Segundo e iconoclástico resmungo contra o Acurto Ortográfico

Até dezembro de 1971, usavam-se acentos diferenciais no Brasil. Naquele ano, por força da lei 5765, deixamos de usá-los. Com isso, deixamos de diferenciar acerto (substantivo: eu acertei, isso foi um acerto) de acerto (do verbo acertar).

Haverá quem diga que o contexto sempre nos permitirá dizer qual das duas palavras está sendo usada. É verdade. Só que, com isso, o texto fica mais difícil, você leva mais tempo na leitura, tem que espremer mais raciocínio que seria melhor empregado interpretando o texto inteiro do que só uma palavrinha. O texto sofre, fica menos fluido, sua velocidade de leitura cai. Eu, pelo menos, sempre fico mais revoltado quando isso acontece.

Posso dar um exemplo de como a reforma de 1971 piorou minha vida sob alguns aspectos. Existe um livro de Monteiro Lobato chamado A reforma da Natureza (não da ortografia). A passagem mais criativa é onde Emília imagina papel nutritivo e com sabor, sugerindo que a fome do corpo seja tratada junto com a do espírito, de uma vez só. Você leria e, ato contínuo, comeria seu livro. Eis aqui o trecho original (cortesia do Scribd, onde você viola direitos autorais sem ser perturbado):

“– Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos — uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?

“A Rãzinha gostou tanto da idéia que até lambeu os beiços.

“– Ótimo, Emília! Isto é mais que uma idéia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos. As últimas serão as da sobremesa — gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.”

Quando li esse trecho pela primeira vez, interpretei essa última ocorrência da palavra gosto como o verbo gostar: eu gosto. Foi só anos depois que descobri que era o substantivo, sinônimo de sabor.

Como poderia Lobato ter resolvido a ambigüidade? No original mesmo, publicado lá pelos anos 40, ela estava resolvida, porque ele pôs acento em gôsto. Nos exemplares pós-1971, tratando-se do verbo, ele poderia ter posto um pronome reto eu, mas, no caso do substantivo, a ambigüidade não tem cura: você fica sem saber mesmo.

Apesar da “solução” de 1971, alguns acentos diferenciais permaneceram: pêra, pára e devo estar esquecendo outros.

Mas, agora, nossos Acadêmicos (que mais parecem os do Salgueiro do que os da Academia Brasileira de Letras) decidiram que não poderiam manter meio erro: tinham, por coerência, que ir até o fim e cometer um erro inteiro. Então, pelo novo Acordo Rotográfico, aboliram os acentos diferenciais que ainda restavam. Está lá, falaciosamente, no Anexo II do Acordo, item 5.4.1:

“As razões por que se suprime, nestes casos, o acento gráfico são as seguintes:

“a) Em primeiro lugar, por coerência com a abolição do acento gráfico já consagrada (…) pela Lei nº 5.765, de 18/12/1971 (…)”

As regras já não fazem sentido, a grafia já não tem lógica. Eles dizem que a pronúncia foi o principal critério da reforma, porém refazem as regras de modo que você não tenha como descobrir a pronúncia de nada a partir da leitura.

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Podia ter sido pior. De acordo com o mesmo Anexo II, o acordo de 1986 abordou o fato de que algumas palavras levavam acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal (p.ex.: cômico x cómico). Para resolver esse problema, trouxe uma solução muito simples: pretendeu abolir TODOS os acentos da língua. O acordo de 1986 só não foi adiante porque os portugueses o rejeitaram em massa. Aí, os luminares decidiram repensar o caso e descobriram que, puxa vida, olha só, essa dupla acentuação só acontecia em 1,27 % (sim, isso mesmo: um vírgula 27 por cento) das palavras acentuadas! Por causa delas iam eliminar TODOS os acentos!

Repensado o caso, os gênios da Lexicologia descobriram que a eliminação dos acentos traria algumas dificuldades, a saber:

– ao ler as palavras, todo o mundo correria o risco de passar a pronunciá-las errado;

-ao aprender palavras pouco usadas (especialmente as de uso científico), o leitor correria o risco de aprender a pronunciá-las errado;

– de modo geral, seria mais difícil aprender a língua;

– ficaria mais difícil descobrir se o Autor de um texto estaria dizendo análise ou analise (“contanto que eu analise”), fábrica ou fabrica (“a Embraer fabrica aviões”), etc.

Vem cá. Primeiro, os caras resolvem abolir 98,73% dos acentos porque os outros 1,27% têm grafia variável; depois de rejeitada a medida, descobrem que era melhor avaliar o caso antes de tomá-la; e, finalmente, descobrem que sem os acentos ninguém ia mais conseguir ler nada? Qual foi a parte que eu perdi?

Tenho mais perguntas. Vocês já notaram que isso só acontece entre Brasil e Portugal? Nunca ouvi falar de ter havido imbroglios assim entre, por exemplo, a França, a Bélgica e o Canadá; ou entre Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Só nós, os numerosíssimos países falantes do português, é que ficamos dando essas voltas.

E pra que mudar se a gente continua conseguindo ler tudo?

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Da última vez, comentei que havia algumas próclises e ortografias proibidas no texto do Acordo. Pra que não se pense que estou inventando ou que os exemplos são poucos, trago-vos mais alguns:

– No Anexo II, item 5.3(b): “com a possibilidade de, sem acentos gráficos, se intensificar a tendência (…)”.

– No Anexo II, item 5.4.1(a): “cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locação de cor;” — exceto que o certo é locução, não locação! Não tem ninguém alugando nada!

– No Anexo II, item 7.1: “Se, de fato, se abolisse o uso restritivo (…)”

Veja bem, não é que tenha que sair perfeito. É que quem está cagando a regra são eles. Então, quem tinha que PRESTAR ATENÇÃO no que está fazendo e FAZER CERTO são eles, não eu!

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Já que não dá pra respeitar o que esses caras escrevem, estou pensando sèriamente em esquecer tudo isso. Estou — juro — disposto a voltar a escrever conforme pré-1971, com todos os acentos diferenciais que foram extintos então — e olha que nasci depois da reforma de 71. Assim, no trabalho eu vou até respeitar o Acordo. Mas, aqui no belogue e no Cantinho, realmente cogito se não vou passar a escrever cabêlo e obsoléto (sim, eu sei que obsoléto não levava acento).

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Recém-lidas:
Action Comics #544 (junho de 1983), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
Green Lantern #172 (janeiro de 1984), primeira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 2 (junho de 2008);
The New Teen Titans #39 (fevereiro de 1984) e #40 (março de 1984), publicadas em The New Teen Titans: the Judas Contract.

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De início, a idéia me pareceu ótima. Adquiri-a em visita à casa de T’Riet e Othon, em Houston. Foi assim: fiqui aqui ao computador o dia inteiro e, como faz muita gente, pus uma trilha sonora no drive. Exceto que, em vez de CD ou Media Player, a trilha era um DVD, que ficou rodando. O vídeo até estava ligado, mas eu queria era ficar ouvindo, com todos os diálogos e efeitos sonoros.

Um dos DVDs que rodei hoje foi Star Trek: the Motion Picture, edição do diretor (outros foram outros filmes da seqüência).

Pronto: agora à noite, meu cérebro não pára de ficar reproduzindo a música do encontro dos klingons com V’Ger. Inteira, com todas as trompas, fagotes, violinos e violoncelos. Quando acaba, começa de novo.

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Primeiro e improvável elogio

Antes: minha irmã me ligou alguns minutos atrás para dizer que o Salgueiro foi campeão do desfile de Carnaval no Rio e que, por isso, estão falando em fechar a praça Saenz Peña para comemorar. Para bom entendedor, meia frase basta: isso signif tudo mij e vomit, vdros quebr, tiros ocasion, tmlto e depred generaliz. Ah, que maravilha morar numa terra de tanta brasilidade, tanta malemolência, tanta ginga e selvageria.

E agora, vamos à mensagem de hoje.

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Eu vivo falando mal de tudo. Então, para variar do padrão, hoje vou elogiar uma pequena peça tecnológica.

Meu computador anterior rodava Windows 2000. Nessa versão do sistema, o Windows Explorer permite a busca de arquivos: você indica o diretório onde o arquivo deve estar, o nome do arquivo, parte dele ou uma seqüência de texto contida nele, e ele encontra o arquivo para você. Um dos problemas é que essa busca é muito lenta.

Até que instalei o Vista (não tive escolha: veio assim de fábrica). A busca de arquivos do Windows Explorer é desastrosa. Ele só tem um campo para você preencher com palavra-chave, que pode ser o nome do arquivo ou texto contido no arquivo. A busca é extremamente lenta e, depois de alguns testes, confirmei que o Windows não conseguia encontrar um determinado arquivo ainda que fosse o único do diretório e eu apontasse qual diretório era esse. Além disso, retorna resultados que não se enquadram nos parâmetros de busca apontados — ou, em outras palavras, que não têm nada a ver com o que eu procurava e que só me fazem perder tempo. Devem ser os algoritmos heurísticos da Micro$oft. Sabemos no que deu o último computador que foi concebido para ser programado heuristicamente.

Então, fui à Web e catei uma meia dúzia de programinhas de busca ou gerenciamento de arquivos. Encontrei uma pequena maravilha chamada Effective File Search 5.5, de uma empresinha chamada Sowsoft. É um sharewarezinho básico como há décadas estamos acostumados a ver.

Sem sacanagem: o programa é levíssimo e rápido como um trem britânico em passagem de nível. A melhor parte são as opções de busca: você pode especificar tamanhos mínimo e máximo do arquivo que está procurando, data mínima e máxima, e texto contido no arquivo. Tamanhos e datas já ajudam pra caramba: você sabe que baixou aquele PDF entre dezembro de 2007 e março de 2008, sabe que pesa mais de 100 kB mas menos de 1 MB, só esqueceu o nome. Além disso, ele te dá operadores booleanos: é a opção de procurar arquivos com um nome “ou” outro nome, “e não” aqueloutro nome.

E é rápido. Mal você clica OK, ele já te dá os resultados precisos que você estava procurando, sem a demora inútil e burra do Vista. Para minha surpresa, descobri recentemente que ele dá alguns poucos resultados falsos, mas nisso não se compara ao Vista, que gera muito mais resultados falsos do que verdadeiros. E, como ele gera poucos resultados, é muito mais fácil identificar os falsos e verdadeiros do que no Windows, onde você fica um tempão rolando a tela para chegar no arquivo que procura.

Na instalação, o EFS ainda insere um atalho no menu de botão direito do Windows Explorer. Ali, onde você costuma encontrar “explorar’, “copiar”, “colar”, “excluir”, “criar atalho”, agora tenho também “effective search”.

Usuários de shareware têm o hábito de continuar usando a versão que baixaram e considerar que sejam apenas um mal necessário aqueles popups de lembrete “registre-se já para ter a versão pro”. No caso do EFS, o programa simplesmente pára de funcionar após trinta dias. Mas é tão bom que me fez pensar na justiça de retribuir a quem o criou da maneira mais justa e, além do mais, eu realmente queria continuar a usá-lo honestamente. Então, abri a mão: fui ao saite, paguei os R$ 70 pela licença, e eles me enviaram o código de desbloqueio por email. Bastou clicar e voilà, está funcionando para sempre, sem popups e sem spyware ou algum outro código malicioso oculto (meu firewall é um Comodo 3.5, sensível e atento. Eu saberia). Dinheiro bem e justamente gasto.

Um usuário mais avançado poderia argumentar que o EFS não valesse R$ 70, já que, certamente, foi construído em cima de um código mixuruca que um micreiro das antigas conseguiria imaginar na sua garagem em menos de meia hora. Mas você paga pela comodidade: eu não sei escrever o código de busca mixuruca. Tenho certeza de que seria fácil aprendê-lo, mas quanto tempo tenho? Então, prefiro pagar a quem me fez o conveniente e gentil serviço de trazê-lo pronto.

É assim: a empresa faz um programa eficaz, leve, simples, eficiente, e o cliente satisfeito a remunera por isso. Tão satisfeito que ainda faz propaganda de graça. É assim que devia funcionar com todos: dinheiro honesto ganho de maneira honesta.

Recém-lidas:
Wonder Woman #286 (dezembro de 1981), primeira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008);
Justice League of America #200 (março de 1982), páginas selecionadas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).

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O Carnaval começou bem

Acabo de ler que Sérgio Naya morreu hoje na Bahia. Sòzinho.

Para uma família, deve ser muito triste ler os comentários que já começaram a aparecer no saite dO Globo: “já foi tarde”, “tomara que o túmulo desabe” etc. Mas você colhe o que planta.

Até há pouco, a riqueza do ex-deputado estava inatingível, impedindo o pagamento de suas vítimas. Diz o mesmo saite que o advogado delas considera que, agora, vá ser mais fácil encontrar esses bens, porque, para que sejam herdados, terão que aparecer em juízo.

Infelizmente, discordo. Existem meios e modos, especialmente em um país ainda não informatizado. Além disso, os interessados sempre poderão continuar a curtir a fortuna sem que ela esteja em seu nome, quanto mais não seja porque ninguém virá reclamá-la. Formalidades jurídicas não importam quando o exercício do poder se faz na vida prática.

Mas o comentário mais sábio que li foi também o mais sucinto (como costuma ser): a esta hora, ele está curtindo a vida no Taiti.

Recém-lidos: Catch That Rabbit e Liar!, contos de Isaac Asimov em I, Robot;
Justice League of America #168 (julho de 1979), publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008);
Super-Star Holiday Special (abril de 1980), segunda história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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Macacos entre os leitores

Em inglês, quando um texto é um absurdo, costuma-se dizer que foi escrito não por um ser humano, mas por um macaco treinado.

Aí, um jornal nova-iorquino satirizou recente incidente onde um chimpanzé foi morto a tiros pela polícia: uma charge mostra o chimpanzé morto e um policial dizendo ao outro, “vamos ter que encontrar outro para escrever os pacotes de incentivo econômico”.

No saite dO Globo On, o que não falta à notícia são comentários irados (43 até agora), acusando o jornal de extremo racismo contra o Obama.

Convém não esquecer que não é o próprio Obama quem escreve as leis que aprova; que o verdadeiro Autor é o Congresso.

Acho que o racismo está na cabeça de quem comenta. De onde estou vendo, eles confessam que consideram o Obama comparável a um macaco — não necessariamente o cartunista considera.

Recém-lidas:
Justice League of America #166 (maio de 1979) e #167 (junho de 1979), ambas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).

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Primeiro grande resmungo sobre o Aborto Ortográfico

Conforme eu disse há mais de uma semana, estou mesmo estudando esta desgraça lingÜística (orgulhosamente a favor do trema — ainda vai ter passeata em defesa dos tremas discriminados).

Uma das dificuldades com que já me deparo é que não posso confiar no texto do próprio Acordo conforme baixei do saite da Presidência. Granted, os textos legais de lá sempre dizem que não substituem o original publicado no Diário oficial. Mesmo assim, quem é que vai ler direto no D.O.? A gente baixa e confia. Exceto que não.

Por exemplo: em português, é proibido usar pronome oblíquo depois de vírgula. Isso não tem nada a ver com ortografia; é regra de sintaxe. Mas veja o que encontrei no texto:

“… entre os princípios em que assenta a ortografia portuguesa, se privilegiou o critério fonético…”

Além disso, encontrei alguns casos de vírgula entre sujeito e predicado (uma heresia que nem a tiro de canhão 37 a gente consegue extinguir) e a estranha esquizofrenia segundo a qual, às vezes, o texto suprime o trema em sua própria redação (antecipando aquilo que ainda não estava em vigor), mas outras vezes não.

Nesse ponto, pergunto-me se estou estudando no exemplar correto do Acordo. Mas, então, onde?! No saite da Academia Brasileira de Letras, talvez? Lá não tem.

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Ontem, uma advogada veio me dizer que, agora, cocô não vai mais ter acento. Eu contestei que sim, vai continuar a ter acento sim, já que é oxítona terminada em o. E fiquei indignado: como poderiam, como ousariam tirar os acentos das oxítonas terminadas em a, e, o? Não pode; a tendência natural da língua portuguesa é fazer de todas as palavras paroxítonas, o que faz com que essas oxítonas tenham que ser acentuadas para indicar que saem do padrão. Com a displicência de quem vê que vai levar o xeque-mate, ela saiu dizendo que não sabia e que, segundo o Globo Esporte, não saberemos mais o que estaremos comendo: se côco ou se outra coisa.

Primeiro: então Globo Esporte virou autoridade em matéria de ortografia?

Segundo: essa anedota (real embora) revela um aspecto mais profundo e mais nefasto do Acordo Ortopédico. A esta altura, já tem gente acreditando que TODOS OS ACENTOS VÃO CAIR! Para alguns, seria muito conveniente não ter que acentuar mais nada: não precisariam aprender aquilo que nunca souberam.

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Apidêite do apedeuta: na caixa de comentários, aqui no final deste texto de hoje, você vê o estranho caso de uma professora que declarou a sua turma que não vai ensinar-lhes a reforma e que, na verdade, a reforma oficial mesmo é só em 2010. Não sei de onde ela tirou que o Acordo não seja oficial, nem de onde sacou 2010. Se tivesse lido o texto do Acordo, veria que o fim da transição é em 2012. Aliás, deve ser de propósito, para coincidir com o fim do mundo conforme o calendário maia e, assim, ninguém ter que aprender nada.

Agora, essa “professora” mostra uma atitude comuníssima em brasileiros, especialmente os que declaram imposto de renda: vai deixar para o último minuto, e nem um segundo antes. Uma vergonha.

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Procurando por outra coisa, deparei-me com esta coleção de pequenos textos de George Orwell. Se você clicar neste linque que estou fornecendo, vai cair em um ensaio interessantíssimo, publicado em 1945, ainda atualizado (como, de resto, 1984 também está) e chamado Politics and the English Language. Trata-se de uma sagaz análise sobre como a língua inglesa está se deteriorando e como essa deterioração facilita, ou melhor, é aproveitada para finalidades políticas escusas que acabam por retroalimentá-la positivamente.

A leitura é fluida e acaba servindo como uma versão resumida do apêndice de 1984 (inédito à época mas perto de ser concluído), no qual Orwell descreve a criação do Newspeak, a “nova linguagem” do Partido de sua distopia. Faz tempo que estou com vontade de traduzir as passagens mais relevantes desse apêndice, que é uma espécie de manual do método mediante o qual o Partido pretende reduzir a possibilidade de discursos não ortodoxos. Extinguindo-se palavras da língua e amarrando-se a sintaxe, torna-se impossível a formulação de certos conceitos. De fato: se você não tem um nome para sua idéia, você não consegue comunicá-la a outros e, na verdade, será impossível conduzir raciocínios com ela. Efetivamente, a idéia se tornará inconcebível. Diferentemente das demais línguas, Newspeak não pretende expandir, mas limitar a variedade de pensamentos possíveis.

Em particular, há um trecho do ensaio que ecoa com precisão uma passagem do livro. É onde ele menciona que, ao meramente repetir o discurso ortodoxo, você se torna um autômato, e sua laringe emite sons sem que o cérebro disso se aperceba, anestesiado como está. Se a luz bater no seu óculos e fizer determinado reflexo, vai parecer que o óculos são discos brancos, sem olhos por trás, indicando que ali não há uma pessoa. Ora, essa é exatamente a descrição que ele faz de um sujeito que repetia o discurso vazio do Partido na segunda cena do refeitório em 1984.

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Recém-lidas:
Superman #292 (outubro de 1975), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
The Flash Spectacular (DC Special Series #11, fevereiro de 1978), publicada em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008);
Batman Spectacular (DC Special Series #15, verão de 1978), terceira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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Chewbacca defense at the Academy

Genuìnamente tentando estudar o Acordo Ortográfico. Mas, como podem ver, ainda escrevo pelas regras anteriores a 1971, onde genuìnamente levava acento grave.

Pois é, como dizia meu professor de Direito civil, um lodaçal. Base XI, item 2o., alínea “a”, exemplifica uma regra para proparoxítonas com a pura expressão de como me sinto: “sôfrego, sonâmbulo, trôpego”.

O texto do Acordo, conforme baixei da página da Presidência, vem com alguns erros de transcrição que me fazem perder a fé nesse que é o conteúdo oficial divulgado pelo governo. Então, fui procurar o mesmo texto na Biblioteca Nacional. Para minha alegria, de lá salvei um PDF, que, depois constatei, sofre de mutilação textual: algumas linhas foram suprimidas e delas só vemos as cabecinhas de algumas letras. Deve ter sido na conversão de Word para PDF.

Amargurado, procurei o saite da Academia Brasileira de Letras, o STF de nossa língua, Grandes Pajés da tribo, doutos exegetas das Tábuas da Lei, autoridades máximas a quem nos voltarmos em momentos de grande comoção, confusão e consternação nacional.

Olha só o que encontrei na página de apresentação da ABL!

“Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros, (…) tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional.”

Que me perdoe o Alex Castro, mas este é um momento em que não se pode errar no português. Saite da ABL não é notinha de rodapé nem aula de Matemática. Então, vali-me de um serviço que a Academia oferece, no qual você manda sua dúvida de Português e a instituição responde. Taqui a missiva.

“Na página de apresentação da ABL (‘Quem Somos’), encontra-se o seguinte trecho:

“‘Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros,’

“Minha dúvida é: não falta uma vírgula após o aposto? Assim: ’40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta, e 20 sócios…’

“Uma segunda dúvida é motivada pelo seguinte trecho: ‘tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional’.

“Conforme está redigido, o texto poderia reduzir-se a dizer que a ABL tem por fim o cultivo (da língua) e a literatura. O cultivo e a literatura. Há simetria nesse texto? Não seria mais cabível dizer ‘… o cultivo da língua e DA literatura nacional’?

“Uma terceira dúvida: se a missão da Academia é a preservação (ou, em suas palavras, o cultivo) da língua, não deveria sua página de apresentação ser a primeira a dar o exemplo? É bem verdade que o texto continua compreensível conforme está, mas seu objeto não é outro assunto, nem a língua é nele meramente instrumental. De fato, é a página de apresentação, a oportunidade primeira de se estabelecer um padrão e demonstrar autoridade sobre a matéria. Se falhar a ABL, bastião mais nuclear da língua, é que nada mais há. A ela se volta o cidadão em busca de raízes — para sua frustração.

“São minhas dúvidas para hoje.”

Cabe um debate sobre a melhor concordância: “da língua e da literatura nacionais”? Mas preferi não entrar nisso; a falta de simetria era mais chocante.

Veja bem, não estou criticando alguma página informal da Web. Saite da ABL é coisa séria; é lugar onde eles têm que ser os primeiros a dar o exemplo. O padrão para eles tem que ser muito mais alto do que para mim, porque eles têm que ser o padrão.

Se for para fazerem como está, melhor fechar a porta e ir pra casa. Se bem que, conforme ouvi quando comentei isso, o Brasil inteiro tem que fechar a porta e ir pra casa.

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Apidêite em 15/02/2009: hoje recebi um email de resposta da Academia: “concordamos com suas palavras”. Mas não mudaram nada no saite!

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