Você é aquilo que aprova

Na semana passada, acabei de ler Preceitos para uso do pessoal doméstico. Trata-se de uma tradução portuguesa (de João Fonseca Amaral, Lisboa: Editorial Estampa, 1970) que inclui quatro obras de Jonathan Swift: Directions to Servants, A Letter of Advice to a Young Poet, A Modest Proposal e When I Come to Be Old. A edição conta com uma introdução ao Autor, escrita por André Breton, da qual extraio a seguinte passagem:

“Opõe-no a Voltaire (…) a forma de reagir ao espectáculo da vida (…): um, disposto à perpétua chacota, o de um homem que tomou as coisas pelo lado da razão, nunca pelo do sentimento, e que se encerrou no cepticismo; o outro, impassível, glacial, o de um homem que as tomou de maneira inversa, e por isso se indignou com o mundo. Alguém observou que Swift ‘provoca o riso sem dele participar’. (…) Em toda a sua existência, apenas a misantropia é a disposição que não encontra qualquer correctivo e que os factos não desmentem. Ele disse um dia, mostrando uma árvore fulminada por um raio: ‘sou como esta árvore, morrerei pelo cimo’. Como por ter desejado alcançar ‘este grau de felicidade sublime que se chama a faculdade de ser bem enganado, o estado plácido e sereno que consiste em ser louco entre patifes’ (…).”

Assim, Preceitos contém três casos típicos do talento corrosivamente cínico de Swift (a última obra traduzida não segue o mesmo estilo). Permito-me destacar alguns exemplos que bem ilustrarão o senso do gênio. Um deles é justamente o primeiro parágrafo da obra:

“Quando o senhor ou a senhora chamarem um criado pelo nome e ele não estiver presente, que ninguém responda, pois de outro modo não se acabarão os trabalhos (…).

“Não se sujeitem a mexer um dedo seja para que trabalho for, diferente daquele para que foram contratados. Por exemplo, se o moço de estrebaria estiver embriagado, ou ausente, e o mordomo receber ordem de fechar a cavalariça, a resposta imediata deve ser esta: ‘Salvo o devido respeito por Vossa Senhoria, nada percebo de cavalos’ (…).

“Para ficar a conhecer os segredos das outras casas, conte à confraria os da sua; tornar-se-á, assim, um favorito, dentro e fora de portas, e será tido por pessoa importante.”

E por aí vai. Há recomendações para que os empregados não peçam permissão antes de se ausentarem, para não aborrecerem seus senhores: em lugar disso, saiam sorrateiramente para que sua falta não seja notada e, se chamados ao retorno, sempre possam dizer que saíram há coisa de um minuto.

(O conteúdo desta mensagem foi cortado pelo próprio autor. Motivado por considerações políticas, tirei dois parágrafos que estavam aqui.)

Recém-lida: Animal Man #5, de Grant Morrison e Chas Truog, inverno de 1988.