O Evangelho do Coiote

Recentemente, terminei de ler Animal Man #5, do inverno de 1988. A história chama-se “The Coyote Gospel” e foi escrita por Grant Morrison e desenhada por Chas Truog e Doug Hazlewood, com capa de Brian Bolland. O motivo de eu ter procurado essa edição de AM é a grande quantidade de elogios que li na Internet, principalmente os que dizem que a história é perturbadora e inovadora, usando a simbologia cristã para trazer uma interpretação de seu Autor sobre o significado e as intenções de Deus.

ATENÇÃO: VOU CONTAR A HISTÓRIA E SEU FINAL. Você foi avisado.

Tudo começa com um caminhão atropelando e matando um coiote, que em seguida ressuscita. Um ano depois, o motorista volta ao local, acreditando que sua vítima seja um demônio que prejudicou sua vida de lá pra cá e determinado a matá-lo de uma vez por todas. Ele atira no coiote, que vemos cair no abismo e ficar pequenininho, cada vez menor, até virar uma fumacinha lá embaixo. E uma pedra cai em cima dele.

Isso lhe parece familiar?

Mas o coiote sobe de volta e o sujeito explode uma bomba que o deixa mutilado. Nisso, chega o Homem-Animal, que, apesar de teòricamente ser o protagonista, é um mero espectador nesta história. Aí, o animal ferido lhe estende um papel enrolado: o Evangelho do Coiote, que o leitor tem chance de saber o que contém.

O Evangelho é a história de como, no mundo dos bichinhos, tudo era violência e eles passavam o dia se matando uns aos outros em atos de crueldade fútil: bombas explodindo na cara, bigornas caindo, rolos compressores atropelando-os etc. Os bichinhos sempre ressuscitavam para serem mortos de novo em um ciclo de carnificina sem fim.

Um dia, o coiote Crafty (Engenhoso em português) estava preparando uma armadilha para o pássaro que corria — e agora, reconheceu? –, quando a passagem súbita do corredor fez a armadilha reverter e ele levou um tiro de canhão na cara. Para Crafty, isso foi a gota d’água. Ele foi se queixar a Deus, que lhe respondeu que essa era a ordem natural das coisas e mais: a inconformidade de Crafty foi um desafio à autoridade divina, e ele devia ser punido. Mas Deus era misericordioso e permitiu que a punição tivesse um propósito. Então, Crafty pediu que seu suplício servisse para que não houvesse mais violência no mundo dos bichinhos. Em resposta, Deus condenou-o a morrer sucessivas e trágicas vezes no mundo real, sempre sentindo as dores. Enquanto isso continuasse acontecendo, os bichinhos seriam poupados. Assim, Crafty tornou-se um mártir, que aceitou sobre si todo o sofrimento do mundo para que outros pudessem viver em paz.

Infelizmente, o Homem-Animal não consegue ler a escrita e devolve o papel sem ter tido acesso a seus ensinamentos. Ato contínuo, o motorista do caminhão atira em Crafty com uma bala de prata e ele morre pela última vez, estatelado com braços e pernas abertos sobre o asfalto, o corpo na mesma atitude que vemos nos crucifixos. Fim.

Em primeiro lugar, confirma-se o que li na Internet: história perturbadora, inovadora, chocante e, definitivamente, não o tipo da coisa que se costumava ver em quadrinhos. Eu nunca vi temas dessa seriedade serem discutidos assim, ainda mais misturando seu conteúdo com o de desenhos animados considerados infantis.

Em segundo lugar, existe a admissão aberta de que os desenhos da Warner são violentos sim, o que chama atenção diante do fato de que a DC já pertencia ao grupo Time Warner na época da edição. Reconhece-se abertamente que seus personagens sofrem crueldades que matariam qualquer um. A única explicação possível é que, em seu mundo surreal, as mortes seqüenciais são sucedidas por imediatas ressurreições, e também o absurdo dessa situação é abordado de frente, escancarando que as leis físicas dos desenhos animados são diferentes das de nosso mundo.

Em terceiro lugar, a história é um vislumbre da visão que Grant Morrison deixaria mais clara entre as edições 23 e 26 de Animal Man: a de que o universo dos quadrinhos (e também o dos desenhos animados) não é mais nem menos real do que o nosso, e de que cada um tem suas próprias regras. A “realidade” dos desenhos não é absurda, apenas funciona de outro modo.

Em quarto lugar, existe aí um tema bastante grave e que exige reflexão. É a possibilidade, intuída e apontada por Morrison, de que nós, criaturas, não passemos de joguetes nas mãos de um Deus que nos usa apenas para Seu próprio divertimento. Assim como não dedicamos um segundo pensamento a formigas ou bactérias, da mesma forma talvez estejamos sendo tratados sem a menor consideração por um criador que não poderia sequer ser chamado de cruel. A própria Bíblia autoriza essa interpretação quando traz a idéia de termos sido criados para servi-Lo. Assim como Morrison se importa com personagens que considera bastante reais, também demonstra preocupação com seu poder de manipular esses personagens, como seu criador que é. Na qualidade de autor, ele teria uma responsabilidade, que ficaria mais evidente nas edições 23-26 da revista. Não por coincidência, o rosto de Deus não aparece, mas Ele é representado usando roupas como as nossas e portando lápis e pincéis.

Finalmente, a noção de um coiote como o Cordeiro de Deus, como o redentor que se oferece a livrar o mundo de seu sofrimento absorvendo o padecimento sobre si mesmo, é dolorosamente familiar e, por isso mesmo, há de ser considerada sacrílega por quem não tiver o poder de generalizar. Afinal, por que somente os homens teriam a possibilidade de uma tal salvação? A história é totalmente coerente com a visão ecológica de que a raça humana não tem a importância que atribui a si mesma e de que os animais têm tanto direito a este planeta (e universo) quanto nós.

Ao mesmo tempo, “The Coyote Gospel” é uma subversão da visão tradicional da figura de J.C., na medida em que retrata Deus como um tirano que exige sacrifício. Nessa óptica, J.C. não seria Deus encarnado, mas uma vítima da autoridade sanguinária. É até de se estranhar que a história não tenha levado multidões com archotes a apedrejar o prédio da DC nem o escocês Morrison a ser banido de escrever nos puritanos Estados Unidos.

Incidentalmente, “The Coyote Gospel” foi publicada no Brasil em DC 2000 no. 7, de julho de 1990, e republicada nos Estados Unidos no encadernado Animal Man, de 1991.

Recém-lida: Armageddon: Inferno #1 (abril de 1992).