As utopias realmente me perseguem

A esta altura, deve ter dado para notar um fato que não me incomodo em confessar: um de meus interesses atuais é a Wikipedia. Desejo entender sua estrutura, critérios de qualidade de texto, normas de edição, etiqueta, conteúdo, estilo e formato. Desejo contribuir escrevendo artigos inteiros e adequando outros a esses padrões. Já descobri as várias páginas, aliás bastante didáticas, que explicam esses tópicos exaustivamente. Fascinam-me as possibilidades de páginas sobre os próprios editores, de convivência em torno de projetos e de listas de tarefas para crescimento desses projetos.

Estou bem certo de estar infelizmente abrindo uma caixa de Pandora e potencialmente embarcando em um monstruoso desperdício de um tempo que não tenho. Quanto mais não seja, porém, há de valer-me um grande aprendizado sobre edição de texto e ambientes compartilhados, a mim, que abraço conhecimento como a mariposa circunda a lâmpada.

Provavelmente não farei nada disso. De antemão, desencoraja-me saber que, muitas vezes, os editores são pessoas sem a noção profissional, apaixonada pela enciclopédia mas desapaixonada das idéias, de manter um distanciamento impessoal naquilo que escrevem. Por mais que se tente manter a neutralidade, os editores sempre acabam por derramar seus preconceitos, suas visões ideológicas, religiosas, políticas, controversas.

Assim, por exemplo, descobri que há um editor que se projeta bastante nas páginas sobre aviação, com vasto conhecimento e, tenho certeza, correspondente boa fé. Descobri, também, que esse mesmo sujeito é um daqueles típicos comedores de milho do Meio-Oeste dos Estados Unidos, religiosos extremados que acreditam no Destino Manifesto da América como senhora do mundo e para quem o aquecimento global não tem relação com a indústria humana. Imagine o estrago que um camarada desses pode fazer em páginas sobre temas um pouco mais polêmicos do que a história da tecnologia aeronáutica.

Se eu afinal me juntar com intensidade a esse esforço, estou convicto de que ficarei frustrado com a falta de isenção e com noções peculiares quanto à relevância de certos tópicos obscuros dentro de páginas de conteúdo universalista. Por tudo isso, hesito.

Entretanto, não posso deixar de reconhecer que as ferramentas Wiki são a materialização de mais uma de minhas antigas utopias. Pela minha impressão, elas também vêm ao encontro dos objetivos mais puros de certos idealistas do conhecimento cujo exemplo mais vigoroso são os enciclopedistas do século XVIII, liderados por Diderot. É a mesma noção que orientou a criação da biblioteca de Alexandria e das bibliotecas nacionais, é o mesmo sonho que estimulou os criadores primeiros da Internet e os gravadores do disco da Voyager. E é o seguinte: faz tempo que também concebo a possibilidade de uma grande, gigantesca, incomensurável, descomunal base de dados que reúna todo o conhecimento humano de forma consolidada e isenta (oquei, essa parte é impossível, a ideologia está por toda parte, especialmente quando não a percebemos), nos níveis ilustrativo, introdutório e profundo, destilando o conhecimento dos especialistas e acessível ao digitar das palavras-chaves.

Percebe? A atração é forte demais, não posso ficar inerte. Agora que sei que a Wikipedia existe e que tem padrões de excelência, não posso não fazer nada. Existem assuntos demais sobre os quais me dá comichão escrever: Brasil, Física, Astronomia, aviação, Direito, literatura, bibliofilia, Jornada nas Estrelas, Richard Bach, rock, quadrinhos, Astérix, Tintin, super-heróis…

‘Ver no que isso vai dar.

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Clarke, Leiber e Lavoisier

Na semana passada, acabei de ler The Wanderer. Afinal o Autor não me decepcionou: acabou explicando a natureza do planeta Errante, o porquê de seus habitantes vagarem pelo hiperespaço e o que ele queria na órbita da Terra. Infelizmente, o livro só foi ficar bom quando três quartos já haviam ficado para trás.

Para trazer parte da explicação, Leiber lança mão de um recurso tão misterioso quanto útil. O astronauta Don Merriam escapa à destruição da Lua embarcando em uma nave auxiliar, que entra em órbita do misterioso planeta Errante e é capturada para dentro dele por um raio trator. Lá dentro, Merriam é convidado a sair de sua nave, encontrando uma atmosfera respirável e sendo levado a um quarto onde suas necessidades básicas são atendidas e onde, antes de pegar no sono, percebe que sua mente está sendo lida. Ao acordar, o astronauta descobre que está fora de seu corpo enquanto uma força desconhecida arrasta sua consciência descarnada através dos corredores do planeta. A visita é compulsória: a sensação é de que ele poderia controlar para onde vai, mas sempre percebendo uma urgência que o compele a passar a outro ambiente, ao mesmo tempo em que percebe presenças invisíveis. O passeio lhe mostra seres com uma grande variedade de estruturas e vivendo em ecossistemas os mais diversos, até que ele retorna a sua acomodação e volta a dormir.

Mais uma vez: se a seqüência lhe parece familiar, é porque é. The Wanderer é de 1964. No final do livro 2001 (que Arthur Clarke publicou em 1968) e lá pelo meio de 2010 (que saiu em 1982), esses são os exatos eventos que sucedem ao astronauta David Bowman. As diferenças são o objeto destruído (a Discovery em vez da Lua), o objeto misterioso orbitado (o Monolito em vez do planeta Errante), a localização dos ecossistemas (Júpiter e seus satélites em vez do planeta Errante) e o retorno ao próprio corpo, que não acontece na obra de Clarke.

Comentário ao belogue dos quadrinhos

Aqui, em 23/04/2008, o Dr. Paulo Ramos comentou histórias em quadrinhos que usaram o contorno de modo inovador. Através de metalinguagem, os personagens mostram quase saber que foram apenas desenhados sobre o papel.

Tive que lhe deixar este comentário:

“Sobre o uso dramático do contorno: Mauricio de Sousa tem pelo menos mais um exemplo brilhante. Lembro-me de uma história do Cascão dos anos 80 onde ele era atirado sobre um rio. Para não cair na água, o único lugar onde pôde se agarrar foi o contorno.”

Recém-lidos:
The Wanderer, de Fritz Leiber;
Justice League America #62 (maio de 1992);
Superman #67 (maio de 1992);
Hellblazer #53 (maio de 1992);
Armageddon: Inferno #2 (maio de 1992);
Action Comics #677 (maio de 1992);
Flash #63 (fim de maio de 1992);
Flash #64 (início de junho de 1992);
Justice League America #63 (junho de 1992);
The Sandman #38 (junho de 1992).

V-E Day

Hoje é Dia da Vitória.

Nesta data, há 63 anos, cessou aquela que foi talvez a maior carnificina na História da humanidade. Estima-se que mais de 60 milhões de pessoas tenham morrido em um conflito que moldou a geopolítica do mundo inteiro e sobre o qual já se escreveram milhares de livros.

Hoje, voltávamos do almoço eu e o Filósofo. Tínhamos acabado de atravessar a rua da Assembléia quando ouvi um barulhão. Imediatamente olhei para cima e vi quatro AMX em formação diamante, cruzando o céu do meio-dia em alta velocidade e a baixo nível — tão baixo que ele não teve tempo de ver. Comentei: hoje é Dia da Vitória, o monumento aos mortos é ali na frente. Deve estar acontecendo algum evento. (O telejornal da Record disse que eram “caças supersônicos” da Força Aérea. Não sei de onde tiram isso, é nossa imprensa chutando novamente o que não quer ter trabalho de pesquisar. Não eram caças nem supersônicos!)

Por alguns momentos, dediquei meu pensamento aos que se sacrificaram, aos que morreram à toa, aos que acreditavam, às vítimas sem escolha, à juventude perdida de toda uma geração e aos sobreviventes, feridos e orgulhosos.

É impossível não ter reação, alguma reação, diante da Segunda Guerra Mundial. Documentários abundam, consciências nacionais foram alteradas por ela, marcas profundas permanecem, há monumentos e cemitérios por toda parte. Depoimentos aos milhares, iconografia, ideologia.

Talvez nenhuma comemoração tenha sido tão apropriada quanto a do fim da guerra, a felicidade de que ninguém mais ia ter que morrer. E, no entanto, a Europa estava destruída, famílias desfeitas, e era uma alegria amarga, estragada, triste. E o conflito no Oriente ainda ia durar três sofridos meses, terminando com o calor do Sol na Terra e a chuva negra que trazia câncer.

A data não pode passar em branco. 63 anos hoje, para escarmento das gerações futuras, até nos esquecermos e começarmos tudo de novo.

Anotações: Swamp Thing #87

Acabo de enviar isto a Jonathan Woodward. É uma contribuição a seu saite sobre a Crise nas infinitas Terras, onde há uma página sobre textos relacionados.

“(…) In Swamp Thing #87 (June 1989), the green plantman goes to Camelot. In page 8, there is this dialogue between him and Merlin:

“‘That Knight [the Shining Knight] that drew me out of the wormhole… HE is able to travel through time?’

“‘Sort of. First let me explain that time is a complicated thing. In fact, what many think to be time travel is merely the exploration of ALTERNATE worlds.

“‘But at some point during YOUR era, a sort of CONVERGENCE of the worlds seems to have occurred.

“‘And all the endless possibilities were boiled down into a single reality, which is MUCH easier to set up a direct channel to.’

“‘HMMM. An interesting theory. Others I have encountered… have espoused it as well. But if there were… a CRISIS on such a scale… I’m sure I would REMEMBER it.’ (…)”