Interpretando a Bíblia

Aqui na Internet, muita gente diz que a Bíblia é um monte de histórias da Carochinha, que é tudo mentira etc. Eu também não acredito em algumas de suas histórias, mas isso não quer dizer que tenham sido escritas de má fé. Prefiro acreditar que tenham sido escritas (ao menos em parte) por gente sincera.

Considere que, naquele tempo, o conhecimento científico era muito incipiente e carente de método. O mundo era grande fonte de assombro; em tudo se via a mão sobrenatural, divina ou otherwise. Além disso, nós, humanos, temos o vício de não narrarmos os fatos objetivamente, mas transmitindo já a nossa própria visão deles, eivada de sentimentos e julgamentos.

Considere, também, o episódio de I Crônicas 13 em que a Arca da Aliança estava sendo transportada em um carro de bois. Um dos bois tropeçou, a Arca quase caiu do carro, e o garoto hebreu Uzá, que vinha caminhando ao lado, estendeu a mão para evitar que ela caísse. Dizia a regra divina que era proibido tocar na Arca. Diz a narração que o pobre Uzá foi imediatamente fulminado por um raio.

Considere, ainda, que a Arca era revestida de ouro e que ela e o carro de bois eram feitos de madeira. Considere, finalmente, que, por décadas e séculos, ninguém tocara na Arca diretamente: só nas varas de madeira com que era transportada.

A madeira é um isolante elétrico. É concebível que, com o roçar das varas e carros durante tanto tempo, a superfície da Arca tenha acumulado um bocado de carga eletrostática. Um dia, o camponês Uzá, certamente descalço sobre o chão do deserto, toca a Arca com seus dedinhos — e fecha o circuito de aterramento. A descarga flui imediatamente por seu corpo, causando parada cardíaca. Como ninguém sabe fazer ressuscitação cardiorrespiratória, Uzá morre. É claro, isso é só uma hipótese. Não sei quanta carga o revestimento de ouro sustenta sem romper o dielétrico.

Outra explicação plausível para mim é um pouco mais elaborada e exige que o boi não tenha tropeçado tanto quanto ficado inquieto. Considere que uma Arca, sendo transportada pelo deserto, projeta-se uns dois metros acima do chão, destacando-se na paisagem. Suponha que estivesse ameaçando chuva (o que é raro mas acontece). Com o acúmulo de eletricidade estática no ar, forma-se um pouco de ozônio, cujo cheiro os sensíveis animais logo percebem (até nós: é o “cheiro de terra molhada” de antes da tempestade). O boi fica inquieto, a Arca quase cai, Uzá estende a mão e, com isso, conecta a Arca à terra. A Arca atua como um pára-raio, rompe o dielétrico (ainda mais porque está carregada há anos) e um raio realmente cai em cima do garoto.

É claro, isso são apenas hipóteses. Não tenho como testá-las, mas os Mythbusters têm. Nem sou tão bom em Eletricidade, cujo ramo da Engenharia era minha última opção ao fim do curso básico (acabei indo para a mecânica, que era a primeira).

Se eu não for apedrejado por causa dessa mensagem, pretendo vir aqui outro dia e reinterpretar a idade de Matusalém e o Sol parado de Josué. Uma dica: calendários.

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Recém-lidas:
Robbie, conto de Isaac Asimov;
The Flash #155 (setembro de 1965);
Wonder Woman #163 (julho de 1966), primeira história;
The Flash #165 (novembro de 1966);
The Flash #179 (maio de 1968);
Wonder Woman #178 (setembro-outubro de 1968 — até agora, a história mais influenciada pela Contracultura dos anos 60);
Justice League of America #77 (dezembro de 1969);
Green Lantern #74 (janeiro de 1970)
… e, com isso, acabei a Era de Prata. A qualidade das histórias já está melhorando.

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A má vontade que move o mundo

Ontem fui ao supermercado Multi Market, no Rio de Janeiro, esquina das ruas Uruguai e Conde de Bonfim. Duas geladeiras de sorvete Kibon. Na da esquerda, o anúncio: “sorvete Kibon 2 litros R$ 10,90”. Dentro dela, os sabores de sempre: creme, chocolate, flocos, napolitano. Na da direita, flocos, napolitano, brigadeiro, Diamante Negro e Sonho de Valsa. Estes dois últimos tinham preços separados, mais caros, marcados junto a eles. Então, para me ater à promoção, peguei o de brigadeiro.

Chegando ao caixa às 22:11 h, brigadeiro custava R$ 11,90. Perguntei à Operadora Roberta por que ali eram R$ 11,90 se, na geladeira, eram R$ 10,90. Ela veio com o caô de que brigadeiro era mais caro e que o preço anunciado era só para os outros. Retruquei que não: que ele estava sem preço e, portanto, o preço mais baixo valia para ele também.

A operadora chamou a supervisora, que, primeiro, confirmou a uniformidade de preços. Mesmo assim, por insistência da maldita operadora (como se fosse ganhar comissão em cima de 1 real), a supervisora foi até a geladeira. Vi que ela procurava um preço diferenciado para o brigadeiro, sem sucesso. Voltou devagar, certamente pensando em algum jeito de sacanear o consumidor. Chegou dizendo que, como o brigadeiro estava na geladeira da direita, o preço de R$ 10,90 não valia para ele.

Eu poderia ter argumentado que (1) outros, para os quais os R$ 10,90 valiam na geladeira da esquerda, estavam na da direita também, o que não mudava seu preço; que (2) brigadeiro estava sem preço, então o cliente tem que adivinhar quanto é?; e que (3) brigadeiro sem preço, anúncio de Kibon 2 litros sem especificar sabor, é óbvio que o preço do anúncio vale para brigadeiro também.

Mas eu não disse nada disso. Só a encarei firme e disse, “então vamos fazer o seguinte. Por causa de 1 real, vamos estornar R$ 11,90. Tá bom pra você?”

Ela fez sem discutir, mas, no caminho pra casa, fiquei pensando que havia feito muito pouco. Eu devia ter simplesmente largado tudo mais em cima do balcão e ido embora sem levar nada. Afinal, se eles estão de sacanagem, também eu devia estar. Devia ter largado tudo ali em cima, só para terem o trabalho de guardar tudo de novo. É verdade que, em vez de me vingar em cima da empresa, eu estaria me vingando em cima dos empregados, mas foram os empregados que me trataram mal, com antipatia e criatividade em me aborrecer.

Pensei mais: que esse é o comportamento de todas as empresas que lidam com consumidores no Brasil. Presume-se que o consumidor (jamais cliente) esteja errado, procuram-se formas de aborrecê-lo, abusa-se da desvantagem logística da pessoa física. Por acaso vai falir o Multi Market se, uma vez só, admitirem o erro e me deixarem levar o sorvete pelo preço que me prometeram? Vai CAIR A MÃO se tirar um reÁU do preço final? Faltava menos de uma hora para fechar o mercado, ninguém mais ia levar sorvete em dia de chuva forte, era só explicitar o preço diferente na manhã seguinte. Mas não: por preguiça, por aleivosia, por espírito emulativo, só o que lhes ocorreu foi estimular mais um pouco a reação de Michael Douglas em Um Dia de Fúria.

Compare com as práticas da Amazon.com. Um livro demorou 61 dias para chegar. Escrevi reclamando, e simplesmente mandaram outro. Acabaram chegando dois e perguntei-lhes se queriam o segundo de volta. Recusaram e sugeriram que eu o doasse a uma biblioteca pública.

Sei que estou levantando muito o sarrafo da comparação. Mas ilegalidades como a do Multi Market se repetem todos os dias com cada um de nós, várias vezes por dia, neste País abençoado onde o Direito do consumidor só existe no papel. Quando aprendo formas de combater esses pequenos massacres, constato que não há relações jurídicas, mas apenas relações de poder. As reações são sempre retaliaçõezinhas, como vir aqui escrever isto ou negociar, na hora, quem sai perdendo mais: eu, R$ 1, ou eles, R$ 41 (se bem que essa é uma batalha que já começa perdida, porque as empregadas não sabem fazer conta e, pior, não se importam. Nem se importa a empresa, principal interessada: se eu não levar, algum favelado leva mesmo).

“Mas, Atoz, por que você não procurou o gerente?” Arrã. O Multi Market já deixara evidente a sua posição. Você sinceramente acredita que, em um supermercado com essa conduta de preços e essa negligência em expô-los,o gerente vai ficar do meu lado em vez de sustentar a história de operadora e supervisora de caixa?

Agora, o que o Multi Market ganha com isso? Ganha que vou passar a ir mais vezes ao Extra, ao Ultra, à Sendas, ao Campeão, ao Tijuquinha e às padarias da região. Eles jogaram fora uma excelente oportunidade de conquistar um cliente. Bastaria estornar, lançar o valor correto e pronto, o cliente satisfeito tende a voltar. Veja o Hortifruti, por exemplo. Se compro um pão no Hortifruti e o pão mofa antes da validade, basta procurá-los com a nota fiscal que eles trocam sem fazer perguntas. Com isso, mesmo o Hortifruti sendo mais caro, eu tenho a tendência de ir comprar lá.

O Multi Market mantém aquela atitude antiga dos comerciantes brasileiros: de que o comércio é uma guerra contra o consumidor, onde o mercado tem que fazer tudo a seu alcance para levar as menores vantagens em tudo. A visão embotada não enxerga que, abrindo mão de R$ 1 que não é dele, o mercado ganharia R$ 41 de mim.

Praga de Atoz surte efeito. Eu sinceramente desejo que aquelas duas percam seus empregos e morram sentindo dores e que o amaldiçoado Multi Market acabe fechando.

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Saindo do berço

Quatro coisas.

Aqui no Rio de Janeiro, a posse do Obama foi tão importante que o prefeito decretou feriado. Ninguém trabalhou.

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Você nunca quis saber quem fazia os uniformes dos supervilões? Então. A resposta está em Flash Comics #155 (setembro de 1965): “O desafio dos supervilões!”, publicada no Brasil em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008). Quando o Mestre dos Espelhos foge da prisão, acompanhamos seus pensamentos:

“Com certeza serei apanhado num pulo com estes trapos da prisão! Tenho que conseguir uma roupa nova! E sei exatamente onde!

“Logo, numa região sórdida da cidade…

“Lá está! O alfaiate que costumava fazer fantasias pra supervilões foi trancafiado pela polícia! Mas soube pelos rumores que seu aprendiz, chamado Leach, tinha aberto essa nova loja num lugar diferente!”

Aí está. Agora você sabe.

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Quando ouvi esta gravação, alguns dias atrás, fiquei emocionado. Adivinhe o que é.

Isso é a digitalização do original feito por dois irmãos radioamadores italianos, que, ao ouvirem falar do lançamento do Sputnik I, montaram um equipamento rude, porém suficiente para passarem o restante da corrida espacial ouvindo todas as comunicações abertas de soviéticos e americanos. Acumularam quilômetros de gravações, entre elas isso que você ouviu: as emissões do primeiro satélite construído pela raça humana, lançado em outubro de 1957. Preservadas em meio digital, evocaram-me tudo que já li sobre a Era Espacial e seus efeitos inevitáveis em nosso futuro (parte do qual já é nosso passado). Tão simples, o sinal apenas afirmava que sua fonte estava ali e mais nada, mas, para mim, esse é o som de quando eclodimos o ovo. Nas palavras de Tsiolkovsky, assim começamos a sair do berço.

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Saindo do berço em outro sentido da expressão, este é o primeiro vídeo que subi para o YouTube (se não abrir, tente http://www.youtube.com/v/50pup9L-ES4 ).

Fui eu mesmo que filmei quando fui ao Flying Legends em 12 de julho de 2008. O Flying Legends é um evento anual que acontece em Duxford, Inglaterra, em uma antiga base aérea da RAF (aliás, a primeira base a receber Spitfires, no longínquo 1938). O vídeo mostra a preparação para o encerramento do show, quando decolaram juntos todos os caças da II Guerra Mundial que voaram no evento (primeiro os da Marinha americana, depois os da USAAF e, por último, os Spitfires). Em seguida (mas isto não está nesse filme, só em outro), fizeram um grande Balbo sobre o campo: 26 caças em formação, em uma longa fileira. Vou ver se subo esse outro mais tarde.

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Recém-lida: Green Lantern #31 (setembro de 1964), primeira história.

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Diário de consumo

Recém-lidos:
As concepções fenomenológicas elementares do Estado e do Direito, de André Ricardo C. Fontes, publicado em Cadernos da Escola da Magistratura Regional Federal da 2a Região – EMARF, v. 1, n. 2 (outubro de 2008-março de 2009);
Superman #164 (outubro de 1963), primeira história;
Superman #167 (fevereiro de 1964).

Recém-visitados:
http://discipulodarazao.com/
http://skeptoid.com/
http://ceticismo.net/

Na caixa acústica:
Carly Simon, Libby, Cow Town e Riverboat Gambler;
Camel, Freefall.

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Gente que afirma demais e gente que afirma de menos

Quando os líderes sindicais querem mobilizar suas categorias, que fazem? Vão para cima do carro de som e discursam em tom de censura a sua base sindical. Isso mesmo: dirigem palavras agressivas, reprovando seus colegas. É sempre um tom antipático, acompanhado pelo brandir de dedos que acusam os demais trabalhadores por seu predicamento, culpando-os pela postura do empregador.

É verdade que nós, não outrem, somos responsáveis pelo que nos acontece. Mesmo assim, a meu ver não se justifica a animosidade desses sindicalistas contra sua própria base. Se julgam que estão sendo pisoteados e massacrados pelo capital, ora, que se queixem contra o capital, não contra a mão-de-obra. Se o trabalhador está sendo privado de melhores condições, não é por obra de outro trabalhador.

Qual será a reação natural de quem está ao alcance dos alto-falantes? A minha é de querer me afastar. Se alguém fica cobrando alguma coisa de mim onde não estou obrigado, se alguém vai ficar me condenando em tom de dono da verdade sem que eu lhe deva nada, não vou querer ficar amigo dessa pessoa; vou querer é distância. “Você não pode aceitar, você não pode se deixar levar, vocês têm que se levantar, vocês têm que se insurgir.” Eu não tenhoquê nada.

Não estou querendo minar o movimento nem justificar apatia. Estou resmungando, isto sim, contra uma hostilidade mal endereçada.

Se muita gente reagir como eu, vai ficar difícil esses caras terem adesão. Ocupam-se tanto de fazer política que se esquecem de ser políticos.

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Às vezes, estou na fila para atendimento em uma sorveteria, ou em uma lanchonete, ou em semelhante comércio. O balconista pergunta a quem está à minha frente.

— Quer gelo? (ou: “quer cereja?”, “ponho calda?”, “vai amendoim?”, “é com mostarda?”)

— Pode ser.

Como assim, “pode ser”??? Quem está pagando é você! Quem tem o ônus de definir como quer o sanduíche (sorvete, refrigerante) é você! Quando dizem “pode ser”, não estão dizendo como querem, mas apenas autorizando o atendente a escolher como ele quiser: se põe ou não põe. Estão permitindo que ele defina, estão dizendo que tanto faz.

Comigo é mais direto. “Sim, por favor” (e o “por favor” só está ali por educação, que favor não é) ou “não, obrigado”. Só. Sem essa de “pode ser”.

Gente que não se define, não se afirma, não sabe o que quer!

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Papo de maluco

A linha de meu telefone fixo estava cruzada com as de outras pessoas (assim mesmo, no plural). Se eu ligasse para a própria Telemar, ela identificava meu número como outro. Às vezes, eu tirava o fone do gancho e encontrava uma conversa já instalada.

Sábado de manhã, o telefone tocou.

— Bom dia.

Silêncio.

— Alô, olá, quem fala?

Entrou uma senhora com sotaque levemente português.

— Alô. O sinhoire queire falar com quem?

— Eu? Não, minha senhora, fui eu que atendi. O telefone tocou e eu atendi.

— Como? O sinhoire ligou e o sinhoire mesmo atendeu?

Tem cada uma!

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Uma de muitas coisas que odeio é ser chamado de “meu querido”. Especialmente por vendedores, balconistas, telemarqueteiros e assemelhados.

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Recém-lidos:
Batman #156 (junho de 1963), segunda história;
Nineteen Eighty-Four, de George Orwell.

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