Homo electronicus

Semana passada, o filósofo e eu recebemos o mesmo email de uma determinada pessoa. Ele perguntou se eu já o havia lido e eu disse que não, porque estava com medo. É que, em todos os contatos anteriores, a emissora da mensagem nos escrevia cobrando, exigindo e até ameaçando. Aí ele riu, dizendo (a reprodução é idêntica): “as pessoas criam fantasmas de si mesmas”.

Isso me lembrou um tema que aparece, só en passant, na minha monografia sobre ameaças à privacidade na Internet: o corpo eletrônico. Funciona da seguinte forma: nossas vidas são bastante complexas. Temos atividades profissionais, gostos, contratos e contatos. Minhas manifestações internéticas são apenas uma parte do conjunto de tudo que faço. Inevitàvelmente, essas manifestações revelam um aspecto de mim, só que é apenas *um* aspecto; sou muito mais do que isso. Certamente, aquilo que revelo é coerente com a pessoa que sou, mas não é toda essa pessoa. De certo modo, Atoz — a porção de mim que aparece através da Internet — é uma porção de mim, mas não sou eu.

Entretanto, Atoz é a única porção de mim que você está vendo. Você não tem como distingui-lo de mim, porque o único acesso que tem a mim é por este meio virtual, e, para você, Atoz se identifica comigo. Para todos os fins práticos, para você não há diferença e Atoz efetivamente sou eu.

Então, Atoz é uma projeção de mim, um personagem que uso para me comunicar através da Rede. Ele pode ser mais inteligente, mais resmungão e mais generoso do que eu, e isso não será fingimento de minha parte: assim terei escolhido construir esse personagem, sem má fé. Assim terei escolhido ser na Internet.

Decorre daí, necessariamente, que Atoz é incompleto. É um fantasma, uma casca com pouco conteúdo, como se eu fosse um quebra-cabeças de milhares de peças e Atoz fosse apenas uma meia dúzia delas.

Em contrapartida e da mesma forma, se Atoz diz (ou não diz) alguma coisa, ele pode provocar uma reação em seu Leitor, que pode ofendê-lo ou elogiá-lo. Nesse caso, deverei entender que a ofensa ou elogio está sendo dirigido não a mim, mas a Atoz, que é quem emitiu a mensagem. Certamente o emissor original fui eu, mas, então, a ofensa ou o elogio é dirigido apenas a uma parte de mim, não a todo eu. Não a mim, mas àquela figura virtual, criada, que a comunidade de internautas toma como sendo eu.

Se Atoz é ofendido, pode ser que a comunidade dos internautas perceba isso. Pode ter até havido crime de difamação contra mim. Em alguns desses casos, a comunidade que toma ciência não inclui pessoas de meu convívio profissional ou familiar. O efeito terá ficado circunscrito à Internet e, algumas vezes, na vida física, poderei apresentar-me dissociado de Atoz — nesses casos, na prática, minha honra só terá sido atingida na medida em que a de Atoz foi atingida. Na vida física, pode não ter sido atingida em absoluto, o que poderá levar a uma atenuação da pena de crime contra a honra com base no artigo 59 do Código Penal. Para remediar uma eventual injúria extremada, poderei até mudar de identidade eletrônica, criando novo endereço de email e cadastrando-me com novos logins nos fóruns e listas.

É claro que nada disso autoriza alguém a me ofender. Nem deve desencorajar os elogios! :)