Bioética para quem gosta de saifai

Agora que o Genoma está decifrado, a Genética anda brincando com algumas potencialidades bem sérias que, até pouco tempo atrás, só interessavam a quem gostava de ficção científica. Em particular, existe uma possibilidade (bastante concreta mesmo que hoje ainda não esteja disponível) de os pais interferirem no código genético de seus filhos.

Abstraindo de governos totalitários e seus padrões eugênicos (Admirável Mundo Novo, alguém?), muita gente concordaria em se valer disso. Eu sou um deles. Afinal, você aproveitaria toda chance de evitar que seu filho nascesse com alguma doença séria, ou autismo, síndrome de
Down, diabete ou mesmo alguma perturbação menor, como miopia. Queremos o melhor para nossos filhos, não é verdade?

Mas para quem faríamos isso? No momento em que interfere no genótipo, você pensa que está favorecendo seu filho. Está mesmo? Considere que ele ainda não existe. Você não está dando nada a ninguém, porque o donatário não está lá para receber. “Ah, mas está sim, estará aqui no futuro, vai aproveitar os benefícios no futuro.” Sim, mas seu filho, hoje, não recebe nada, porque não existe. Existe um conjunto de células, ou apenas uma célula, com a qual você interfere. A conseqüência é uma criança saudável, mas a criança saudável já nasce assim. Para ela, nunca houve um estado não saudável, nem mudança de um estado para outro. Ela sempre foi saudável. Você poderia pensar, “tem que me agradecer por isso, sem interferência não teria nascido assim”. Não teria, mas teria nascido de algum jeito. Ou não teria nascido. Para ela tanto faz, porque, seja como for que nasça, dali para a frente ela vai se virar, vai continuar existindo. O filho dirá lìcitamente ao pai: você não ME fez nada. Fez alguma coisa, mas não a mim, porque não havia eu. Qualquer coisa que tenha sido feita à criança, só terá sido feita depois de seu nascimento (essa vírgula era proibida, mas útil à compreensão da frase).

Considere, ainda, que o embrião não teve escolha nem foi ouvido. Imagine a possibilidade de que, afinal, ele escolhesse nascer como Down. A convenção social dirá que ele seria infeliz e que essa escolha não faz sentido. Mas lembre-se de que o Down pode não saber que é Down. A vida nunca foi de outro jeito para ele, assim como o cego que nasce cego não sabe o que é enxergar, nem, portanto, tem padrão de comparação. A vida, para eles, sempre foi isso, então é possível que estejam satisfeitos. É como a Matemática do colégio onde estudei, que era ensinada pelo método
Papy. Diziam-me: esse método é mais difícil, não é? E eu, perplexo, perguntava: mais difícil do que o quê? Não conheço outra; para mim, Matemática é isso.

Se o embrião não tem escolha, será que o estamos beneficiando? Se o embrião ainda não é gente (aliás, não é nem embrião: é zigoto), não existe ainda a pessoa. Na óptica do Direito, não existe o sujeito de direitos; ele não tem direitos nem liberdade, porque, antes de tudo, ele não é. Não confunda com uma situação em que a pessoa está dormindo, ausente, em coma ou de outro modo incapacitada. “Você não estava, então eu tomei a liberdade de lavar a louça.” “Você ainda estava na barriga de sua mãe, então reprogramamos suas células.” Não. Nessas frases, não haveria o “você” nem o “suas”. Ninguém é destinatário dessas ações, porque a pessoa não existe, nem sequer o feto. Não há ninguém na barriga da mãe.

Mas estamos beneficiando alguém. Precisando de uma resposta, meu foco se volta para o outro interessado: os pais. Submeto esta hipótese a sua apreciação: ao escolher características genéticas do filho, os pais não beneficiam o filho; beneficiam a si mesmos. Preocupam-se com suas escolhas, com seu bem-estar, seu alívio de ter um filho com tais ou quais atributos. Atenção: não estou dizendo que estejam errados, nem estou dizendo que não amam os filhos. É só que, enquanto o filho não nasce, não há nem o “a quem” amar. Estou só apontando quem realmente é o interessado na manipulação genética. Se pensarmos no filho, a pergunta nem se aplica: enquanto ele nem existe, não faz sentido dizer que o “quem” seja ele. Ele só existe depois que já houve a manipulação.

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Em outro tópico, estive novamente no KFC da rua São José, no Centro do Rio de Janeiro. É impressionante: de todas as vezes em que fui lá e pedi uma refeição, nunca acertaram meu pedido. Eu digo: feijão, salada KFC e purée de batata. Eles trazem arroz, salada KFC e purée de batata. Ou: feijão, salada KFC e arroz. Ou: feijão, salada KFC e farofa. Ou: feijão, arroz e batata frita. É consistente mesmo, tem direito até a certificação ISO 9000: erram meu pedido em 100% das vezes.

Pergunta Tostines: eles são desqualificados porque o salário é baixo ou o salário é baixo porque são desqualificados? Do alto de minha crueldade resmungona liberalista, acredito na segunda hipótese. A óptica do coitadismo preferirá a primeira.

Beiços-caídos no KFC me fazem pensar em eugenia profilática.

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Recém-lido: Reason, conto de Isaac Asimov onde, a partir do raciocínio lógico, um robô se torna um fanático religioso.

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