Primeiro grande resmungo sobre o Aborto Ortográfico

Conforme eu disse há mais de uma semana, estou mesmo estudando esta desgraça lingÜística (orgulhosamente a favor do trema — ainda vai ter passeata em defesa dos tremas discriminados).

Uma das dificuldades com que já me deparo é que não posso confiar no texto do próprio Acordo conforme baixei do saite da Presidência. Granted, os textos legais de lá sempre dizem que não substituem o original publicado no Diário oficial. Mesmo assim, quem é que vai ler direto no D.O.? A gente baixa e confia. Exceto que não.

Por exemplo: em português, é proibido usar pronome oblíquo depois de vírgula. Isso não tem nada a ver com ortografia; é regra de sintaxe. Mas veja o que encontrei no texto:

“… entre os princípios em que assenta a ortografia portuguesa, se privilegiou o critério fonético…”

Além disso, encontrei alguns casos de vírgula entre sujeito e predicado (uma heresia que nem a tiro de canhão 37 a gente consegue extinguir) e a estranha esquizofrenia segundo a qual, às vezes, o texto suprime o trema em sua própria redação (antecipando aquilo que ainda não estava em vigor), mas outras vezes não.

Nesse ponto, pergunto-me se estou estudando no exemplar correto do Acordo. Mas, então, onde?! No saite da Academia Brasileira de Letras, talvez? Lá não tem.

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Ontem, uma advogada veio me dizer que, agora, cocô não vai mais ter acento. Eu contestei que sim, vai continuar a ter acento sim, já que é oxítona terminada em o. E fiquei indignado: como poderiam, como ousariam tirar os acentos das oxítonas terminadas em a, e, o? Não pode; a tendência natural da língua portuguesa é fazer de todas as palavras paroxítonas, o que faz com que essas oxítonas tenham que ser acentuadas para indicar que saem do padrão. Com a displicência de quem vê que vai levar o xeque-mate, ela saiu dizendo que não sabia e que, segundo o Globo Esporte, não saberemos mais o que estaremos comendo: se côco ou se outra coisa.

Primeiro: então Globo Esporte virou autoridade em matéria de ortografia?

Segundo: essa anedota (real embora) revela um aspecto mais profundo e mais nefasto do Acordo Ortopédico. A esta altura, já tem gente acreditando que TODOS OS ACENTOS VÃO CAIR! Para alguns, seria muito conveniente não ter que acentuar mais nada: não precisariam aprender aquilo que nunca souberam.

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Apidêite do apedeuta: na caixa de comentários, aqui no final deste texto de hoje, você vê o estranho caso de uma professora que declarou a sua turma que não vai ensinar-lhes a reforma e que, na verdade, a reforma oficial mesmo é só em 2010. Não sei de onde ela tirou que o Acordo não seja oficial, nem de onde sacou 2010. Se tivesse lido o texto do Acordo, veria que o fim da transição é em 2012. Aliás, deve ser de propósito, para coincidir com o fim do mundo conforme o calendário maia e, assim, ninguém ter que aprender nada.

Agora, essa “professora” mostra uma atitude comuníssima em brasileiros, especialmente os que declaram imposto de renda: vai deixar para o último minuto, e nem um segundo antes. Uma vergonha.

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Procurando por outra coisa, deparei-me com esta coleção de pequenos textos de George Orwell. Se você clicar neste linque que estou fornecendo, vai cair em um ensaio interessantíssimo, publicado em 1945, ainda atualizado (como, de resto, 1984 também está) e chamado Politics and the English Language. Trata-se de uma sagaz análise sobre como a língua inglesa está se deteriorando e como essa deterioração facilita, ou melhor, é aproveitada para finalidades políticas escusas que acabam por retroalimentá-la positivamente.

A leitura é fluida e acaba servindo como uma versão resumida do apêndice de 1984 (inédito à época mas perto de ser concluído), no qual Orwell descreve a criação do Newspeak, a “nova linguagem” do Partido de sua distopia. Faz tempo que estou com vontade de traduzir as passagens mais relevantes desse apêndice, que é uma espécie de manual do método mediante o qual o Partido pretende reduzir a possibilidade de discursos não ortodoxos. Extinguindo-se palavras da língua e amarrando-se a sintaxe, torna-se impossível a formulação de certos conceitos. De fato: se você não tem um nome para sua idéia, você não consegue comunicá-la a outros e, na verdade, será impossível conduzir raciocínios com ela. Efetivamente, a idéia se tornará inconcebível. Diferentemente das demais línguas, Newspeak não pretende expandir, mas limitar a variedade de pensamentos possíveis.

Em particular, há um trecho do ensaio que ecoa com precisão uma passagem do livro. É onde ele menciona que, ao meramente repetir o discurso ortodoxo, você se torna um autômato, e sua laringe emite sons sem que o cérebro disso se aperceba, anestesiado como está. Se a luz bater no seu óculos e fizer determinado reflexo, vai parecer que o óculos são discos brancos, sem olhos por trás, indicando que ali não há uma pessoa. Ora, essa é exatamente a descrição que ele faz de um sujeito que repetia o discurso vazio do Partido na segunda cena do refeitório em 1984.

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Recém-lidas:
Superman #292 (outubro de 1975), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
The Flash Spectacular (DC Special Series #11, fevereiro de 1978), publicada em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008);
Batman Spectacular (DC Special Series #15, verão de 1978), terceira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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