Gente que afirma demais e gente que afirma de menos

Quando os líderes sindicais querem mobilizar suas categorias, que fazem? Vão para cima do carro de som e discursam em tom de censura a sua base sindical. Isso mesmo: dirigem palavras agressivas, reprovando seus colegas. É sempre um tom antipático, acompanhado pelo brandir de dedos que acusam os demais trabalhadores por seu predicamento, culpando-os pela postura do empregador.

É verdade que nós, não outrem, somos responsáveis pelo que nos acontece. Mesmo assim, a meu ver não se justifica a animosidade desses sindicalistas contra sua própria base. Se julgam que estão sendo pisoteados e massacrados pelo capital, ora, que se queixem contra o capital, não contra a mão-de-obra. Se o trabalhador está sendo privado de melhores condições, não é por obra de outro trabalhador.

Qual será a reação natural de quem está ao alcance dos alto-falantes? A minha é de querer me afastar. Se alguém fica cobrando alguma coisa de mim onde não estou obrigado, se alguém vai ficar me condenando em tom de dono da verdade sem que eu lhe deva nada, não vou querer ficar amigo dessa pessoa; vou querer é distância. “Você não pode aceitar, você não pode se deixar levar, vocês têm que se levantar, vocês têm que se insurgir.” Eu não tenhoquê nada.

Não estou querendo minar o movimento nem justificar apatia. Estou resmungando, isto sim, contra uma hostilidade mal endereçada.

Se muita gente reagir como eu, vai ficar difícil esses caras terem adesão. Ocupam-se tanto de fazer política que se esquecem de ser políticos.

***

Às vezes, estou na fila para atendimento em uma sorveteria, ou em uma lanchonete, ou em semelhante comércio. O balconista pergunta a quem está à minha frente.

— Quer gelo? (ou: “quer cereja?”, “ponho calda?”, “vai amendoim?”, “é com mostarda?”)

— Pode ser.

Como assim, “pode ser”??? Quem está pagando é você! Quem tem o ônus de definir como quer o sanduíche (sorvete, refrigerante) é você! Quando dizem “pode ser”, não estão dizendo como querem, mas apenas autorizando o atendente a escolher como ele quiser: se põe ou não põe. Estão permitindo que ele defina, estão dizendo que tanto faz.

Comigo é mais direto. “Sim, por favor” (e o “por favor” só está ali por educação, que favor não é) ou “não, obrigado”. Só. Sem essa de “pode ser”.

Gente que não se define, não se afirma, não sabe o que quer!

EOF