Segundo elogio

Já que estou me sentindo particularmente bem, hoje vim aqui para fazer meu segundo elogio.

Uma das características mais nobres do ser humano é o impulso de contribuir para alguma obra maior. Os bons fãs de segmentos da cultura pop costumam verter esse impulso em fan fiction: histórias usando os mesmos personagens ou ambientadas no mesmo universo de Star Trek, Star Wars, Babylon 5, Harry Potter e pràticamente qualquer seriado, filme ou livro de sucesso entre nerds e geeks.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web.

Algumas dessas criações chamaram minha atenção. Regra geral, sua qualidade é ruim, mas percebe-se imediatamente que são feitas com paixão. Esse é o caso de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Exeter, Starship Farragut e Star Trek: New Voyages, que me parecem as mais célebres produções desse tipo (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Hidden Frontier está na sétima temporada e já gerou três spinoffs. O capitão tem uma das piores dicções que já vi em tela, os diálogos são óbvios, os uniformes são as típicas e patéticas cópias que cada um comprou de um fabricante diferente (com todas as variações de feitio e cor) e os atores (muito ruins) estão muito mal encaixados em cenários virtuais tirados de videogames. Mesmo assim, a série tem cinqüenta episódios no ar (ou melhor, nos cabos), o que é bem mais do que a média atingida por gente que só fala mal, feito eu. As outras séries têm menos episódios e são melhor produzidas, mostrando que o foco de HF está mais na quantidade: o negócio é gerar novos episódios contìnuamente, ainda que não perfeitos.

New Voyages foi uma das grandes surpresas de minha navegação incerta. A série estreou em 2004 e, desde então, tem seis episódios publicados. O produtor, diretor, roteirista, dono do estúdio e manda-chuva geral, James Cawley, despejou seus próprios sestércios — adquiridos como ator em Las Vegas — na montagem de uma ponte de comando idêntica à da série Clássica. Ele mesmo faz o Capitão Kirk em uma continuação que rotula como o quarto ano que a série não teve.

Em New Voyages, é claro que novamente os atores são ruins, mas você não poderia esperar alguém que igualasse o talento de um Leonard Nimoy ou a experiência de um DeForest Kelley. Nesse ponto, o maior pecado é que Cawley tenta overshatnerizar o próprio Shatner. Apesar disso, os valores de produção da série são notáveis. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas dos episódios da Clássica. A iluminação das paredes é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty.

Essa qualidade chamou a atenção de pessoas envolvidas na produção das séries oficiais de Jornada. Agora, entre os produtores está Doug Drexler (artista de CGI em Deep Space Nine), um dos ilustradores é o reverenciado Andrew Probert (criador dos desenhos da Enterprise nos filmes e da Enterprise-D), e há episódios escritos por D.C. Fontana e David Gerrold. Também já participaram Walter Koenig, George Takei, Grace Lee Whitney e J.G. Hertzler (General Martok).

New Voyages vem ganhando tanto reconhecimento que a Paramount assumiu a postura de não se meter e, mais recentemente, a série mudou de nome para Star Trek: Phase II — que é o nome informal dado à série de Jornada que teria sido produzida no fim dos anos 70 (e que acabou se tornando o primeiro filme de cinema).

Nessa esteira, alguns episódios que haviam sido escritos para Phase II em 1977 já estão sendo filmados: “Kitumba” e “The Child”. Este último havia sido escrito por Jon Povill, que era o editor e um dos principais criadores da Phase II original. Em 1988, esse episódio foi adaptado para A Nova Geração, mas, agora, retorna à forma original, tendo Povill como diretor. Além desses episódios, também estão filmando “Blood and Fire”, que havia sido escrito por David Gerrold para a NG em 1987, mas foi recusado à época.

Nos próximos episódios, o modelo de CGI da Enterprise vai ser alterado para tomar as feições que teria tido na Phase II original. É uma espécie de versão mais modesta da grande reforma que Probert desenhou e que se materializou no primeiro filme de cinema, em 1978.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare (e faz a referência). A produção visual é perfeita e começa com Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência retroativa ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise é aprisionada em um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e, para colher dados, Kirk envia o Tenente Sulu, que é interpretado por um ator tão jovem quanto Takei era em 1969. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte (sempre ele, mas em fan film a gente perdoa, porque é isso que a gente quer, até cair em coma alcoólico no drinking game). Por causa do acidente, quem volta para bordo é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto George Takei, que lhe dá vida.

O episódio só peca por ter mais de uma hora, extrapolando a duração dos originais em 20%. A meu ver, o problema foi não terem sabido cortar uma porção de diálogos que não contribuem para a história.

Não vou contar mais, mas sugiro baixar e assistir essa homenagem bem feita à série Clássica de Jornada nas Estrelas. O linque para “World Enough and Time” está aqui.

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Não se pense que eu só esteja falando mal do Acordo Ortotrágico para ser do contra. Justiça seja feita: as regras para os hífens são mais claras agora. Antes, eram muito casuísticas, mas agora são sistemáticas.

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Recém-lidos: Guia prático da nova ortografia, de Douglas Tufano; 1a. edição, agosto de 2008, Melhoramentos, ISBN 978-85-06-05464-2;
Little Lost Robot, conto de Isaac Asimov em I, Robot;
Tales of the Teen Titans #41 (abril de 1984), Baptism of Blood, publicada em The New Teen Titans: the Judas Contract.

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