Colapso nos transportes

Ontem, o metrô parou na estação Saenz Peña. O locutor avisou, “estação terminal, todos os passageiros deverão desembarcar”.

Todo o mundo saiu rápido, enquanto as luzes eram apagadas e os seguranças já percorriam o trem para garantirem que ninguém permanecesse a bordo. Quando foi minha vez de sair, percebi a plataforma cheia de caminhantes, então esperei alguns segundos antes de aparecer um vazio na multidão, para poder pisar fora.

Imediatamente, senti um golpe atrás dos joelhos. Caí. Do chão, vi o guarda ainda brandindo o cassetete, apontando a porta e gritando, “sai! levanta do chão e sai agora!” Tentei me apoiar em um banco para me levantar, mas outro guarda me apanhou pelos ombros e me atirou para fora, onde, todo desequilibrado, não sei como não acertei ninguém.

Enquanto eu me recumpunha, ouvi mais de um transeunte comentando, “bem feito, quem mandou demorar a sair do trem?”, “é nisso que dá, ficatrapalhando asotra pessoa”, “esses aí só qué ficá dando trabaio pros guarda”.

Essa foi uma história de ficção. Mas, se você chegou a acreditar que fosse real, é que a narração, de algum modo, estava batendo com sua expectativa. Então concordamos que tem alguma coisa errada com o metrô — e com as pessoas também, cordeirinhos obedientes em Metrópolis (de Fritz Lang, não de Siegel & Shuster). Não?

***

Agora uma história real, também acontecida ontem. Dentro do 229 parado, uma mulher berrava no celular. Todos conseguíamos ouvir detalhadamente seus planos de encontrar uma pessoa no Shopping Tijuca, onde tinha que tirar dinheiro, e depois jantar em casa da mãe.

Os gritos incomodavam, mas não foram o pior. O pior foi ouvi-la pronunciar nìtidamente “Saens PeNa”. Juro pra você: toda vez que escuto alguém dizer “Saens PeNa”, sinto um impulso homicida. Não sei o que é pior: se isso, se crase onde não pode ou se vírgula entre sujeito e predicado.

Pra quem não é do Rio, um serviço de utilidade pública: Roque e Luis Saenz Peña, pai e filho (não sei qual é qual), foram presidentes da Argentina no início do século XX. Em homenagem aos dois, a principal praça da Tijuca foi batizada Saenz PeÑa.

Recém-lidas:
Green Lantern #7 (agosto de 1961);
The Flash #123 (setembro de 1961).

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