Os encargos suspensos

Às vezes eu comento como a imprensa brasileira anda açodada e como tem gente desqualificada nas redações, agindo na contramão dos jornalistas responsáveis que não merecem meu enxovalhamento.

Olhem só esta. O Yahoo! Brasil reproduz a Agência Estado, que teria criado a seguinte matéria.

http://br.noticias.yahoo.com/s/06022009/25/mundo-juiza-retira-acusacao-prisioneiro-guantanamo.html

O texto diz assim: “A juíza Susan J. Crawford, que supervisiona os julgamentos por terrorismo na base militar norte-americana de Guantánamo, retirou ontem as acusações contra (…) um suposto terrorista saudita da Al-Qaeda (…)”

Juízes não “retiram acusações”. Juízes julgam. Quem acusa (ou “retira acusação”) é uma das partes do processo — no Brasil, é o Ministério Público, que, aliás, está impedido de “retirar acusações”. Lá não sei quem faz isso. Sei que é um órgão estatal, mas o que importa é que não é a própria juíza.

O texto prossegue: “Os encargos contra al-Nashiri representavam o último caso em andamento por crimes de guerra…”

Não tem algo soando estranho, não? Que “encargos” poderia haver contra ele? Em casos assim, costumo retraduzir para o inglês. “The charges against al-Nashiri…” Charges são acusações, não “encargos”. Sabe o que foi que causou isso, né? O bom e velho controlcê-controlvê. Usa-se um programa de tradução automática (Babylon, Babelfish etc.) e joga-se no texto aquilo que sai, sem nenhuma crítica.

Mais adiante, a matéria diz que “O porta-voz do Pentágono Geoff Morell disse que Susan retirou as acusações contra al-Nashiri sem entrar no mérito do processo.” Isso confirma minha dedução acima: de que a juíza extinguiu o processo desconsiderando as acusações, mas não as “retirando”. Está faltando técnica. Está faltando, mais do que tudo, PESQUISA. Olha só o que diz o texto original (que achei aqui): “On Thursday, two Obama administration officials said that the charges against al-Nashiri will be dismissed without prejudice. That means new charges can be brought again later.” “Dismiss” uma acusação não é “retirá-la”, mas desconsiderá-la, deixar de julgá-la.

O Cardoso tem razão: os caras querem ter conteúdo, mas só o que fazem é repetir o dos outros, sem nenhuma contribuição própria, sem dedicar um iota a pensarem no que estão escrevendo. Fala-se muito em reações rápidas, mas não adianta reagir rápido se só o que sai são barbaridades.

Agora, entrando no mérito. Alguns dias atrás, eu soube que o Obama tinha mandado suspender os processos contra os prisioneiros de Guantánamo. Quem olhar de fora pode pensar que isso é uma indicação de mudança de ânimo no sentido de libertá-los. Mas observe um detalhe: se o réu está preso, o que mais lhe interessa é que o processo ande. Assim haverá resolução e ele ou irá logo para a rua, ou ficará preso mais tempo — mas terá uma duração definida para sua pena, cujo cumprimento começa a contar imediatamente. Já se o processo é suspenso, ele continua preso indefinidamente, sem ainda ter iniciado o cumprimento de sua pena, estendendo um tempo de prisão que não conta (aos bacharéis: estou presumindo que não haja detração penal [CP, art 42] nos Estados Unidos, ou que, havendo, eles não a apliquem aos terroristas). Muito ruim para ele. Então, isto que é anunciado como grande salvação pode ser, na verdade, um agravamento da situação desses presos.

Recém-lidas:
Detective Comics #439 (março de 1974), primeira história;
Wonder Woman #214 (setembro-outubro de 1974), primeira história.

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