Uma coisa que me irrita e outra que me diverte

Irrita-me a expressão “e nem”. São duas conjunções aditivas juntas e, por isso, a expressão está errada. “Não pode sentar na grama, cuspir no chão e nem jogar papel na rua.” Está errado.

Por favor, nunca escreva “e nem”. “Não pode sentar na grama, cuspir no chão nem jogar papel na rua”, por piedade.

Minha última conta de luz traz a lista dos sorteados na promoção do débito automático. É assim: você inscreve sua conta no débito automático e entra na promoção. Se for sorteado, ganha uma televisão de plasma de 42 polegadas! Legal, não?

Muito. Pense comigo: deve haver um bom motivo para a companhia de luz sortear cinco televisões de plasma por mês em troca de sua inscrição no débito automático. Alguma coisa muito importante está acontecendo a ponto de a companhia me acenar com tamanha isca. E tudo que preciso fazer para ganhar uma televisão de plasma é permitir que, todo mês, tirem da minha conta bancária o valor do pagamento da luz, sem me dar a opção de discordar dele: vou pagar, querendo ou não. Se houver algum erro, não é mais possível exigir uma fatura corrigida; primeiro pago, depois discuto.

É o seguinte: se fosse bom pra mim, eles não estavam me oferecendo cinco televisões de plasma por mês, é ou não? Se o débito automático fosse bom para mim, eles estariam é escondendo, não estimulando; eu ia ter que pagar pra fazer. Então, quanto mais eles querem me subornar com o sorteio — aliás, não é nem com o sorteio: é só com a perspectiva dele, porque não tenho qualquer garantia. É uma promessa vazia –, quanto mais querem me seduzir com o sorteio, mais me convenço de que é uma roubada. Então, estou fora; podem sortear televisões de plasma à vontade, podem sortear coleções completas de Asimov e Clarke e todos os DVDs de Futurama, que só vão me convencer a fugir disso.

Ninharias em troca de minha escravidão eterna. Deparamo-nos com essa escolha todos os dias. Não, obrigado; prefiro eu mesmo trabalhar para comprar a tal televisão. No final, é mesmo a única forma de adquiri-la; todas as outras são ilusão.

Recém-lida: Swamp Thing #84, de Rick Veitch e Tom Mandrake (março de 1989).

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Você é aquilo que aprova

Na semana passada, acabei de ler Preceitos para uso do pessoal doméstico. Trata-se de uma tradução portuguesa (de João Fonseca Amaral, Lisboa: Editorial Estampa, 1970) que inclui quatro obras de Jonathan Swift: Directions to Servants, A Letter of Advice to a Young Poet, A Modest Proposal e When I Come to Be Old. A edição conta com uma introdução ao Autor, escrita por André Breton, da qual extraio a seguinte passagem:

“Opõe-no a Voltaire (…) a forma de reagir ao espectáculo da vida (…): um, disposto à perpétua chacota, o de um homem que tomou as coisas pelo lado da razão, nunca pelo do sentimento, e que se encerrou no cepticismo; o outro, impassível, glacial, o de um homem que as tomou de maneira inversa, e por isso se indignou com o mundo. Alguém observou que Swift ‘provoca o riso sem dele participar’. (…) Em toda a sua existência, apenas a misantropia é a disposição que não encontra qualquer correctivo e que os factos não desmentem. Ele disse um dia, mostrando uma árvore fulminada por um raio: ‘sou como esta árvore, morrerei pelo cimo’. Como por ter desejado alcançar ‘este grau de felicidade sublime que se chama a faculdade de ser bem enganado, o estado plácido e sereno que consiste em ser louco entre patifes’ (…).”

Assim, Preceitos contém três casos típicos do talento corrosivamente cínico de Swift (a última obra traduzida não segue o mesmo estilo). Permito-me destacar alguns exemplos que bem ilustrarão o senso do gênio. Um deles é justamente o primeiro parágrafo da obra:

“Quando o senhor ou a senhora chamarem um criado pelo nome e ele não estiver presente, que ninguém responda, pois de outro modo não se acabarão os trabalhos (…).

“Não se sujeitem a mexer um dedo seja para que trabalho for, diferente daquele para que foram contratados. Por exemplo, se o moço de estrebaria estiver embriagado, ou ausente, e o mordomo receber ordem de fechar a cavalariça, a resposta imediata deve ser esta: ‘Salvo o devido respeito por Vossa Senhoria, nada percebo de cavalos’ (…).

“Para ficar a conhecer os segredos das outras casas, conte à confraria os da sua; tornar-se-á, assim, um favorito, dentro e fora de portas, e será tido por pessoa importante.”

E por aí vai. Há recomendações para que os empregados não peçam permissão antes de se ausentarem, para não aborrecerem seus senhores: em lugar disso, saiam sorrateiramente para que sua falta não seja notada e, se chamados ao retorno, sempre possam dizer que saíram há coisa de um minuto.

(O conteúdo desta mensagem foi cortado pelo próprio autor. Motivado por considerações políticas, tirei dois parágrafos que estavam aqui.)

Recém-lida: Animal Man #5, de Grant Morrison e Chas Truog, inverno de 1988.

Correndo atrás

Não brinco nem exagero quando digo que gostaria muito de um dia ter lido todos os livros de e sobre Jornada nas Estrelas. São várias centenas. Confira aqui.

Se você não é um trekker, é difícil que entenda ou sinta o prazer de ler livros de ficção ambientados no universo criado por Gene Roddenberry. Esses livros só podem ser mesmo apreciados por quem ama essas séries e conhece seus personagens a fundo. De modo geral, descrevem um universo ainda mais rico do que aquele mostrado na televisão, porque não se submetem aos limites do filmável e apelam à imaginação de quem os lê. Também são recheados de referências, que só podem ser compreendidas por quem tem intimidade com as séries. Ao que consta, isso é especialmente verdadeiro nos livros publicados de uns quinze anos para cá.

Faz muito tempo que não leio ficção de Jornada. Especialmente, nunca li nada mais recente do que a quarta temporada da NG, de 1991. Não há mal nisso, porque, se a opinião dos trekkers dos anos 70 bater com a minha, os livros dos anos 80 parecem os melhores. Foram escritos por verdadeiros fãs e vêm do coração. Já os mais recentes também são escritos por fãs, mas têm três desvantagens: (1) os Autores são profissionais; (2) dependem de muitas referências de episódios recentes, que não vi; (3) os Autores parecem fãs mais novos, de um tipo que nutre menos afeto por personagens e histórias e mais por mistério e ação.

Mesmo apesar disso, sinto falta de ler o abundante material publicado desde o final dos anos 90. Tantas obras de ficção, situadas em um ambiente tão familiar a mim, seriam um confortável retorno a uma versão mais simples de minha vida.

Nos últimos minutos, estive visitando as atualizações dos saites de Steven Roby, que lhes havia acrescentado as capas de sua enorme coleção de fanzines dos anos 80. Lá estavam nomes como o de Jean Lorrah, autora de Kobayashi Maru, e desenhos de pessoas que òbviamente os extraíam de seus sentimentos.

A nostalgia é forte. Sinto saudade de um movimento trekker do qual só pude testemunhar o final, no momento em que despontava uma nova juventude, que já não se importava. Perdi a melhor parte: os amadores e apaixonados anos 70 e 80.

No fone de ouvido: Nightwish, End of an Era, ao vivo, incluindo Nemo e Wish I Had an Angel. Há poucos dias, Pink Floyd, Comfortably Numb.

Gravidez

Eu não sou trekker porque gosto destas coisas. Eu gosto destas coisas porque sou trekker.

Com atraso de três meses, acabei de ver o teaser de Star Trek XI.

Coisas que me deixam arrepiado:

– as vozes de Kennedy prometendo os anéis de Saturno em 1961, do controlador se despedindo de John Glenn, da Águia pousando, de Tio Neil dando um pequeno passo, e de Spock, “espaço, a fronteira final…”;

– conseguirmos saber qual é a nave antes de o nome aparecer;

– o tema original de Alexander Courage quando vemos o nome da nave;

– a ponte de comando como era na época de “The Cage”;

– as letras “Enterprise” como eram antes de “The Cage”.

Posso fazer uma autocrítica: toda a nostalgia da Era Espacial é voltada para o público americano. Só que convenhamos: aqui no Ocidente, durante a Guerra Fria, a Era Espacial era um produto americano. Foram eles que fizeram aquilo tudo. Se quiser apelar para essa lembrança coletiva, não tem jeito, é americanóide mesmo. Então embarquemos.

O apelo à herança da Era Espacial não é novidade. A lamentável e esquecível série Enterprise tinha essa virtude em sua abertura.

Estou tão descrente quanto a maioria: temo (e considero provável) que o filme não respeite o cânone, não seja um bom filme nem uma boa homenagem. Mas, se corresponder ao teaser, contrariará maravilhosamente essa expectativa cinzenta. 

Andando sobre esteiras

Quando estive em viagem no Exterior, tive uma impressão marcante que agora divido com você. É uma impressão que também me vem quando vejo fotografias desses lugares e anúncios em revistas, na Web e na televisão, mas ao vivo é bem mais forte.

Eu olho para fora do veículo na estrada e vejo aqueles enormes cartazes (no Brasil são chamados de outdoors, o que é uma obviedade; lá são billboards). Se estiverem em inglês, eu até entendo as palavras, mas, qualquer que seja a língua, não entendo os cartazes. Nem em português, quando viajo para qualquer outro Estado do Brasil.

O primeiro choque é que não sei do que estão falando. Anunciam empresas das quais nunca ouvi falar, produtos que não conheço, nem sei com que facilidade estão presentes no mercado local. Não sei o quanto deveria ser óbvio eu conhecê-las quando estou ali. Não fazem parte da minha vida, não tenho um referencial nem qualquer familiaridade; não há aquele conforto do reencontro com as coisas conhecidas. Faltam-me parâmetros para orientação e avaliação do que estou lendo. São cartazes vazios de significado para mim e meramente fazem poluição visual na paisagem.

O segundo choque é que não importa o que estão falando. É sempre a mesma baboseira, com as mesmas frases prontas e genéricas: “a vida na sua mão”, “com você em todos os momentos”, “pensando sempre em você”, “você pode esperar mais”. Então, na verdade eu sei, sim, o que está escrito, porque nunca é diferente disso.

O terceiro choque é ver como fui capaz de decifrar o código. É ver como é trágico que não haja tanta identidade cultural nos lugares aonde vou. É ver como, em qualquer lugar do mundo, os anúncios são iguais, porque o capitalismo é absolutamente homogêneo, as empresas se comportam da mesma forma, os padrões e sistemas são os mesmos. Com a Nova Ordem Mundial e a globalização, o mundo ficou mais pasteurizado.

Olhem esta fotografia, por exemplo. Isso poderia ser o que eu estivesse vendo de dentro de um ônibus, é a típica foto que eu poderia tirar em viagem. Na verdade, baixei-a do saite de um banco holandês chamado ING e não entendo o que está escrito no cartaz. Mas preciso? O banco poderia ser qualquer banco no mundo, o aeroporto poderia ser qualquer aeroporto do mundo (provavelmente é Schiphol, mas isso não faz diferença). Os anúncios são todos iguais, os cartazes são os mesmos da estrada do Galeão. Provavelmente está escrito algo como “o ING quer falar com você”.

Às vezes me incomoda visitar o país dos outros e encontrar as mesmas coisas que vejo em casa.

Recém-lidas:
Swamp Thing #75 (agosto de 1988);
Swamp Thing #76 (setembro de 1988);
Swamp Thing #79 (dezembro de 1988).

Estranhas compulsões

Na última terça-feira, entrei na estação do Metrô da Saenz Peña, cerca de uma da tarde. Bilheteria com quatro guichês. Dois com fila, um fechado. Diante do primeiro, uma linha de cinco ou seis pessoas; diante do segundo, outra com três ou quatro. Eu ia entrar na fila de três ou quatro quando fiz o que sempre faço: procurei algum guichê aberto e disponível.

Tinha! Atrás do vidro, a moça estava sòzinha, olhando para fora meio desolada. Imediatamente, em vez de me enfiar atrás dos outros, fui ali, fui o primeiro a ser atendido.

O detalhe é que ela não estava abrindo naquela hora, não. Simplesmente ninguém a procurou! Até perguntei, por que que não tem fila? Mais intrigada do que eu, retrucou, sei lá, vai ver que não vão com a minha cara.

É mesmo muito engraçado: diante de uma fila, as pessoas logo procuram garantir o seu e vão entrando sem questionar. Como em tudo na vida, sempre acaba custando mais caro a miopia de só enxergar o que está na sua frente e de se contentar com o que se consegue sem ter que ter muito trabalho. A *primeira* coisa que faço antes de entrar em uma fila é me certificar de aonde ela vai dar, e se não tem outra mais curta. Só depois me torno o último.

Do alto de meus recalques, fantasio e festejo que as pessoas da fila menor, bem ao meu lado, ficaram revoltadas ao me ver ser atendido antes delas, ofendidas ao me ver furar.