua, frustrado em não conseguir passar do terceiro capítulo de seu novo romance. Entra em uma livraria que havia visto apenas um ano antes. Lá dentro, em um ambiente muito escuro, abafado e recendendo a antigüidade, depara-se com várias obras inéditas de Autores clássicos: Agamenon, de Shakespeare, As novas aventuras de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, etc. O livreiro informa que todos esses livros são obras que só existiram nas mentes de seus Autores e que, por serem perfeitas, jamais poderiam ir para o papel. Em síntese, a livraria só tem obras impossíveis, que existem somente ali. No auge da excitação, o protagonista descobre seu próprio livro, completo e correspondendo exatamente ao que tentava escrever sem sucesso. Tentando evitar o previsível desfecho, foge com o exemplar, mas òbviamente é atropelado.

Na última cena, o escritor fujão está agonizando no asfalto enquanto ouvimos o motorista explicar ao guarda que não teve tempo de frear. Uma testemunha diz que viu o sujeito falando sòzinho em um terreno vazio e sair correndo para a rua. Tentando identificar a vítima, o guarda apanha o livro e descobre que só tem três capítulos, com o resto em branco.

Agora me diga: você ouviu ou não ouviu a familiar musiquinha de Além da Imaginação? Quando terminei, tive a exata sensação de ter lido um episódio da série colorida dos anos 80. Já ao digitar isto, imaginei a série em preto e branco dos anos 50, com aqueles closes dramáticos e aquelas cenas lentas, luzes e sombras bizarras e opressões medonhas. Entram o pianinho e a voz de Rod Serling (dublada, com aquele eco das dublagens da época): “Robert Marston: um homem encurralado por seu destino. Um escritor em busca da perfeição, que descobriu que só poderia ver seu sonho realizado em uma livraria localizada… além da imaginação.”

Recém-lidas:
Swamp Thing #62 (julho de 1987);
Swamp Thing #63 (agosto de 1987);
Swamp Thing #64 (setembro de 1987);
Swamp Thing #71 (abril de 1988);
Swamp Thing #72 (maio de 1988);
Swamp Thing #73 (junho de 1988).