Homenagem maior não há

Existe um escritor de quadrinhos chamado Marv Wolfman. Junto com o desenhista George Pérez, Wolfman foi o criador de uma série em doze capítulos publicada pela DC Comics em 1985 e chamada Crise nas Infinitas Terras. Passados 23 anos, essa série ainda é unanimemente reconhecida como o momento de maior impacto em todos os títulos da editora. Com todos os defeitos que lhe atribuem, os leitores ainda a comentam, ainda a analisam, ainda a tomam como referência.

Existe um website que é uma referência valiosa sobre a Crise. Chama-se The Annotated Crisis on Infinite Earths, é mantido por Jonathan Woodward e disseca as edições da série, esclarecendo referências e comparando passagens.

Dia desses, eu estava lendo o belogue de Wolfman quando vi que ali havia um linque para a Annotated Crisis. De um ponto de vista objetivo, trata-se de um Autor apontando para uma obra de referência útil para se ler a dele próprio, o que beneficia a divulgação dessa obra e, portanto, do artista.

Mas a primeira leitura que fiz foi outra. Coloque-se no lugar de Woodward: o criador da obra comentada está mostrando seu reconhecimento pela qualidade do trabalho do comentarista. Está dizendo: em toda a Internet, não há maior (ou melhor) autoridade sobre o que eu fiz do que este sujeito.

Eu não conheço homenagem maior. Se Woodward souber disso, estará plenamente justificado em se sentir o máximo.

Recém-lida: Superman #90 (junho de 1954), terceira história.

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Intimações do Ministério Público da Justiça

Eu ia escrever sobre outra coisa hoje, mas fica para amanhã. Hoje quero comentar um spam recebido por meu colega Ismaga (não é seu verdadeiro nome).

Começa dizendo que é intimação. Neste país de otoridades e abusos, intimação assusta qualquer um. Aí, o remetente se identifica como “Procuradoria Regional da Justiça”.

Vamos analisar:

1 – Se é de Justiça, já é estadual, então nunca teria o nome de “Regional”.
2 – “Da” Justiça não: “de” Justiça. O idiota que escreveu não sabe a diferença, pra ele é tudo Justiça, Poder Judiciário, otoridade. Mas Ministério Público nunca é “da” Justiça. Só pra você saber: a justiça do nome das procuradorias não é o Poder Judiciário (“a” Justiça), mas o valor moral, sem artigo. Procurador = pro curador, ou seja, alguém a favor de tomar os cuidados com. Eles cuidam da justiça, é o que diz o nome.

Em outras versões, o texto diz que é do “Ministério Público da Justiça” — órgão que, aliás, NÃO EXISTE.

O texto prossegue, dizendo ser do Ministério Público do Trabalho e exigindo seu comparecimento a depor em Brasília.

Continuemos:

3 – Ministério Público estadual ou do Trabalho? Se é Procuradoria de Justiça, é estadual.
4 – Brasília??? Mas a Procuradoria era Regional. E como é que Ismaga, estando no Rio, seria chamado a depor em Brasília? Pra isso eles mandam carta precatória, e o procurador daqui é que te ouve, não o de lá.

Diz o email que tem fundamento nos artigos 137 e 119, VI, da Constituição federal.

Prossigamos:

5 – O artigo 137 versa sobre estado de sítio. BASTA OLHAR. Será que o Ministério Público quer ouvir Ismaga antes de pedir ao presidente da República que decrete estado de sítio?
6 – O artigo 119 versa sobre Justiça Eleitoral, não do Trabalho. E não tem inciso VI; pára no II.

Finalmente, quando o assunto é sério, o Poder Público NUNCA manda email. É sempre pelo correio ou até pessoalmente. Pela simples razão de que a mentalidade ainda é a do papel.

Claro que termina dizendo “clique aqui”.

E tem também aqueles emails onde um banco supostamente ameaça tirar seu acesso à Internet (sim, isso mesmo: você vai ser desconectado), todos escritos em miguxês. Essa é uma fraude primária, em que já não cai uma criança de três anos. Ainda mais que, quando você desliza o mouse em cima do “clique aqui”, aparece o endereçamento real: saites obscuros e escusos de roubo de senha. Normalmente eu recebo esses de bancos onde não tenho conta, então estou ca*ando se eles tirarem meu Internet banking.

Se alguém ainda cai, e depois tem sua senha roubada, sinceramente, eu acho que é BEM FEITO. Bem feito pela preguiça de pensar, pela ignorância voluntária, por achar que comparecimentos a audiências se resolvem com um mero clique — preguiça de ir até lá também –, por serem analfabetos no uso da Internet, que não é para crianças.

Recém-lidas:
Action Comics #23 (abril de 1940), primeira história;
Green Lantern #16 (outubro de 1962).

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Quem vigia os vigilantes

Fui ver Body of Lies (Rede de Mentiras) no sábado. Fiquei decepcionado. Eu esperava que fosse uma história onde todo o mundo mentisse para todo o mundo, onde não se pudesse confiar em ninguém, onde o DiCaprio fosse traído justo quando estivesse no meio da lama e depois tivesse que se virar sozinho — e não foi nada disso. Bem, foi um pouco disso, mas pouco. Permita-me colocar do seguinte modo: eu esperava certos clichés conforme os últimos quinze anos de cinema nos têm levado a esperar, mas os clichés foram os de cinqüenta anos atrás (oito dias para a queda do trema, e contando). — [Apidêite em 07/01/2009: a versão original desta mensagem dizia “queda da crase”. É que eu sou tão obcecado com crase que confundi as inguinoranças. Foi mal aí.]

Também esperava mais helicópteros, várias cenas de helicópteros, como sugeria o trailer — e só teve uma. Além disso, o mocinho cometeu um erro grave e tinha que pagar por ele, mas, mesmo assim, acabou sendo ajudado quando não merecia. Estou profundamente decepcionado. Se soubesse, não teria pago os R$ 17 do ingresso no Cinemark. O lado bom foi ter tido a oportunidade de escolher lugar, já marcado antes de entrar, igual a avião.

O lado ainda melhor foi o que veio antes do filme: trailer de Watchmen! Assim que apareceu a primeira cena, antes de o Dr. Manhattan explodir em pedacinhos, eu já tinha reconhecido que era ele. Está muito igual ao quadrinho! Várias cenas estão perfeitamente reconhecíveis! O clima está igual ao do original! Os personagens estão iguais! Maneiríssimo! Tenho que ir ver! Urru!

Recém-lida: Green Lantern #15 (setembro de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (4): diplomas escusos

Voltando à filipeta que já comentei aqui, tem mais uma coisa. Dizia ali que a academia estava sob a responsabilidade de uma certa profissional, “Dra. Fulana de Tal — formada em Educação Física, especializada em…”. Peraí. Formada onde? Só diz em quê. Se a faculdade fosse boa (ou, pelo menos, conhecida), ela diria qual foi. A conclusão que tiro é que a “doutora” tenha se formado em alguma faculdade obscura, cujo nome prefere esconder por vergonha. Então, seu anúncio funcionou ao contrário: ali é que não quero mais ir.

Recém-lida: Green Lantern #14 (julho de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (3): metodologias

Sem sacanagem: o que significa a palavra metodologia? Logia, logos, discurso. Então, metodologia é o discurso, o estudo, a ciência que estuda o método. Você pega um método e começa a analisá-lo, interpretá-lo, avaliá-lo. Essa atividade é a metodologia.

Quando você está descrevendo um método a alguém, você está descrevendo o método, não a metodologia. Metodologia é o que você faz, é o que você está fazendo; método é a coisa que você está expondo, explicando, é a coisa que você está trazendo.

Estou de saco cheio dos acadêmicos tecnocratas cujas monografias começam com o seguinte resumo: “… expondo uma metodologia de classificação da produção tecnológica…”. Não. Vampará com isso. O que está sendo exposto é o método de classificação, não a metodologia. As frases estão sendo alongadas desnecessariamente.

Mais um centavo para o Tal Shiar.

Recém-lida: Green Lantern # 13 (junho de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (2): neogramática

Existem algumas campanhas por aí, “doe dinheiro para o abrigo dos cegos”, “faça uma doação para as vítimas da enchente”, “clique aqui e doe um prato de comida”.

Pois pode escrever aí: a partir de agora, pra cada crase proibida que eu encontrar, cada há-do-verbo-haver que eu encontrar escrito como “à”, cada vírgula entre sujeito e verbo, cada erro de concordância com que eu me deparar, vou doar um centavo pràlguma ditadura bem maligna, ou pros fundamentalistas islâmicos, pro IRA, pro Tal Shiar, sei lá pra quem. Eles vão ficar milionários.

Recém-lida: Green Lantern #12 (abril de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (1): o trem do Inferno

Qualquer um que ande de metrô no Rio de Janeiro sabe o suplício que é. Um aperto desgraçado, você não consegue entrar no vagão. Outro dia, quando cheguei ao Estácio e aquele mundo de gente saiu por um lado, pelo outro entrou uma moça que quase caiu pra trás com — palavras dela — o cheiro de suor que havia ficado no ambiente. Verdade. Até eu, que estivera imerso ali, estava sentindo.

Outro detalhe curioso é a quantidade de retardados que reclama que “o ar está desligado” (ou o equivalente: “está só na ventilação”). É incrível. O vagão foi projetado para levar, sei lá, oitenta pessoas, mas está levando, digamos, duzentas. O imbecil realmente espera que fique geladinho do mesmo jeito. Não percebe que, se ele ainda não morreu sufocado, é que o ar está ligado. Não percebe um ventinho que percorre sua cabeça, mais frio do que a sauna à sua volta. No cérebro de ervilha do hipoplausibilóide, ele está sentindo calor, portanto o ar está desligado. Dá vontade de ligar uma bomba de vácuo na boca do desgraçado e perguntar se o ar já foi ligado ou se está só na ventilação.

Enquanto isso, em cada uma das estações, vários cartazes mostram modelos sorridentes sob slogans do gênero “Metrô Rio. A vida é melhor aqui”, mais conforto, mais feliz, orgânico e sustentável. Estou convencido de que esses cartazes têm a única serventia de debochar do cliente.

Pois, não bastasse tudo isso, na estação Saenz Peña, nesse último sábado, um barulho infernal veio somar-se à tortura apavorante. Uma TV de LCD e umas caixas de som faziam propaganda da Sky exibindo um videoclip de soul music, enquanto um par de cadeiras de plástico supostamente servia como ponto de vendas, aliás desocupado. O som estava altíssimo, tomava todo o ambiente, deslocava meus pensamentos, martelava pessoas e mobília.

Será possível que a Sky realmente acredite que, torturando meus ouvidos, vá me convencer a comprar algum pacote? Se alguém me faz mal, não vou querer negociar com aquela pessoa; vou querer é distância dela. Mas fui advertido por quem estava comigo: os imbecis só se sentem confortáveis quando há barulho alto. Então, para a maioria dos imbecis (e para a infeliz que, depois eu vi, chegou para ocupar aquele posto), o barulho é agradável.

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