Crie sua própria igreja

Não sei em outros lugares, mas, na Europa e, pelo pouco que sei, nos Estados Unidos mais ainda, é muito comum que as igrejas tenham letreiros junto à calçada, trazendo a programação de sermões ou eventos do gênero.

Na disputa por novos seguidores, algumas igrejas parecem não conhecer limites. Vejam só a foto que encontrei hoje:

Oquei, confesso minha cupidez. Primeiro, encontrei esta imagem, junto com seu broxante esclarecimento. Depois, segui o linque para o original. Você pode criar sua própria igreja, tal como fiz acima.

Recém-lidos:
Escape! e Evidence, contos de Isaac Asimov em I, Robot;
Tales of the Teen Titans #42 (maio de 1984), “The Eyes of Tara Markov”; #43 (junho de 1984), “Betrayal”; #44 (julho de 1984), “There Shall Come a Titan”; Tales of the Teen Titans Annual #3 (1984), “Finale”, publicadas em The New Teen Titans: the Judas Contract;
Superman #400 (outubro de 1984), páginas de Frank Miller publicadas em Superman 70 anos no. 1 (setembro de 2008) e “The Exile on the Edge of Eternity”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 1 (maio de 2008).

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Who Watches Watchmen

Viu só? Tentei fazer um trocadilho com o título do filme, dizendo “quem assiste a Watchmen“, mas fracassei miseràvelmente. Faltou o “the”. Paciência.

O fato é que fui ver hoje. Gostei, é um bom filme; vale o preço que se paga.

Mais de metade do cinema eram nerds como eu, barrigudos, na faixa de 35 a 50 anos, alguns acompanhados de outros nerds, outros arrastando as parceiras. Previsível, ainda mais em meio de semana: se fizeram como eu, esperaram a garotada se divertir e foram no horário mais tranqüilo, para poderem apreciar. Algumas risadas e aplausos mostravam que tinham lido os quadrinhos.

ATENÇÃO: VOU COMENTAR O FILME. Se não quiser saber detalhes, taqui um linque para você pular fora agora: é a entrada anterior deste belogue, sobre o vídeo do bacalhau.

Você foi avisado.

A fita está bem feitinha, mesmo desde a abertura com os créditos. Com a montagem que fizeram, ela já conta logo o que aconteceu a Dollar Bill, ao Traça e à Silhueta sem ocupar tempo de história e tirando esses pormenores do caminho ao mesmo tempo em que supre muito bem a necessidade de contar o que foi acontecendo aos heróis.

Aliás, um detalhezinho bobo mas expressivo é a pequena variação sobre a clássica foto do beijo em Times Square ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Passado o início, o que mais chama atenção é uma diferença previsìvelmente necessária em relação ao original: a supressão de detalhes. Na maior parte, não tenho queixas, porque atrasariam o filme sem contribuir para a história. É claro que, se Alan Moore os pôs ali, ele teve suas razões e a obra não estaria completa sem eles, mas, diabos, então vá ler o quadrinho, que, afinal, é genial mesmo. O filme não os comporta. A saber (e lembrando-me enquanto digito): os conflitos conjugais do psiquiatra e das lésbicas na banca de jornal, as reações de pessoas nos interrogatórios que Rorschach faz nos bares, a senhoria de Rorschach, a segunda visita dele a Dreiberg (perdendo-se o humor da segunda fechadura perdida), as reaparições do policial que primeiro entrou no apartamento do Comediante, o pai do Dr. Manhattan jogando o relógio pela escada de incêndio, o início da vida profissional de Manhattan, o homicídio de Hollis Mason, o encontro organizado pelo Capitão Metrópole onde vemos o destino do Traça. Tales of the Black Freighter não conta, porque já havíamos sido avisados de que não estaria no filme. Mas também não estão lá os resmungos do jornaleiro, embora o próprio jornaleiro esteja e o garoto lendo o gibi também. Para mim, é óbvio que estão lá sòmente para benefício dos fãs, porque nada acrescentam.

Outros detalhes foram trocados, também a benefício da simplicidade. A visita de Rorschach à torre de Veidt foi substituída por uma visita de Dreiberg. A discussão sobre brinquedos juntou-se à “tentativa de homicídio”. No encontro frustrado da segunda geração de vigilantes, o Capitão Metrópolis foi limado, juntamente com seus sonhos infantilóides e patéticos; seu lugar foi assumido por Veidt, que aparece já arquitetando seu plano. A entrevista de Janey Slater à Nova Express deu lugar a sua aparição no estúdio. A morte do pai de Manhattan foi trocada pela de Wally Weaver. Várias falas mudaram de lugar na história ou, então, aparecem ditas por outras pessoas. Os clássicos de saifai do cine Utopia foram trocados por uma exibição de The Outer Limits. Etc., etc. Regra geral, não creio que a versão para cinema tenha saído pior por isso.

Por outro lado, alguns detalhes foram acrescentados desnecessàriamente: a cena de sexo estendida a bordo de Archie (e grosseiramente explícita, em que pesem os benefícios, knowwhatImean, knowwhatImean, winkwink, nudgenudge, saynomore, saynomore, knowwhatImean, knowwhatImean, say — no — more!); a porta do banheiro revelando a Nite Owl e Silk Spectre que Big Figure estava lá dentro; e a exageradamente gráfica remoção dos braços de Larry.

Também o teletransporte é representado com efeitos demais. O original é instantâneo e mais discreto. Em especial, o de Rorschach, logo no começo, é tão súbito que, na percepção subjetiva do próprio, ele só nota que foi transportado depois que termina a frase. No filme, demora-se demais, com perda do humor.

Um detalhe estranho: na tentativa de estupro de Sally Jupiter, depois de apanhar mais do que no quadrinho (gratuitamente, a meu ver), ela não reage mais! No original, ela só não luta porque não consegue se mexer. No filme, fica esperando, sem estar imobilizada. Pergunto-me por quê.

Um detalhe bacaninha: Lee Iacocca no bolso de Veidt.

Um detalhe que tem tudo a ver com o filme todo e era de se esperar do personagem (e não sei como Moore não pensou nisto): descobrimos quem matou John Kennedy. Bem… ao menos naquele mundo.

Um detalhe contemporâneo demais: lutas em câmera lenta. Depois de Matrix, todas as cenas de luta estão em câmera lenta. Pelo menos dá para acompanhar, mas Moore não teria pensado nisso. Não é um mero uso de CGI que não havia em 1985; é uma inserção despicienda.

Por um terceiro lado, o filme (e insisto: é um bom filme) peca na tentativa de, às vezes, ter que enfiar todas as falas sem ter tempo para isso. Várias ficaram aceleradas em relação ao quadrinho, de um modo em que pessoas reais não teriam tempo de pensar, desconjuntadas, descontextualizadas. O exemplo mais forte é o reencontro de Rorschach e Dreiberg no porão. Quando Dreiberg pergunta, “whatever happened to them?”, ele não está contemplativo, e assume um ar de cobrança.

Também assim se perderam vários comentários cínicos de Rorschach, que, além de acelerado, foi parcialmente descaracterizado. Em alguns trechos, emocional demais: p.ex. pedindo para Nite Owl levantar Archie para não bater nas falésias; ou implorando para Manhattan no finalzinho. O Rorschach original é absolutamente apático, indicando a gravidade de sua doença mental. Especialmente na prisão, permanece sereno e não se dirige a ninguém com raiva nem com ironia (as quais demonstra diante do psiquiatra no filme). Imagino, entretanto, que só quem estava atento aos quadrinhos fosse notar a inconsistência. E o ator que o faz está ótimo. Aliás, fìsicamente, Rorschach estava igualzinho, em especial a voz, que foi desperdiçada em narrações aceleradas. Para ouvir uma versão correta de seu diário (aliás a única, em função de quem lê): aqui (original) e aqui (cópia conjugada ao quadrinho, mas abafada).

Um detalhe que não acrescenta a quem leu o quadrinho, mas que compõe um pouco no filme (embora, infelizmente, também o torne mais óbvio): quando o gordo Larry tenta pegá-lo através das grades e pergunta o que ele tem, a resposta nos quadrinhos é “your fingers. My perspective”. No filme, “your fingers. My pleasure”.

A determinação cínica de Rorschach também foi atenuada. Antes de aplicar o golpe ao seqüestrador, ele hesita, o que não faz no quadrinho. Ademais, aquele golpe é indolor (o cérebro já não está ali para sentir) e misericordioso (porque final). No quadrinho, a forma de execução é mais cruel.

O Comediante: perfeito. Infelizmente, a cena com Moloch padece do mesmo mal de quererem dizer tudo sem contexto para isso. O único outro exemplo ruim que me ocorre é Fernanda Montenegro como a prostituta/cigana de A Hora da Estrela, esquecível e torta imitação do indecifrável.

Uma falha que considero mais severa, embora outros vão discordar: quando Manhattan levanta seu relógio da areia, o efeito é o mesmo que seria se o relógio estivesse pronto e submerso e sùbitamente emergisse, afastando os torrões que estão no caminho. Brutal demais. No original, o efeito mostra a extensão do domínio de Manhattan sobre a matéria: o relógio é reunido a partir da areia que está na superfície, sem sujeira, mostrando que não existe nenhuma parte oculta, que você está vendo tudo que há. Isso faz diferença, porque ele enxerga aquele balé cósmico que empolga os astrônomos e vê o equilíbrio de tudo, todos os instantes são como fotografias estáticas onde ele escolhe se focalizar. Não há violência nem restos deixados por suas ações, que respeitam a ordenação elegante do universo.

A respeito disso, houve uma tentativa de se mostrar a perspectiva temporal dele, com as superposições de instantes em um só. Ainda assim, penso que se perdeu o vigor do trecho, tão curto, em que ele contemplava uma fotografia nas areias de Marte. Mais uma vez, parece-me ter sido o esforço de se enfiar tudo em menos de três horas.

Por falar em perspectiva, tem umas que são iguaizinhas. A saber: a primeira, com o sangue do Comediante na calçada; a de Manhattan ao som de Wagner; a da chuva sobre o túmulo do Comediante; a do controle da multidão; as da penitenciária. Ah, quase todas, se não todas.

A atriz que faz a Silk Spectre é bem ruim, mas não tem problema; é a mó gata.

Finalmente, o Grande Plano de Ozymandias. Acho que ficou melhor no filme. O original é muito complexo, envolve mais personagens, mais absurdos e, francamente, é um deus ex machina que sempre considerei especialmente inverossímil, não correspondendo ao conjunto da obra. A versão do filme é mais simples, requer menos detalhes na história (Max Shea, a genética) e, francamente, mais coerente, usando uma ameaça concreta, conhecida de todos, sem mensagens psíquicas.

Falei mal à beça, mas são queixas típicas de quem, na verdade, gostou. Claro que não é perfeito e, até certo ponto, é uma colagem; mas há suficientes passagens iguais para agradar aos fãs do original, que vejo como o principal público alvo.

Não me dê ouvidos (ou, neste caso, olhos). Vá ver e julgar por si mesmo.

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Cabelos em pé

Acabo de ler aqui e aqui: um asteróide de trinta metros acaba de passar a 66 mil quilômetros da Terra.

Essa distância é menos que o dobro da órbita dos satélites de comunicação.

Se isso não lhe dá calafrios, vou lhe dar uma dica: multiplique Hiroshima por mil.

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Segundo elogio

Já que estou me sentindo particularmente bem, hoje vim aqui para fazer meu segundo elogio.

Uma das características mais nobres do ser humano é o impulso de contribuir para alguma obra maior. Os bons fãs de segmentos da cultura pop costumam verter esse impulso em fan fiction: histórias usando os mesmos personagens ou ambientadas no mesmo universo de Star Trek, Star Wars, Babylon 5, Harry Potter e pràticamente qualquer seriado, filme ou livro de sucesso entre nerds e geeks.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web.

Algumas dessas criações chamaram minha atenção. Regra geral, sua qualidade é ruim, mas percebe-se imediatamente que são feitas com paixão. Esse é o caso de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Exeter, Starship Farragut e Star Trek: New Voyages, que me parecem as mais célebres produções desse tipo (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Hidden Frontier está na sétima temporada e já gerou três spinoffs. O capitão tem uma das piores dicções que já vi em tela, os diálogos são óbvios, os uniformes são as típicas e patéticas cópias que cada um comprou de um fabricante diferente (com todas as variações de feitio e cor) e os atores (muito ruins) estão muito mal encaixados em cenários virtuais tirados de videogames. Mesmo assim, a série tem cinqüenta episódios no ar (ou melhor, nos cabos), o que é bem mais do que a média atingida por gente que só fala mal, feito eu. As outras séries têm menos episódios e são melhor produzidas, mostrando que o foco de HF está mais na quantidade: o negócio é gerar novos episódios contìnuamente, ainda que não perfeitos.

New Voyages foi uma das grandes surpresas de minha navegação incerta. A série estreou em 2004 e, desde então, tem seis episódios publicados. O produtor, diretor, roteirista, dono do estúdio e manda-chuva geral, James Cawley, despejou seus próprios sestércios — adquiridos como ator em Las Vegas — na montagem de uma ponte de comando idêntica à da série Clássica. Ele mesmo faz o Capitão Kirk em uma continuação que rotula como o quarto ano que a série não teve.

Em New Voyages, é claro que novamente os atores são ruins, mas você não poderia esperar alguém que igualasse o talento de um Leonard Nimoy ou a experiência de um DeForest Kelley. Nesse ponto, o maior pecado é que Cawley tenta overshatnerizar o próprio Shatner. Apesar disso, os valores de produção da série são notáveis. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas dos episódios da Clássica. A iluminação das paredes é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty.

Essa qualidade chamou a atenção de pessoas envolvidas na produção das séries oficiais de Jornada. Agora, entre os produtores está Doug Drexler (artista de CGI em Deep Space Nine), um dos ilustradores é o reverenciado Andrew Probert (criador dos desenhos da Enterprise nos filmes e da Enterprise-D), e há episódios escritos por D.C. Fontana e David Gerrold. Também já participaram Walter Koenig, George Takei, Grace Lee Whitney e J.G. Hertzler (General Martok).

New Voyages vem ganhando tanto reconhecimento que a Paramount assumiu a postura de não se meter e, mais recentemente, a série mudou de nome para Star Trek: Phase II — que é o nome informal dado à série de Jornada que teria sido produzida no fim dos anos 70 (e que acabou se tornando o primeiro filme de cinema).

Nessa esteira, alguns episódios que haviam sido escritos para Phase II em 1977 já estão sendo filmados: “Kitumba” e “The Child”. Este último havia sido escrito por Jon Povill, que era o editor e um dos principais criadores da Phase II original. Em 1988, esse episódio foi adaptado para A Nova Geração, mas, agora, retorna à forma original, tendo Povill como diretor. Além desses episódios, também estão filmando “Blood and Fire”, que havia sido escrito por David Gerrold para a NG em 1987, mas foi recusado à época.

Nos próximos episódios, o modelo de CGI da Enterprise vai ser alterado para tomar as feições que teria tido na Phase II original. É uma espécie de versão mais modesta da grande reforma que Probert desenhou e que se materializou no primeiro filme de cinema, em 1978.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare (e faz a referência). A produção visual é perfeita e começa com Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência retroativa ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise é aprisionada em um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e, para colher dados, Kirk envia o Tenente Sulu, que é interpretado por um ator tão jovem quanto Takei era em 1969. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte (sempre ele, mas em fan film a gente perdoa, porque é isso que a gente quer, até cair em coma alcoólico no drinking game). Por causa do acidente, quem volta para bordo é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto George Takei, que lhe dá vida.

O episódio só peca por ter mais de uma hora, extrapolando a duração dos originais em 20%. A meu ver, o problema foi não terem sabido cortar uma porção de diálogos que não contribuem para a história.

Não vou contar mais, mas sugiro baixar e assistir essa homenagem bem feita à série Clássica de Jornada nas Estrelas. O linque para “World Enough and Time” está aqui.

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Não se pense que eu só esteja falando mal do Acordo Ortotrágico para ser do contra. Justiça seja feita: as regras para os hífens são mais claras agora. Antes, eram muito casuísticas, mas agora são sistemáticas.

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Recém-lidos: Guia prático da nova ortografia, de Douglas Tufano; 1a. edição, agosto de 2008, Melhoramentos, ISBN 978-85-06-05464-2;
Little Lost Robot, conto de Isaac Asimov em I, Robot;
Tales of the Teen Titans #41 (abril de 1984), Baptism of Blood, publicada em The New Teen Titans: the Judas Contract.

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