Deep Space Nine: Jornada em tons de cinza

Em fevereiro de 2007, Alex Castro comentou como Jornada nas Estrelas defende a ideologia do modo de vida americano. De modo geral, concordo com ele. Mas tenho uma contestação a fazer, que fiz por correio eletrônico e que repito abaixo.

“Alex, sou trekker há 17 anos e há 17 anos analiso Star Trek com o mesmo olhar crítico, em busca de ideologias, significados, referências. Você está certo. A Terra do século 24 é a canonização da Nova Ordem Mundial, arauteada por Bush Pai.

“Mas —

“Talvez você gostasse de assistir a Deep Space Nine a partir da terceira temporada (ignore as duas primeiras). Mostra como os humanos/a Federação são egocêntricos e acham que sempre têm razão. O comandante da estação Nove é obrigado a aceitar que existem outros modos de vida (OK, isso as outras séries também tinham, “mas o nosso é melhor”) — E QUE O DELE PODE ESTAR PODRE. Critica-se como é fácil ser santo no paraíso (i.e. Terra) [aqui eu me referia ao magnífico monólogo de Sisko em “The Maquis, Part II”], como os oprimidos podem preferir a opressão, como uma vida mais simples pode ser preferível etc. Os melhores episódios são justamente os que criticam a Federação e lhe fazem um contraponto [p.ex. o discurso de Quark em “The Jem’Hadar”].

“Aliás, não é verdade o que você disse: que nunca há rebelião na Terra do século 24. O par de episódios “Homefront” e “Paradise Lost” mostra justamente um GOLPE DE ESTADO dos almirantes que queriam um Estado policial, usando o medo para manipular a população. Infelizmente, são episódios mal conduzidos, mas é uma grande premissa.

“A série é muito mais madura do que a NG: os personagens cínicos ganham destaque [aqui eu me referia ao Garak mais do que tudo, mas também aos lampejos de cinismo de Quark e Odo e a Sloane, de “Inquisition”], ninguém nunca mais é bonzinho puro nem mauzinho até o fim [q.v. Dukat e Damar], joga-se muita Realpolitik, engana-se, mente-se, trapaceia-se, manipula-se direto.

“A propósito: você disse que Roddenberry transformou a série Clássica em uma conservadora NG. Na verdade, Roddenberry era conservador, fã de Lincoln etc. O que a série Clássica teve de bom no caráter dos personagens é devido unicamente aos *outros* produtores e editores: John D.F. Black, D.C. Fontana e, principalmente, Gene L. Coon. Roddenberry deu só a estrutura e as premissas, mas nunca teve o talento de desenvolver. Isso está fartamente documentado, embora não tenha ampla divulgação fora do círculo trekker. Já na NG, os produtores foram mormente Rick Berman e Michael Piller (especialmente o primeiro), que não tinham as mesmas motivações nem queriam mexer muito com uma série que dava dinheiro porque dizia o que as pessoas queriam ouvir.

“Isso não me impede de ser fã das três, mas é que eu gostaria de pôr tudo em perspectiva.

“Valeu.

“Seu continuado leitor,
João Paulo”.

Recém-lida: Swamp Thing #87, de Rick Veitch e Tom Yeates (junho de 1989).