Clarke, Leiber e Lavoisier

Na semana passada, acabei de ler The Wanderer. Afinal o Autor não me decepcionou: acabou explicando a natureza do planeta Errante, o porquê de seus habitantes vagarem pelo hiperespaço e o que ele queria na órbita da Terra. Infelizmente, o livro só foi ficar bom quando três quartos já haviam ficado para trás.

Para trazer parte da explicação, Leiber lança mão de um recurso tão misterioso quanto útil. O astronauta Don Merriam escapa à destruição da Lua embarcando em uma nave auxiliar, que entra em órbita do misterioso planeta Errante e é capturada para dentro dele por um raio trator. Lá dentro, Merriam é convidado a sair de sua nave, encontrando uma atmosfera respirável e sendo levado a um quarto onde suas necessidades básicas são atendidas e onde, antes de pegar no sono, percebe que sua mente está sendo lida. Ao acordar, o astronauta descobre que está fora de seu corpo enquanto uma força desconhecida arrasta sua consciência descarnada através dos corredores do planeta. A visita é compulsória: a sensação é de que ele poderia controlar para onde vai, mas sempre percebendo uma urgência que o compele a passar a outro ambiente, ao mesmo tempo em que percebe presenças invisíveis. O passeio lhe mostra seres com uma grande variedade de estruturas e vivendo em ecossistemas os mais diversos, até que ele retorna a sua acomodação e volta a dormir.

Mais uma vez: se a seqüência lhe parece familiar, é porque é. The Wanderer é de 1964. No final do livro 2001 (que Arthur Clarke publicou em 1968) e lá pelo meio de 2010 (que saiu em 1982), esses são os exatos eventos que sucedem ao astronauta David Bowman. As diferenças são o objeto destruído (a Discovery em vez da Lua), o objeto misterioso orbitado (o Monolito em vez do planeta Errante), a localização dos ecossistemas (Júpiter e seus satélites em vez do planeta Errante) e o retorno ao próprio corpo, que não acontece na obra de Clarke.