Chewbacca defense at the Academy

Genuìnamente tentando estudar o Acordo Ortográfico. Mas, como podem ver, ainda escrevo pelas regras anteriores a 1971, onde genuìnamente levava acento grave.

Pois é, como dizia meu professor de Direito civil, um lodaçal. Base XI, item 2o., alínea “a”, exemplifica uma regra para proparoxítonas com a pura expressão de como me sinto: “sôfrego, sonâmbulo, trôpego”.

O texto do Acordo, conforme baixei da página da Presidência, vem com alguns erros de transcrição que me fazem perder a fé nesse que é o conteúdo oficial divulgado pelo governo. Então, fui procurar o mesmo texto na Biblioteca Nacional. Para minha alegria, de lá salvei um PDF, que, depois constatei, sofre de mutilação textual: algumas linhas foram suprimidas e delas só vemos as cabecinhas de algumas letras. Deve ter sido na conversão de Word para PDF.

Amargurado, procurei o saite da Academia Brasileira de Letras, o STF de nossa língua, Grandes Pajés da tribo, doutos exegetas das Tábuas da Lei, autoridades máximas a quem nos voltarmos em momentos de grande comoção, confusão e consternação nacional.

Olha só o que encontrei na página de apresentação da ABL!

“Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros, (…) tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional.”

Que me perdoe o Alex Castro, mas este é um momento em que não se pode errar no português. Saite da ABL não é notinha de rodapé nem aula de Matemática. Então, vali-me de um serviço que a Academia oferece, no qual você manda sua dúvida de Português e a instituição responde. Taqui a missiva.

“Na página de apresentação da ABL (‘Quem Somos’), encontra-se o seguinte trecho:

“‘Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros,’

“Minha dúvida é: não falta uma vírgula após o aposto? Assim: ’40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta, e 20 sócios…’

“Uma segunda dúvida é motivada pelo seguinte trecho: ‘tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional’.

“Conforme está redigido, o texto poderia reduzir-se a dizer que a ABL tem por fim o cultivo (da língua) e a literatura. O cultivo e a literatura. Há simetria nesse texto? Não seria mais cabível dizer ‘… o cultivo da língua e DA literatura nacional’?

“Uma terceira dúvida: se a missão da Academia é a preservação (ou, em suas palavras, o cultivo) da língua, não deveria sua página de apresentação ser a primeira a dar o exemplo? É bem verdade que o texto continua compreensível conforme está, mas seu objeto não é outro assunto, nem a língua é nele meramente instrumental. De fato, é a página de apresentação, a oportunidade primeira de se estabelecer um padrão e demonstrar autoridade sobre a matéria. Se falhar a ABL, bastião mais nuclear da língua, é que nada mais há. A ela se volta o cidadão em busca de raízes — para sua frustração.

“São minhas dúvidas para hoje.”

Cabe um debate sobre a melhor concordância: “da língua e da literatura nacionais”? Mas preferi não entrar nisso; a falta de simetria era mais chocante.

Veja bem, não estou criticando alguma página informal da Web. Saite da ABL é coisa séria; é lugar onde eles têm que ser os primeiros a dar o exemplo. O padrão para eles tem que ser muito mais alto do que para mim, porque eles têm que ser o padrão.

Se for para fazerem como está, melhor fechar a porta e ir pra casa. Se bem que, conforme ouvi quando comentei isso, o Brasil inteiro tem que fechar a porta e ir pra casa.

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Apidêite em 15/02/2009: hoje recebi um email de resposta da Academia: “concordamos com suas palavras”. Mas não mudaram nada no saite!

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